Resistência de plantas daninhas a herbicidas
Erivelton Scherer RomanPesquisador da Embrapa Trigo, Caixa Postal 451,99001-970 Passo Fundo, RS. email: eroman@cnpt.embrapa.br Atualmente a principal ferramenta de controle de plantas daninhas em lavouras comerciais é o uso de herbicidas, que supera em muito todas as outras formas de controle (manual, mecânico, culturais, etc.). Além de altamente eficientes, os herbicidas oferecem a possibilidade de controle em larga escala de maneira prática e rápida.Apesar das vantagens, o uso freqüente e indiscriminado de herbicidas com mesmo mecanismo de ação pode provocar o surgimento de plantas daninhas resistentes, ser tóxico ao homem e aos animais, poluir o ambiente e deixar resíduos nos alimentos.A resistência a herbicidas é a capacidade adquirida de uma planta em sobreviver a determinados princípios ativos que, em condições normais, controlariam todos os indivíduos da população, que pode ser provocada por seleção natural ou ser induzida artificialmente através do uso da biotecnologia.No Brasil, existem, até o presente, apenas quatro casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas já comprovados: Euphorbia heterophylla (Leiteiro ou Amendoim bravo) e Bidens pilosa resistentes aos herbicidas que inibem a enzima ALS (aceto lactato sintetase), Brachiaria plantaginea (papuã ou capim marmelada) resistente aos herbicidas inibidores da enzima ACCase (acetil-coenzimaA carboxylase), e mais recentemente Sagittaria montevidensis, resistente a herbicidas aplicados na cultura do arroz. Apesar do baixo número de plantas daninhas envolvidas, esses casos são preocupantes devido aos danos que essas plantas causam às culturas por elas infestadas. Os mecanismos que conferem resistência a herbicidas em plantas daninhas são vários. A alteração do local de ação é um mecanismo de resistência importante e significa que a molécula herbicida não conseguemais inibir o local onde o produto agia, devido a uma ou mais modificações na estrutura desse local. Assim, o herbicida torna-se incapaz de interromper o processo bioquímico de produção de compostos essenciais à vida da planta daninha e ela se torna resistente ao produto.A planta daninha resistente pode possuir, também, a capacidade de decompor a molécula do herbicida mais rapidamente do que as sensíveis. Existe ainda o mecanismo da compartimentalização, onde a molécula do herbicida é conjugada com metabólitos da planta, tornando-se inativa, ou é removida das partes metabolicamente ativas da célula e armazenada em locais inativos, como o vacúolo. Devido à conjugação e compartimentalização, a absorção e a translocação do herbicida são alteradas, e assim, a quantidade do herbicida que atinge o local de ação é bastante reduzida, não chegando a ser letal à planta.A resistência pode ser cruzada ou múltipla, sendo que a resistência cruzada ocorre quando um biótipo é resistente a dois ou mais princípios ativos com o mesmo mecanismo de resistência. A resistência múltipla ocorre quando as plantas resistentes possuem dois ou mais mecanismos distintos que conferem resistência a herbicidas de diferentes grupos químicos.A constatação da existência do problema de resistência numa determinada área é demorada e, via de regra, só ocorre depois que as plantas resistentes já estão disseminadas em boa parte da lavoura.A identificação da resistência em plantas que sobrevivem aos tratamentos com herbicidas é um aspecto importante para o manejo da resistência. Se um tratamento com herbicida está perdendo a sua eficácia, pode ser que a causa seja a resistência a ele. Biótipos resistentes ocorrem, geralmente, em manchas, que aumentam de ano para ano.O gerenciamento da resistência não significa apenas corrigir um problema que já aconteceu, mas também prevenir para que ele não ocorra. Dentro dessa filosofia, existem algumas ações a serem tomadas antes do surgimento de qualquer forma de resistência na propriedade, de forma preventiva.A rotação de herbicidas ou o uso de misturas de herbicidas com diferentes mecanismos de ação são medidas para prevenir e minimizar o problema da resistência. A rotação de culturas e o uso de sementes de alta qualidade são medidas preventivas. O uso de sementes de qualidade é uma forma de prevenir a introdução de sementes de plantas resistentes na propriedade, além de promover um desenvolvimento mais vigoroso da lavoura, o que facilita o fechamento do dossel e o controle cultural das plantas daninhas.Quando houver suspeita da ocorrência de resistência a herbicidas, deve-se procurar comprovar o problema, certificando-se que as plantas daninhas sobreviventes não são escapes do controle ou re-infestações. Considerando todas as espécies de plantas daninhas presentes na lavoura, deve-se verificar se o escape ocorreu com várias espécies ou com apenas uma. Se foi com apenas uma, verificar, também, se existem casos conhecidos de resistência dessa planta a esse grupo de herbicidas. Um outro aspecto a ser considerado é a freqüência com que o herbicida tem sido usado e se o mecanismo de ação do produto escolhido para o controle vem sendo utilizado repetidamente na propriedade, mesmo com rotação de culturas. Aspectos de tecnologia de aplicação também devem ser verificados, como, por exemplo, se a aplicação em si foi adequada quanto ao horário, volume de aplicação, dose, condições do pulverizador, estádio de desenvolvimento da planta daninha quando da aplicação do herbicida, condições climáticas, etc.A integração de vários métodos de controle, como o uso de resíduos culturais, juntamente com o uso de herbicidas alternativos e, no futuro, de cultivares tolerantes ou resistentes a herbicidas, é o ideal para prevenir e manejar o problema. As cultivares geneticamente ou por outro mecanismo modificadas, proporcionarão uma série de vantagens em termos de controle de plantas daninhas. Entre elas, a possibilidade do uso de herbicidas considerados até o momento não-seletivos, como o glyphosate e o imazapyr. O uso desses herbicidas constituirá em alternativa adicional, que resultará na redução dos custos de controle de plantas daninhas, além de permitir maior rotação de herbicidas quanto ao mecanismo de ação. Possibilitarão, adicionalmente, maior flexibilidade no uso de herbicidas, quanto à sua aplicação e mais seguros para o ambiente.