4º Encontro Latino Americano
Plantio direto nas montanhas viabiliza pequenas propriedades
A importância vital do sistema plantio direto para as pequenas propriedades das encostas basálticas do Vale do Rio Uruguai, que divide os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ficou demonstrada durante a realização do 4º Encontro Latino-Americano Sobre Plantio Direto na Pequena Propriedade, realizado em Erechim/RS, de 6 a 9 de novembro. Através de palestras teóricas e demonstrações a nível de propriedade, os participantes do evento puderam ver na prática como o plantio direto proporciona, entre outros itens, uma economia de tempo e mão de obra, que possibilita o direcionamento do produtor para outras atividades, como criação de suínos e aves, produção de leite, fruticultura e reflorestamento, o que acaba gerando rendas extras que ajudam a viabilizar a atividade agrícola. Quem ainda não conhecia a agricultura da região ficou impressionado com a coragem dos produtores, como Pedro Lise e sua família, de um lindo lugar chamado Montanha Alegre, que plantam em áreas com pendentes de até 65%. A família Lise foi uma das que receberam os participantes do 4º Encontro, para falar sobre como o plantio direto ajudou a melhorar o desempenho de suas pequenas propriedades.
Sucesso
A presença de público, entre pequenos produtores, técnicos e estudantes, que chegou a ultrapassar 1500 pessoas no segundo dia, demonstrou o sucesso da promoção da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e da Confederação de Associações Americanas para uma Agropecuária Sustentável, realizada de maneira eficiente pela Emater, Universidade Regional Integrada de Erechim, Embrapa Trigo e Cotrel, com apoio da Prefeitura Municipal de Erechim, Fepagro, CREA e Ministério da Agricultura. Na cerimônia de abertura do 4º Encontro Latino-Americano, o Governador Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, destacou a importância de se produzir alimentos em maior quantidade e diversidade, sem agredir o ambiente. Ele afirmou que o Governo do Estado apoia o trabalho da Emater, que busca, através do plantio direto, um melhor aproveitamento da terra e da pequena propriedade, segmento responsável pelo maior percentual da produção de alimentos consumidos pela população. O produtor Herbert Bartz, de Rolândia/PR, presidente da Federação Brasileira, no seu discurso, fez uma afirmação que agradou a todos ao dizer que, há dez anos, não aplica inseticidas na sua lavoura de soja. ”Uma das vantagens do plantio direto é que podemos reduzir drasticamente a utilização de agrotóxicos, com a rotação de culturas, o que resulta em menor custo econômico e ambiental”, disse ele. Esse aspecto foi marcante no discurso do Secretário Estadual de Agricultura do Rio Grande do Sul José Hermetto Hoffmann, que enfatizou o desafio de se buscar uma massificação da utilização do plantio direto sem necessariamente significar uma maior aplicação de herbicidas. Para Benamí Bacaltchuck, chefe geral da Embrapa Trigo, que representava o Ministério da Agricultura, o plantio direto é uma tecnologia que foi desenvolvida para permitir a sustentabilidade do processo produtivo. Segundo ele, mesmo sendo um novo paradigma, o plantio direto já é uma realidade. Durante o 4º Encontro, foram discutidos aspectos técnicos e sociais do plantio direto na pequena propriedade, com enfoques em manejo de solo, equipamentos agrícolas e racionalização no uso e manejo de agroquímicos. Segundo Patrick Wall, do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, de Santa Cruz, Bolívia, um dos palestrantes que abriram o evento, a cobertura vegetal e a rotação de culturas são requisitos fundamentais para o sucesso do plantio direto. Os participantes do Encontro assistiam palestras pela parte da manhã, no ginásio de esportes e auditório da Universidade de Erechim, e à tarde, divididos em dois grupos, visitavam alternadamente as pequenas propriedades dos produtores Lodi Munari, que faz plantio direto em 12 ha desde 1995, e Pedro Lise, que utiliza 10 ha e faz semeadura direta desde 1997.
Altamir Maciel, da Cotrel, explica as vantagens do plantio direto(acima). Pedro Lise (ao lado):”O plantio direto proporciona sobra de tempo para outros serviços”
A Montanha Alegre
”Na lavoura, fazemos em 2 ou 3 horas o que antes levávamos o dia inteiro”. As respostas do produtor Pedro Lise são curtas e objetivas, como essa com a qual ele respondeu à pergunta sobre quais as vantagens que via no plantio direto. A sobra de tempo para cuidar da suinocultura e do reflorestamento foi um dos itens básicos que o novo sistema proporcionou à sua família, melhorando o desempenho econômico da propriedade de 33 ha, situada no alto de um local denominado Montanha Alegre, no município de Erechim, onde eles plantam milho e feijão em áreas com declividade de até 65%, praticamente inimaginável para quem nunca viu algo semelhante. ”Em 97, quando começamos, nossa produtividade na cultura de milho era de 80s/ha. Hoje, colhemos na faixa entre 130-140s/ha.” Com a semeadura direta, que reduz a necessidade de mão de obra na lavoura e tem aumentado a produtividade do milho, eles viram vantagens no sistema e, agora, afirmam que nunca mais vão fazer de outra forma. A produção da lavoura de milho é utilizada toda para alimentar os 247 suínos que a propriedade produz todo ano e que são entregues para o frigorífico da Cotrel, a cooperativa de Erechim. ”Esse mecanismo, em que a terminação de suínos é bonificada, com um custo reduzido de ração, porque o milho é produzido na propriedade, proporciona uma receita bruta de R$2.000,00/mês.” Estas informações e outras foram apresentadas para os participantes do 4º Encontro Latino Americano, que visitaram a propriedade da família Lise, pelo técnico agrícola Altamir Antunes Maciel, da Cotrel, que fazia parte da comissão técnica do evento. Maciel trabalha há seis anos na Cooperativa, tendo sido contratado a partir de sua experiência de campo na região oeste do Paraná, justamente para ajudar na difusão do plantio direto entre os pequenos proprietários das encostas montanhosas do Alto Uruguai. ”Quando começamos, a Cotrel havia comprado cerca de 60 semeadoras Gralha Azul, para tração animal”, relatou ele num intervalo das apresentações para o público. ” Nesta região, elas não tiveram bom desempenho porque o sistema deles era para tração com cavalos e aqui, além das diferenças de inclinação do terreno, o pessoal utiliza mais as juntas de bois. Começamos a ouvir os produtores, técnicos e fabricantes e as adaptações foram sendo sugeridas e testadas em dias de campo.” Hoje, segundo Altamir Maciel, cerca de 90% das lavouras familiares associadas à Cooperativa de Erechim fazem semeadura direta, principalmente pela liberação de mão de obra que o sistema proporciona. ”No meu entendimento, o plantio direto viabiliza a pequena propriedade, principalmente por esse fato, que implica na disponibilidade de tempo para atender outras atividades, como criação de suínos e aves, produção de leite, fruticultura, reflorestamento e opções não usuais, como o cultivo de alcachofra, que a Cotrel incentiva e ajuda a manter um rendimento mensal”.
Dificuldades
Naturalmente que o processo apresenta suas dificuldades. ”A rotação de cultura ainda não está bem definida nessas áreas, principalmente porque o produtor tem uma necessidade vital de produzir milho”, disse o engenheiro agrônomo Nilson Antoniazzi, da Cotrel, que também estava na recepção a campo para os participantes do 4º Encontro. Segundo ele, os problemas maiores ainda não apareceram, mas é certo que, se a monocultura de verão continuar, os produtores enfrentarão problemas de doenças, pragas e uma possível queda na produtividade. As análises de solo das lavouras da região tem mostrado uma evolução positiva dos níveis de fósforo, potássio e no teor de matéria orgânica. Mas, alguns produtores tem lavrado ou gradeado o solo, em função do aparecimento de pragas, plantas daninhas ou de áreas compactadas. Para os técnicos da Cotrel, o segredo do plantio direto são as coberturas pois, se não tem palha, não funciona, não adiante dessecar o mato expontâneo, porque isso não é fazer plantio direto. ”Alguns produtores estão lavrando para adequação, disse o técnico Altamir Maciel. Eles não plantam coberturas e disso decorre os problemas de compactação, baixa fertilidade, não ocorre retenção de água, a vida biológica e orgânica não aparece, não existe incremento da produção e o sistema não vinga.” Um dos problemas enfrentados na região. É a falta de mão de obra, pois os jovens estão abandonando o campo. Esse fato, constatado em todas as pesquisas, também direciona para que o plantio direto cresça e se viabilize, pois, como já se disse, ele exige menos mão de obra.