Plantas hospedeiras no manejo de percevejos na produção de soja orgânica
Antônio Ricardo PanizziEntomologista - Embrapa SojaE-mail: [email protected]ção
Os percevejos sugadores de sementes, são as principais pragas da cultura da soja Glycine max (L.) Merrill. Normalmente, esses insetos são controlados com o uso de inseticidas e através do controle biológico, em especial pelas vespinhas parasitas dos ovos e pela mosca parasita dos adultos.Na produção da soja orgânica, a principal medida de controle desses insetos, ou seja, os inseticidas químicos convencionais, não pode ser utilizada. Isso se deve ao fato de que o produto final da soja deve ser livre de qualquer tipo de resíduos químicos por exigência dos importadores e consumidores. Resta o uso de medidas alternativas no controle de percevejos como os feromônios, ainda em fase de teste, e o controle biológico. Além disso, produtos de origem vegetal com ação repelente e inseticida estão em testes e podem vir a ser recomendados, dependendo do seu grau de eficiência e considerando-se que não deixem resíduos na soja. Uma outra medida de manejo de percevejos na soja orgânica, é o uso de plantas hospedeiras desses insetos como abrigo ou isca, visando diminuir a incidência dos mesmos na soja, atraindo-os para outras espécies vegetais. Esse fator é muito importante e apresenta um grande potencial no manejo desses insetos.Diversidade de cultivos: o cenário agrícola favorável para o manejo de percevejos
Na produção da soja orgânica, as características da área de cultivo são muito importantes. Normalmente, a soja orgânica é cultivada em áreas relativamente pequenas, com relevo irregular, abundância de vegetação nativa, associada a áreas com exploração de pecuária e diversidade de cultivos. Esse cenário agropecuário diverso faz com que os percevejos tenham dificuldade em localizar as plantas de soja, dificultando a sua proliferação. Essas características favoráveis ao cultivo da soja orgânica têm privilegiado áreas do sul do Paraná e de Santa Catarina. Em adição, o clima mais frio dessas regiões também restringe a multiplicação dos percevejos, diminuindo o nível das infestações. Entretanto, considerando-se os preços obtidos no mercado internacional, o interesse pelo cultivo da soja orgânica tem se expandido para outras regiões agrícolas, com características menos favoráveis. Assim, o manejo de plantas hospedeiras de percevejos torna-se um fator importante em áreas extensas com uniformidade de cultivos.
Os percevejos e as plantas hospedeiras
Os percevejos passam a maior parte do ano em plantas hospedeiras ou em abrigos e, apenas dois a três meses na soja. Assim, é fundamental ao agricultor conhecer, na sua propriedade, onde os insetos se abrigam, em quais plantas ou em que locais, para, eventualmente,controlá-los antes da infestação da soja, ou mantê-los alojados nessas plantas, diminuindo a sua ação nociva na soja. No caso da soja orgânica, onde os inseticidas não podem ser utilizados, plantas próximas da lavoura devem ser monitoradas para verificar a presença desses insetos, em especial as leguminosas nativas, como as anileiras, crotalárias, desmódio, etc., ou as cultivadas, como o feijão guandu. Em áreas mais extensas e planas, desprovidas de vegetação, como ocorre no Brasil Central, há necessidade de se formar ”barreiras vivas” (Figura 1) pelo uso de outras culturas ou plantas hospedeiras não cultivadas, visando diminuir a intensidade da incidência dos percevejos na soja.O PERCEVEJO VERDENezara viridula (L.)
Esse percevejo é o mais polífago, alimentando-se de inúmeras espécies de plantas. No sul do Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, após a colheita da soja, o percevejo entra em hibernação em abrigos como fendas em troncos de árvores e em residências, passando de verde para castanho arroxeado. A partir do norte do Paraná em direção ao centro-oeste e norte do país, esse percevejo se aloja no período de entressafras em plantas hospedeiras, podendo se reproduzir na entressafra. Entre as plantas hospedeiras do percevejo verde destacam-se: as leguminosas em geral como o desmódio Desmodium tortuosum (Swartz), as crotalárias nativas, as sesbâneas e o feijão guandu, Cajanus cajan (L.), esse uma leguminosa semi-perene. As brássicas ou crucíferas são também preferidas como o nabo-bravo, Raphanus raphanistrum L., e a mostarda nativa, Brassica campestris L. O inseto é também comumente encontrado sobre a mamona, Ricinus communis L., e sobre a erva-daninha rubim, Leonurus sibiricus L. Outras culturas são atacadas, como o gergelim, o girassol e, dependendo do local, gramíneas como o trigo e o milho.
O PERCEVEJO VERDE PEQUENO Piezodorus guildinii (WEST.)
Esse percevejo alimenta-se de um menor número de plantas nos períodos de entressafras do que o percevejo verde. Em geral, é encontrado associado às anileiras nativas, em especial as espécies arbustivas Indigofera truxillensis H.B.K. e I. suffruticosa Millsp., como também a espécie I. hirsuta, a qual cresce em agrupamentos formando uma massa vegetal de menor porte. Esse percevejo é encontrado, ainda, em leguminosas conhecidas por sesbâneas, em especial Sesbanea aculeata Pers., um arbusto com vagens longas, e em crotalárias nativas, em especial, a Crotalaria lanceolata E. Mey. Também pode ser encontrado em feijão guandu.
O PERCEVEJO MARROMEuschistus heros (F.)
Diferente das demais espécies de percevejos, o percevejo marrom entra em hibernação no período de entressafra. O inseto é encontrado sob a palhada, onde permance sem se alimentar por cerca de sete meses, fugindo da ação dos parasitóides e predadores. Pode colonizar outras plantas além da soja, como o feijão guandu, o girassol, Helianthus annuus L., o carrapicho-de-carneiro, Acanthospermum hispidum DC, e o amendoim-bravo, Euphorbia heterophylla L.
Outros percevejos
Outras espécies de percevejos atacam a soja, porém em menor intensidade. Entretanto, dependendo do local podem se tornar importantes como Edessa meditabunda (F.), espécie que se alimenta das hastes da soja e os percevejos verdes do gênero Acrosternum. Há ainda opercevejo-formigã, Neomegalotomus parvus (West.), que suga as sementes maduras de soja, sendo muito comum próximo à época da colheita. Ocorre em grandes populações do norte do Paraná ao centro-oeste, norte e nordeste do Brasil.
Manejo das plantas hospedeiras e de abrigos naturais
Considerando-se as particulariedades de cada propriedade agrícola com relação à presença das plantas hospedeiras de percevejos, é possível diminuir o seu impacto na soja, sem a necessidade do uso de inseticidas, como é o requerido no cultivo de soja orgânica. É importante que nas proximidades da lavoura de soja hajam outros cultivos ou barreiras vegetais nativas. Isso impedirá ou diminuirá o acesso dos percevejos à soja. No caso de áreas com cultivo extensivo de soja orgânica, há necessidade de se criar talhões, separados por ”barreiras vivas”, pelo uso de outras plantas cultivadas, como o milho ou guandu, ou não cultivadas, como é o caso das anileiras e outras leguminosas como o sansão-do-campo, Mimosa caesalpiniaefolia Benth., este último, comum no Nordeste e no Brasil Central. Essa barreiras, além de diminuir a movimentação dos percevejos, dificultam a localização da soja pelos mesmos, e tendem a hospedar esses insetos.No caso dos percevejos que se abrigam sob palhada seca, como o percevejo marrom (Figura 2), pode-se fornecer locais de abrigo, colocando-se palhada nas bordas da lavoura ou favorecer a ”cama de folhagem” produzida por culturas como o guandu, leucena, café, etc. Os percevejos também são encontrados sob restos de cultura, no plantio direto, que devem ser examinados. Ao encontrar os percevejos na palhada, o agricultor deve eliminá-los pelo enterrio da palhada ou eventual aplicação de inseticidas nos focos, em áreas restritas e monitoradas.Considerações finais
O manejo de percevejos em lavouras de soja orgânica é uma atividade que requer a combinação de muitas táticas, tais como o controle biológico pelas vespinhas, o uso de repelentes/inseticidas de origem vegetal e feromônios, estacas armadilhas com estopa embebida com água salgada e inseticidas, etc. No caso do uso de produtos de origem vegetal há necessidade de se conhecer se esses extratos deixam possíveis resíduos tóxicos na soja e se seu uso é aceito pelos órgãos certificadores de produção orgânica. No caso das plantas hospedeiras, o agricultor deve utilizá-las como iscas, concentrando os percevejos. Da mesma forma, essas plantas hospedeiras (naturais ou cultivadas) têm um papel importante na conservação dos inimigos naturais (vespinhas, moscas parasitas e predadores) que irão regular as populações de percevejos. A idéia central é que com o aumento da diversidade vegetal se consiga uma maior estabilidade das populações dos percevejos, evitando-se ou diminuindo-se o seu impacto na soja orgânica. As áreas com soja orgânica devem ser isoladas dos grandes plantios, localizadas em regiões com diversificação de culturas, e rodeadas por barreiras vegetais que possam dificultar a entrada dos percevejos.