Argentina, uma revolução produtiva
O plantio direto permitiu uma verdadeira revolução produtiva em uma das duas fazendas do engenheiro agrônomo e produtor rural Martin Ambrogio, localizada na região central da província de Córdoba, na Argentina. O local é constituído de solos com 70% de areia, altamente suscetíveis à erosão, principalmente eólica, pois os ventos são constantes na área. A erosão hídrica também é problemática já que, apesar da precipitação anual não superar 700 a 800 mm anuais, ocorrem chuvas intensas em determinadas épocas. ”Em solos que não superavam 1.500 s/ha de soja, na última safra, quando tivemos um pouco mais de chuva, o plantio direto permitiu ultrapassar 3.000 k/ha. O vento permanente provoca muita evaporação da água do solo e, se compararmos com a outra propriedade, situada na região sul da província de Santa Fé, as lavouras de Córdoba tem uma autonomia de 20 dias sem chuva, enquanto a outra suporta mais de 40 dias.” Martin Ambrogio, que é consultor técnico da AAPRESID, a associação argentina dos produtores de plantio direto, palestrou no 7º Encontro, no painel sobre a visão dos jovens produtores e o futuro da agricultura. Num dos intervalos do evento, ele descreveu o histórico e as condições que fizeram a estabilização do plantio direto e da produção agropecuária nas duas fazendas que dirige, na Argentina.
Revista Plantio Direto - Quais as diferenças de clima e solo entre as duas fazendas?
Martin Ambrogio - As duas propriedades são bem distintas. A primeira está localizada ao sul de Santa Fé, com solos classe I, argilosos típicos, com 20-30 cm de horizonte A, orgânico, 3,5% de matéria orgânica e mais de 13 anos de plantio direto. O regime de chuvas atinge 2.000 mm anuais, com precipitações maiores na primavera. A cultura principal nas duas áreas é a soja, seguido de trigo, milho, girassol, sorgo e pecuária. Plantamos cerca de 2.000 ha de soja, 300 ha de milho, 200 ha de sorgo e 300 ha de girassol, além de 200 ha de pastagens, onde fizemos terminação de novilhos no curral, com suplementação de silagem de milho. A segunda propriedade, no centro de Córdoba, a 270 km da primeira, onde se faz plantio direto desde 1990, o solo é predominantemente arenoso. Nesta área, o plantio direto permitiu um aumento significativo de produtividade.
RPD - Você teve experiências como assistente técnico em áreas com preparo convencional?
M. Ambrogio - Nós temos a exploração desde 1960 mas, na minha formação, a partir do terceiro ano da Universidade, em Rosário, já tínhamos a jovem AAPRESID. A minha cultura é de plantio direto e eu não via outra fórmula quando voltei à fazenda.
RPD - Você enfrentou dificuldades para implementar a nova visão na condução da fazenda?
M. Ambrogio - Sim, eu pensava que em um ano toda a área iria estar sob siembra directa. Só então eu me dei conta do que sempre era dito nas reuniões da AAPRESID e da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, de que o correto era incorporar novas áreas de forma gradual. Há que ir aprendendo aos poucos, com muita imaginação e entusiasmo.
Produtividade maior e soja RR
RPD - Quais foram os aspectos que você destaca na história de suas lavouras?
M. Ambrogio - Creio que nós tivemos dois processos importantes em todo o desenvolvimento do plantio direto e o aumento de produtividade nas nossas áreas. Um deles foi o impacto que significou o conhecimento da ecofisiologia da soja e dos grupos de maturação 3 e 4, que eram semeadas na região de Baía Blanca, no sul do país, a 40 graus de latitude. Essas variedades precoces, quando foram plantadas em Venado Tuerto, que está a 30 graus de latitude, em meados de outubro, antes do que estávamos acostumados, chegavam aos estágios cruciais de floração e enchimento dos grãos justamente no final do ano, período de maior incidência de radiação e luz, em função da duração do dia. Com isso, nós colhemos mais radiação, o que nos permitiu superar tetos de produtividade que antes não eram alcançados. Hoje, podemos falar de 4.500 kg de média em soja, mas sabemos que já é possível atingir 5.500 kg, em lotes pontuais. Isso tudo graças a um trabalho desenvolvido pelo engenheiro agrônomo Rogélio Fogante, que é um verdadeiro gênio para nós e sempre nos surpreende com coisas novas. Ele colocou grupos de soja precoce, médios e tardios, combinados em diferentes datas, de outubro a janeiro, combinou todos os grupos de maturação com as datas de plantio, e assim ele descobriu que as variedades precoces, que eram utilizadas no sul, conseguiam altíssimas produtividades, além de evitar problemas de doenças, como a esclerotínia, que é comum para nós. E como isso foi feito? Sem um custo adicional a mais, sem um aporte de insumo extra, somente colocando material genético em um momento determinado, somente uma técnica de manejo e isso teve um impacto muito grande. Na Argentina, o mercado de soja acontece no final de março. Agora, com estas mudanças, o mercado de soja começa em fevereiro, a colheita argentina adiantou um mês.
RPD - O que mais mudou ultimamente?
M. Ambrogio - Outro impacto muito importante foi a biotecnologia, com as sojas RR, que tiveram um papel fantástico, proporcionando uma redução de custos em torno de 50% no controle de plantas daninhas, o principal problema que tínhamos em soja. O custo do controle de plantas daninhas é de 50-60% do total da lavoura. Passamos de U$66,00/ha na soja convencional para algo em torno de U$28,00 na soja RR. Isso realmente teve um impacto muito grande pois, além da redução dos custos, tivemos uma maior eficácia no controle de todas as plantas daninhas.
RPD - Você planta toda a área com soja RR? E a questão do mercado, como está se comportando para os produtores argentinos?
M. Ambrogio - Planto 100% das minhas lavouras com soja RR. Para nós, produtores argentinos, não temos tido nenhum problema de mercado, se é que eles existem. A comercialização está totalmente normal, a Argentina passou de 12 milhões de toneladas de soja para 19 milhões e grande parte da sua produção é vendida no exterior e até agora não ocorreu nenhum tipo de impedimento para vendermos a nossa soja. Muitas vêzes ouvimos comentários de que a Europa pode recusar a soja transgênica, porém, o que vemos na prática é que a Argentina produz cada vez mais soja e toda ela é vendida.
RPD - Vocês não temem o aparecimento de plantas daninhas resistentes ao glifosate?
M. Ambrogio - Daqui para a frente, teremos que ficar atentos a essa questão pois, se deixarmos plantas vivas após uma aplicação, é a maneira pela qual pode aparecer resistência ao glifosate. Depois de cada aplicação, não podem ficar ”malezas” vivas