Plantio Direto Viabiliza a Pequena Propriedade — Outubro Violento e o Fantasma da Erosão (Trabalho Vencedor 2º Concurso FEBRAPDP, Célio Haverroth Rio do Campo/SC)


Autores:
Publicado em: 01/12/2000

Outubro violento e o fantasma da erosão

Eng.-Agr. Célio Haverroth

Rio do Campo-SC- Fone: (47)564 1465/564 1245

Trabalho vencedor do 2º Concurso de Tecnologia de Plantio Direto - Região Sul - FEBRAPDP e Grupo Plantio Direto

Introdução

O município de Rio do Campo, localizado na microrregião do Alto Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, tem a sua economia baseada no setor primário, sendo que a estrutura fundiária é constituída de 876 estabelecimentos, dos quais 81% são minifúndios com área média de 19 hectares e área agricultável variando de 5 a 10 hectares, com predominância de mão-de-obra familiar. A estrutura agrária caracterizada por minifúndios favorece o desenvolvimento de lavouras de ciclo curto (feijão, fumo, hortaliças, milho), da pecuária leiteira e da criação de pequenos animais. Em termos de participação no valor bruto de produção, os produtos mais importantes do município são o fumo, o arroz irrigado, o feijão e o milho. A presença da lavoura do fumo se deve ao fato das condições de clima e solo existentes serem propícias ao seu desenvolvimento.

Transplante de mudas de fumo, 20 dias após a dessecação.

O uso de sistemas de preparo do solo do tipo convencional, que envolve um grande número de operações de preparo e resulta numa pulverização excessiva do solo, é, sem sombra de dúvida, a principal causa da degradação dos solos e dos mananciais de água. Isso aconteceu, segundo VEIGA (1994) porque a superfície do solo fica descoberta, condição mais favorável para que ocorra erosão. A erosão também é um dos fatores que contribuem para a diminuição da fertilidade do solo, já que é removida a camada superficial, geralmente a de maior fertilidade. A adoção de sistemas conservacionistas de preparo do solo, como o plantio direto, tem sido indicados como uma necessidade para a recuperação da fertilidade e estrutura do solo e viabilização da exploração agrícola e manutenção do homem no campo. De acordo com CAMPOS & FIORIN (1998), no início do sistema de plantio direto é importante priorizar a cobertura do solo, principalmente se as áreas apresentem um certo grau de degradação. Para isto, as culturas de milho e das aveias, integradas de forma planejada no sistema de rotação, proporcionam alto potencial de produção de fitomassa e de elevada relação C/N, garantido a manutenção da cobertura morta do solo, dentro da quantidade mínima preconizada. CAMPOS (1998), afirma ainda que a rotação de culturas é fundamental como base de sustentação do sistema de plantio direto e que esta rotação promova na superfície do solo a manutenção permanente de uma quantidade mínima de palhada. SIILVA (1998), aponta a rotação de culturas como uma prática cultural para controle de pragas e RÜEDEL (1995), apresenta dados que demonstram a eficiência do plantio direto aliado à rotação de culturas no controle de plantas daninhas. O objetivo deste trabalho é o de avaliar o sistema de plantio direto, alicerçado numa eficiente cobertura vegetal e rotação de culturas, como um sistema de cultivo viável a nível de propriedade familiar, visando a rentabilidade da atividade agrícola e manutenção do homem no campo, desfrutando de um padrão de vida adequado.

Metodologia

O trabalho foi conduzido numa propriedade familiar típica da região, com área total de 25 hectares, sendo que 7,0 hectares são cultivados com culturas anuais (fumo, milho e olerícolas), 4 hectares são destinadas à pastagem, 3 hectares com reflorestamento e o restante é área de preservação permanente. A mão-de-obra disponível na propriedade é de duas pessoas adultas, sendo que foi contratado serviços de terceiros apenas para aplicações mecânicas de agrotóxicos. O maquinário disponível resume-se a um microtrator, com carreta, máquina adaptada ao plantio direto e uma haste escarificadora, além de uma máquina costal de aplicação de agrotóxicos e uma plantadeira de plantio direto a tração animal.

Quadro 1:Custos de Produção do sistema de rotação de milho e fumo, em U$/ha.

Convencional

Plantio Direto

Serviço/Insumo

Unid.

U$

Milho

Fumo

Milho

Fumo

Unid

Qtde

U$

Qtde

U$

Qtde

U$

Qtde

U$

Total

Sem. Aveia

kg

0,22

---

60,00

13,20

100,00

22,00

Sem. ervilhaca

Kg

0,57

---

40,00

22,86

---

Incorp.semente

h/tr

17,00

---

1,00

17,00

1,00

17,00

Aração

h/tr

17,00

3,00

51,00

3,00

51,00

---

Gradagem

h/tr

17,00

2,00

34,00

2,00

34,00

---

Sulcamento

h/tr

17,00

---

1,00

17,00

---

Adubação

h/dia

11,00

---

1,00

11,00

---

Aleiramento

h/mtr

2,29

---

10,00

22,86

---

Plantio

h/dia

11,00

---

3,00

33,00

---

3,00

33,00

Dessecação

h/tr

17,00

---

1,00

17,00

1,00

17,00

Roundup

1

5,86

---

1,00

5,86

2,00

11,72

Aplic. herbecida

h/tr

17,00

1,00

17,00

1,00

17,00

1,00

17,00

1,00

17,00

Gamit

1

27,43

---

0,80

21,94

---

0,20

5,49

Primestra

1

5,12

7,00

35,84

---

1,75

8,96

---

Aplic. incseticida

h/dia

11,00

1,00

11,00

1,00

11,00

1,00

11,00

1,00

11,00

Confidor

Kg

685,71

---

0,36

246,86

---

0,36

246,86

Cultivação

h/mtr

5,00

10,00

50,00

20,00

100,00

---

Match

1

25,78

0,30

7,73

---

0,30

7,73

---

Promet

1

32,43

0,30

9,73

---

0,30

9,73

---

Adubo 7-28-14

Kg

0,26

200,00

51,43

---

200,00

51,43

---

Adubo 10-18-20

Kg

0,25

---

400,00

100,00

---

400,00

100,00

Uréia

Kg

0,18

200,00

36,57

120,00

21,94

200,00

36,57

120,00

21,94

Salitre

Kg

0,29

---

150,00

42,86

---

0,00

150,00

42,86

Aplic.cobertura

Kg/dia

11,00

1,00

11,00

3,00

33,00

1,00

11,00

3,00

33,00

TOTAL

---

315,30

---

763,46

---

229,34

---

578,86

As lavouras estão implantadas num cambissolo pouco profundo que, na análise de laboratório realizada em 1997, apresentava pH (SMP) = 4,7; P=1,8 mg/L; K = 44 mg/L; M.O =2,4%; Al trocável = 8,6 cmolc/L; Ca = 1,1 cmolc/L e Mg = 0,7 cmolc/L e 36% de argila. A estrutura do solo estava comprometida no início da adoção do sistema. No plantio da safra 97/98, foi utilizada a adubação de acordo com a indicação da Rede Oficial de Laboratórios de Solo. A safra 98/99, que será analisada neste trabalho, é a sexta safra da seqüência em que a propriedade adota o sistema de plantio direto. Optou-se por um sistema de rotação com duas culturas comerciais de verão (fumo e milho) e cobertura de inverno que alternou aveia antecedendo ao fumo e aveia + ervilhaca antecedendo ao milho. A área de plantio foi de 3,0 hectares de fumo e 3,0 hectares de milho a cada ano. A semeadura da cobertura vegetal de inverno é realizada nos meses de março e abril,utilizando-se de 100 kg/ha de sementes de aveia preta (em cultivo solteiro) e 60 kg/ha de sementes de aveia e 40 kg/ha de sementes de ervilhaca (cultivo consorciado). A semeadura é feita a lanço e a semente é incorporada com grade de discos, enterrada levemente ao solo. O plantio do fumo tipo virgínia é realizado no mês de setembro e a semeadura do milho no mês de outubro. Na adubação de plantio foram aplicados 400 kg/ha da fórmula comercial 10-18-20 e, na cobertura, 120 kg/ha de uréia e 150 kg/ha de salitre do chile. Para o plantio do fumo, realiza-se a dessecação da aveia, utilizando-se 2,0 litros por hectare do herbicida Roundup S.A.q.C. (Glifosate) e a adubação, utilizando-se plantadeira de plantio direto adaptada ao microtrator. O transplante das mudas é realizado cerca de 20 dias após a dessecação. O controle de plantas daninhas é feito apenas junto ao sulco de plantio, com jato dirigido, antes do transplante, utilizando-se do herbicida gamit (Fenoxan), na dose de 0,8 litros por hectare, considerando-se apenas a área onde o produto é efetivamente aplicado (cerca de 20%da área total). A densidade é de 16.000 plantas por hectare. O controle de pragas como a broca verde (Empoasca kraemeri) e pulgão (Myzus persicae)é feito com a aplicação, em jato dirigido, de 360 g/ha do produto comercial Confidor 700 GRDA(Imidacloprid). Para o plantio do milho faz-se a dessecação, utilizando-se 1,0 litro de Roundup S.A.q.C (Glifosate) por hectare, no final do ciclo das plantas de cobertura. A semeadura, realizada com a plantadeira adaptada ao mi-crotrator, ocorre logo após a dessecação. Utiliza-se uma média de 50.000 plantas por hectare, das cultivares Ag 519, Ag 122 e C SOS. Conduziu-se a lavoura sem mato competição, aplicando-se o herbicida Primestra SC (Atrazine 200 + Metolachlor 300) em pós-emergência precoce (até 10 dias após o plantio) na dosagem de 7 l/ha, considerando apenas uma faixa de cerca de 20 cm na linha de plantio, o que corresponde a 25% da área total. A adubação utilizada foi 200 kg/ha da fórmula comercial 7-28-14 no plantio e 200 kg/ha de uréia em cobertura, em duas aplicações, sendo a primeira na emissão da quarta folha e a segunda na emissão da oitava folha. Para o controle de pragas faz-se o tratamento de sementes com o produto Promet 400 CS (Furathiocarb), na dose de 1,6 kg/100 kg de sementes. A lagarta do cartucho (Spodoptera frugiperda) é monitorada, fazendo-se o controle quando observadas 15% de plantas raspadas,utilizando-se o inseticida Match CE (Lufenuron).

Resultados e discussão

A produtividade da safra 98/99 foi de 2.433 kg/ha para a cultura do fumo e 4.900 kg/ha para a cultura do milho. Na cultura do fumo esta produtividade foi 40% superior à média da região, cuja produtividade foi de 1.728 kg/ha. Além disso, o preço médio recebido pelo produto foi de US$ 1,25/kg, enquanto o preço médio recebido na região foi de US$ 1,04/kg, o que demonstra uma qualidade muito superior do fumo produzido na propriedade analisada. No quadro 1 são apresentados ainda os dados dos custos de produção, sensivelmente inferiores ao sistema convencional. A ervilhaca (Vicia sativa) apresentou uma grande capacidade de fixação de Nitrogênio atmosférico, diminuindo os custos com nitrogênio comercial, e produção de massa verde. A aveia preta (Avena strigosa) apresentou uma alta produção de massa verde e contribuiu na recuperação física do solo, em função de possuir um sistema radicular muito agressivo e abundante.

Quadro 2:Resultados abtidos numa área de seis hectares, explorando metade da área com milho e metade com fumo (em U$).

Resultados

Plantio Convencional

Plantio direto

Fumo

Milho

Fumo

Milho

Renda bruta

5.391,36

508,11

9.123,75

1.399,99

Custos variáveis

2.290,38

945,90

1.736,58

688,02

Margem bruta

3.100,98

-437,79

7.387,17

711,97

Total margem bruta

2.663,19

8.099,14

A recuperação das características físicas do solo é visível, garantido o enraizamento das plantas e infiltração e armazenamento da água. A produtividade do milho foi de 4.900 kg/ha, o que é muito superior à média da região,que está em 2.223 kg/ha, de acordo com o IBGE. O quadro 1 demonstra que o custo de produção do plantio direto, considerando apenas do preparo do solo aos tratos culturais, foi 31 % inferior ao plantio convencional, enquanto no milho o custo foi 37,4% inferior ao sistema convencional. Esta diminuição nos custos deve-se ao menor uso de herbicidas e ao menor número de operações de preparo do solo e cultivação, observados no sistema de plantio direto. De acordo com os dados apresentados no quadro 2, os resultados financeiros, considerando as seis hectares exploradas na propriedade analisada, teve uma renda de US$5.435,95 (cinco mil e quatrocentos e trinta e cinco dólares e noventa e cinco centos) superior a uma propriedade equivalente, que adota o sistema convencional. Isto equivale a uma diferença de 5,82 salários mínimos mensais a mais na propriedade analisada.

Conclusões

1. A produtividade do fumo e do milho é beneficiada pela estruturação do solo proporcionada pelo manejo em plantio direto; 2. A rotação de culturas é uma prática eficiente de controle de plantas daninhas, pragas e doenças em culturas anuais. 3. A cobertura do solo com restos de culturas e fitomassa produzida pelas plantas de inverno especialmente cultivadas para esta finalidade é uma prática eficiente de controle da erosão do solo.

Bibliografia

FUNDACEP FECOTRIGO. A cultura do milho no plantio direto. Cruz Alta,RS, 1998. SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento. Manual de uso, manejo e conservação do solo e da água: Projeto de recuperação, conservação e manejo dos recursos naturais em microbacias hidrográficas. 2.ed.ver.,atual., e ampl. Florianópolis: EPAGRI, 1994. 384p. RUEDELL, José. Plantio Direto na Região de Cruz Alta. Cruz Alta, R: Fundacep, 1995.134p. INSTITUTO ICEPA. Síntese anual da agricultura de Santa Catarina. Florianópolis, SC, 1999. SOUZA CRUZ. Cultura do Fumo. Manejo Integrado de Pragas e Doenças.Rio de Janeiro, RJ, 1998. ROLAS. Recomendações de adubação e de calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. 3 ed. Passo Fundo, SBCS-Núcleo Regional Sul, 1994. 224p.