Outubro Violento e o Fantasma da Erosão (Editorial)


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Publicado em: 01/12/2000

Outubro violento e o fantasma da erosão Os dados meteorológicos do mês de outubro deste ano são impressionantes. A quantidade de chuva que caiu sobre o Rio Grande do Sul foi fantástica, com registro de enchentes e temporais, que causaram devastação em vários locais, urbanos e rurais. A Embrapa Trigo registrou, na região de Passo Fundo, um índice pluviométrico mais de 100% superior à média histórica do mês de outubro.

Além de quebrar a expectativa de uma das melhores safras de culturas de inverno dos últimos anos, as chuvas de outubro e da primeira dezena de novembro trouxeram de volta o fantasma da erosão, felizmente para poucos produtores que, mal orientados, optaram por lavrar, gradear ou escarificar o solo, na esperança de resolver alegados problemas de compactação, pragas, plantas daninhas ou simplesmente para “afroxar” a terra.

Na verdade, o que queremos dizer é que poucas pessoas ou quase ninguém verdadeiramente lembrou sobre o tamanho do desastre para a agricultura do Planalto Gaúcho que teríamos se a grande maioria das nossas lavouras não estivessem sob plantio direto. Nesta região, as raras lavouras que levaram algum tipo de ferro, principalmente grade, são exemplos ainda palpitantes do violento poder das âàguas sobre a terra desprotegida. Para a maioria dos produtores, a erosão é um fantasma que não assusta mais. Porém, talvez porque tenham que se preocupar com outras assombrações, como a ausência de uma política governamental adequada e incentivos reais para o setor, os agricultores esquecem de um passado recente em que conviviam com o drama de ter que preparar o solo na primavera, quando o céu se veste de negro e castiga os imprudentes.

Os benefícios do plantio direto na manutenção e viabilidade das nossas lavouras é inquestionável, mas a dimensão deles não está sendo colocada na tela do computador nem da televisão. Eles vão muito além da porteira da propriedade e tem vastos reflexos econômicos para a sociedade como um todo, que não aparecem, no que se poupa em solos férteis, adubos, sementes, herbicidas, óleo diesel, mão de obra, reparos de estradas e em situações menos claras de não poluição de rios, mananciais e hidrelétricas. Não considerando os danos das enchentes, que eram muito mais rápidas e violentas quando a água escorria de forma inexorável das lavouras desestruturadas.

Nós só contabilizamos o lucro ou o prejuízo obtido com a produção. Os itens acima, contas que a sociedade precisa fazer, são timidamente levantados, como se tivéssemos vergonha dos resultados de nossa ação.

Ninguém quer glórias nem louvações. Apenas a lembrança necessária para que não voltemos à tentação, como muitos fizeram, em várias regiões do país, de utilizar a potência de enormes tratores para passar diversos tipos de instrumentos de ferro na lavoura. Como sempre frisa o engenheiro agrônomo Amando Dalla Rosa, da Cotrisa, de Santo AÂngelo/RS, “ferro não fornece matéria orgânica para o solo, e o que nós precisamos é palha e matéria orgânica”.

Gilberto Borges Editor