A Intimidade do Processo — Porque Não Lavrar nem Gradear o Solo? (V Conferência Anual da Revista)


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Publicado em: 01/12/2000

A intimidade do processo

Porque não lavrar nem gradear o solo?

Programada para comemorar os 10 anos da publicação, a V Conferência Anual da Revista Plantio Direto, realizada nos dias 17 e 18 de outubro, no auditório da Embrapa Trigo, em Passo Fundo, significou um avanço no conhecimento sobre o sistema e as suas diversas interações, reforçando a posição de produtores e técnicos que optam por manter o solo sem revolvimento, pelas vantagens que o método proporciona no decorrer do tempo, aumentando o nível de matéria orgânica, protegendo o solo, melhorando a produtividade e trazendo de volta a biodiversidade, com implicações agronômicas e ambientais bem definidas. As palestras apresentadas durante a V Conferência trouxeram dados que serviram para estimular o debate sobre o refinamento das informações que dizem respeito à intimidade do processo que ocorre no solo não lavrado nem gradeado e sobre o qual são depositadas toneladas de restos culturais ao longo dos anos. Embora tenham sido apresentadas palestras sobre outros temas importantes, como potencial da internet em termos de ferramenta na busca de tecnologia para a agricultura, perspectivas de clima e mercado, agricultura de precisão e outros, aquelas apresentações que mostraram dados pontuais sobre a questão da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes, acidez e calagem, compactação e produtividade, trouxeram luz sobre temas polêmicos e que podem ser uma resposta mais definitiva sobre as dúvidas que levaram muitos produtores a escarificar, lavrar ou gradear o solo, após alguns anos sob plantio direto.

Grade e Matéria Orgânica

”A partir dos estudos que estamos concluindo, a passagem de uma grade leve sobre o solo de plantio direto, pode significar a perda de uma poupança de vários anos em termos de matéria orgânica”, afirmou João Carlos de Moraes Sá-Juca, da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR, que palestrou no primeiro dia da V Conferência. Segundo ele, o maior acúmulo de matéria orgânica, e o horizonte no qual acontecem os principais eventos em termos de nutrição das plantas, estão localizados na faixa de 0 a 10 cm, o que significa que a ação de uma grade, por mais leve e fechada que esteja, será mais danosa do que outro instrumento, porque estará agindo justamente sobre os macro agregados, localizados nessa pequena camada fértil, que dão sustentação à matéria orgânica e ao complexo que seqüestra o carbono e impede a emissão de CO2 para a atmosfera.

Esquema ilustrado da perda de MOS

”O não revolvimento do solo, associado ao retorno de resíduos culturais, estimula a formação de macro agregados, resultando na proteção física da matéria orgânica do solo, através dos agentes de ligação, os polissacarídios.” Segundo o pesquisador da UEPG, a matéria orgânica possui atributos ligados à fertilidade do solo e o aumento da palhada e da matéria orgânica, com vários anos sob plantio direto, provoca um aumento da carga negativa na superfície dos colóides, o que resulta numa maior capacidade de retenção de cátions. Isso tudo promove uma maior CTC, maior produção de fitomassa e maior ciclagem de nutrientes, que são aspectos positivos no desempenho da lavoura, no decorrer das safras. No final de sua apresentação, perguntado sobre o que poderia significar a passagem de uma grade leve sobre o solo com plantio direto, para melhorar a germinação da aveia semeada a lanço, por exemplo, Juca afirmou que, após todos os estudos realizados, ele não tem dúvida de que isso significaria a queima de uma poupança realizada ao longo dos anos. Para ele, a passagem da grade, justamente na superfície onde a matéria orgânica está mais concentrada, provoca um rompimento de estruturas protetoras, o que permite a oxidação da matéria orgânica e a perda do carbono, através da gás carbônico emitido para a atmosfera.

Problemas e soluções em Plantio Direto

”Para se fazer entender, você precisa repetir uma mesma idéia até cansar, por mais óbvia que ela seja!” A afirmação, transcrita de um artigo do jornalista Joelmir Betting, foi utilizada pelo engenheiro agrônomo Flávio Danilo Haas, da Monsanto, durante sua apresentação na V Conferência Anual da Revista Plantio Direto, quando abordou a questão ”Problemas e Soluções em Plantio Direto”. Ele se disse impressionado com o número de produtores que ainda confundem plantio sem aração/mobilização do solo com Sistema de Plantio Direto na Palha, que envolve um conjunto de práticas e estratégias de manejo indispensáveis para que se tenha êxito na lavoura. ”Existe um problema maior de confusão conceitual sobre o que seja o plantio direto”, afirmou o engenheiro agrônomo da Monsanto do Rio Grande do Sul. Flávio Haas fez uma abordagem dos principais problemas apontados por produtores e técnicos que conduzem lavouras sob plantio direto e que tem sido também apontados como motivos para um retorno ao preparo convencional. Para as situações citadas, ele apontou soluções, todas respaldadas em casos reais, vivenciados por produtores que enfrentam os problemas comuns a todos, e que ultrapassaram os desafios, sem retroceder. A resistência natural em adotar o sistema, a inconstância do clima e a descapitalização do produtor foram apontados pelo palestrante como fatores externos ao sistema, mas que causam impacto sobre ele. ”Na verdade, afirmou Haas, o sucesso ou o insucesso da lavoura tendem a se definir nos fatores internos, aqueles ligados ao gerenciamento do sistema, que envolvem desde manejo da fertilidade, manejo de plantas daninhas, passando por rotação de culturas, até itens como velocidade de plantio e excesso de calagem, entre outros.” O excesso de calagem tem sido um grave erro pois, com a herança teórica do preparo convencional, onde se utilizavam grandes quantidades de calcário por ha, continuamos com a crença de que o calcário, com disponibilidade de financiamento para compra, é a solução milagrosa para as baixas produtividades. Sintetizando, Flávio Haas disse que é preciso aproveitar todo o manancial de informações que a pesquisa nos coloca à disposição, desde previsões climáticas até tecnologias e manejos que visam maximizar a rentabilidade no negócio agrícola. É preciso planejar a cultura, variedades, insumos, épocas de plantio, etc. São medidas simples mas que podem significar o divisor de água entre o fracasso e o sucesso. ”Para cada problema existe uma ou várias soluções, que são verdadeiros desafios para a nossa criatividade e capacidade de superarmos os obstáculos.”

Fundamentos

”Para a continuidade eficiente do sistema plantio direto é indispensável que o esquema de rotação de culturas promova a manutenção permanente de uma quantidade mínima de 6 t de palha/ha/ano na superfície do solo.”A afirmação é do pesquisador Rainoldo Kochhann, da Embrapa Trigo, de Passo Fundo, que abordou os ”Fundamentos para a manutenção do plantio direto”, durante a V Conferência Anual da Revista Plantio Direto. Os pesquisadores da instituição estão preocupados com as contestações ao sistema plantio direto por parte de agricultores e técnicos, em função das dificuldades que tem aparecido nas últimas safras e que são apresentadas como razões para escarificar, lavrar e/ou gradear o solo. Em função desse quadro, um grupo de pesquisadores da Embrapa Trigo tem realizado trabalhos para medir a campo o grau verdadeiro das dificuldades citadas e o que tem significado a solução radical de voltar a mobilizar o solo. A síntese desse trabalho e dos resultados obtidos até agora já estão sendo levados ao público interessado. ”As pesquisas feitas em várias situações, durante vários anos, não sinalizam nenhum motivo real para que o produtor volte a preparar o solo”, afirmou Kochhann, durante sua apresentação. Segundo ele, um dos aspectos básicos das dificuldades é que o plantio direto utilizado não tem sido conduzido dentro das recomendações mais eficientes, da pesquisa e da extensão. ”A ausência de preparo do solo não garante o sucesso do sistema plantio direto”, enfatizou o pesquisador da Embrapa Trigo. Segundo ele, o sistema exige a adoção de outros fundamentos básicos, como rotação de culturas, que é fundamental para a continuidade do sistema, pois ela vai influenciar na solução dos problemas de pragas, doenças e plantas daninhas, resultando em menores custos de produção, maior produtividade e rendimento econômico, além de um menor impacto ambiental. Para maximizar as vantagens econômicas do sistema de rotação, que inclui aveia preta/soja, no primeiro ano; trigo/soja, no segundo ano e ervilhaca/milho, no terceiro ano, é conveniente que a propriedade agrícola seja dividida em três glebas, de modo que no outono-inverno cada gleba receba uma espécie( trigo, aveia, leguminosa) e na primavera-verão as glebas que receberam trigo e aveia sejam cultivadas com soja, e a gleba que foi cultivada com leguminosa seja cultivada com milho. Para Rainoldo Kochhann, um dos problemas mais citados pelos produtores é o fenômeno denominado encrostamento superficial, normalmente chamado de compactação. Segundo ele, a cobertura vegetal permanente do solo, seja por culturas vivas, seja por restos culturais, associadas à redução da intensidade de mobilização do solo, constituem as técnicas mais eficazes para solucionar e prevenir o problema da compactação superficial.

Ele finalizou sua apresentação reforçando o fato de que o plantio direto é um sistema extremamente dinâmico, estando em constante evolução e, por isso, a compreensão dos processos a ele relacionados nem sempre é fácil. A introdução de novos conceitos e tecnologias tem sido de uma freqüência incomparável em outros sistemas e isso também exige uma assistência técnica treinada, atualizada e atuante junto ao usuário, transferindo conhecimentos e auxiliando-o na tomada de decisões