Produtores da Europa Buscam Tecnologia do Plantio Direto no Brasil (ABULAC Espanha + Jean Claude Quillet França)


Autores:
Publicado em: 01/02/2001

Produtores da Europa buscam tecnologia do plantio direto no Brasil

A presença constante de produtores de outros países na busca de informações sobre como produzimos sem revolver o solo, preservando a qualidade ambiental e os recursos naturais, é um motivo de orgulho para os brasileiros, especialmente para os agricultores e técnicos ligados ao sistema.

Técnicas culturais simplificadas (França), no-till (Suiça), laboreo de conservación (Espanha). São diversos os termos que definem o plantio direto nos países da Europa, porém, entre outras coisas, existe algo em comum no meio dos produtores rurais do continente europeu que já utilizam a nova tecnologia: um respeito profundo pelo avanço, e a liderança alcançada pelos produtores brasileiros nesse sistema, e uma constante busca entre nós de informações técnicas, de como evoluímos e invertemos o irracional processo de exploração agrícola, em um curto período de três décadas. Nos últimos meses, foi freqüente a presença de produtores, assistentes técnicos e pesquisadores, ligados ao plantio direto na Europa, que visitaram alguns dos principais pólos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema na região sul do Brasil, especialmente o eixo Ponta Grossa - Passo Fundo, onde estão localizadas as fazendas de Nonô Pereira e de Franke Dijkstra, a Fundação ABC, a Embrapa Trigo, a fazenda de Luiz Graeff Teixeira e a fábrica da Semeato, que tem sido o principal canal, juntamente com a Monsanto, desse tráfego de pessoas e de informações. A Semeato está trabalhando há vários anos no mercado europeu e tem sido um fator importante no desenvolvimento do plantio direto em vários países, na medida em que atua como um vetor tecnológico para a evolução do sistema naquela região do mundo. ”Pressupõem-se que a Europa é uma região importadora de tecnologias. No caso do plantio direto, nós temos que recorrer a um país supostamente mais atrasado tecnologicamente para aprender uma tecnologia de conservação de solos. Isto deve ser um motivo de orgulho para os brasileiros, especialmente para os produtores que nos servem de modelo”, afirmou o agricultor espanhol Alejamdro Tápia Peñalba, da província de Burgos, que visitou novamente o Brasil no ano passado, numa alimentação para o processo que desenvolve em suas lavouras há 18 anos.

Espanha

Alejamdro Tápia Peñal- ba é presidente da ABULAC (Asociación Burgalesa de Laboreo de Conservación), com sede em Quintanarraya, na província de Burgos, que congrega 120 produtores de cereais, praticamente todos os que fazem plantio direto, numa área de 70 mil ha, um percentual menor do que 5% do total plantado nessa província da Meseta Central da Espanha, um planalto de estepes semi-áridas, de solos alcalinos, localizado ao norte de Madri. Peñalba é o pioneiro da siembra directa na Espanha e provavelmente na Europa, pois suas lavouras mais antigas já estão com 18 anos sem lavrar. ”O plantio direto nos proporciona algo muito importante que é a redução de custos”, afirmou ele em Passo Fundo, em 1996. Naquela ocasião, Alejamdro Peñalba e os demais membros da delegação espanhola relataram que um dos aspectos fundamentais do plantio direto na Espanha era a manutenção da cobertura deixada pela colheita, o chamado ”mantillo”, que ajuda a preservar a escassa umidade, principalmente na região de Burgos. ”Se a precipitação de 400 a 500 mm caísse de maneira uniforme, durante os cultivos de verão, seria suficiente, mas essas chuvas caem no inverno fundamentalmente, e o aproveitamento para as culturas é mínimo.” No ano passado, Peñalba reafirmou as dificuldades climáticas que enfrentam os produtores da sua região, sendo comum a semeadura com neve caindo. O presidente da ABULAC planta 650 ha de trigo, cevada e colza, em lavouras de sequeiro. Sob irrigação, ele produz linho para óleos e têxteis e cânhamo. ” Nossa média de trigo é de 2,5 t/ha, porque plantamos trigos duros, para industrialização. Se plantássemos trigos brandos, nossa média aumentaria 40%”, relatou Peñalba. Um entusiasta do plantio direto, ele participa de encontros e é um dos principais difusores do sistema em toda a Europa.

França

O produtor Jean Claude Quillet, que planta na região do rio Loire, a 250 km a sudoeste de Paris, é um ponto de referência sobre plantio direto na França e as visitas que fez ao Brasil foram importantes para a evolução do sistema nas suas propriedades, principalmente no aspecto de cobertura do solo. Ele vinha fazendo cultivo mínimo desde 1990. Em 96, iniciou a semeadura direta e, quando voltou da visita ao Brasil, em 1998, estava entusiasmado com o potencial de fazer plantio direto usando cobertura vegetal. Quillet trabalha, juntamente com o filho, numa área de 600 ha, divididos em diversas glebas onde eles plantam trigo, milho, ervilha, cevada e girassol e as vantagens que o sistema apresenta são consideráveis. ”Nós mantivemos as nossas produtividades, reduzindo os custos e obtendo uma melhora significativa do solo com o plantio direto”, afirmou ele em Passo Fundo, durante visita realizada no ano passado. Ele diminuiu em 20% a aplicação de fertilizantes, sem prejuízo dos rendimentos nas culturas exploradas, e há oito anos que não utiliza tratamentos com fungicidas e inseticidas. ”A poluição dos lençóis freáticos é um problema grave na França e a redução na aplicação de fertilizantes e outros produtos é importante, porque a sociedade, principalmente aqueles que estão fora da agricultura, preocupam-se bastante com a poluição, com a erosão.” Para Jean Claude Grillet, o plantio direto contribui para solução de vários itens relativos a essa questão ampla que preocupa a todos.

Frédéric Thomas (a direita foto acima) e Claude Grillet (foto ao lado), franceses conhecendo o plantio direto brasileiro.

Segundo Didier Mea-lers, representante da Semeato na França, que acompanhou essa e outras delegações de produtores franceses ao Brasil, o seu país conta hoje com uma área de 3 milhões de ha em que se utiliza o cultivo mínimo. ” Na França, nós temos uma agricultura muito tecnificada, disse ele, com rendimentos que podem chegar a 12 t/ha na cultura do trigo, em regiões como a situada ao norte de Paris. Por isso, os agricultores resistem em introduzir o plantio direto, pois isso significaria uma mudança na qual eles precisam confiar.” Jean Claude Quillet, que recebe na sua propriedade uma média de 10 pessoas interessadas em observar o método de cultivo empregado, reduziu o número de máquinas e implementos e a própria circulação entre as glebas, em função do menor número de operações necessárias. Ele ressaltou a importância desse aspecto, para quem possui diversas glebas separadas. A presença da cobertura tem favorecido o controle da erosão, que é severa, em função da composição do solo e da declividade, aumentou os teores de matéria orgânica (de 1,8 para 2,5 em 4 anos) e proporcionou uma melhoria nos níveis de compactação do solo, pois a drenagem da água foi favorecida. ”Não há como negar as vantagens do sistema, finalizou Quillet. Antes nós tínhamos quatro operações a mais do que agora. Os custos e a necessidade de tratores grandes eram significativos. E, apesar de todas as reduções de máquinas e produtos, nós mantivemos as produtividades das diversas culturas.”

Técnicas Culturais Simplificadas

Em novembro, Frédéric Thomas, editor da Revista francesa Techniques Cultu-rales Simplifiées, esteve visitando os pólos de plantio direto na região sul do Brasil. Ele esteve na fazenda de Luiz Graeff Teixeira, em Coxilha/RS e na Fazenda Agripastos, de Nonô Pereira, em Palmeira/PR, entre outros locais importantes. À semelhança da Revista Plantio Direto, a publicação dirigida por Thomas é veiculada seis vezes ao ano e aborda os diversos assuntos referentes às técnicas culturais simplificadas, que abrangem cultivo mínimo e plantio direto (semis direct). Na França, a APAD (Association pour la Promotion d’une Agriculture Durable) é a associação nacional que congrega os produtores, técnicos e instituições ligados aos diversos tipos de agricultura conservacionista. Segundo um boletim da APAD, dos 3 milhões de ha que utilizam técnicas culturais simplificadas na França, 700 mil ha estão sob plantio direto e que o aumento da área é constante.

Suiça, plantio direto e a sobrevivência

O plantio direto alcança uma área de 10 mil ha, na Suíça, algo em torno de 4% da área total utilizada para agricultura, mas existe um crescimento da utilização dessa tecnologia em função do trabalho do No-till Club, uma associação nacional criada em 1988. As informações foram prestadas pelo professor Stefan Wyss, da Escola de Agricultura, nas imediações de Berna, a capital do país. Wyss é filho de agricultor, que utiliza plantio direto, e vice presidente do No-till Club. ”O plantio direto tem muito futuro nas fazendas pequenas porque o sistema vai ajudar os fazendeiros a sobreviver, já que proporciona uma economia de tempo, que eles utilizam para suplementar a renda, trabalhando em outras propriedades”, relatou Stefan Wyss durante visita à propriedade de Nonô Pereira, em Palmeira/PR. Segundo ele, as propriedades possuem um tamanho médio inferior a 20 ha, onde é produzido leite e as culturas de trigo, cevada, milho, ervilha, batata e beterraba para a produção de açúcar.

Vantagens do plantio direto

A questão ambiental está em primeiro lugar, porque isso significa um aporte de verbas da área plítica, informou o professor suíço. Segundo ele, sob o ponto de vista político, o primeiro item que o plantio direto favorece é o controle da erosão, em segundo lugar a redução dos nitratos nos lençóis freáticos e em terceiro lugar a questão econômica, pois o sistema significa uma redução de custos significativa. ”No entanto, afirmou Stefan Wyss, de olharmos sob o ângulo agronômico, eu diria que o aspecto econômico é o mais importante, e a erosão e a presença de nitratos viriam em segundo plano.” O professor e seu pai plantam trigo, milho e beterraba, numa fazenda perto de Berna, onde já utilizam uma semeadora Semeato. Segundo ele, as rotações de culturas ainda estão sendo adequadas pelos técnicos e fazendeiros. Todos os fazendeiros recebem subsídios do governo. Eles possuem uma lista rígida de medidas agronômicas que precisam praticar em suas lavouras. No final do ano, durante a fiscalização, se está tudo certo, eles recebem as subvenções. Se houver algum item errado, como adubar demais, por exemplo, ou aplicar de forma incorreta um defensivo, eles não recebem as verbas