A palha e as pragas desafiam o plantio direto nos cerrados
Dirceu N. GassenPesquisador da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS. E-mail: gassen@cnpt.embrapa.brFone (54) 311 3444
O plantio direto têm as condições plenas para estabelecer-se nos cerrados pela topografia plana, pelos solos leves sujeitos à erosão das chuvas intensas de verão e pela necessidade de cobertura vegetal nas condições de ambiente tropical. Como dizem os agricultores que adotam a prática vários anos: ”o plantio direto no cerrado se encaixa como luva na mão” Por outro lado alguns fatores são considerados limitantes como a falta de palha na superfície, as pragas-de-solo, o controle de plantas daninhas no início do período de chuvas e as semeadoras. A falta de palha na superfície do solo é o fator limitante mais destacado e, quando se indaga sobre as razões dessa evidência e também sobre a ausência de culturas de cobertura no meses de outono e de inverno, a resposta é imediata: falta chuva e é difícil estabelecer plantas nessa época. Por outro lado, visitando a lavoura de Albino Ampessan e filhos, em Cabeceiras, GO, com 5500 hectares cultivadas sob plantio direto, sob a orientação do eng.-agr. João Celso Rauber, constatou-se a cobertura de solo com palha, digna das melhores demonstrações de como fazer cobertura vegetal nos cerrados. Na lavoura, adota-se como base a cultura de milho para rotação de culturas e para aumento de palha na superfície do solo. Na safrinha (após a safra principal de verão) são estabelecidas culturas de custo reduzido, objetivando colheita e produção de palha quando as chuvas são suficientes, ou produção de palha para cobertura de solo quando as condições de umidade são adversas. A produção de palha para a cobertura de solo, além de conhecimento técnico, demanda persistência e planejamento para garantir a rentabilidade da lavoura. Eis um caso comprovando a condução de lavouras com abundância de palha, necessária ao desenvolvimento sustentado da agricultura. Sem dúvida um exemplo a seguir nos cerrados. Como diz o agricultor e o assessor técnico, ”a terra coberta de palha, com abundância de raízes e presença de organismos que cavam galerias completam as condições favoráveis ao desenvolvimento adequado das plantas cultivadas, desenvolvimento de bactérias fixadores de nitrogênio e atividade biológica para controle natural de pragas e patógenos”. A ameaça e o dano de pragas-de-solo são fatores constantemente destacados como problema em áreas sob plantio direto nos cerrados. São citados os corós, o percevejo-castanho, as lesmas e o tamanduá-da-soja. Em ambientes de clima tropical e seco no inverno, com intenso preparo de solo e ausência de palha impede o desenvolvimento de organismos vivos na superfície. Os problemas com pragas-de-solo causam angústia aos agricultores, mas é necessário evoluir com a mudança para o plantio direto. É conhecido que a ausência de preparo de solo e a manutenção de palha na superfície do solo permitirá a instalação de fauna nativa, antes desconhecida. Alguns podem ser praga e outros serão úteis. Nesses ambientes adaptam-se as espécies com capacidade de cavar galerias ou com estratégias de penetração no solo e organismos envolvidos com as cadeias de fragmentação e de mineralização do material orgânico. Muitas espécies são exclusivamente úteis como o coró-da-palha, Bothynus spp., que incorpora a palha da superfície, cava galerias até 1 m de profundidade, consome o material armazenado e deposita os excrementos. O coró-da-palha pode ser destacado como o verdadeiro símbolo do plantio direto no Brasil. Além dessas espécies existem outras que vivem na superfície do solo e consomem material orgânico. Os cupins também são primeiramente consumidores de material orgânico e eventualmente praga. Portanto, é necessário identificar as espécies com potencial de danos e as benéficas antes de arar o solo como método de controle de pragas. A opção pelo controle químico deveria ser a alternativa e não a regra preventiva de controle de pragas. Pode-se dizer que a condição favorável para a explosão populacional de pragas está no intenso preparo de solo, na ausência de palha e no sucessivo uso de inseticidas de amplo espectro de ação. A forma extrema de uso inadequado de inseticida é a aplicação via irrigação. Em geral, aplica-se 4 a 5 mm de água, ou seja 40 a 50 mil litros por hectare e as plantas desenvolvidas têm capacidade de manter, apenas, em torno de 600 l na superfície das folhas, a partir daí inicia o processo de escorrimento. Da quantidade de inseticida misturado na calda, apenas 1,2 a 1,5 % do produto permanece sobre a planta com a calda. Acima de 98 % do inseticida aplicado na quimigação (via irrigação) que cai no solo, penetra nas galerias de insetos benéficos e de minhocas, causando a morte desses e de predadores e parasitos de pragas. As larvas de corós-praga, de tamanduá-da-soja e de percevejo castanho, que se encontram em câmaras fechadas e em profundidades maiores do que 5 cm não são afetados pelo inseticida. Outra vez é importante estimular a atividade biológica através da redução de preparo de solo (plantio direto), produção de palha na superfície, uso de inseticida dirigido para o ambiente onde se encontra a praga e estratégias de rotação e época de semeadura para dificultar ou impedir a atividade negativa das espécies prejudiciais. Os solos dos cerrados são pobres em nutrientes mas de estrutura boa. Além desses aspectos, o silte (argila muito fina) provoca o ”achocolatamento” da superfície, impedindo a infiltração de água e provocando a característica derrapagem ao caminhar ou deslocar veículos. O processo de intenso preparo de solo e atividade de chuvas resulta no adensamento e na redução da oxigenação. Como conseqüência, a redução no volume e na penetração de raízes. A infiltração de água também é dificultada pela camada superficial de silte. O solo preparado com arado e grade, exposto à radiação solar, eleva a temperatura letal para insetos e outros organismos e para o desenvolvimento de raízes. Nesses solos é muito importante manter palha na superfície e formar o horizonte orgânico para permitir o início de infiltração de água das chuvas e diminuir a temperatura da superfície e aumentar a oxigenação, além de ambiente favorável à atividade biológica. O controle de plantas daninhas no início do período de chuvas é outro fator crítico para agricultores que acreditam que o preparo de solo com grade ou com arado é a alternativa mais fácil de controle. A semeadura de plantas para cobertura em setembro, no seco, para germinar com as primeiras chuvas de setembro, permitirá o desenvolvimento e dessecação em fim de outubro ou início de novembro, junto com outras plantas daninhas. A adoção de vegetação para cobertura de solo poderá ser prática auxiliar no controle de plantas daninhas e criará ambiente favorável para o controle natural de pragas de solo. Dificuldades constatadas em semeadoras envolvendo posição de discos de corte, de sulcadores, de protetores laterais para impedir a abertura exagerada de sulcos, de corte ineficiente de palha são fatores levantados. Em contraste com as dificuldades de alguns agricultores, existem produtores desenvolvendo plantio direto com pleno sucesso e demonstrando satisfação com a adoção da prática. Outra vez, destaca-se a necessidade de intercâmbio de informação com os agricultores de sucesso, de treinamento e de pesquisa dirigida para a solução regional de fatores limitantes ao plantio direto. A viabilidade e a continuidade do plantio direto nos cerrados está associado a agricultores capacitados e a assessores técnicos treinados na prática da semeadura sem preparo de solo e motivados para a sustentabilidade ecológica da produção rural.