Produtividade do algodoeiro em rotação com soja no Sistema Plantio Direto
Francisco Marques Fernandes1; Fernando Mendes Lamas2; João Carlos Heckler3; Luiz Alberto Staut41Eng. Agr., M.Sc., CREA nº 631-D/MT, Visto 588-MS, Embrapa Agropecuária Oeste, Caixa Postal 661, 79804-970 - Dourados, MS. (E-mail: fmarques@cpao.embrapa.br). 2Eng. Agr., Dr., CREA nº 19820/D-MG, Visto 1454-MS, Embrapa Agropecuária Oeste. 3Eng. Agr., M.Sc., CREA nº 379/D-RS, Visto 1032-MS, Embrapa Agropecuária Oeste. 4Eng. Agr., M.Sc., CREA nº 1175/D-MS, Embrapa Agropecuária Oeste.A área cultivada com o algodoeiro vem aumentando a cada ano na região dos cerrados, principalmente nos estados de Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS). No entanto, a soja continua sendo a espécie mais cultivada na região.Nas regiões produtoras de grãos de MS, os sistemas de produção são pouco diversificados e, conseqüentemente, vulneráveis sob os pontos de vista econômico, social e ecológico. A monocultura, principalmente de soja, tem produzido, ao longo dos anos, degradação química do solo, erosão e aumento na incidência de doenças, pragas e plantas daninhas. Esses fatores, quando analisados conjuntamente, são responsáveis pela decadência da monocultura em geral.O Sistema Plantio Direto (SPD) é aquele no qual as espécies são estabelecidas, mobilizando-se o solo exclusivamente na linha de semeadura e mantendo-se os resíduos vegetais das culturas anteriores na superfície do mesmo, havendo necessidade de se realizar a rotação de culturas. No SPD, pelo menos 30% de restos culturais devem ser mantidos na superfície do solo, após a colheita (Costamilan & Yorinori, 1999).De acordo com Arantes (1993), Hernani & Salton (1998) e O Plantio... (1998), através de um sistema de rotação de culturas poder-se-á aumentar e/ou manter a matéria orgânica do solo, diminuir a erosão, reduzir a ocorrência de plantas daninhas, doenças e pragas e melhorar o aproveitamento de nutrientes. Com essa prática é possível haver redução de custo com adubação e outros produtos químicos, ampliar o período de utilização de máquinas e implementos, diminuindo investimentos com esse fator de produção.
Tabela 1. Produtividade (kg/ha-1), altura de plantas (m) e peso de capulhos (g) de duas cultivares de algodão no Sistema Plantio Direto, nas safras 1998/99 e 1999/2000. Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MS.
Cultivares
Produtividade(kg/ha-1)
Altura de plantas (m)
Peso de capítulo (g)
CNPA ITA 90a
4.325
1,30
6,89
CD 403b
3.080
1,30
7,50
a Semeadura: 15.10.98 e emergência: 22.10.98b Semeadura: 08.11.99 e emergência: 15.11.99
Em um sistema de rotação de culturas com a soja, o algodoeiro é uma ótima alternativa pois, além de proporcionar boa lucratividade ao produtor, tem sua produtividade incrementada quando cultivado após a soja (Costa et al., 1993).Este trabalho teve como objetivo avaliar a produtividade do algodoeiro cultivado no SPD, em rotação com a soja.O experimento foi desenvolvido na área experimental da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS, nos anos agrícolas 1998/99 e 1999/2000, em um Latossolo Roxo distrófico, que nos últimos dez anos vem sendo manejado no SPD. Em 1998/99, a cultivar utilizada foi a CNPA ITA 90 , em espaçamento de 0,90m entre fileiras e com oito plantas por metro; por ocasião da semeadura, utilizou-se 300kg/ha-1 de fertilizante da fórmula 05-25-20. A adubação em cobertura foi realizada aos 25 e 45 dias após a emergência, aplicando-se 60 e 40kg/ha-1, respectivamente, de nitrogênio, tendo como fonte o sulfato de amônio. No ano agrícola 1999/2000 utilizou-se a cultivar CD 403, em espaçamento de 0,90m entre as fileiras e com seis plantas por metro. Na semeadura aplicou-se 400kg/ha-1 de fertilizante da fórmula 05-30-15. A adubação em cobertura foi realizada aos 25 e aos 45 dias após a emergência, com 60 e 40kg/ha-1, respectivamente, de nitrogênio. Herbicidas e inseticidas foram usados de acordo com as recomendações de manejo de plantas daninhas e pragas, respectivamente. Quando 70% dos frutos (capulhos) estavam abertos, foi aplicado o desfolhante thidiazuron, na dose de 100g/ha. No inicio do florescimento utilizou-se, nos dois anos de experimentação, o cloreto de mepiquat, nas doses de 0,75 e 0,50L, respectivamente, com a finalidade de uniformizar a altura de plantas.A colheita foi realizada tomando-se oito pontos ao acaso, na lavoura onde foram colhidas duas linhas de 5,00m, perfazendo 9,00m2. Antes da primeira colheita foram coletados 20 capulhos do terço médio das plantas, para determinação de seu peso médio. Após a colheita foi determinada a altura de plantas, dentro da área amostrada. A altura de plantas na época da colheita foi de 1,30m, para as duas cultivares de algodão estudadas (Tabela 1). Esse resultado está de acordo com o relatado por Athayde & Lamas (1999), os quais afirmaram que, na colheita, as plantas devem estar com altura entre 1,20 e 1,30m, pois, nesta condição, tal operação é facilitada, obtendo-se melhor rendimento operacional.O peso médio de capulho foi, respectivamente, 6,89 e 7,50g para CNPA ITA 90 e CD 403. A produção de algodão em caroço, em 1998/99, foi de 4.325kg/ha-1, e no ano agrícola 1999/2000, de 3.080kg/ha-1.Os resultados de produtividade do algodoeiro obtidos nos experimentos, com as cultivares CNPA ITA 90 e CD 403, podem ser considerados muito bons, quando comparados com os rendimentos médios do Estado de MS, que foram, respectivamente, 1.900kg/ha-1, em 1998/99 e 2.300kg/ha-1, no ano agrícola 1999/2000.Na safra 1998/99, a estimativa do custo de produção de algodão na região de Dourados,MS, foi de R$ 1.100,00 por hectare; com preço médio da arroba de algodão em caroço de R$7,00, o produtor obteria lucro, de R$918,33 por hectare. Em 1999/2000 o custo de produção foi de R$1.277,40 por hectare (Melo Filho & Lemes, 2000a); com o preço médio da arroba de algodão em caroço de R$10,00, o produtor teria lucro de R$775,93 por hectare.Comparando com a cultura do milho, uma das alternativas de rotação, o lucro seria de R$180,50 por hectare; esse valor foi obtido tomando-se como base o custo de produção estimado em R$691,46 (Melo Filho & Lemes 2000b) e como referência o preço de R$8,50, o saco de 60kg, e uma produtividade de 6.155kg/ha-1, que foi a obtida em uma área contígua, com características semelhantes à cultivada com o algodoeiro. Nestas condições, o algodoeiro proporcionou lucratividade de 409 e 329%, superiores ao do milho, respectivamente, nos anos agrícolas de 1998/99 e 1999/2000. Conclui-se que, não obstante os dados sejam preliminares, o algodoeiro é uma alternativa economicamente viável para ser utilizada em rotação de culturas, no SPD.
Referências Bibliográficas
ARANTES, E.M. Rotação de culturas e adubação verde como alternativas para a melhoria da produtividade do algodoeiro herbáceo. In: REUNIÃO NACIONAL DE ALGODÃO, 7.; SEMINÁRIO SOBRE A CULTURA DO ALGODÃO EM MATO GROSSO, 2., 1993, Cuiabá, MT. Resumos... Cuiabá: EMPAER-MT; Campina Grande: EMBRAPA-CNPA, 1993. p.209.ATHAYDE, M.L.F.; LAMAS, F.M. Aplicação seqüencial de cloreto de mepiquat em algodoeiro. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.34, n.3, p.369-375, mar. 1999.COSTA, A.; PIRES, J.R; YAMAOKA, R.S. Efeitos da rotação de culturas sobre o rendimento do algodoeiro. In: REUNIÃO NACIONAL DE ALGODÃO, 7.; SEMINÁRIO SOBRE A CULTURA DO ALGODÃO EM MATO GROSSO, 2., 1993, Cuiabá, MT. Resumos... Cuiabá: EMPAER-MT; Campina Grande: EMBRAPA-CNPA, 1993. p.201.COSTAMILAN, L M.; YORINORI, J.T. Efeito do sistema de plantio direto sobre algumas doenças em leguminosas na região Sul do Brasil. Fitopatologia Brasileira, Brasília, v.24, p.219-220, ago. 1999. Suplemento. Edição de Resumos do XXXII Congresso Brasileiro de Fitopatologia, Curitiba, PR, ago. 1999.HERNANI, L.C.; SALTON, J.C. Manejo e conservação do solo. In: EMBRAPA. Centro de Pesquisa Agropecuária do Oeste (Dourados, MS). Algodão: informações técnicas. Dourados: EMBRAPA-CPAO; Campina Grande: EMBRAPA-CNPA, 1998. p.26-50. (EMBRAPA-CPAO. Circular Técnica, 7).MELO FILHO, G.A. de; LEMES, M.M.R. Estimativa de custo de produção de algodão, safra 2000/2001, em Mato Grosso do Sul. Dourados: EMBRAPA-CPAO, 2000a. 4p. (EMBRAPA-CPAO. Comunicado Técnico, 16).MELO FILHO, G.A. de; LEMES, M. M.R. Estimativa de custo de produção de milho, safra 2000/2001, em Mato Grosso do Sul. Dourados: EMBRAPA-CPAO, 2000b. 6p. (EMBRAPA-CPAO. Comunicado Técnico, 15).O PLANTIO direto da cultura do algodão no cerrado. In: SEMINÁRIO ESTADUAL DO ALGODÃO, 4.; ENCONTRO ALGODÃO MATO GROSSO 2000, 1., 1998, Cuiabá, MT. Anais... [S.l.]: Fundação MT/EMBRAPA/EMPAER-MT, (1998?). p.81-85.