Novo enfoque no manejo de pragas e doenças da soja
O Engenheiro Agrônomo Dirceu Gassen, pesquisador licenciado da Embrapa, atualmente trabalhando na assessoria agronômica da Cooplantio, está orientando grupos de produtores da instituição no sentido de uma nova postura em relação ao desfolhamento da soja, causado por pragas e doenças. Segundo ele, com base na biologia da planta, é necessário manter a área foliar e estabelecer a decisão de controle a partir das necessidades da planta, o que varia conforme o desempenho de algumas variáveis, principalmente de clima. Para Gassen, a proposta está sendo bem recebida pelos produtores assistidos, mas alerta para o fato de que é necessário um conhecimento técnico sobre a biologia da planta e um acompanhamento eficiente do desenvolvimento da lavoura. Em entrevista à Revista Plantio Direto, Dirceu Gassen reforçou alguns pontos que ele aborda no artigo da página 26 desta edição.
Revista Plantio Direto – O que muda nas recomendações já existentes esse novo enfoque sobre manejo de pragas e doenças e os níveis de dano na cultura da soja?
Dirceu Gassen – Não é nenhuma novidade a relação de índice de área foliar e o desfolhamento que a planta de soja eventualmente tolera. O problema começa na análise seccionada, nas diferentes especialidades. Por exemplo: se determinarmos um índice de desfolhamento numa condição de lavoura irrigada, com boa fertilidade e bom crescimento vegetativo da planta, ele poderá ser superestimado porque a planta vai tolerar uma perda de até mais de 50% da sua área foliar, até determinado estádio vegetativo. Em casos inversos, quando a planta não possui um índice de área foliar adequado para o seu desenvolvimento, não será possível esperar uma perda de 30% das folhas. Nós devemos partir da necessidade da planta, ou seja, de uma área foliar necessária para o seu desenvolvimento e, a partir disso, determinar as estratégias de controle ou não, visando manejar a cultura para obter um rendimento de acordo com os demais dados, rotação de culturas, fertilidade do solo, perspectivas climáticas, etc.
RPD – Na verdade, todo o complexo da lavoura tem que entrar nessa análise?
Dirceu Gassen – Sim. Existem os fatores externos, onde podemos analisar desde o planejamento do agricultor, análise de solo e adubação, semeadura e desenvolvimento inicial, etc. Os fatores internos ou intrínsecos da planta são aqueles que dependem da biologia de cada espécie, quais as necessidades, em quanto tempo desenvolve, quanto precisa de água, de oxigenação da raiz, quanto necessita de área foliar, etc.
RPD – Quais os dados básicos desse enfoque, em termos de números?
Dirceu Gassen – Nós devemos partir do princípio de que a planta tem um potencial produtivo de 3,5 t/ha, por exemplo. É conhecido em fisiologia de plantas que a soja necessita entre 3,5 e 4,5 m2 de área foliar por 1 m2 de área física de lavoura, uma relação de 4 para 1, para que a planta expresse o seu potencial produtivo. Em um ano seco, quando não temos esse índice de área foliar, não podemos correr o risco de baixar essa relação, principalmente se as previsões são de mais tempo seco. Quando nós tivermos índices de 6 a 8 m2 de área foliar em relação a um m2 de área física, é conveniente e até desejável a presença de lagartas, pois a sua ação vai permitir uma entrada de luz mais adequada, evitando o acamamento e uma melhor produção.
RPD – Isso exige um conhecimento técnico muito mais aguçado?
Dirceu Gassen – Isso pressupõe o exercício real e profundo da agronomia, não mais a lógica simplista do matador de pragas, de doenças ou de plantas daninhas, que predominam na nossa agricultura. Nós temos que exercitar o fato de que a aplicação de inseticidas e outros defensivos não aumentam a produção, apenas garante um potencial de produção estabelecido no planejamento, na rotação de culturas, na escolha de cultivares, na época de semeadura e outros fatores importantes.
RPD – O que está acontecendo este ano, a partir desse ponto de vista?
Dirceu Gassen – Todos os anos tem características diferentes. Nesta safra, nós partimos de chuvas intensas em outubro, até a primeira quinzena de novembro. Depois, tivemos um período seco, com semeaduras problemáticas, até dezembro. Então, foram plantios no barro e depois seca, com instalação lenta das plantas. A partir de janeiro, um período de chuvas intensas e um desenvolvimento exuberante das folhas, ao contrário do que ocorreu na safra 99/2000, em que tivemos períodos fortes de seca, com pouca área foliar, o que levou os agricultores a aplicações apressadas de inseticidas. Nesta safra, nós estamos, principalmente nas cultivares plantadas na suas época recomendadas, com um crescimento exuberante, podendo-se afirmar que existe um excesso de área foliar. Neste caso, podemos ser mais cautelosos e tolerar um nível maior de lagartas, até para beneficiar a luminosidade e aeração nas regiões de baixo da planta, o que favorecerá o desenvolvimento das vagens