Ferrugem-da-soja e plantas de soja verdes na colheita
A partir desta edição, estamos formalizando uma coluna permanente, na Revista Plantio Direto, do engenheiro agrônomo Dirceu Gassen.Ele sempre participou, foi um dos “amigos” que ajudaram a consolidar o nosso veículo informativo. Dirceu Gassen é um dos assistentes técnicos mais ativos. Nas suas inúmeras e proveitosas viagens, procura trazer informações sobre tecnologias adotadas nas regiões e países visitados, que possam interessar aos leitores da Revista Plantio Direto.Hoje, gerente técnico da Cooplantio, Gassen está mais ativo e atuante do que sempre esteve, buscando auxiliar na linha de frente da produção, no contato direto com os problemas que os produtores e técnicos enfrentam na lavoura, em seus vários aspectos. Este trabalho tem resultado em informativos técnicos objetivos e importantes para aqueles que trabalham com agricultura.Ferrugem-da-soja, Phakopsora pachyrhizi A ocorrência da ferrugem-da-soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, está sendo constatada por pesquisadores da Embrapa, em várias regiões do Brasil e do Paraguai.As primeiras citações dessa doença são de 1902, no Japão. Em 1914, causou epidemias em países do sul da Ásia. Na Austrália apareceu na década de 90, mas não atingiu proporções de epidemia. No fim da década de 90, a doença foi constatada na África, possivelmente trazido da Ásia por meio de correntes de ar. No Zimbábue, a partir de 1998, o impacto da ferrugem-da-soja foi devastador, com perdas estimadas entre 60 e 80 % na produção de lavouras comerciais.No Brasil, a doença foi constatada em 1979. A ferrugem presente nas lavouras a partir de 2001 parece ser de uma raça mais agressiva.Os sintomas iniciais da ferrugem são de pequenos sinais de descoloração e posterior erupção do tecido das folhas contendo pústulas com grande quantidade de esporos do fungo, na face inferior da folha (Figura 1). Os sintomas podem ser confundidos com os de danos causados por míldio.Para determinar a presença da ferrugem-da-soja é necessário usar lupa manual e determinar a presença de pústulas de esporos na superfície inferior das folhas de soja.O fungo é um parasito obrigatório (depende de plantas vivas) e sobrevive nos meses de inverno e, sob condições desfavoráveis, em hospedeiros alternativos. Mais de 95 espécies de plantas de 42 gêneros da família Fabaceae, a mesma da soja, são hospedeiras do fungo.Os esporos do fungo sobrevivem até 50 dias. A infecção ocorre sob temperaturas entre 15 e 28 °C e umidade relativa do ar entre 75 e 80 %. Ambiente com períodos prolongados de orvalho e umidade são favoráveis para o desenvolvimento da doença na lavoura (Figura 2).Diferente de outras doenças, a ferrugem não necessita de estômatos ou ferimentos, ela penetra diretamente através da cutícula e epiderme, tornando a infecção mais rápida e fácil.A lesão do fungo desenvolve-se rapidamente, causando a queda de folhas, redução no número de legumes e no peso de grãos e maturação precoce das plantas.O desenvolvimento de programas de melhoramento genético com a incorporação de genes que conferem resistência ao fungo é a estratégia mais urgente e com expectativa de controle da doença.O uso de fungicidas é outra estratégia usada para o controle da ferrugem.É difícil prever o desenvolvimento da doença para os próximos anos. Em alguns países, o patógeno se estabeleceu sem causar danos expressivos e em outros causa perdas intensas e necessidade de controle com fungicidas.Elaborado com base em Caldwell e Laing, Universidade de Natal, África do Sul e Vale, Zambolim e Chaves., Universidade Federal de Viçosa, MG, Brasil.
Plantas de soja verdes na colheita de 2002Na colheita de 2002, a soja apresentou anomalias no desenvolvimento e na maturação, com a ocorrência de plantas verdes.O clima favorável resultou na semeadura de áreas extensivas em outubro e início de novembro, mais cedo do que ocorreu em outros anos.O período de estiagem e de temperaturas elevadas, em dezembro, induziu à floração precoce. A seca, em janeiro, causou estresse, com pequeno desenvolvimento vegetativo até a ocorrência de chuvas na última semana do mês, quando houve rápida retomada de crescimento vegetativo e extensão no período de floração. Durante o mês de fevereiro, a deficiência de chuvas afetou o enchimento de grãos. A safra de 2002 resultou no atraso de uma a duas semana na maturação de colheita da soja, em relação a anos passados.A presença de plantas de soja verdes (Figura 1), em áreas extensivas foi atribuída inicialmente ao dano de percevejos. No meio rural há um conceito de que a retenção foliar (soja verde ou soja louca) é causada apenas por percevejos. Publicações relacionam a retenção foliar ao efeito da alimentação do inseto, a injeção de “hormônios” ou substâncias causadoras de desequilí- brios fisiológicos diretos. Também se atribui ao dano do inseto a presença de grãos mal formados, com manchas descoloridas (esbranquiçadas) ou murchos. Outros fatores, além de percevejos, podem causar sintomas semelhantes. Em trabalho de tese realizado com populações de ninfas e adultos de percevejos, e trabalhos complementares com a remoção de flores e legumes de plantas de soja (DN Gassen), constatou-se que o mecanismo de maturação das plantas é regulado pela formação de grãos. Qualquer fator que prejudica a formação de grãos como percevejos, déficit hídrico, doenças etc., podem induzir à queda de legumes e, como conseqüência, plantas verdes até a colheita (Figura 1).A formação de grãos chochos ou com casca rachada (Figura 2) pode ser resultado da deficiência hídrica ocorrida na fase de enchimento de legumes, constatada no mês de fevereiro.Em algumas lavouras, na colheita de 2002, a retenção foliar foi causada por percevejos e com sintomas típicos nos grãos. Entretanto, a maior parte das lavouras com plantas de soja verdes foi causada pelo reduzido número de legumes e grãos (menor dreno), e pela formação deficiente de grãos (Figura 2) resultado da combinação desfavorável de clima.
Dados para citação em referências bibliográficas:REVISTA PLANTIO DIRETO, edição nº 69, maio/junho de 2002, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS, 40 páginas.