Debates sobre os OGMs em Ijuí
No primeiro dia em que se realizava o IV Curso sobre Aspectos Básicos de Fertilidade do Solo em Plantio Direto, em Ijuí/RS, a Rádio Progresso levou ao ar um debate sobre a questão dos transgênicos, coordenado pelo repórter Alexandre de Souza, no programa Companhia da Noite. Participaram, entre outras pessoas, diretamente ou por telefone, Carlos Domingos Poletto, presidente da Cotrijuí, Edson Iorczeski, pesquisador da Embrapa Trigo, Passo Fundo, Carlos Carlinski, representante da FETAG (Federação dos Trabalhadores na Agricultura) e Gilberto Borges, engenheiro agrônomo e editor da Revista Plantio Direto. A questão da liberação de organismos geneticamente modificados (OGMs ou transgênicos) é um assunto polêmico e exige um espaço bastante grande para contemplar todas as opiniões. No caso do debate de Ijuí, procuramos extrair algumas das opiniões manifestadas, embora não tivesse ocorrido nenhuma mais candente, no sentido contrário à utilização da soja transgênica ou de outras plantas. O painel iniciou pela leitura de um editorial da respeitada AGAPAN, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, que foi enviada à autoridades e veículos de comunicação, da qual extraímos os pontos principais, conforme foi lida na ocasião.
AGAPAN - ”A vida teve origem em nosso planeta há mais de três bilhões de anos. A evolução, através de eras geológicas, plasmou sucessivamente, por processos seletivos, todas as espécies vivas hoje existentes, desde bactérias, protozoários, fungos, animais marinhos, plantas, animais terrestres, até a espécie humana. Os seres vivos tem em comum, lembrando a sua origem evolutiva, o código genético, que guarda e transmite, de geração em geração, todas as informações necessárias que permitem a construção de cada tipo de ser vivo, com sua forma, cor, tamanho, ciclo vital, etc. Genes são trechos bem definidos do DNA, que é um longo fio, em hélice dupla, muito compactado, existentes em cada célula. Existem barreiras muito eficientes nos seres vivos superiores contra a passagem horizontal da informação genética, ou seja, de uma espécie para outra, assegurando, por exemplo, que o cruzamento entre espécies diferentes não se efetive, ou que o DNA estranho à espécie seja reconhecido e destruído.O potencial de impacto da nova tecnologia, do ponto de vista ético e ambiental, foi percebido por eminentes cientistas, desde os primórdios de sua aplicação. Em 1975, ocorreu a Conferência de Azilomar, na Califórnia, onde foram estabelecidos os princípios éticos para a pesquisa com DNA recombinante, inclusive a proibição de manipular o ser humano. Até fins de 1997, foram introduzido nos mercados mundiais mais de 11 mil OGMs vegetais, o que despertou forte reação de cientistas e ambientalistas, preocupados com o risco de saúde pública e ambiental. No Brasil, existe a eminência da liberação para plantio, apesar de alguns problemas apontados nos testes e no descumprimento de normais legais. Pode ser destacado, como exemplo, a semente de soja RR, da Monsanto. Este cultivar é um dos trunfos comerciais mundiais dessa empresa transnacional, que assegura a superioridade dessa soja sobre as variedades não transgênicas.”
Alexandre de Souza (Rádio Progresso) - Qual realmente a diferença entre soja transgênica e soja convencional?Edson Iorczeski (Pesquisador da Embrapa Trigo) - ”A diferença entre a soja convencional e a transgênica é que esta possui um pedacinho do DNA que veio de uma bactéria, não é uma bactéria inteira. Essa introdução lhe conferiu a possibilidade de ser tolerante a um herbicida largamente utilizado na cultura da soja e outras espécies, como dessecante. Do ponto de vista do produtor, esta é uma condição mais favorável, mais racional e prática de controlar os inços. Do ponto de vista do consumidor, e aí que a questão deve ser centrada, não existe nenhuma informação, nesses cinco ou seis anos de experiência com essa cultura geneticamente modificada, de que ela possa ter trazido problemas. Os Estados Unidos, que possuem a legislação mais rigorosa de todas, não pede nada do que estamos exigindo aqui. De outro lado, existem países que possuem legislação maior do que as leis brasileiras para esta situação. Então, tudo dependerá do grau de conscientização da população e do conhecimento para que essa tecnologia possa ser mais ou menos aceita.
Alexandre de Souza - Essa era justamente a pergunta que iríamos fazer: esta soja pode causar algum problema à saúde do consumidor, existe algum registro de problemas que a ciência tenha registrado?Edson Iorczeski - Os seres humanos tem algumas deficiências genéticas. Por exemplo, algumas pessoas não podem tomar leite, algumas não podem comer soja, seja ela modificada geneticamente ou não. Mas, está claro que, na literatura publicada no mundo inteiro, não há nenhum registro de problemas causados pela inserção de genes na soja para o ser humano, seja para o consumo in natura ou nos sub produtos como chocolates, óleos, etc.Alexandre de Souza - E não pode haver uma dependência muito grande do produtor a partir da liberação da soja transgênica?
Edson Iorczeski - Eu acredito que, se for mantida essa postura de limitar os investimentos em pesquisas, se ficarmos na dependência da iniciativa privada para gerar essas tecnologias, é bem provável que fiquemos dependentes. Acho que o Estado deveria investir mais e ainda ir adiante, não ficando apenas na pesquisa de soja resistente a herbicida, mas procurando outros melhoramentos como teor e qualidade de óleo, melhorar resistência à doenças, etc., o que não nos obrigasse a compra de um pacote.
Carlos Carlinski -(FETAG) - Somos produtores a nível familiar e leigos nesse assunto. Mas, participando de vários encontros, debates e seminários, ouvimos que é possível ocorrer alergia e que o organismo humano pode ficar resistente a antibióticos. De outro lado, o mundo todo caminha em direção a uma agricultura mais ecológica. Na Europa, existe uma reação dos consumidores e existem supermercados na Itália que colocam avisos, dizendo que não comercializam produtos transgênicos. Se faz mal ou não, a gente não sabe, e, no fundo, quem vai ditar as regras é o consumidor mais esclarecido. Tenho lido que nos Estados Unidos há uma redução do plantio de soja transgênico e um dos motivos é que tem problemas na comercialização. Então, o assunto é complexo e a gente vai formando opinião a partir de debates como este que vão acontecendo.
Gilberto Borges (Revista Plantio Direto) - Nós todos estamos num fogo cruzado de informações, através da imprensa, de debates. Mas, esse dado sobre a diminuição de área com transgênicos nos Estados Unidos não confere com a realidade. O Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou uma reportagem sobre uma visita a algumas lavouras do meio oeste americano e, pinçando o que o repórter viu em uma das fazendas, onde o produtor reduziu a área com soja transgênica, foi criada a seguinte manchete: ” Diminui a área de lavouras com soja transgênica nos Estados Unidos”. Na mesma matéria, uma informação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos informava aquilo que está publicado em outros locais: a área com transgênicos naquele país aumentou, alcançando cerca de 70%. Outro fato importante é a questão comercial. A Argentina está com 90% da área de soja com materiais transgênicos. Nos últimos cinco anos eles aumentaram em 10 milhões de toneladas a produção de soja, graças ao plantio direto, à soja transgênica e outros fatores. Já entrevistamos produtores argentinos, pessoal ligado a entidades nacionais, e eles são categóricos: não existe nenhuma notícia de carga de soja que tenha sido recusada por algum país europeu. Pelo contrário, eles aumentaram as vendas para a Europa, principalmente depois do episódio da vaca louca.
Carlos Domingos Poletto (Presidente da Cotrijuí) - Nós temos uma responsabilidade como instituição, como empresa, e estamos preocupados com a sobrevivência dos nossos produtores. Acho que os agricultores que estão plantando soja transgênica e fazendo algo proibido é por uma questão de sobrevivência. Quero deixar claro que não estou aqui defendendo os transgênicos. Minha posição é de neutralidade e, como produtor, não estou plantando essas variedades por respeito à lei. Confesso que não é fácil prosseguir plantando variedades convencionais, quando as outras possuem um custo de produção com um diferencial de US$ 40,00 a menos por ha. Considerando a área de abrangência da Cotrijuí, cerca de 300 mil ha de soja, isso significa algo em torno de 12 milhões de dólares. É lógico que envolve também uma questão de saúde, mas está na hora da comunidade científica definir, chegar a um consenso, se é que isto seja possível, porque, realmente, o produtor está numa situação muito difícil. Gilberto Borges - No Brasil, nós anotamos uma tendência positiva no crescimento da produção orgânica, com sua enorme gama de variação, de agricultura familiar à biodinâmica. De minha parte, sou amplamente favorável a esse tipo de agricultura e ela não se restringe somente aos pequenos. Existem lavouras médias e grandes produzindo soja orgânica e outros cultivos em vários pontos do Brasil. É um nicho de mercado que poderá crescer até onde o mercado aceitar. De outro lado, a agricultura orgânica carrega uma contradição, na medida em que ela é, em termos médios, 20% mais cara para o consumidor. Mas ela precisa ser incentivada, como já vem sendo feita aqui no Estado e em outros locais do país. Porém, não podemos ignorar o que todo mundo sabe: na próxima safra, no Rio Grande do Sul, aproximadamente dois terços da lavoura de soja poderá ser plantada com variedades transgênicas porque, além de mais barata em termos de custos de produção, ela oferece um grande conforto em relação aquele que é o principal problema nessa cultura, o controle das plantas daninhas. Então, não é possível obrigar todo esse universo de produtores a gastar mais e fazer um esforço adicional, quando os vizinhos, argentinos ou gaúchos, já estão avançados nesse processo.