Phyllophaga triticophaga — Uma Nova Espécie de Coró (Salvadori Embrapa Trigo)


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Publicado em: 01/12/2000

Phyllophaga triticophaga: uma nova espécie de coró

J.R. Salvadori

Doutor em Entomologia, pesquisador da Embrapa Trigo

Passo Fundo, RS. E-mail: jrsalva@cnpt.embrapa.br

Coró é a denominação popular para a larva de alguns besouros conhecidos por escaravelhos. Esse grupo de besouros é muito numeroso em espécies e diversificado em forma, tamanho e coloração (Figura 1). Também é diversificado o hábito alimentar de suas larvas (corós). Existem espécies fitófagas (comedoras de vegetais), principalmente de raízes (rizófagas), espécies saprófagas que consomem matéria orgânica em decomposição (restos vegetais, fezes, cadáveres de animais, madeira podre, humus, palha etc.) e, ainda, espécies de hábitos facultativos (fitófagos e saprógafos).

Figura 1

Figura 2

Os registros da ocorrência de corós rizófagos na cultura de trigo, no Brasil, remontam a meados deste século. O coró-das-pastagens (Diloboderus abderus) é considerado praga de trigo, no Rio Grande do Sul, na Argentina e no Uruguai, há muitos anos. Em 1982, D.N. Gassen (Embrapa Trigo) constatou outra espécie de coró (Phytalus sanctipauli) causando severos danos em lavouras de trigo, de cevada, de milho e de soja no planalto gaúcho. Nos últimos quinze a vinte anos, os corós cresceram em importância como pragas agrícolas nas culturas graníferas brasileiras. Isso aconteceu paralelamente à substituição da cobertura vegetal natural por plantas cultivadas e à crescente adoção de métodos de plantio sem o revolvimento de solo, como o sistema plantio direto. A partir de 1988, em Passo Fundo e em diversos municípios do norte do Rio Grande do Sul, constatou-se a predominância nas lavouras de trigo de uma espécie de coró de ciclo biológico com duração de dois anos, diferente, portanto, das espécies até então já citadas, com ciclo de vida anual. Inicialmente, a espécie foi chamada de P. sanctipauli, e, mais tarde, Phyllophaga sp. quando o especialista em identificação e classificação desse grupo de insetos, M. A. Morón (Instituto de Ecologia, México), concluiu que se tratava de outra espécie. Em 1998, em trabalho publicado na revista norte-americana The Coleopterists Bulletin, por M. A. Morón e J. R. Salvadori, a espécie em questão foi descrita como uma nova espécie e passou a ser denominada cientificamente de Phyllophaga triticophaga Morón & Salvadori, 1998 (Figura 2). A base para essa descrição foram insetos coletados nos municípios de Coxilha e de Erebango, RS, embora a espécie esteja presente em toda a região do planalto sul-rio-grandense. Etimologicamente, o nome deriva do latim triticum = trigo e do grego phagos = comer, isto é, ”comedor de trigo”, em alusão ao fato de originalmente as larvas terem sido encontradas comendo raízes de trigo. No entanto, trata-se de espécie de hábitos polífagos, podendo ser encontrada em raízes de diversas plantas, cultivadas ou não, e que causa danos em culturas de inverno (trigo, cevada, aveia, triticale, centeio, ervilhaca etc.) e de verão (milho, soja etc.). Além da identificação da espécie, durante os últimos anos muitos estudos sobre biologia, comportamento, níveis de danos, inimigos naturais e controle químico e biológico foram realizados. Técnicos e agricultores têm colaborado nesses trabalhos, seja cedendo áreas infestadas e equipamentos para realização de pesquisas, testes etc., seja na troca de experiência e de informações. Até o momento, apesar de toda a dificuldade de se trabalhar com pragas subterrâneas e de ciclo biológico tão longo, já se acumularam conhecimentos que permitem o manejo dessa espécie chamada coró-do-trigo. Muitos desafios, entretanto, ainda estão por ser vencidos, especialmente para se avançar na direção de métodos de controle mais econômicos e ambientalmente mais aceitáveis.