O grande momento do plantio direto no Brasil
Nas imediações de águas mágicas e encantadoras, cerca de 2.000 pessoas, entre produtores, assistentes técnicos, pesquisadores, estudantes e representantes de diversas categorias ligadas à agricultura do Brasil e de outros países, principalmente do Paraguai, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Chile, Colombia, México e Estados Unidos, celebraram o grande avanço do sistema plantio direto no Brasil, de 31 de julho a 4 de agosto, no Centro de Convenções do Hotel Rafain, em Foz do Iguaçu/PR. O evento, que desta vez não contou com a parte de campo, foi um marco na apresentação e debates de antigas e novas tecnologias, utilizadas por produtores e técnicos em mais de 13 milhões de ha, em todo o país, fixando uma curva positiva de crescimento em termos de área que se aproxima de 50% do total das lavouras produtoras de grãos e fibras ( soja, milho, trigo, aveia, feijão, arroz, sorgo, milheto, cevada, algodão) . Delegações de Clubes Amigos da Terra, cooperativas, universidades, secretarias estaduais de agricultura e empresas de várias regiões do país participaram do Encontro, aproximando, dentro de um único fórum, a variabilidade tecnológica de todas matrizes produtivas sob plantio direto do Brasil.
Herbert Bartz, Presidente da FEBRAPDP e Norman Borlaug, Nobel da Paz, presentes no 7° encontro Nacional
O grande desafio é harmonizar o desenvolvimento tecnológico da agricultura com a natureza no próximo milênio e essa era a chamada do 7º Encontro. Mas, o sucesso do evento, preparado e trabalhado antecipadamente durante 2 anos pela Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, com apoio de diversas instituições oficiais e empresas privadas, também teve o clima holístico e motivacional dos primeiros encontros, realizados em Ponta Grossa, Cruz Alta e no Cerrado, além de outros itens significativos e interessantes. A integração entre o velho e o novo foi algo projetado para acontecer, tendo sido um ponto alto do evento. A visão de jovens agricultores e técnicos sobre as perspectivas do sistema para o próximo milênio foram estrategicamente apresentadas, mas a principal palestra do Encontro foi proferida por um cidadão do mundo de 86 anos, o pesquisador americano Norman Borlaug, laureado com o Prêmio Nobel da Paz. Na sua apresentação, ele fez uma análise das condições de produção de alimentos e a sua relação com o crescimento da humanidade nos próximos tempos. ”Caso o consumo per capita de alimentos permaneça, o aumento populacional dos próximos 25 anos demandará uma suplementação alimentar de 57% sobre o que produzimos, basicamente de cereais”, afirmou o pesquisador americano na sua apresentação, na abertura oficial do 7º Encontro. Segundo ele, o grande desafio para os cientistas e agricultores de todo o mundo, durante o próximo quarto de século, consiste em desenvolver e aplicar tecnologias capazes de aumentar em 50 a 75% a produtividade dos cereais e, mais ainda, fazê-lo de forma econômica e ambientalmente sustentável. Este objetivo já está sendo alcançado, principalmente nas fronteiras agrícolas que utilizam o sistema plantio direto. ”Atualmente plantamos a mesma superfície de 20 anos atrás, afirmou Victor Hugo Trucco, presidente da AAPRESID, da Argentina, mas a produção de nosso país cresceu 40% nos últimos sete anos.” Trucco também palestrou no 7º Encontro, quando abordou o papel do plantio direto na expansão das novas fronteiras agrícolas. Ele atribui o aumento da produção argentina ao crescimento da siembra directa, que hoje ocupa uma área superior a 9 milhões de ha, mais de um terço do total que o país utiliza. Esse crescimento segue um gráfico paralelo ao desempenhado pelo plantio direto. ”Realizar uma gestão profissional, que priorize a produtividade e a proteção dos recursos naturais, será um aspecto básico do sucesso para a condução de propriedades agrícolas nos próximos tempos”, afirmou o dirigente da Associação Argentina de Plantio Direto, em Foz do Iguaçu.
Renovação
Trouxemos o que de melhor havia no plantio direto e uma nova geração de pesquisadores, assistentes técnicos e agricultores para dar respostas sobre os problemas e as angústias que afetam os produtores em várias partes do país e também no exterior”, afirmou Herbert Bartz, presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, em Foz do Iguaçu, quando o 7º Encontro já era um sucesso garantido, na opinião unânime dos participantes. Confirmado como dirigente máximo da Entidade por mais um período de dois anos, em assembléia realizada durante o evento, Bartz estava feliz com os resultados alcançados, porque a finalização de um encontro de tal magnitude exige um trabalho imensurável de todos os setores envolvidos e, principalmente, para quem pensa e dirige o processo. ”Acredito que estamos trocando de milênio com um encontro que ficará registrado como um dos grandes na história do plantio direto. Fizemos um levantamento das necessidades que os produtores tinham e acabamos realizando algo que lembra principalmente o grande Encontro de Cruz Alta”, disse Bartz, numa rápida análise em Foz do Iguaçu. Como dirigente da Federação Brasileira, ele manifesta orgulho em citar o avanço de área sob plantio direto no país, que já ultrapassa 13 milhões de ha, mas também está preocupado com o chamado plantio direto de meia sola, que é aquele realizado sem rotação de culturas e que, em determinadas ocasiões, o produtor volta a lavrar ou gradear. ”Quando isso acontece, afirma Bartz, por falta de informações, é como realizar um aborto. A matéria orgânica acumulada em 3-4 anos é perdida se o agricultor volta a preparar o solo, ocorre a destruiçào de um pequeno nicho de fertilidade que estava se formando. Hoje, como está se demonstrando neste Encontro, existem subsídios científicos que provam ser este o primeiro passo para o suicídio econômico dos produtores. Isto é igual a anemia: o produtor acaba ficando mais pobre, sem perceber.” O 7º Encontro Nacional foi considerado por Herbert Bartz como um ponto de retorno para essa situação de inúmeros produtores. E a presença de novas e jovens lideranças entre os palestrantes e o público em geral significou um entusiasmo extra para Bartz, que sente o sistema sendo renovado em momento oportuno. Entre as novas lideranças presentes, destaque para os palestrantes Ivan Carlos Bohrz, engenheiro agrônomo e produtor, presidente do Clube Amigos da Terra, de Ibirubá/RS, Manoel Henrique Pereira Júnior e Richard Dijkstra, filhos dos produtores Nonô Pereira e Franke Dijkstra, respectivamente, pioneiros do plantio direto na região dos Campos Gerais do Paraná. Ivan Bohrz afirmou na sua apresentação que o plantio direto, como ferramenta principal na prática da agricultura moderna, está diretamente vinculado à diversificação de atividades, sendo fundamental a rotação de culturas. ”A visão do jovem produtor rural para o desafio da agricultura do 3º milênio deve ser voltada para o trabalho em harmonia com a natureza e o uso do plantio direto, frisou ele, associando-se a diversificação de atividades, a rotação de culturas e, se possível, a irrigação, para enfrentar os problemas de clima.”Para o presidente do CAT de Ibirubá, o objetivo de maior lucratividade por área é importante, devendo-se buscar um planejamento eficiente e a utilização de tecnologias de ponta, melhorando o gerenciamento da propriedade como um todo, para tornar a atividade agrícola competitiva e apta a enfrentar os desafios futuros.
Concurso & Projetos
Durante a realização do 7º Encontro, foram entregues certificados de mérito às entidades e empresas associadas da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha. Na mesma ocasião, foram assinados convênios entre o Iapar, Secretária de Agricultura e Abastecimento do Paraná e a Federação Brasileira, visando dinamizar os projetos de pesquisa em plantio direto, desenvolvidos no Pólo do Iapar de Ponta Grossa. A cerimônia oficial do evento também teve a entrega dos prêmios aos vencedores do 2º Concurso Nacional de Plantio Direto, promovido pela Federação e pelo Grupo Plantio Direto, como meio de difundir e incentivar a prática dessa forma de cultivo. O GPD é composto pelas empresas Basf, Dow AgroSciences, Manah, Monsanto e Zeneca. Os vencedores, que receberam uma viagem técnica/cultural aos Estados Unidos, foram o produtor Arcângelo Moratelli e o engenheiro agrônomo Célio Averroth, de Rio do Campo/SC, da Região Sul, e o produtor Luciano Muzzi Mendes e o engenheiro agrônomo Paulo Koster Siede, de Maracaju/MS, representantes do Cerrado. Colocados em segundo lugar, Samuel Kotliarenko, produtor, e Gilnei Luiz Molossi, engenheiro agrônomo, do Rio Grande do Sul, e Mário Maria Van der Broek, produtor, e Aredison Silva Andrade, de Minas Gerais, também receberam prêmios na cerimônia. O 2º Concurso Nacional de Plantio Direto homenageou a Epagri - Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, instituição que apresentou o maior número de trabalhos inscritos. A última palestra do 7º Encontro, apresentada pelo pesquisador Pedro Freitas, da Embrapa, mostrou os Progressos do Projeto Plataforma, Tecnologia do Plantio Direto no Brasil, cujo objetivo básico é a preparação de bases sólidas para uma agricultura que contribua para a sustentabilidade do processo de desenvolvimento sócio-econômico, sanando os gargalos do sistema.