Plantio Direto na região de Uberlândia
A experiência de Lucas Aernoudts com plantio direto de sequeiro e irrigado
Presidente do recém formado Clube Amigos da Terra de Uberlândia, o engenheiro agrônomo e produtor Lucas Johannes Maria Aernoudts dirige uma propriedade de 2.300 ha, a Fazenda Mandaguari Agropecuária, localizada no município de Indianópolis, a 70 km de Uberlândia/MG, e está satisfeito com a utilização do sistema plantio direto. Ele deixou de preparar o solo a partir de 1993, quando as primeiras experiências foram realizadas, depois de 10 anos de preparo intensivo das lavouras. No ano seguinte, toda a área cultivada de1600 ha (770 ha sob pivot) já estava com semeadura direta e, apesar das dificuldades em estabelecer culturas de cobertura nas áreas de sequeiro, os resultados positivos alcançados são bastante satisfatórios. ”Desde o primeiro ano, a redução no consumo de óleo diesel e na utilização de máquinas é extremamente significativa”, afirmou Lucas Aernoudts à Revista Plantio Direto, numa entrevista realizada em Uberlândia, no início de dezembro passado, quando ele relatou vários aspectos da condução da propriedade. ”Antes, os tratores grandes da fazenda trabalhavam cerca de 1.200 horas/ano, disse ele. Atualmente, é raro quando chegam a fazer 500 horas/ano cada um. Se tínhamos a idéia de que um trator durava 10 anos, agora podemos dizer que a vida útil deles é de 20 anos, com todas as vantagens, como não trabalhar na poeira e a economia de combustível.” A seguir, uma síntese dos principais aspectos abordados por Lucas Aernoudts, como a história, as questões técnicas, as perspectivas do plantio direto na região e a relação com os demais produtores, através do trabalho do Clube Amigos da Terra.
Revista Plantio Direto - Conte um pouco da sua história.
Lucas Aernoudts – Eu nasci na Holanda e vim para o Brasil com 10 anos. Fomos morar em Panambí, no Rio Grande do Sul. Estudei agronomia na Universidade de Santa Maria e estou trabalhando diretamente na produção há 10 anos. Na Mandaguari, depois de 10 anos de preparo convencional, em 1993 iniciamos uma pequena parcela de plantio direto. A experiência foi positiva e, em 1994, já tínhamos os 1.600 ha de lavoura sob semeadura direta.
RPD – Qual a descrição da propriedade explorada?
Lucas Aernoudts - A Mandaguari Agropecuária possui um solo com 60% de argila. Do total de 2.300 ha, exploramos 770 ha com irrigação, 830 ha de sequeiro, 350 ha com pastagens, restando 450 ha como área de reserva. Temos armazenagem para o milho na fazenda, mas os preços estão caindo, por causa da importação, inclusive de milhos transgênicos. É contraditório, porque produzir não é permitido, mas importar pode.
”Antes, os tratores grandes da fazenda trabalhavam cerca de 1.200 horas/ano. Atualmente, é raro quando chegam a fazer 500 horas/ano cada um. Agora, podemos dizer que a vida útil deles é de 20 anos, com vantagens de não trabalhar na poeira e com economia de conbustível.” Lucas Aernoudts
RPD – Como está o desenvolvimento do plantio direto na propriedade?
Lucas Aernoudts – Em termos de produtividade é possível notar as diferenças. As plantas suportam melhor os veranicos. Temos um grupo de cinco produtores que fazem pesquisas e são orientados pelo professor Yamada, da Potafos. Nós trocamos muitas informações e os resultados dos trabalhos tem nos permitido conseguir um aprofundamento das raízes das plantas, estamos utilizando boro, nitrogênio e enxofre e, tudo isso, somado com a palhada, tem proporcionado um melhor desempenho quando acontecem os veranicos. Em relação à correção do solo, seguimos a orientação do Yamada, que recomenda não se preocupar com o pH e sim com o alumínio tóxico. Por isso, nós não estamos corrigindo e acho que podemos ter um pH de até 5,5.
RPD – Não ocorrem problemas de baixa produtividade por falta de correção?
Lucas Aernoudts – Não anotamos nada nesse sentido. Antigamente achávamos que tinha que subir a saturação de bases junto com o pH, mas o pH não cai mais com o plantio direto porque não utilizamos uréia e sim outras fórmulas de nitrogênio. Nas áreas em que projetamos correção, as doses de calcário deverão ser de meia tonelada/ha, no máximo uma tonelada/ha.
RPD - Você tem monitorado a evolução da matéria orgânica ? Quais os níveis de produtividade das culturas?
Lucas Aernoudts – A matéria orgânica na região tropical degrada de maneira mais rápida. O teor de matéria orgânica depende muito da precipitação, que influi no potencial de fazer palhada e, nesse sentido, existem variações regionais. No nosso caso, tem ocorrido um aumento de MO significativo. Nas lavouras de sequeiro o teor está situado em torno de 3%, enquanto na área irrigada, em função da maior deposição de palha na superfície, os índices já atingem 4%.
Plantio Direto Irrigado
RPD – Quais as diferenças do plantio direto em área irrigada?
Lucas Aernoudts – Aqui na região de Uberlândia nós temos menos chuva e com a irrigação é possível obter mais palha sobre o solo porque está se plantando e colhendo durante todo o tempo. Nas áreas de sequeiro somente conseguimos plantar a cultura principal e não muito mais do que isso. Estamos experimentando o plantio de pasto junto com o milho, para poder pastorear em seguida da colheita. Porém, as dificuldades pela falta de chuva existem e a braquiária compete com o milho. Temos que fazer bem os cálculos para checar a viabilidade econômica dessa competição.
RPD – Qual o custo instalado de um pivot e a sua relação com o preço da terra na região?
Lucas Aernoudts – Um equipamento instalado custa cerca de R$2.500,00/ha. O preço da terra varia muito, conforme o local, o tipo de solo e se a área já foi cultivada ou não. Mas, em termos gerais, o preço é semelhante a esse valor citado.
RPD – E o que acresce de custo operacional, em relação ao plantio de sequeiro?
Lucas Aernoudts – Na cultura do milho, eu diria que fica em torno de R$120,00/ha. Plantando em julho, é necessário irrigar praticamente até novembro, isto significa quatro meses de irrigação, e o custo fica ao redor de 10 s/ha.
RPD – Quanto você utiliza de fertilizantes e quais as produtividades obtidas?
Lucas Aernoudts – Conforme as análises, utilizamos uma média de 160 kg de nitrogênio, 90 kg de fósforo e 140 kg de potássio. Com isso, temos obtido produtividades de até 9.000 kg/ha, na cultura do milho. A soja, que é plantada sempre em sequeiro, tem rendido uma média de 2.800 kg/ha, enquanto o feijão varia entre 2.400 e 2.700 kg/ha. Nós conseguimos equacionar questões difíceis, como as doenças sob pivot, é possível conviver com elas. Os problemas estão fora da porteira, no caso dos preços de produtos. Já vendemos feijão a R$100,00/sc mas, nas últimas safras, o preço desceu a R$25,00/sc.
RPD – Como é o esquema de rotação de culturas sob o pivot?
Lucas Aernoudts – Nós conseguimos fazer uma média de cinco safras a cada dois anos. O primeiro milho, plantamos em julho e, colhido, em dezembro/janeiro, plantamos feijão, que vai ser colhido em entre março e abril. Neste caso, entramos com ervilha, que será colhida no começo de setembro, onde entramos com milho, que será colhido no início de fevereiro. Neste caso, entramos com feijão e depois milho novamente, em julho. A ervilha é uma leguminosa eficiente e é plantada como a soja, entrando bem na rotação. Sua venda é garantida em contrato com a Cica e nós plantamos 150 ha/ano.
RPD – Você nunca planta cultura visando exclusivamente a formação de palhada?
Lucas Aernoudts – Fora dos pivots, após a cultura do milho, nós plantamos aveia preta, nabo, milheto mas, infelizmente, não choveu e a única cultura que desenvolveu foi o sorgo. Sob pivot, no verão, eventualmente plantamos milheto. Ele vem rápido e proporciona uma palhada bonita. Dessecamos e plantamos em cima, geralmente feijão.
CAT
RPD – Como está o Clube Amigos da Terra de Uberlândia?
Lucas Aernoudts – Trata-se de um grupo novo de produtores, que está buscando as informações necessárias para evoluir. Nós atuamos desde maio de 2000, quando foi eleita a primeira diretoria. Desde antes, nós já fazíamos reuniões técnicas mensais, com palestrantes de Ponta Grossa, Piracicaba, Belo Horizonte e de outros locais onde o sistema está progredindo. Normalmente, abordamos assuntos do momento, como doenças de fim de ciclo, perdas na colheita, custos de produção, etc. Os CATs estão fazendo um trabalho importante de integração entre os produtores e isso terá bons resultados. Estamos fazendo diversos levantamentos e, quando ocorre um assunto que alguns produtores querem discutir, chamamos logo um profissional da área ou montamos experimentos, com a ajuda da Embrapa, da Universidade ou de outros órgãos.
RPD – Como está a evolução do plantio direto na região?
Lucas Aernoudts – A evolução é lenta e a grande maioria utiliza o preparo convencional, com as devidas perdas que o processo traz.
RPD – Por que as pessoas cintinuam fazendo plantio convencional?
Lucas Aernoudts – Acho que o problema principal é a tradição. A mudança em si é muito difícil. Tem a questão do preço das semeadoras, que variam de 25 a 50 mil reais, é um investimento razoável, mas acredito que possa ter um retorno em pouco tempo