Cerrado — Retrospectiva e Perspectivas (John N. Landers APDC)


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Publicado em: 01/10/2000

Cerrado: retrospectiva e perspectivas

John N. Landers Secretário Executivo da APDC - Brasília-DF Colaboraram Helvécio Saturnino, Presidente eRonaldo Trecenti, Gerente de Treinamento da APDC.

A grande caminhada

Apesar do primeiro registro de lavoura em Plantio Direto nos trópicos brasileiros ter ocorrido em 1976 (Matão-SP, milho com Rotacaster), o trabalho pioneiro no Cerrado começou realmente a partir de 1981, em Goiás. Nos anos 80, vários projetos de desenvolvimento, envolvendo agricultores do setor privado, uma série de iniciativas de agricultores pioneiros, atuando em separado, e algumas pesquisas isoladas fizeram contribuições relevantes à emergência do plantio direto como sistema tropical. Mais tarde, na década de 90, foram tantas as valiosas contribuições que a lista é comprida e mencionar nomes arriscaria a injustiça da omissão. À medida que a tecnologia, o combustível e a eficiência dos produtores aumentavam, os preços dos herbicidas e os custos diretos estavam caindo, empurrando a velocidade de adoção. Atualmente, o Plantio Direto no Cerrado mostra sensíveis vantagens em custos diretos sobre o Plantio Convencional, tendo evoluído de uma posição perto do empate no início da década para uma clara vantagem de 8% a menos para soja e milho em Plantio Direto, comparados com o custo em PC (Embrapa Oeste 1999/2000). Isto sem contar as contribuições ao lucro total advindo da intensificação via safrinha e integração lavoura x pecuária. Como resultado, muitos municípios em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro têm índice acima de 70% de plantio direto, e São Paulo está em franca expansão. Mas se nota que, nas regiões de solos férteis, com margens de lucro maiores, ainda há resistência ao câmbio para PD. No norte da região do Cerrado, especialmente na Bahia e Maranhão, o plantio direto enfrenta alguns problemas em geração de palha e compactação do solo, mas ainda é largamente empregado, embora freqüentemente de forma interrupta. Temos também notícias de experiência bem sucedidas em Rondônia, Tocantins, Roraima, Amazonas, Pará, e Piauí. Na época da criação da Associação de Plantio Direto no Cerrado (APDC), em 1992, estimava-se a área plantada com plantio direto em toda a região em cerca de 180.000 ha. Para o ano agrícola 1999/2000 estimamos a área de plantio direto de verão no Cerrado em 4,3 milhões de hectares, devendo exceder os 5 milhões este ano, sem sequer contar a área de ”safrinha”, o que pode chegar a 60% dessa área. Como disse, recentemente, o Dr. Almiro Blumenschein, diretor do CNPq ”hoje, o plantio direto é irreversível”. Mas, para garantir isso diante das pressões econômicas e de problemas de segunda geração, precisamos aprimorar o Plantio Direto cada vez mais, mobilizando o esforço sintonizado de produtores, pesquisa e técnicos de ponta.

Evolução da Tecnologia

Começamos sem safrinha, com variedades de ciclo longo, plantadeiras adaptadas e Plantio Direto ”no mato”, em pousio de inverno, ou pior, com plantio direto ”na marra”, em cima de terra preparada para PC. Tinha muita gente que dizia que nunca iria dar certo no trópico! Daí, a somatória de esforços de produtores empreendedores, fabricantes de insumos e máquinas e seus distribuidores, agrônomos e pesquisadores, criou um arsenal invejável de tecnologia e maquinaria. Nós, do Cerrado, devemos muito ao trampolim que a experiência do Sul nos deu no desenvolvimento do Plantio Direto como sistema e na migração em massa à região do Cerrado de agricultores experientes em plantio direto, principalmente do Rio Grande do Sul, cujas cabeças já tinham a visão da revolução que é o plantio direto. No Cerrado, onde tem Plantio Direto, tem CTG! Mas, aos esforços regionais devemos o desenvolvimento de tecnologias especificamente tropicais. As conquistas tecnológicas que são realidade hoje estão resumidos no box. O grande ímpeto para a pesquisa oficial foi a palestra do presidente da Embrapa, Dr. Alberto Duque Portugal, na abertura do 5º ENPDP em Goiânia, 1996. Isto gerou uma explosão de interesse pelo Plantio Direto, até o ponto de o Dr. José Roberto Peres, Diretor Técnico da Embrapa pronunciar, neste ano ”não ha sentido em fazer mais pesquisa em ambiente convencional”. Hoje, a ”Embrapa Oeste”de Dourados/MS é 100% em plantio direto e existem fortes programas de pesquisa em plantio direto nos demais centros na região do Cerrado e nas principais faculdades de agronomia. Inclusive, Plantio Direto é disciplina no mestrado de Ciências Agrárias lançado em agosto 2000 pela UFU em Uberlândia, nas demais faculdades da região, o plantio direto já está fortemente integrado no ensino. Também temos na região uma serie de Fundações formadas por agricultores. Essas instituições interagem com a pesquisa oficial, multiplicando-a, criando tecnologia localmente adaptada e disseminando informação e novas variedades nas suas regiões de atuação. Na área de difusão, certamente, os esforços da APDC tem surtido efeito. Como membro da FEBRAPDP, a APDC organizou dois eventos nacionais, viabilizou o primeiro ”Study Tour”do BIRD e vem contribuindo ao longo dos anos numa junção de forças que coloca o plantio direto como bandeira única. Isto culminou neste grande esforço nacional, o ”Projeto Plataforma” do CNPq. Além de participar em aulas universitárias, palestras, reuniões de CATs, a APDC já organizou 4 eventos regionais, tem participado no apoio a três projetos pilotos para pequenos agricultores (GO, DF e MG), treinou 140 extensionistas de 7 estados, promoveu 4 encontros regionais, vários cursos de treinamento especializado e participou em quase todos os eventos do gênero na região. A adesão dos serviços de extensão rural do Cerrado é que vai garantir a continuada expansão do plantio direto na região. Mas ainda faltam recursos para a grande demanda que sentimos nessas áreas.

Tecnologias de plantio direto, hoje praticadas no cerrado

Safrinha (milho, sorgo, girassol, milheto, guandu, nabo forrageiro, niger, mamona, trigo, aveia preta e branca, e ouitros em testes);

Aplicação de calcário em superfície;

Plantio direto de milho e arroz em pastagem degradadas de brachiaria;

Aplicação de manejo em pós-colheita;

Mistura de pós-emergentes e dessecante em manejo pré-plantio;

Plantio direto de culturas perenes(café, frutíferas, florestais);

Desmatamento sem queima e apenas 200KG/ha de filer ba linha de soja;

Plantio direto em cana-de-açucar, sem queimar a palha;

Sobressemeadura de milheto, sorgo e gramíneas em soja após maturação fisiológica (ganho de até 3 semanas de chuva);

Subsemeadura de leguminosas forrageiras em milho;

Semeadura de capins em milho em conjunto com a aplicação de N em cobertura;

Plantio direto com tração animal;

Semeadura de milheto ” no pó ”, seguida de soja em nov/dez;

Plantio direto em algodão até 5500kg/ha em caroço;

Feijão em sequeiro com produtividade de 500kg/ha

Evolução dos CATs no Cerrado

O conceito do Clube Amigos da Terra premia os contatos agricultor x agricultor para o desenvolvimento e disseminação do SPD, por intercâmbios dentro de um grande ”pool” de informação nova. Passadas as fases iniciais de adoção e aprimoramento da tecnologia em cada fazenda, como manter a motivação, quando a maioria dos produtores já chegaram a um nível de razoável eficiência? Muitos CATs tem programas de palestras técnicas especializadas, até bimensais, onde os intercâmbios nos debates são intensos. Ou se envolvem em programas de pesquisa aplicada em fazenda, a exemplo dos CATs de Uberaba e Uberlândia em MG e de Rio Verde em GO; fazem até o cálculo em conjunto dos custos de produção. A organização de cursos, dias de campo e eventos são outras atividades da terceira fase de um CAT. Os CATs de Uberlândia/MG e de Rio Verde/GO também tem colaborado estreitamente com os cursos locais de agronomia. Uma coisa que não deu muito certo foi a organização de grupos de compra dentro do CAT, que começa a desvirtuar o caráter não-comercial do clube e afastar o apoio das empresas desfavorecidas. Vendo o futuro, em colaboração com o Embrapa Cerrados, lançamos o protótipo dum Ensaio Regional de Alternativas de Safrinha, visando ser estendido a uma rede de CATs. Com isto iríamos homogeneizar os dados para a tomada da decisão de o que plantar e quando, em safrinha. No campo organizacional, poderíamos seguir o exemplo de Rio Verde que introduziu um programa de Qualidade Total, apontando perdas de colheita como um ganho fácil no sistema. Também existe potencial no modelo Argentino, onde se formam grupos de 12 produtores que reúnem a cada mês, sob orientação de um agrônomo ou economista rural e debatem o desempenho técnico-financeiro da operação de um membro do grupo. O perigo de formar uma elite dentro do CAT seria evitado pela criação de vários, com uma sã competição entre eles, em termos de desempenho. Os clientes de escritórios de assessoria seriam grupos naturais para isso. A APDC vê como uma das suas principais funções nutrir essas atividades e a formação de novos CATs. Hoje temos intercâmbios com uma rede de 27 CATs da região, ativos e em formação, mais fundações e outras organizações afins.

O Futuro do PD no Cerrado

A marcha do Plantio Direto é irreversível, porém devemos prever problemas de ”segunda geração”, desafios, transtornos e novos rumos, para incrementar ainda mais a eficiência. As pesquisas precisam prever futuros problemas e ter soluções prontas, a exemplo do cancro da haste em soja, onde já haviam materiais resistentes, precisando apenas multiplica-los. O Projeto Plataforma Plantio Direto do CNPq/FEBRAPDP está apontando as prioridades dos produtores e vai atuar como estímulo à parcerias para pesquisa dos problemas atuais e futuros. Por exemplo, nas áreas de biotecnologia e biologia do solo estamos vendo apenas a ponta do ”iceberg”. Se mantermos os atuais ganhos de aproximadamente 800.000ha/ano na região do Cerrado, podemos atingir 10 milhões de hectares no Cerrado em apenas 7 anos. Mas, para isso, precisamos o apoio da sociedade, através de políticas de estímulo ao plantio direto. O workshop proposto pelo CNPq para novembro próximo vai utilizar as informações do Projeto Plataforma Plantio Direto e uma avaliação dos impactos de plantio direto como pontos de partida para encorajar essa política a nível nacional.