A soja amarelou
Márcio Voss
Pesquisador Embrapa Trigo - Caixa Postal 451,
99001-970 Passo Fundo, RS.
Estamos diante de uma planta de soja com folhas uniformemente cloróticas. Olhemos sua raiz. Notam-se nela 2 nódulos. Cortados, deixam à mostra o interior verde no primeiro e branco no segundo. Um dos nódulos até que é grande, mas nessa fase já deveria haver pelo menos dez nódulos (cerca de 30 dias após a emergência). No primeiro, a cor é indicativa de início de degeneração da leghemoglobina, o que significa que essa fábrica de nitrogênio já entrou em falência. A cor do segundo indica inexistência de leghemoglobina, ou seja: a fabricação de nitrogênio nem saiu do projeto. Como se sabe, sem essa hemoglobina vegetal, exclusiva das leguminosas, não há transporte adequado de oxigênio para o rizóbio, e assim, não há redução do nitrogênio do ar. Os sintomas mencionados ocorrem quando a nodulação se forma com rizóbio ineficiente ou não específico. Essa planta ilustra um problema comum em soja de primeiro ano: o surgimento precário de nódulos, devido à falta de inoculação ou à mortalidade das bactérias inoculadas. Uma causa bem definida da mortalidade é a falta d’água no período de semeadura. Nessa caso, o tratamento de semente com fungicidas e com micronutrientes é agravante na diminuição de viabilidade das células bacterianas.
Deixando de lado a controvérsia sobre tratamento de sementes e inoculação, vamos nos concentrar em resolver o que fazer com essa soja, de primeiro ano, que amarelou por deficiência de ...rizóbio. A saída mais concreta é fornecer nitrogênio via adubação. Resolve! Mas o ”Ministério da Saúde do Bolso” adverte: colocar uréia ou qualquer outra fonte de nitrogênio em soja causa diminuição dos lucros. Confrontado com essa situação, Paulino dal Piva, do município de Campo Belo do Sul, em Santa Catarina, tomou uma decisão mais arriscada. Ele tinha ouvido falar sobre inoculação em cobertura e preferiu fazer uma aposta na dita cuja. Com mais de 40 dias passados desde a semeadura, limpou o pulverizador, colocou inoculante líquido, que, claro, ainda estava na validade, e aplicou 600 ml por hectare em 400 litros de água, mais ou menos, ao cair da tarde. Por via das dúvidas, deixou uma ponta de faixa sem inocular. Contra os prognósticos dos duvidadores de plantão, a lavoura de soja ficou verde. A diferença entre o desenvolvimento da soja reinoculada e a não reinoculada foi notável, conforme constatado pelo agrônomo Jocelito Mattos e outros do setor técnico da Copercampos (Figura 1). Pena que não foram feitas colheitas separadas para se ter uma comparação. Mas dal Piva ficou contente com o resultado da inoculação em cobertura, começou a buscar mais informações. Ficou surpreso ao saber que no Brasil não há um só trabalho publicado sobre o assunto. Para evitar fracassos com a inoculação em soja de primeiro ano as recomendações de pesquisa são essencialmente preventivas, indicando cuidados a serem tomados com a inoculação convencional, seja com turfa, seja com líquido, na semente. Embora não convencional, uma forma criativa de inoculação foi estudada e posta em prática na abertura de áreas no Cerrado, em que a freqüência de insucessos no primeiro ano de cultivo era alta. Como não se pudesse garantir a sobrevivência do rizóbio inoculado na semente da soja naquelas condições de solo e clima, tratou-se de estabelecer o rizóbio no solo no ano anterior. O arroz era a cultura usada normalmente como pioneira no Cerrado. Resolveram inocular o arroz, baseados em que o rizóbio não é um simbionte obrigatório, quer dizer, não depende da leguminosa hospedeira para viver. Ele sobrevive no solo, aproveitando as substâncias das raízes de outras plantas e da matéria orgânica. Os microbiologistas chamam a isto de capacidade saprofítica. Indiferente ao nome dado a esse fenômeno, o rizóbio pegou mesmo a carona do arroz e chegou até a soja. Um ano depois! (Tabela 1).
Tabela 1:Efeito da inoculação de arroz no ano anterior, na resposta de soja à inoculação com Bradyrhizobium japonicum em solo de Cerrados. Adaptado de Peres e outros, 1989.
Inoculação
Nodulação
Rendimento
Semente de Arroz
Semente de Soja
Número/pl
peso (mg/pl)
de grãos (Kg/ha)
Sem
1
8
1.327
Sem
Com
30
287
2.032
Com
Sem
30
167
3.310
Com
36
226
2.109
Com esses resultados, a prática de inoculação prévia em arroz se espalhou pela região. A recomendação não excluía a inoculação na semente da soja, mas incentivava a do arroz como garantia de uma nodulação adequada. No Rio Grande do Sul, Lineu Domit, Antônio Costa, Caio Vidor e Jessi Pereira demonstraram que a inoculação com Bradyrhizobium em trigo, aveia preta ou aveia branca antes da cultura de soja aumentou a população dessa bactéria no solo aonde há mais de dez anos não se plantava soja. É de se ressaltar que mesmo no tratamento testemunha sem inoculação havia mais de 1000 rizóbios por grama de solo, demostrando a notável capacidade de permanência no solo mesmo sem seu hospedeiro. No Planalto Médio do mesmo estado, Marcio Voss e José Renato Ben, conduziram um experimento com o mesmo objetivo de colonizar o solo antecipadamente com Bradyrhizobium para soja, inoculando semente de aveia preta em campo nativo. Os resultados mostraram que, quando só a aveia preta foi inoculada, ocorreram, na soja plantada em sucessão, massa e número de nódulos em quantidades semelhantes às proporcionadas pela inoculação da semente da soja, enquanto a nodulação no tratamento sem inoculação foi insuficiente e inferior aos tratamentos inoculados. Apesar de não ter sido colhido grãos devido a danos severos ocasionados por lebre, com este ensaio demonstrou-se o estabelecimento prévio do Bradyrhizobium no solo de campo nativo. Os experimentos referidos mostram que também na questão de inoculação não convencional, a pesquisa brasileira tem se mantido dentro do lema: ”melhor prevenir do que remediar”. Portanto, teremos que buscar de outros países alguma publicação sobre o assunto que interessa ao Paulino. Abaixo segue um resumo de uma pesquisa feita na Itália.
Tabela 2: Efeito do sistema de inoculação sobre o conteúdo de proteína e rendimento de grãos na cultivar Evans de soja. Adaptado de Ciafardini & Barbieri, 1987. Bologna, Itália.
Sistema de inoculação
Proteína na semente *(g/Kg)
Rendimento de grãos (Kg/ha)
Na semente
358
2.257
Na semente e em cobertura
382
2,620
Testemunha sem inoculação
333
2.060
DMS (0,05)**
18
145
*Dados referentes a matéria seca **Difrença mínima significativa a 5% de probabilidade de erro
nbsp; Ciafardini e Barbieri (1987), demonstraram que foi possível provocar o dobro da nodulação através de inoculação em cobertura em soja já inoculada na semente, em comparação com soja inoculada apenas na semente. O ensaio foi conduzido com irrigação, em solo de textura franca, em que não havia rizóbio de soja. Além disso, a quantidade de inoculante, de alta concentração, foi de 2 litros por hectare, e a de água, dezenas de metros cúbicos! Porque tanta água e inoculante? Os autores visavam superar a baixíssima mobilidade do rizóbio no solo através da percolação da água, fazendo-o deslocar-se até cerca de 20 centímetros no perfil do solo. Ressalte-se, ainda, que o objetivo deles com a inoculação em cobertura não era remediar falha na inoculação na semente, e sim aumentar o período de fixação biológica de nitrogênio na soja. Trouxeram à tona um conceito que para a maioria tem sabor de novidade: confirmaram a importância da nodulação que ocorre nas raízes secundárias e adventícias. Comentaram que os nódulos produzidos com a primeira infecção nas raízes primárias de soja começam a envelhecer rapidamente a partir do estádio de florescimento. Já os nódulos formados pela inoculação em cobertura (por meio de irrigação pesada 30 dias após a emergência das plântulas) eram, obviamente, de 30 a 40 dias mais novos do que os formados pela inoculação da semente. Esses nódulos permanecem ativos no período de enchimento de grãos e de maturação de sementes, conforme demonstrado no trabalho. Ao prolongamento no período de fixação biológica os autores atribuíram o aumento significativo encontrado no teor de proteína da semente e no rendimento de grãos (Tabela 2). Voltando de Bologna para Campo Belo do Sul, é digno de registro o sucesso aparentemente obtido aqui com a aposta na inoculação em cobertura em solo não irrigado. Embora não tenha havido quantificação do rendimento, abre-se caminho ao exame da possibilidade de inoculação em cobertura em cultivo de soja de primeiro ano, usando quantidades factíveis de inoculante e água. Se for viável técnica e economicamente, porque não? Já em solos de segunda ou terceira vez com soja inoculada, essa nodulação secundária ocorre mesmo sem inoculação em cobertura, pois o rizóbio acaba por se estabelecer no solo, como foi comentado nos resultados de inoculação em gramíneas que antecedem a soja. Aí diminuem as chances de ver de novo plantas de soja com um verde que mais lembra o amarelo, por deficiência de rizóbio. Enfim, não dá para se esperar que a inoculação em cobertura, em local com cultivo de soja há vários anos, provoque incrementos na produtividade. É quase certo, porém, que em algum lugar, talvez em Santa Catarina de novo, alguém há de pensar: -”Mas...será mesmo ?”
Bibliografia
CIAFARDINI, G. e BARBIERI, C. Effects of cover inoculation of soybean on nodulation, nitrogen fixation, and yield. Agronomy Journal, vol 79, p. 645-648, 1987. DOMIT, L.A., COSTA, J.A., VIDOR,C. e PEREIRA, J.S. Inoculação de sementes de cereais de estação fria com Bradyrhizobium japonicum e seu efeito na soja cultivada em sucessão. R.bras.Ci.Solo, Campinas, vol.14, p.313-320, 1990 PEREZ, J.R.R.; SUHET, A.R.; VARGAS, M.A.T. Estabelecimento de B.japonicum num solo de Cerrado pela inoculação de sementes de arroz. R.bras. Ci.Solo. vol. 13, p.35-39, 1989. VOSS, M e BEN, J.R. Estabelecimento de Bradyrhizobium elkanii em pastagem natural do Rio Grande do Sul através da inoculação de aveia preta, sob sistema plantio direto. In: Soja. Resultados de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo. 1996/1997. Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS. p.143 a 145