Lutzenberger
As massas de ar gelado que se soltam do polo, características da transição verão/outono, no hemisfério sul, tiveram dificuldades em deslocar a grande massa de ar quente que, teimosa, plantada sobre o coração do país, retardou alguns dias a definição climática na região Sul do Brasil, durante o mês de maio.Quando houve o deslocamento desse obstáculo, como era esperado, chuvas e ventos fortes castigaram o pampa e os planaltos sulinos. Sob esse quadro, de cores escuras e árvores se retorcendo, faleceu e foi enterrado José Lutzenberger, homem incomum, cidadão marcado por uma vida fantástica, por idéias simples, amplas e objetivas, contraditórias, na opinião de muitos, mas sempre defendidas de uma forma que carregava a emoção e a certeza que o ligavam à natureza diversificada e ao chão que, úmido, recebeu de volta seu corpo magro, de quem nunca esteve ocioso.Devo confessar que derramei uma lágrima involuntária, que ninguém viu, quando o noticiário mostrou seu enterro sob a chuva, e isso não tinha explicação, pois raras vezes conversamos e, na distância, nunca participei de nenhuma luta das que ele promoveu. O mundo das idéias é muito vasto e essa distância também o afastava do plantio direto, por razões que jamais poderemos contestar, agora. Mas isso nunca modificou minha admiração pela sua pessoa e por tudo o que ele defendia, e a forma como o fazia, nem mesmo quando integrou o Governo Collor, quando imaginou que poderia trabalhar e corroer os intestinos do monstro.O motivo da lágrima, talvez, seja porque está na raiz da nossa formação ambiental, com todos os defeitos que possamos ter. Se é que não se trata de arrogância afirmarmos que possuímos alguma. Sua emoção com a natureza beirava à uma poesia simples, mas permanente. É preferível sentir, emocionar-se com o trivial do que não entender uma sinfonia. No entanto, todos sabemos da vasta cultura de José Lutzeberger. Suas últimas leituras eram as revistas Nature e Der Spiegel. A mim, entretanto, permanece a marca dessa simplicidade em indignar-se com a destruição da natureza e, ao mesmo tempo, encantar-se com as espécies de orquídeas, únicas no mundo, que identificara nos morros de Torres.“A natureza era música aos seus ouvidos. Não é à toa que descrevia o processo da evolução no planeta como uma “sinfonia magistral”. Seu primeiro prisma de observação desse processo era sempre o prisma ético, e as interferências desrespeitosas na natureza deixavam-no transtornado”, afirma a jornalista Lilian Dreyer, que conviveu com o ambientalista nos últimos tempos, com o objetivo de escrever suas memórias.Ele era um radical, e muitos não o aceitavam por isso.De minha parte, nunca me feriram suas manifestações. Talvez, justamente porque eram posições descomprometidas. Se havia algum comprometimento, este o era com a natureza porque, na prática, ele sempre soube que fazia parte dela. Com uma sensibilidade acima do comum, inebriava-se com sua melodia, com o canto dos pássaros e da água. Nós tentamos fazer isso, mas os inúmeros cipós que nos ligam a diversos compromissos, impedem-nos de ver e sentir o mundo como ele o fez. E estamos todos enlouquecendo.Mas, por vias das dúvidas, o maluco era Lutzenberger!
Gilberto BorgesEditor