Como anda o plantio direto no Brasil
Márcio Scaléa
Engenheiro Agrônomo da Monsanto - Uberaba-MG
E-mail: marcio.j.scalea@monsanto.com
Estatísticas e boatos
Esta pergunta tem sido feita com relativa freqüência nos últimos tempos e ela se justifica, por um lado, pela crônica falta de informações estatísticas confiáveis, tornando difícil qualquer tentativa de avaliação do crescimento (ou decréscimo) da área sob plantio direto no Brasil, principalmente no Cerrado. Justifica-se também, por outro lado, pelo constante aparecimento de boatos alarmantes sobre problemas com o plantio direto, que se disseminam com a rapidez de um raio, criando um clima de incerteza, principalmente naqueles agricultores e técnicos ainda não muito firmes nas suas convicções sobre o sistema. E como anda, então, o plantio direto ? Anda bem, pois a área sob plantio direto tem crescido sem parar, em termos gerais, embora em certas regiões tenha taxas de crescimento menores ou até mesmo negativas, face a situações que tentaremos analisar. O plantio direto, como sistema agrícola, repousa sobre alguns fundamentos que são diretamente responsáveis pelo sucesso ou fracasso obtidos no decorrer da sua adoção.
Fundamentos do plantio direto
Primeiro fundamento: eliminar as operações de preparo do solo.
O fato de se parar de preparar o solo no momento certo é fundamental para o sucesso do sistema. Muitas vezes uma última escarificação pode ser aconselhável para romper camadas compactadas. Romper estas camadas compactadas pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso na adoção do plantio direto. Infelizmente, muitos agricultores aderiram ao plantio direto há 3 ou 4 anos, sem se preocupar se suas terras tinham perfeitas condições de plantio ou não. Hoje enfrentam problemas que estiveram latentes durante esta fase de transição e recorrem novamente a operações de preparo para superar os problemas herdados pelo plantio direto. Estarão eles voltando ao plantio convencional ? Não, eles passam pelo convencional e retornam ao direto novamente.
Segundo fundamento: usar herbicidas dessecantes
Estes produtos substituem uma das finalidades das gradagens, que era a de eliminar o mato, e sua eficiência nesta tarefa depende da escolha correta do produto, do uso da dose certa para as plantas daninhas presentes, da aplicação bem conduzida quanto ao tipo de bico, volume, pressão, velocidade etc. E principalmente da aplicação no momento certo, sobre plantas livres de estresse de seca e com boa área foliar e atividade metabólica para que a absorção e a translocação de um herbicida sistêmico seja a melhor possível. Infelizmente, a disseminação do plantio direto foi tão rápida, que pessoas sem muita familiaridade com o uso apropriado de produtos mais técnicos acabaram tendo a responsabilidade de aplicá-los, às vezes com resultados abaixo do esperado. Misturas de tanque absurdas, ácido muriático ou vinagre adicionado às caldas dos mais variados herbicidas, existe de tudo no campo. Mas estas adversidades estão levando agricultores de volta ao plantio convencional? Não, pois mais uma vez passam pelo preparo e voltam ao plantio direto.
Terceiro fundamento: obtenção de boa cobertura morta ou palhada
É comum dizer que plantio direto sem palha não é plantio direto, pois a palha é a fonte de todos os benefícios do sistema ao solo e ao meio ambiente. Infelizmente nem sempre é fácil obter boas palhadas: restrições de clima (ao limitar a possibilidade do cultivo de espécies para cobertura), econômicas e até de equipamentos (limitando a adoção de um bom programa de rotação de culturas), além de restrições culturais (mantendo regiões sob o signo da monocultura exclusiva) são barreiras à obtenção de palha em quantidade suficiente para garantir o sucesso do sistema. Da falta de palhada decorrem problemas de pragas e de doenças, de compactação do solo, de perenização e multiplicação desenfreada de ervas daninhas, que desembocam na inviabilização do sistema pelo custo excessivo dos herbicidas ou por surtos de pragas ou doenças de difícil controle. E mais uma vez, isto está levando agricultores de volta ao plantio convencional? Novamente não: gradeiam-se manchas onde o coró predomina, faz-se aração para ”espantar” o percevejo castanho, mas a cultura seguinte já volta ao plantio direto.
Quarto fundamento: usar plantadeiras específicas
A capacidade de realizar um bom plantio, em qualquer tipo de solo, coberto com qualquer tipo de palha, é uma condição básica para se ter sucesso no sistema. Existem hoje, no Brasil, máquinas de excelente qualidade e plenamente capacitadas a fazer um bom plantio, desde aquelas de apenas uma linha para tração animal, servindo ao micro e pequeno produtor, até outras de grande capacidade e rendimento, para propriedades muito grandes e tratores pesados. As falhas que temos acompanhado no campo estão no treinamento e capacitação dos operadores, nem sempre familiarizados com o novo sistema de plantio, levando a impropriedades em culturas como o milho e algodão, mais sensíveis a variações na população de plantas. A falta de equipamentos de plantio é uma barreira à adoção do plantio direto, mas não é causa de retorno ao plantio convencional.
Quinto fundamento: rotação de culturas
A importância de um bom programa de rotação de culturas é inegável, pois pode afetar cada um dos demais fundamentos acima citados, sendo fator condicionante do sucesso na adoção do plantio direto. A rotação de culturas afeta o andamento da compactação dos solos, agindo também sobre a fertilidade, ao reciclar nutrientes e explorar de forma diferenciada o perfil do solo. A rotação de culturas impacta o uso de herbicidas, ao romper o ciclo de muitas plantas daninhas e proporcionar uma alternância de ingredientes ativos aplicados nas áreas. A rotação de culturas é básica para a produção de palhadas diferenciadas, que irão agir de forma particular sobre insetos e patógenos, alem de representarem abrigo para a multiplicação de organismos antagônicos, propiciando um controle natural dos surtos de pragas e doenças. E, por fim, mas não menos importante, a rotação de culturas promove uma diversificação das atividades na fazenda, contribuindo para reduzir os riscos inerentes à produção agrícola. A falta de rotação de culturas é ruim tanto para o plantio direto como para o plantio convencional, mas neste último os efeitos demoram um pouco mais para aparecer, pois as grades enterram os restos de culturas e com eles as pragas e doenças.
De que depende o sucesso no plantio direto?
Do sucesso no cumprimento destes cinco fundamentos depende o sucesso da adoção do plantio direto numa propriedade ou região, pois da interação entre eles resulta a sustentabilidade do sistema e da exploração agrícola dos solos, sobretudo os solos tropicais do Cerrado. Não adianta parar de gradear e não introduzir palhadas, assim como não adianta produzir toneladas de palha e incorporá-las ao solo por gradagens. Combinações parciais dos cinco fundamentos não configuram um plantio direto estável, apenas soluções paliativas.
Como anda o plantio direto?
Mas afinal: como anda o plantio direto? Felizmente, tem crescido o contingente dos agricultores que entendem o plantio direto como sistema e que procuram, através da valorização dos cinco fundamentos, obter o melhor resultado possível dentro das limitações climáticas e econômicas de sua região de atuação. Mas, infelizmente, este número de agricultores conscientes não é tão grande como poderia ser. Porém, isto é só uma questão de tempo. O plantio direto, para aqueles que o entendem como sistema e não apenas como uma ferramenta transitória e limitada para a redução de custos de produção, está bem. Para aqueles imediatistas que só querem retorno a curto prazo, sem se preocupar se seus filhos e netos vão depender do solo que hoje é cultivado, o plantio direto é apenas um corte nos custos de produção. E mesmo assim vai bem, pois um preparo parcial a cada três ou quatro anos é melhor do que inúmeras operações de preparo, todos os anos.