O desfolhamento e a planta de soja
Dirceu N. Gassen
Eng.-Agr., Gerente Técnico da Cooplantio. E-mail:dirceu@agri.com.br
A recomendação da pesquisa para controle de lagartas, com base em resultados de experimentos, indica 30 % de desfolhamento até a fase de floração e 15 % de desfolhamento após a floração. O controle de oídio é indicado com 20 % ou até 40 % de severidade (área foliar infectada) da doença. Os experimentos que deram origem a essas recomendações foram conduzidos sob condições específicas, não descritas para o extensionista ou para o agricultor. A soja é uma planta diferenciada das demais culturas do sul do Brasil. Os grãos contém aproximadamente 40 % de proteína e 20 % de óleo. O ciclo da cultura completa-se entre 4 e 6 meses. O potencial de produção, sob condições de lavoura chega a 6 t/ha. Os rendimentos médios no RS são de 1,6 t/ha, enquanto no PR e no MT são de 2,7 t/ha. A semente da soja necessita absorver 50 % do seu peso em água para iniciar o processo de germinação e após entre em intensa atividade fisiológica com necessidade maior de oxigênio do que a de outras espécies, para respiração, desenvolvimento do cotilédone, do hipocótilo, das raízes iniciais, da folha unifoliolada e início da primeira folha trifoliolada. A energia necessária para esse desenvolvimento está armazenada na semente e a instalação da plântula depende da semeadura adequada para a absorção da água e após a oxigenação. Após a instalação da plântula (dependência da semente) inicia a fase autotrófica (produz a própria energia através de fotossíntese). Nessa fase, de formação das primeiras folhas, é muito importante evitar o desfolhamento causado por insetos. Na fase vegetativa, após a formação das primeiras folhas trifolioladas e até a fase de floração, a soja tolera estresses e apresenta grande capacidade de recuperação. A partir da fase de floração e até o enchimento de grãos, é necessário manter área foliar mínima para a produção de soja. O índice de área foliar (IAF) de soja, necessário para garantir rendimentos elevados de soja, varia entre 3,5 a 4,5 m2 para cada m2 de área de solo. Ou seja, uma relação aproximada de 4:1. Com base na biologia da planta é necessário manter a área foliar e estabelecer a decisão de controle de pragas ou doenças foliares, a partir das necessidades da planta e evitar índices de desfolhamento causados por insetos ou por doenças. Plantas de soja com IAF 7:1 toleram mais de 40 % de desfolhamento, enquanto plantas com IAF 3:1 não permitem desfolhamento. Na safra de 1999-2000, com pouca chuva, o IAF foi inferior a 4:1. Muitas vezes inferior a 2:1, não tolerando desfolhamento por pragas ou por patógenos. Em conseqüência houve baixos rendimentos e perdas maiores causadas por pragas e doenças. Na safra 2000-2001, com chuva abundante em janeiro e crescimento exuberante das plantas, constata-se IAF elevado de 7:1. Nessas condições é desejável um desfolhamento por lagartas, para permitir a penetração de luz e garantir o desenvolvimento de legumes na parte basal e mediana da planta. Quando a soja apresenta IAF elevado, as condições de ambiente são favoráveis ao desenvolvimento de fungos que atacam a lagarta (doença-branca) e fungos causadores de doenças de fim de ciclo. Para a safra 2001, o prognóstico para a soja (se continuar chovendo) é de colapso da população da lagarta-da-soja (epizootia causada pelo fungo da doença-branca) e de maior severidade de doenças de fim de ciclo. As recomendações para controle de pragas ou doenças devem ser feitas com base na necessidade de área foliar da planta para obter elevado rendimento (IAF 4:1) e não com base em índices de desfolhamento.
Como medir a área foliar?
1. Escolher plantas de tamanho representativo. 2. Contar o número de folhas (com três folíolos). Compensar de tal forma que aproxima ao tamanho das folhas médias. 3. Medir (comprimento x largura) o tamanho dos três folíolos (representativos para a planta). Descontar em torno de 30 % da área por causa da forma ovóide. Por exemplo; três folíolos com tamanho de 10 cm X 8 cm= 240 cm2. Descontar 30 %= 168 cm2 de área foliar efetiva.
4. Contar o número de folhas por planta e o número de plantas por m2. Por exemplo: 11 folhas por planta e 18 plantas/m de fileira com espaçamento de 50 cm entre fileiras; 168 cm2 de área por folha X 11 folhas por planta=1848 cm2 de área foliar por planta; 36 plantas por m2 X 1848 cm2=66528 cm2. Cada m2 tem 10 mil cm2. Portanto, essa soja apresenta IAF de 6,6:1, muito superior a 4:1, necessários para garantir a distribuição de legumes na planta e rendimentos elevados de grãos.