Resposta da Soja e do Trigo a Fósforo no Sistema Plantio Direto (Delmar Pöttker Embrapa Trigo)


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Publicado em: 01/10/2001

Resposta da soja e do trigo a fósforo no Sistema Plantio Direto

Delmar PöttkerPesquisador da Embrapa-Centro Nacional de Pesquisa de Trigo.Caixa Postal 451, 99001-970 - Passo Fundo, RS.

Resumo

Com o advento e adoção do sistema plantio direto (SPD) surgiram questionamentos quanto à validade do uso das recomendações técnicas de fertilizantes, especialmente de fósforo (P), pois estas haviam sido elaboradas com base em resultados obtidos no sistema convencional de preparo de solo (aração + gradagens). Para estudar a resposta das culturas de soja e do trigo a fósforo, e, então, decidir se as recomendações elaboradas por ocasião do uso do sistema convencional de preparo de solo se adaptam ao SPD, foi executado um experimento na região de Passo Fundo (RS), em solo Erechim (Latossolo Vermelho aluminoférrico típico). Selecionou-se uma área com teor médio de P (2,3 mg dm-3), na qual foram incorporadas 9,0 t ha-1 de calcário, em abril de 1994. Em junho, aplicou-se cinco níveis de P2O5 (0, 40, 80, 160 e 320 kg ha-1, na forma de superfosfato triplo) à lanço, com posterior incorporação ao solo. A aveia branca (Avena sativa L.) foi semeada em julho, como cultura de cobertura. Em novembro foi semeada a soja, fertilizada com quatro níveis de P2O5 (0, 30, 60 e 90 kg ha-1), aplicados nas linhas de semeadura, em cada um dos níveis de fósforo aplicados no inverno. O delineamento experimental foi blocos ao acaso, com parcelas divididas, sendo os tratamentos formados pelos níveis de P2O5 aplicados no inverno e os subtratamentos constituídos pelos níveis de P2O5 aplicados nas linhas de semeadura da soja. No inverno de 1995 semeou-se trigo, que também recebeu 0, 30, 60 e 90 kg ha-1 de P2O5, nas linhas de semeadura. Os resultados revelaram que as doses de P2O5 mais econômicas para uso no SPD são semelhantes às atualmente recomendadas. Daí se conclui não haver necessidade de estabelecer novas tabelas de recomendação de fertilizantes fosfatados, para o SPD, salvo eventuais exceções.

Introdução

Sob o sistema convencional de preparo de solo vários trabalhos foram conduzidos para avaliar a resposta das culturas a fósforo e para calibrar o método Carolina do Norte de estimação da disponibilidade de P no solo. Assim, Winkler & Sfredo (1979) estudaram a resposta de trigo a fósforo incorporado ao solo, na presença e na ausência de calcário. Os cálculos para determinar as doses que proporcionaram as máximas eficiências econômicas mostraram que estas variaram em função da produtividade observada e da resposta de trigo ao fósforo aplicado. Os valores para a máxima eficiência econômica variaram de 106 a 201 kg ha-1 no solo Brunizem e de 162 a 258 kg ha-1 no Latossolo Roxo distrófico, muito superiores aos atualmente recomendados (Sociedade, 1995). Por outro lado, aplicações de fósforo nas linhas de semeadura permitem o uso de menores quantidades de adubo, conforme se infere do trabalho de Muzilli et al. (1979), com trigo. Quanto a soja, Cordeiro et al. (1979) estudaram a resposta da cultura a doses e fontes de fósforo, em que esse elemento foi incorporado ao solo e concluíram que para uma relação de preços (quilograma do fertilizante/quilograma de grãos) igual a 4,5 a dose de maior eficiência econômica seria de 99 kg ha-1 de P2O5, na forma de superfosfato triplo, e para uma relação igual a 4,0 essa dose seria de 142 kg ha-1 de P2O5.Recentemente, Lantmann et al. (1996) estudaram a adubação fosfatada e potássica na sucessão soja-trigo, em Latossolo Roxo distrófico, sob semeadura direta, usando aplicação localizada dos fertilizantes (nas linhas de semeadura) e doses de fósforo de 50 a 110 kg ha-1. Concluíram que a concentração de P no solo, para a sucessão soja-trigo, deve ser mantida em, no mínimo, 9,0 mg dm-3, em virtude da exigência da cultura de trigo. Por causa dessa recomendação, as adubações com fósforo para o cultivo de soja em sucessão ao trigo poderão ser dispensadas, considerando-se que o nível crítico de P no solo para soja, 6,0 mg dm-3, é menor do que o nível exigido para trigo. Por outro lado, são freqüentes os questionamentos sobre o uso das recomendações de adubos fosfatados no sistema plantio direto, pois estas foram elaboradas com base em experimentos conduzidos no sistema convencional de preparo de solo. As respostas das culturas a fósforo no SPD são semelhantes às observadas no sistema convencional, exigindo apenas pequenos ajustes nas recomendações, ou são muito diferentes? Nesse sentido, objetivou-se estudar a resposta das culturas de trigo e de soja a fósforo, no sistema plantio direto.

Material e Métodos

Uma área foi selecionada com base no teor de fósforo (2,3 mg dm-3), em Latossolo Vermelho alumino férrico típico (unidade de mapeamento Erechim), a qual teve apenas um cultivo de soja antes do início do experimento. O solo recebeu 9,0 t ha-1 de calcário, em abril de 1994. Para criar diferentes níveis de P no solo, cinco níveis de P2O5 (0, 40, 80, 160 e 320 kg ha-1), na forma de superfosfato triplo, foram espalhados a lanço, na superfície do solo, e posteriormente, incorporados ao solo. A seguir fez-se o plantio de aveia branca (Avena sativa L.), para cobertura de solo, que foi dessecada para o plantio de soja. Esta foi fertilizada com quatro níveis de fósforo (0, 30, 60 e 90 kg ha-1 ), nas linhas de semeadura, em cada nível de fósforo aplicado no inverno. O delineamento experimental foi blocos ao acaso, no esquema de parcelas divididas, com três repetições. Os tratamentos foram formados pelos níveis de fósforo incorporados ao solo no inverno, e os subtratamentos foram constituídos pelos níveis de fósforo aplicados nas linhas de semeadura de soja. O trigo foi plantado em sucessão à soja, tendo também recebido quatro níveis de fósforo nas linhas de semeadura (0, 30, 60 e 90 kg ha-1), de forma cumulativa, isto é, as parcelas que receberam, por exemplo, 60 kg ha-1 de P2O5 na cultura de soja também receberam a mesma dose na cultura de trigo. Para avaliação dos rendimentos, foram colhidas as linhas centrais de soja e de trigo, ajustando-se o peso para teor de umidade de 13%, e, no caso de trigo, também para peso hectolítrico de 78. Os dados foram submetidos à análise de variância, a teste de médias (Duncan, 5%) e a regressões. Resultados e Discussão Os resultados obtidos com as culturas de soja e de trigo constam na Tabela 1. Considerando-se as médias dos níveis de fósforo aplicados nas linhas de semeadura, verifica-se que somente houve resposta da cultura de soja até o tratamento com 80 kg ha-1 de P2O5 incorporados ao solo. Quanto aos níveis de fósforo aplicados nas linhas de semeadura, estes somente aumentaram o rendimento de grãos nos níveis 0 (zero) e 40 kg ha-1 de P2O5 incorporados ao solo. Nesses tratamentos, a resposta da cultura de soja foi linear (Y=2067,50 + 9,24 P, para o nível zero de fósforo incorporado, e Y=2395,26 + 9,86 P, para o nível de 40 kg ha-1 de fósforo incorporado ao solo).

Tabela 1. Efeito da aplicação de níveis de fósforo sobre o rendimento de grãos de soja e de trigo, em plantio direto. Marau, 1994/95 e 1995.

Dose de P2O5 aplicada

Rendimento de grãos

a lanço e incorporada

Soja

Trigo

ao solo

de soja e de trigo

----------------------------------------- kg ha-1---------------------------------------------

0

1950 1c

1376 c

30

2462 b

2217 b

60

2740 ab

2526 ab

90

2781 a

2672 a

Média

2483C

2198 D

40

0

2244 b

1432 b

30

2892 a

2298 a

60

3039 a

2758 a

90

3182 a

2565 a

Média

2839 B

2263 CD

80

0

3030 a

1800 b

30

3244 a

2348 a

60

3207 a

2743 a

90

3199 a

2631 a

Média

3170 A

2380 BC

160

0

3144 a

1858 b

30

3242 a

2552 a

60

3076 a

2719 a

90

3103 a

2601 a

Média

3141 A

2432 B

220

0

3243 ab

2473 c

30

3123 b

2747 b

60

3452 a

2962 ab

90

3210 ab

3017 a

Média

3257 A

2800A

1Médias seguidas pela mesma letra, minúsculas ou miúsculas, não diferem estatisticamente entre si, pelo teste de Duncan, a 5% de probabilidade. Letras maiúsculas comparam médias dentro de cada nível de P2O5 aplicado a lanço e incorporado.

Soja - F:

Doses a lanço: 23,07**

CV:

Doses a lanço: 7,71%

Doses em linha: 13,09**

Doses em linha: 6,39%

Doses a lanço x doses em linha: 4,00**

Trigo - F:

Doses a lanço: 16,06**

CV:

Doses a lanço: 6,71%

Doses em linha: 70,64**

Doses em linha: 8,39%

Doses a lanço x doses em linha: 1,87 NS

Observa-se que, para cada quilograma de P2O5 aplicado nas linhas de semeadura, o ganho foi em torno de 9 kg de grãos de soja. Os resultados deixam clara a baixa resposta de soja a fósforo, mesmo em solos com teor médio de P (2,3 mg dm-3), provavelmente devido à aplicação anterior de calcário, pois é conhecida a relação de substituição entre calcário e fósforo (Vidor & Freire, 1972).O trigo apresentou resposta aos níveis de fósforo aplicados nas linhas de semeadura em todas os níveis de fósforo incorporados ao solo, antes do cultivo da aveia branca. Entre estas, os rendimentos foram crescentes até o tratamento com 320 kg ha-1 de fósforo. Na média dos níveis incorporados ao solo, houve resposta de trigo aos níveis aplicados nas linhas de semeadura até 60 kg ha-1. Equações de regressão foram ajustadas relacionando-se os níveis de fósforo aplicados nas linhas de semeadura com o rendimento de grãos de trigo, dentro de cada nível de fósforo incorporado ao solo no inverno anterior. As seguintes equações foram obtidas:

Dose de fósforo incorporada

Equação

R2

0 (zero)

Y = 1394,23 + 31,37 P - 0,1931 P2

0,90

40

Y = 1419,40 + 39,35 P - 0,2942 P2

0,76

80

Y = 1782,62 + 26,13 P - 0,1834 P2

0,76

160

Y = 1869,77 + 28,28 P - 0,2255 P2

0,60

320

Y = 2522,90 + 6,15 P

0,74

Com base nas equações quadráticas, determinou-se que o máximo rendimento de trigo seria obtido com doses de fósforo de 63 a 81 kg ha-1. Para determinação das doses que proporcionariam a máxima eficiência econômica (MEE), considerou-se o preço do quilograma de fósforo igual a R$ 1,43 (R$ 600,00 por tonelada de superfosfato triplo) e o preço do quilograma de trigo igual a R$ 0,27. Assim, estimou-se que a máxima eficiência econômica seria atingida com doses de 51 a 67,5 kg ha-1 de fósforo. Examinando-se a recomendação atual para trigo, considerando-se a cultura como 2o cultivo, em solo da classe 1 (mais de 55% de argila) e considerando-se o valor R para produtividade superior a 2 t ha-1, conclui-se que as doses estimadas para obtenção da MEE são muito semelhantes às atualmente recomendadas (Sociedade, 1995) e que foram estabelecidas em virtude de resultados obtidos no sistema convencional de preparo do solo. Tendo em vista os resultados aqui relatados e os apresentados por Lantmann et al. (1996), pode-se aceitar que, para áreas recentes sob sistema plantio direto, as recomendações atuais de fósforo são válidas, não havendo motivos para grandes preocupações. Para as condições de plantio direto consolidado, normalmente os solos apresentam teores de fósforo acima dos níveis críticos e, nesse caso, são pequenas, ou nulas, as probabilidades de resposta à aplicação de fósforo.Conclusão A resposta das culturas de soja e de trigo a fósforo indicou que as recomendações de fósforo elaboradas com resultados obtidos no sistema convencional de preparo de solo, também são válidas para solos recentemente sob sistema plantio direto.ReferênciasCORDEIRO, D. S.; PÖTTKER, D.; BORKERT, C. M.; SFREDO, G. J.; MESQUITA, A. N.; DITTRICH, R. C. & PALHANO, J. B. Efeito de níveis e fontes de fósforo na produção e no rendimento econômico da soja na região de Dourados (MS). R. bras. Ci. Solo 3 (2):100-105, 1979. LANTMANN, A. F.; ROESSING, A. C.; SFREDO, G. J. & OLIVEIRA, M. C. N. de Adubação fosfatada e potássica para a sucessão soja-trigo em Latossolo Roxo distrófico sob semeadura direta. Londrina:Embrapa Soja, 1996. 44p. (Embrapa Soja. Circular Técnica, 15). MUZILLI, O.; LANTMANN, A. F. & TORNERO, M. T. Respostas do trigo a fósforo e potássio como base de interpretação das análises de solo para adubação da cultura no estado do Paraná. R. bras. Ci. Solo 3 (2):93-96, 1979. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIÊNCIA DO SOLO. Núcleo Regional Sul. Comissão de Fertilidade do Solo - RS/SC. Recomendações de adubação e de calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Passo Fundo, SBCS-Núcleo Regional Sul - Comissão de Fertilidade do Solo - RS/SC/EMBRAPA-CNPT, 1995. 223p. VIDOR, C.; & FREIRE, J. R. J. Relação de substituição entre calcário e fósforo aplicados ao solo na cultura da soja (Glycine max (L) Merril). Agronomia Sulriograndense, v. VIII, n. 2., p. 187-193, 1972. WINKLER, H. & SFREDO, G. J. Efeito da calagem e da adubação fosfatada sobre a produção do trigo e a disponibilidade de fósforo em quatro unidades de solo no estado de Santa Catarina. Agronomia Sulriograndense 15 (1):1-13, 1979.