Recorde de produtividade agrícola no Rio Grande do Sul, em 2001. Recorde?
Eng.-Agr. Flávio Danilo HaasMais uma vez utilizo as democráticas linhas da Revista Plantio Direto para algumas considerações que, creio, tenham passado desapercebidas para muitos colegas, produtores e outras pessoas pertencentes aos demais setores ligados à agricultura do Rio Grande do Sul.Diante das insistentes manchetes oficiais sobre a tão badalada safra recorde de grãos do Rio Grande do Sul no último ano agrícola, proponho algumas reflexões sobre o que, realmente, comemorar e a preocupação que devemos ter presente sobre o que fazer para reduzirmos a distância que ainda nos separa das produtividades crescentes dos estados vizinhos Paraná e Santa Catarina. Isto para ficarmos apenas na região Sul.Proponho, como ponto de partida para esta reflexão agronômica (o negrito é meu e proposital), o levantamento que realizei em 1998 e que foi publicado na Revista Plantio Direto no 49, de agosto de 1998. Naquele levantamento, fiz uma minuciosa relação entre as produtividades de soja do Rio Grande do Sul e dos demais estados brasileiros, os níveis médios de adubação e volume de nutrientes utilizados, resultantes de 58.500 análises de solo e, com base nas tabelas de extração/exportação de nutrientes, estimei o teto de produtividade para nossas principais culturas econômicas, milho e soja, com base nos níveis de adubação com nitrogênio, fósforo e potássio. Dentro de uma normalidade climática, chegou às seguintes produtividades possíveis, em t/haNa época, não faltaram aqueles que, ironicamente, duvidaram deste levantamento, sendo taxativos ao apontarem aquela que, no ponto de vista deles, seria a única causa das baixas produtividades destas culturas no Rio Grande do Sul: O CLIMA, que realmente tem nos penalizado, mas às vezes serve como muleta!Após alguns anos com tropeços climáticos, é verdade, chegamos ao ano agrícola de 2000/2001, com clima dentro da normalidade para o estado, com raros bolsões de seca, que não impactaram o resultado geral. Onde chegaram nossas produtividades, gerando toda esta euforia? E onde chegaram nossos vizinhos? Preste bem atenção!Vejamos o caso das culturas da soja e do milho, comparando as produtividades médias do Paraná,Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Brasil em 1997/98 e 2000/2001.Existem algumas variações nas inúmeras tabelas disponíveis, mas quero me ater ao fundamental: olhados de forma isolada, realmente são resultados a serem comemorados. Mas, continuamos “tão atrás” dos estados vizinho quanto da média brasileira! E como engenheiro agrônomo, com 21 anos dedicados à agricultura do meu Estado, especialmente ao Sistema Plantio Direto, não me imaginem pessimista a ponto de não reconhecer ou comemorar nossa marca de 2001. Mas, do ponto de vista agronômico, precisamos ir além de olharmos apenas para nosso próprio umbigo, observando com atenção nossos competidores vizinhos. Chegamos apenas e tão somente onde nossos níveis de fertilidade e adubação permitiram, nada além! Compare o teto estabelecido na revista Plantio Direto 49 com a realidade desta safra. É necessário lembrar que, na composição desta média, possuímos excelentes produtividades aqui do RS, na faixa de 10.200kg/ha de milho e 3.300kg/ha de soja, mostrando que temos tecnologia, cultivares, clima, assistência técnica e produtores competentes para irmos muito além do que chegamos neste ano. Pena que não se consiga disponibilizar estas tecnologias para todos os produtores, possibilitando um acréscimo substancial nas receitas do setor primário, que circulariam em todos os setores da economia. Aliás, se chegamos até aqui é muito mais pelo heróico trabalho diário de alguns abnegados cuja missão é ir além do conformismo da miséria, buscando novas tecnologias e desafiadoras metas de produtividade e rentabilidade para a agricultura do RS, compatíveis com nosso competidores de estados vizinhos e, numa economia globalizada, de outros países. Por derradeiro, quero lembrar que, se houve alguma interferência oficial para este aumento de produtividade via crédito rural, os outros estados foram mais efetivos na transformação destes investimentos em produtividade, pois nosso honroso recorde nos colocou apenas no degrau mais baixo do pódio, conforme pode ser facilmente visualizado nos gráficos!E, convenhamos, contra números reais, restam poucos argumentos.Onde vamos chegar em 2002? Está lançado o desafio! E, creiam-me, será novamente a capacidade nutricional do solo, o esforço de uma grande e capaz parcela da classe produtora e o uso das tecnologias disponíveis que farão a diferença. Apesar da penalização imposta pela longa estiagem, é só esperar para ver!