IV Curso Sobre Aspectos Básicos de Fertilidade do Solo em Plantio Direto
Com todo o respeito pelos demais eventos que fizemos, em conjunto ou não com entidades e empresas, durante os quase 11 anos em que trabalhamos pela evolução do plantio direto, a sensação que envolvia a todos, promotores, apoiadores, palestrantes e o público participante, técnicos, produtores e estudantes, que estiveram presentes no IV Curso sobre Aspectos Básicos de Fertilidade do Solo em Plantio Direto, era de que esta foi uma das melhores promoções por nós realizadas durante esse período. Havia um público de 400 pessoas tão interessado nos assuntos expostos que não se ouvia a respiração e raros celulares se aventuraram naquele silêncio, durante os dois dias do frio final de julho. Sem que houvesse um acordo prévio, a não ser a própria organização do programa, as apresentações foram se encadeando, e cada palestrante acabou por firmar aquilo que já havia sido exposto antes. A consideração mais importante, afora a quantidade de informações objetivas que foram apresentadas, é de que as pessoas, em geral, vão para uma palestra ou para um curso, na busca de receitas prontas, que tenham aplicação imediata no manejo da propriedade, que signifiquem um plus na busca de maior eficiência e melhores rendimentos finais na atividade agrícola. O IV Curso de Fertilidade, realizado no auditório da Unijuí, em Ijuí, através da apresentação e dos debates com os palestrantes, mostrou um caminho inverso ao da receita pronta e, mesmo que isso tenha significado um gasto de energia bem maior, os participantes demonstraram uma satisfação evidente pela forma, não programada, como os assuntos foram dissecados. Tudo o que foi apresentado na ocasião, demonstrou aquilo que já vem se afirmando ao longo do tempo: o diferencial básico do plantio direto em relação à agricultura convencional é a necessidade básica de uma busca permanente do conhecimento. As informações disponíveis sobre o sistema se apresentam como um leque e, quando você acha que estabeleceu um conhecimento definitivo, este se abre em novas direções, e não sabemos o limite desse processo. Outra figura que podemos utilizar é a de um mergulho sob uma superfície líquida, que neste caso pode ser representada pela palha que deixamos sobre o solo. A incursão que fizemos sob a palha é, praticamente, o descortinar de um mundo infinito, em que recém nossos pesquisadores, e demais pessoas envolvidas no processo, estão descobrindo os caminhos básicos, as diferentes interações que o não revolvimento, sob nenhum aspecto, e a deposição de um manto de palha, à semelhança das matas, proporciona para o solo cultivado. Pesquisadores, professores de universidades, assistentes técnicos de cooperativas e empresas privadas e também produtores alertam, há bastante tempo, que existem diferenças fundamentais entre o manejo do sistema plantio direto e do preparo convencional, que ainda perdura na memória genética de muitos. Em Ijuí, as informações apresentadas foram unânimes: o revolvimento do solo provoca perdas invisíveis de nutrientes, diminui a matéria orgânica, peça-chave do sistema, e afeta a disponibilidade de fósforo, que volta a ser fixado no complexo químico do solo; o aumento da matéria orgânica ao longo dos anos, praticamente, dispensa a aplicação de calcário, mas a maioria ainda vê a atuação do corretivo como uma fórmula mágica de aumentar a produtividade quando, na verdade, as pesquisas demonstram que o excesso de calcário está provocando uma produtividade menor, principalmente na cultura da soja.Foram apresentadas 10 palestras e um painel, com debates, sobre diversos aspectos que envolvem a fertilidade do solo em plantio direto. A riqueza de informações gerada pretendemos mostrá-la nas próximas edições da Revista Plantio Direto, porque o material reunido precisa de uma organização porque, sem um aviso prévio, aconteceu uma desconstrução das receitas herdadas de recomendações acadêmicas ou práticas. É preciso uma filosofia básica, palha sobre o solo, rotação de culturas e o não revolvimento do solo, e uma busca constante das mil interações que esse universo encantado, que gera vida e produtividade sustentável, nos mostra.
Evolução do Plantio Direto na Cotrijuí
A maioria dos 769 eventos de treinamento realizados pelo departamento técnico da Cotrijuí, na região noroeste do Rio Grande do Sul, nos últimos cinco anos, foram direcionados ao desenvolvimento do sistema plantio direto. Esta é uma das causas básicas do avanço que o sistema obteve em 10 anos, quando evoluiu de um percentual de 10% para 85% dos 320 mil ha plantados no verão, principalmente com soja e milho. A importância que a Cooperativa está dando à formação da equipe de engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas e médicos veterinários, que cresceu 60% nos últimos seis anos, também reflete esse quadro de evolução demonstrado durante o IV Curso de Fertilidade e nas comemorações dos 44 anos da Cotrijuí, que aconteceram em julho.Adaptando uma pesquisa realizada pela Embrapa Trigo, o Departamento Técnico da Cotrijuí concluiu que, somente na área de atuação da Cooperativa, ocorre uma economia anual de 49 milhões de reais, resultantes da preservação do solo e da camada fértil, da redução de macronutrientes como fósforo e potássio, redução no consumo de óleo diesel, na mão de obra e na utilização de máquinas e implementos, que acabam tendo uma maior durabilidade. Estes resultados beneficiam diretamente os produtores e indiretamente toda a comunidade. Os municípios diminuem os gastos com a preservação das estradas pela não ocorrência de erosão. Dados não oficiais indicam que a Corsan, instituição que coordena o abastecimento de água e o saneamento no Rio Grande do Sul, admite uma redução de 60% nos custos com o tratamento de água na região de Ijuí. No painel de debates do IV Curso de Fertilidade do Solo em Plantio Direto, em que participaram os engenheiros agrônomos Dirceu Gassen, da Cooplantio, Flávio Haas, da Monsanto, Sérgio Schneider, da Coopermil, de Santa Rosa, Amando Dalla Rosa, da Cotrisa, de Santo Ângelo, Jaime Lorenzoni, da Cotrijuí apresentou uma evolução dos rendimentosdas lavouras na área de atuação da Cotrijuí, pontualizando informações sobre aspectos importantes como matéria orgânica, CTC, pH e níveis de fósforo e potássio. Segundo Lorenzoni, num levantamento de análises de solos realizadas desde 1997 até 2000, os níveis de pH de médio a alto aumentaram de 66 para 77% nas lavouras consideradas, numa amostragem que cobre cerca de 30% de toda a área abrangida pela Cotrijuí. A matéria orgânica também aumentou, segundo um levantamento das análises feitas no período. Para Jaime Lorenzoni, o aumento, que passou de um percentual de 35% de amostras com pH médio a alto (>3,6), em 97, chegou no ano 2000 com 75% das análises apontando teor médio a alto de matéria orgânica. ”Isto reflete também o método de retirada das amostras, que eram feitas até a 20 cm de profundidade e que, em áreas de plantio direto com mais de 3 a 4 anos, segundo recomendações da pesquisa, a amostragem deve ser nos primeiros 10 cms” , disse o engenheiro agrônomo da Cotrijuí durante a sua apresentação. Os níveis de fósforo e potássio também estão aumentando, com a deposição de palha na superfície,embora ainda existam deficiências, em termos gerais.Em termos de produtividade, a média da Cotrijuí não difere muito da média estadual, na cultura da soja, mas a média dos produtores considerados A, cerca de 400 a 500, com um mínimo de 8 anos de plantio direto, possuem um nível maior de produtividade, com uma médiade 500 a 600 kg/ha a mais, em relação a média estadual. O produtor B ainda está numa fase de transição, do quarto para quinto ano de plantio direto e que também já está com uma produtividade maior do que a média, numa evolução.Lorenzoni está assistindo um grupo de produtores da Cooperativa e ele fez uma análise de produtividade em 107 glebas de 30 produtores, em 4.500 ha de soja. No item saturação de bases, os melhores resultados ficaram entre 70 e 79%, que atingiram 47 s/ha. Os níveis de fósforo e potássio estavam suficientes, sendo que a matéria orgânica era acima de 3,0.No levantamento do pH em água, os melhores resultados indicam que a melhor produtividade se situa no pH entre 5,5 e 6,0. Segundo Jaime Lorenzoni, no preparo convencional a faixa recomendada de pH era acima de 6,0~6,5, no plantio direto essa faixa se deslocou no plantio direto para 5,5 até 6,0. Segundo ele, os números apresentados comprovam o que outros autores estão mostrando. Os produtores analisados possuem áreas com 2 a 14 anos de plantio direto, um grupo bastante heterogêneo.Finalmente, ele considerou resultados de adubação, em que os produtores que fertilizaram com níveis acima de 250 kg/ha, tiveram melhores resultados e ele acredita que uma adubação mais equilibrada deve ser recomendada aos produtores em geral, pois o nível de adubação da maioria dos cooperados não chega a 150 kg/ha. Nas próximas safras, esse mesmo trabalho será repetido, com novos detalhes.
Homenagem à Cotrijui
Na abertura do IV Curso Sobre Fertilidade em Plantio Direto , a Revista Plantio Direto homenageou a Cooperativa Regional Tritícola Serrana Ltda. - Cotrijui, pela passagem do 44º aniversário da Instituição. A homenagem, recebida pelo Presidente Carlos Domingos Poletto, resalta a importância técnica, social e econômica da Cotrijui no desenvolvimento da agricultura gaúcha.