Expansão Mundial do Plantio Direto — Rolf Derpsch GTZ MAG


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Publicado em: 01/10/2000

Expansão mundial do plantio direto

Rolf Derpsch Eng.-Agr. M. Sc., Assessor da GTZ no Projeto de Conservação de SolosMAG-GTZ, Cooperação Técnica Paraguai-Alemanha

Introdução

Não é fácil descrever a expansão do plantio direto a nível mundial, pois são poucos os países do mundo que possuem estatísticas anuais e detalhadas sobre o assunto e, em muitos casos, as informações são inexistentes. Em geral, as estatísticas sobre plantio direto estão baseadas em estimativas, a exceção de poucos países, como os Estados Unidos, onde se dispõe de levantamentos anuais e detalhados. Outro problema associado com plantio direto é a sua definição. As referências consultadas nem sempre consideram as mesmas técnicas quando se menciona este termo. A confusão é maior ainda quando se faz referência à manejo conservacionista, já que existem opiniões diversas sobre o que se entende por manejo, assim como o que significa conservacionista. Devemos, portanto, estar conscientes de que os dados sobre a expansão do plantio direto a nível mundial poderão ser imprecisos e, em relação a muitos países, simplesmente não se conseguiu nenhuma informação. Devido às experiências na América do Sul, dispomos de melhores informações neste continente e centralizamos os comentários sobre os avanços tecnológicos nesta parte do mundo. É interessante notar que, enquanto nos Estados Unidos o plantio direto representa apenas 44% da área sob manejo conservacionista, na América do Sul o plantio direto provavelmente representa mais de 95%. O plantio direto é definido neste trabalho como a operação de semeadura das culturas em solos não preparados mecanicamente, nos quais se abre um sulco, que somente tem a largura e a profundidade suficiente para obter uma boa cobertura da semente, sem nenhuma preparação mecânica (Philips e Young, 1973). Também me refiro aqui ao plantio direto permanente e não a uma semeadura direta realizada ocasionalmente. Entende-se que o solo permanece coberto com resíduos de cultivos comerciais ou de adubos verdes, e que a maior parte dos resíduos permanecem sem remoção na superfície do solo depois do plantio. Sempre que este requisito seja atendido, equipamentos sulcadores podem ser utilizados para quebrar a camada compactada do solo abaixo da profundidade de colocação da semente. Por este motivo, o termo plantio direto é mais apropriado do que o termo ”no-tillage” (não lavrado), utilizado pêlos norte americanos. Mesmo que sejam abertos sulcos estreitos no solo e os resíduos das culturas permaneçam em sua maioria na superfície, não devemos ser demasiados exigentes com o termo ”no-tillage” ou não lavrado. Temos que entender que o carbono do solo e os resíduos das culturas são fatores chaves para que o plantio direto funcione. Temos nos concentrado demais, utilizando tempo exagerado em não lavrar o solo, em vez de nos concentrarmos na questão dos restos culturais como a principal técnica de manejo do solo (Wayne Reeves, comunicação pessoal, 1997) O controle da erosão continua sendo um dos motivos principais porque o plantio direto é adotado em muitos países. Nenhuma outra tecnologia desenvolvida até agora pelo homem tem sido tão eficiente em controlar a erosão e conseguir uma produção de alimentos verdadeiramente sustentável, como é o caso do plantio direto (Baker et al., 1996)

Situação Geral do Plantio Direto no Mundo

O plantio direto vem crescendo num ritmo acelerado a nível mundial. Com 19,75 milhões de ha, os Estados Unidos é o país onde o plantio direto alcançou a maior difusão em termos de área cultivada, seguindo-se o Brasil com 13,47 milhões de ha, Argentina com 9,25 milhões de ha, Canadá com 4,08 milhões de ha, Austrália com 8,64 milhões de ha, e Paraguai com 0,8 milhões de ha (tabela 1). Não é fácil conseguir informações sobre a adoção de plantio direto na Ásia, África e países do leste europeu. Admitindo que podem haver lacunas de informação, estima-se que o plantio direto é utilizado em aproximadamente 58 milhões de ha, em todo o mundo. Aproximadamente 83% da tecnologia está sendo praticada no Continente Americano, cerca de 15% na Austrália e apenas 2% na Europa, Ásia e África. Apesar da expansão experimentada em termos de área nos Estados Unidos, o plantio direto representa apenas 16% da área agrícola total do país. No Brasil, a taxa de adoção é de 25% em relação a área total, enquanto na Argentina é de 37% e no Paraguai 52%. Nestes termos, o Paraguai se situa na vanguarda de todos os países do mundo quanto a área sob o sistema plantio direto. É notável o crescimento observado no plantio direto neste país. Em 1992, haviam apenas 20 mil ha, enquanto em 1999 a área sob plantio direto foi estimada em 790 mil ha. Existe um grande potencial para a utilização do plantio direto como tecnologia de conservação de solos na Europa, Ásia e África, embora existam fatores climáticos e sócio econômicos limitantes, que devem ser levados em conta. Os países do leste europeu parecem ter um potencial maior para um rápido crescimento do plantio direto. Um estudo sobre o potencial de implementação do plantio direto na África foi realizado pela GTZ, em 1998. O estudo concluiu que o plantio direto assegura uma excelente proteção do solo e é, por isso, o sistema mais conveniente para aquelas regiões onde é possível produzir biomassa suficiente para prover uma cobertura permanente do solo. Os fatores ecológicos limitantes para uma difusão do plantio direto são: baixas precipitações, que resultam em baixa produção de biomassa, períodos vegetativos curtos, solos arenosos com tendência à compactação e solos alagadiços. As limitações sócio econômicas são: alta demanda por resíduos de culturas para forragem de animais, falta de reconhecimento aos direitos de propriedade, infra estrutura não desenvolvida (mercado, crédito, serviço de extensão), clara preferência por um só cultivo (ex: milho) , e alta demanda do sistema em termos de gerenciamento. O estudo também conclui que, nessas regiões, e em outras onde não é possível praticar o plantio direto, a segunda opção recomendada é o cultivo mínimo.

Histórico

Enquanto nos Estados Unidos o plantio direto já estava sendo pesquisado na década de 40 (mais intensamente no final da década de 50), e na Europa nas décadas de 60 e 70, somente em 1971 que a pesquisa iniciou no Brasil e na América Latina (Derpsch, 1998). Inicialmente, o plantio direto foi concebido como uma tecnologia eficiente para conservar o solo, já que a rápida expansão da superfície cultivada trouxe consigo um aumento considerável e generalizado de danos por erosão, especialmente nos estados da região sul do Brasil. Com o tempo, a tecnologia evoluiu para um sistema de produção verdadeiramente sustentável com conseqüências econômicas, sociais e ambientais positivas. Um aspecto digno de nota é o ritmo crescente do aumento de área sob plantio direto na América Latina, comparado com os Estados Unidos. Os países do Mercosul tinham plantio direto em apenas 870 mil ha, em 1987, passando para uma superfície de 14 milhões de ha em 10 anos, o que dá um aumento de 20 vezes. No mesmo período, a área de plantio direto nos Estados Unidos cresceu apenas 4,6 vezes, passando de 4 milhões de ha em 1987 para 18,6 milhões de ha em 1997. Entre os principais fatores que promoveram tão impressionante mudança na América Latina estão os seguintes: 1) Controle eficiente e econômico da erosão em condições de alto potencial erosivo e de degradação dos solos; 2) Conhecimentos adequados disponíveis na região através de pesquisa e desenvolvimento, como também através de experiências de agricultores líderes. 3) Ampla utilização de adubos verdes para a redução da infestação de plantas daninhas, especialmente no Brasil e Paraguai ( redução no uso de herbicidas), aumento no conteúdo de matéria orgânica do solo, controle biológico de pragas, etc.; 4) Em geral, uma mesma mensagem, consistente e positiva de plantio direto, foi expressada por todos os setores envolvidos (públicos e privados), sem contradições; 5) O plantio direto foi praticamente a única tecnologia de manejo conservacionista recomendado, em contrapartida aos Estados Unidos, onde também era recomendado o cultivo mínimo. 6) Houve uma agressiva e eficiente extensão de agricultor para agricultor, através de associações de plantio direto. 7) Publicações com informações adequadas, úteis e práticas foram produzidas e colocadas nas mãos dos agricultores e extensionistas. 8) Avaliações econômicas com enfoque sistêmico de propriedade mostraram altos retornos econômicos a quem fazia plantio direto, principalmente para quem utilizava adubos verdes e rotação de culturas. 9) Não surgiram forças maiores contrárias ao sistema. 10) Os produtores latino americanos tiveram que ser extremamente competitivos no mercado global, já que não haviam subsídios.

Tabela 1. Situação geral do plantio direto no mundo

País

Área sob Plantio Direto em ha 1999/2000

USA1

19 750.000

Brasil2

13 470.000

Argentina1

19 750.000

USA3

9 250.000

Austrália1

8 640.000

Canadá5

4 080.000

Paraguai6

800.000

México7

650.000

Bolívia8

200.000

Chile9

96.000

Colômbia10

70.000

Uruguai11

50.000

Venezuela12

50.000

Outros12

1.000.000

Total

58.106.000

Fontes: 1)No-till Farmer, 1999; 2)FEBRAPD, 2000; 3)AAPRESID, 2000; 4)Bill Crabtree, WANTFA; 5)Hebbletehwaite, CTIC, 1997; 6)Projeto Conservação de solos MAGGTZ, 1999; 7)Ramón Claveran, CIMMYT, 1999; 9 Carlos Crovetto, 1999; 10) Roberto Tisnes, Armenia, 1999; 11)AUSID, 1999; 12)Estimativas

Observação: algumas informações sobre a área sob plantio direto no canadá indicam 6,7 milhões de ha. Neste caso, é aceita a idéia de uma aração no outono, uma vez por ano. Se aplicarmos o termo plantio direto de maneira mais estrita (sem nenhum preparo do solo), então a área sob o sistema no Canadá é de somente 4,08 milhões de ha.

Superação das dificuldades e limitações na adoção do plantio direto na América do Sul

Máquinas adequadas

Somente em 1975 foram fabricadas as primeiras semeadoras para plantio direto no Brasil, de tal forma que muitos agricultores iniciaram no sistema transformando suas semeadoras convencionais. As primeiras fabricadas no Brasil, baseadas na rotativa Rotacaster, eram lentas. Os produtores ficaram contentes quando máquinas mais rápidas e aperfeiçoadas, baseadas no disco tríplice, apareceram no mercado, em 1976. A produção de máquinas especializadas começou mais tarde em outros países, como Argentina e México. Atualmente, cerca de 15 indústrias no Brasil e 30 na Argentina estão produzindo semeadoras de plantio direto para médios e grandes produtores. Para agricultores mecanizados, pequenos ou médios, é recomendável a compra de uma semeadora versátil, adequada para grãos grossos (soja, milho, sorgo, girassol), com espaçamento maior entre linhas e, ao mesmo tempo, adequadas para grãos finos ( trigo, aveia, centeio e culturas para adubos verdes, em geral), com espaçamento estreito entre linhas. Em geral, estes agricultores optam por uma semeadora de grãos grossos e se acham impossibilitados de semear culturas como o trigo ou adubos verdes, dificultando a realização de rotações adequadas de cultivos. Deixar o terreno em pousio no inverno, no sul do Brasil ou Paraguai, tem como resultado uma alta infestação de plantas daninhas e altos custos para eliminá-las.

Mudança mental

Uma mudança mental de agricultores, técnicos, extensionistas e pesquisadores, distanciando-se de operações de preparo degradantes do solo, direcionando para um sistema de produção agrícola sustentável como o plantio direto, foi necessário para alterar a atitude dos produtores. Enquanto a mente permaneça convencional, será muito difícil implementar um plantio direto exitoso a nível de propriedade agrícola. Aprendemos que, se o agricultor não realiza uma mudança radical na sua cabeça, nunca será capaz de fazer funcionar a tecnologia de forma adequada. Isto não é somente verdadeiro para agricultores mas também para técnicos, extensionistas e pesquisadores. O plantio direto é tão diferente do preparo convencional e põe tudo de cabeça para baixo. Qualquer pessoa que queira ter êxito com esta tecnologia tem que esquecer praticamente tudo o que aprendeu sobre plantio convencional. Ao mesmo tempo, deve estar constantemente preparado para aprender novos aspectos do novo sistema de produção. Antes de mudar sua semeadora, o agricultor deve mudar sua mente, para que o sistema funcione. A falta de conhecimentos técnicos apropriados sobre o plantio direto tem sido provavelmente a maior limitação para a difusão do sistemas em alguns países e regiões da América Latina.

Plantas daninhas e herbicidas

A maior mudança que o agricultor tem que enfrentar quando troca o preparo convencional pelo plantio direto provavelmente seja o controle de plantas daninhas. Para estar em condições de manejar esta nova situação, o agricultor tem que ter um bom conhecimento, especialmente sobre herbicidas, plantas daninhas e tecnologia de aplicação. Os primeiros anos de adoção do plantio direto na América do Sul foram especialmente difíceis, porque os únicos herbicidas disponíveis eram Paraquat e 2,4-D. A enxada salvou muitas lavouras de um fracasso nessa época. No início da década de 80, o número de herbicidas disponíveis para o sistema tinha crescido a tal ponto que era difícil saber as propriedades dos distintos produtos disponíveis no mercado. Os únicos que ofereciam informações sobre as características dos diferentes produtos eram as próprias companhias que os fabricavam. A produção e disponibilidade de uma maior variedade de herbicidas mais eficientes, juntamente com uma maior diversidade de máquinas para plantio direto, disponíveis no Brasil e na Argentina, levou a um crescimento sem precedentes no sistema na América do Sul. Para fazer adequadamente o plantio direto, é necessário uma publicação que descreva os produtos disponíveis no mercado, com todas as suas características químicas e toxicológicas, quantidade de produto a ser usado por ha, incluindo também uma lista de plantas daninhas que podem ser controladas efetivamente por cada produto. Esta é uma informação bastante necessária, sem a qual não somente os agricultores mas também os técnicos, extensionistas e pesquisadores estariam impossibilitados de fazer funcionar o plantio direto. Um exemplo de boa apresentação da informação sobre herbicidas é a publicação de Rodrigues e Almeida, já na sua quarta edição. Outra publicação indispensável para facilitar a aplicação do plantio direto se refere a identificação de plantas daninhas e recomendações para seu controle. Uma publicação deste tipo deve descrever as plantas daninhas mais comuns e mostrar fotografias de plantas adultas, plântulas e sementes, para uma fácil identificação, indicando, ao mesmo tempo, quais herbicidas podem controlar eficazmente cada planta daninha. No Brasil, Lorenzi publicou um livro contendo tais informações, em 1984, contando atualmente com quatro reedições.

Tecnologia de aplicação

O complexo cálculo de volume de água a ser aplicado por ha, pressão, vazão dos bicos, velocidade do trator, capacidade do tanque e quantidade de produto a ser aplicado por unidade de área tem sido um problema difícil de resolver, não somente para agricultores mas sim para qualquer pessoa encarregada de calibrar um pulverizador. As informações devem ser bem preparadas e fáceis de usar, antes de apresentá-las aos produtores. Ao não se fazer uma apresentação didática e clara (o que raramente ocorre), não se utilizarão métodos adequados de calibração e a pulverização será defeituosa, resultando em um controle deficiente das plantas daninhas, mesmo quando se utilizar os melhores produtos.

Correção do solo

Muitos solos tropicais são ácidos ou contem alumínio tóxico. Aplicar o calcário antes de entrar no plantio direto é a última oportunidade de incorporá-lo. Sem dúvida, resultados mais recentes de pesquisa mostraram que é possível aplicar calcário na superfície, sem incorporar. Já que nos solos tropicais, em geral bastante permeáveis e com altas taxas de infiltração de água, o calcário se move de forma natural a horizontes mais profundos do solo. Neste caso, recomenda-se que os agricultores apliquem pequenas quantidades a cada ano, no lugar de aplicar grandes quantidades de uma só vez. Os conceitos sobre calagem e fertilização mudaram bastante na América Latina após a introdução do plantio direto. A experiência nos mostra que devemos esquecer tudo o que aprendemos na universidade sobre fertilidade e correção, já que teremos que nos familiarizar com os novos conceitos sobre manejo da fertilidade do solo neste sistema. Nonô Pereira, um dos pioneiros na região de Ponta Grossa/PR, junto com o pesquisador João Carlos de Moraes Sá, desenvolveram um sistema de semeadura direta sobre campos nativos, em solos com alta saturação de alumínio, pH ácido e baixos níveis de fertilidade. Nestes casos, os agricultores devem aplicar herbicida dessecante 3 a 4 meses antes da semeadura para assegurar um controle das plantas mais fibrosas. Apesar das características de baixa fertilidade desses solos, ao aplicar quantidades relativamente pequenas de calcário na superfície, utilizando doses médias de fertilizantes, é possível colher cerca de 3.000 kg/ha de soja, já no primeiro ano. Isto se deve provavelmente a o alto teor de matéria orgânica destes solos, que nunca foram tocados por implementos de preparação do solo. Experiências similares estâo sendo realizadas em solos pobres, ácidos e de pastagem nativa no Paraguai.

Superfície ondulada

Naturalmente, uma semeadora de plantio direto não poderá trabalhar adequadamente se a superfície do solo não está nivelada. No preparo convencional os agricultores muitas vezes controlam as plantas daninhas mediante o cultivo mecânico, o que tende a deixar a superfície do solo ondulada, sendo necessário nivelar antes de entrar no plantio direto. Também, quando sulcos de erosão ou pequenas vossorocas estão presentes, ou em casos de existir superfícies muito rugosas, depois da colheita, recomenda-se que os agricultores nivelem primeiro o solo antes de iniciar o plantio direto, para evitar problemas na semeadura e uma má germinação.

Compactação do solo

Compactações produzidas pelo preparo do solo no sistema convencional, como pé de arado ou pé de grade, deverão ser eliminadas antes de iniciar o plantio direto. Um escarificador (raramente um subsolador) é, em geral, suficiente para solucionar o problema. A compactação do solo em plantio direto permanente é um tema sempre discutido na América Latina. Os pesquisadores tem uma percepção diferente dos agricultores ao encarar este problema. Como eles tem equipamentos muito sofisticados para medir eventuais compactações e podem demonstrar facilmente que os solos estão mais duros e compactos sob plantio direto que sob preparo convencional, temos visto que muitos pesquisadores veêm a compactação do solo como um problema bastante sério no plantio direto. Em geral, os pesquisadores da América Latina tendem a exagerar o problema da compactação do solo. Em contraste, os agricultores medem a compactação não em termos de densidade do solo em g/cm3 ou em resistência a penetração, mas sim em termos de respostas das culturas, ou seja, em termos de rendimento. Se os rendimentos são tão bons ou melhores em plantio direto que em preparo convencional, ao agricultor não importa a compactação. Os agricultores também medem a compactação em termos de penetração do solo dos equipamentos de plantio. Com o objetivo de avaliar a percepção dos agricultores em relação ao problema da compactação do solo, três pioneiros de plantio direto no Brasil foram entrevistados em 1997 para expressar seus pontos de vista sobre este problema. Os agricultores entrevistados foram Nonô Pereira, Franke Dijkstra e Herbert Bartz, que totalizam 70 anos de experiência. Os solos destes agricultores variam de arenosos, com aproximadamente 80% de areia, a argilosos com aproximadamente 80% de argila. Os três agricultores foram unânimes em afirmar que não percebem a compactação do solo como um problema no sistema de plantio direto permanente. Eles também afirmaram que não existe nenhuma razão para preparar o solo de vez em quando depois que o plantio direto tenha sido estabelecido. Finalmente, disseram que a melhor maneira de evitar a compactação no plantio direto é a de produzir quantidades máximas de cobertura do solo, utilizar adubos verdes e rotação de culturas de tal maneira que as raízes e atividades biológicas executem a tarefa de soltar o solo. Uma boa cobertura de solo também é essencial para manter altos teores de umidade na superficie do solo, o que resultará numa melhor penetração dos elementos cortantes das semeadoras.

Cobertura

A cobertura permanente do solo com uma grossa camada de resíduos vegetais (mulch) tem sido a chave do êxito no sistema de plantio direto na América Latina. O objetivo é ter pelo menos seis toneladas de matéria seca de resíduos de cultivos comerciais ou adubos verdes/ha a cada ano. Isto resulta numa boa supressão de plantas daninhas, num efeito positivo da cobertura sobre a umidade e temperatura do solo, e em uma melhoria das qualidades químicas, físicas e biológicas do solo. Não somente é importante a quantidade da cobertura e sim também a sua distribuição. As colhedoras devem ter um dispositivo bem desenhado para distribuir os restos de colheita uniformemente em toda a largura do corte. O resultado é uma distribuição desuniforme dos resíduos, com um excesso de material no centro e pouco ou nada nos extremo, o que resulta num mau desempenho dos herbicidas e das semeadoras. Fora os fatores limitantes mencionados, os agricultores também tem que aprender sobre a influência do plantio direto nas qualidades físicas, químicas e biológicas do solo, seu impacto sobre a água superficial e o meio ambiente, sobre rendimentos e toda a rentabilidade do sistema. Várias publicações com amplas informações sobre todos os aspectos do plantio direto tem sido publicadas na América Latina desde 1981. Exemplos: Iapar, 1981, Derpsch, et al., 1991, Crovetto, 1992, Panigatti, et al., 1998, etc. Também os anais de muitas conferências realizadas na Argentina, Brasil, Chile e Paraguai estão disponíveis para uma informação detalhada sobre o funcionamento do sistema. Neste aspecto, a AAPRESID na Argentina e a FBPDP no Brasil, tem contribuído fortemente na difusão de conhecimentos apropriados sobre o sistema e ajudado a difusão da tecnologia em toda a América Latina. Necessidades mais importantes associadas a utilização e adaptação da tecnologia no futuro e limitações do sistema

Adubos verdes e rotação de culturas

Os adubos verdes e a rotação de culturas são elementos essenciais na exitosa história da expansão do plantio direto na América Latina. Somente aqueles agricultores que entenderam a importância dessas práticas conseguiram os máximos benefícios do sistema. Adubos verdes não significam um gasto, mas um retorno econômico a curto prazo. Quando o sistema de plantio direto é praticado em monocultura, ou seja, quando a mesma ou as mesmas culturas são repetidas todos os anos no mesmo lugar, o plantio direto é um sistema imperfeito e incompleto, no qual as doenças, plantas daninhas e pragas tendem a aumentar e os retornos econômicos tendem a diminuir. Pesquisas realizadas por Kliewer (1998), no Paraguai mostraram que a rotação de culturas e a inclusam de adubos verdes de curto período (AVcp) podem reduzir o custo de herbicidas a US$ 36,62/ha no caso de Crotalaria Juncea (AVcp por 52 dias) ou a US$ 37,39/ha no caso do girassol (AVcp por 57 dias) comparado com custos de US$ 107,66/ha quando somente herbicida e monocultura foram utilizados. Kliewer (não publicado) também informou que foram conseguidos rendimentos de soja de 2.600 kg/ha depois de aveia preta como adubo verde, sem nenhuma utilização de herbicidas antes ou durante o cultivo da soja. Medições da quantidade de plantas daninhas presentes 96 dias depois da semeadura da soja mostraram 93 kg/ha de massa seca de plantas daninhas depois de aveia preta, comparado com 7.390 kg/ha após um pousio. Neste último caso, a soja não rendeu mais que 780 kg/ha. Utilizando uma rotação onde os adubos verdes de curto e longo período são semeados logo após a colheita da cultura anterior, ou após rolar os adubos verdes com rolo faca, foi possível não utilizar herbicidas em plantio direto até por 3 anos seguidos. Em alguns casos, quando os agricultores utilizam rotação de culturas é possível eliminar as plantas daninhas com um herbicida total antes da semeadura, sem nenhuma necessidade de utilizar herbicidas durante o desenvolvimento da cultura. Se algumas plantas daninhas escapam, as poucas que se desenvolvem podem ser eficientes e economicamente controladas manualmente, já que a mão de obra é barata. Em regiões com desemprego, esta é uma forma socialmente apropriada de realizar o plantio direto que além disso significa poupança de divisas, ao não importar produtos químicos para o país. Pesquisas realizadas no Brasil mostraram que quando a aveia preta é utilizada como adubo verde antes da soja, é possível conseguir aumentos de rendimentos de até 63%, comparado com o rendimento de soja depois de trigo (Derpsch, 1991).

Lições aprendidas

Possibilidades de reduzir o custo do uso de herbicidas em plantio direto Uma das mais recentes e frutíferas lições que temos aprendido no sistema de plantio direto é que os agricultores deveriam, na medida do possível, nunca deixar o solo em descanso (pousio). Em geral, os períodos de descanso de apenas algumas semanas resultarão em uma proliferação de plantas daninhas, com produção de sementes, redução da cobertura do solo, erosão, lixiviação e perda de nutrientes. Se, no lugar de deixar o terreno em descanso, os agricultores plantam qualquer cultura imediatamente, ou tão logo seja possível, depois da colheita da cultura anterior, conseguirá reduzir a proliferação de plantas daninhas, evitando que elas produzam sementes viáveis, além de aumentar a cobertura do solo e a biomassa vegetal que retorna ao solo, aumentando o teor de matéria orgânica, evitando a erosão e a lixiviação de nutrientes, melhorando ao mesmo tempo as condições biológicas e a fertilidade do solo. Depois de iniciar uma pesquisa mais intensa e sistemática com adubos verdes, no final da década de 1970, uma variedade de culturas tem sido identificada e estão agora disponíveis para sua utilização pelos agricultores, especialmente no Brasil e no Paraguai. Alguns dos adubos verdes são aveia preta (Avena strigosa Schreb), centeio (Secale cereale L.), triticale (tritico-cereale), nabo forrageiro (Raphanus sativus var. oleiferus Metzg), tremoço branco amargo (Lupinus albus L.), ervilhaca comum (Vicia sativa L.), ervilhaca peluda (Vicia villosa Roth), chícharo ( Lathyrus sativus L.), girassol (Helianthus annuus L.), etc. Os adubos verdes de verão mais utilizados são milheto (Pensetum americanum L.), sorgo (Sorghum bicolor L.), crotalária (Crotalaria juncea L.) e lab-lab (Dolichos lablab L.). Também algumas plantas que até agora eram consideradas plantas daninhas como a brachiária (Brachiaria plantaginea) são hoje utilizadas como adubação verde na região do Cerrado, no Brasil Central. Ali, os produtores e pesquisadores desenvolveram sistemas de produção onde os adubos verdes são semeados imediatamente após a colheita do cultivo comercial. No Brasil e no Paraguai, os adubos verdes e a rotação de culturas são a base do crescimento sem precedentes que o plantio direto vem experimentando. Ligado à rápida difusão dos adubos verdes está o rolo faca, que é imprescindível para maneja-los adequadamente e com baixo custo. Este implemento não é muito caro e, em muitos casos, pode ser fabricado no local ou pelo próprio agricultor. O rolo faca pode ser tracionado por tratores de tamanho médio ou até por animais e tem contribuído bastante para a redução da quantidade de herbicidas utilizados no sistema de plantio direto. Alguns agricultores manejam os adubos verdes sem transformar as grades de disco, simplesmente regulando-as sem ângulo de corte. Também é possível manejar os adubos verdes utilizando estruturas montadas com pneus velhos.

Novos desenvolvimentos da tecnologia

Existe um grande dinamismo no plantio direto, de tal forma que os agricultores deveriam estar preparados para aprender constantemente e estar ao par do desenvolvimento de novas tecnologias. Herbicidas novos, mais baratos e melhores, assim como máquinas mais perfeitas aparecem continuamente no mercado, novos adubos verdes são introduzidos, novos resultados sobre pesquisas com fertilizantes, calagem, variedades, manejo, controle de doenças e pragas, etc., são constantemente produzidos. Aprendemos que o plantio direto potencializa o controle biológico de pragas. Também sabemos que devemos aprender dos agricultores orgânicos e introduzir a agricultura biológica no sistema de plantio direto. Assim como novos conhecimentos são gerados cada dia por pesquisadores e pelos próprios agricultores, temos aprendido que mantermo-nos em dia com estes novos desenvolvimentos da tecnologia é fundamental. Teremos que ser humildes e não imaginar que, uma vez aprendido tudo sobre o sistema, ninguém possa ensinar-nos nada de novo. Existe um grande desafio para cada agricultor em ser criativo e continuar desenvolvendo o sistema ainda mais, para poupar tempo e mão de obra, melhorar os rendimentos e a rentabilidade. Finalmente, temos que admitir que em todo o mundo os agricultores adotam tecnologias porque são rentáveis e porque se mostram positivas economicamente, e raramente porque são ambientalmente desejáveis. Por isso, uma avaliação econômica do sistema em diferentes regiões agro ecológicas e sócio econômicas é indispensável ter melhores argumentos para a adoção do plantio direto. Uma avaliação econômica deve estar dirigida a todo o sistema com todos os seus componentes, colocando valores à oportunidade de poder plantar antes do que no convencional, a economia de tempo, a vida maior dos tratores, aos menores custos de manutenção, às melhorias na qualidade do solo, à redução dos custos de fertilizantes e defensivos, assim como aos benefícios ambientais do sistema, a longo prazo, tanto para os produtores individualmente como para a comunidade.

Passos para adoção do plantio direto

Em geral, os produtores só deveriam comprar uma semeadora para o plantio direto após adquirir os conhecimentos necessários sobre todos os componentes do sistema. A seguir, numeramos uma lista dos 10 fatores mais críticos que deveriam ser considerados pelo agricultor, antes de adotar o plantio direto:

1)Melhorar os níveis de conhecimento, principalmente em controle de plantas daninhas 2) Analisar o solo, incorporar calcário e corrigir eventuais deficiências de nutrientes 3) Evitar solos com má drenagem 4) Nivelar o solo 5) Eliminar compactações do solo 6) Produzir palha ou cobertura morta 7) Comprar a máquina especializada 8) Utilizar rotação de culturas 10) Manter-se atualizado

Perspectivas

 O conhecimento e a informação é a principal limitação à adoção do plantio direto na maioria dos países. A informação deve ser relevante, atual, verdadeira e útil, se é que se pretende gerar impacto entre os produtores.

 O primeiro passo antes de mudar o sistema de produção e iniciar o plantio direto é a melhoria do conhecimento sobre todos os aspectos do plantio direto entre agricultores, pesquisadores, técnicos e extensionistas.

 A superioridade do plantio direto sobre o preparo convencional tem sido, em geral, provada em uma grande variedade de condições em todo o mundo. Agora é necessário desenvolver e adaptar o sistema em cada local e assegurar-se de que a tecnologia funcione sob as condições ambientais e sócio econômicas regionais.

 Necessitamos aprender quais tipos de solos não são apropriados ou tem limitações para aplicar o sistema e como podemos superar essas limitações.

 Também teremos que saber que outras limitações existem para a adoção do plantio direto nas condições de cada local, como máquinas, herbicidas, adubos verdes adequados, rotações adequadas, conhecimento, etc., e também estar conscientes de eventuais limitações sócio econômicas, para superar também essas limitações.

 A manifestação ”não vai funcionar” não ajuda a resolver problemas no plantio direto! Se estamos conscientes sobre o fato de que o plantio direto é o único sistema de produção agrícola verdadeiramente sustentável na agricultura extensiva dos trópicos e sub trópicos, teremos que encontrar formas de superar esses problemas e limitações.

 Não deveremos nos preocupar por rendimentos menores no plantio direto, desde que tenhâmos retornos econômicos maiores.

 O controle da erosão, a melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo, os custos menores de máquinas, a redução dos custos de mão de obra e horas de trator, o poder realizar os trabalhos em momento oportuno, os retornos econômicos maiores e outros benefícios do sistema deverão garantir um crescimento contínuo do plantio direto de forma permanente na maioria das regiões do mundo.

Literatura

Baker,C.J., Saxton, K.E. and Ritchie, W.R., 1996: No-tillage Seeding, Science and Practice. Cab International, Wallingford, Oxon, UK, 158 pp

Calegari, A, Mondardo, A, Bulisani, E.A, Wildner, L.do P., Costa, M.B.B., Alcântara, P.B., Miyasaka, S. e Amado, T.J.C. 1992: Adubação Verde no Sul do Brasil, AS-PTA, Rio de Janeiro, 346 p.

Crovetto, C., 1992: Rastrojos sobre el Suelo, una introdución a la cero labranza. Editora Universitária, Santiago, 301 pp.

Derpsch, R. e Calegari, ª, 1985: Guia de plantas para adubação verde de inverno. Iapar, Londrina, Documentos 9, maio de 1985, 96 p.

Derpsch,R., 1998: Historical review of no-tillage cultivation of crops. Proceedings, First Jircas Seminar on soybean research, march 5-6, 1998, Foz do Iguaçu, Brasil, Jircas Working Report nº 13, pg 1-18.

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