Perspectivas do Milho para 2002 (Mercado)


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Publicado em: 01/06/2002

Perspectivas do milho para 2002

Daniel GlatGerente Executivo da Pioneer, Santa Cruz do Sul - RS - E-mail: daniel.glat@pioneer.comEm 2001, o Brasil colheu a maior safra de milho da história, pouco mais de 41 milhões de toneladas em aproximadamente 13 milhões de hectares, conforme mostra o Quadro 1.Essa produção, observada em 2001, foi decorrente do fato dos produtores terem apostado no cultivo da cultura do milho devido aos preços altos praticados em 2000 e às excelentes condições climáticas observadas nas principais regiões produtoras, tanto no verão 2000/01 como na safrinha de 2001. Como o mercado de milho ainda está se profissionalizando, diante dessa maior oferta, os preços aos produtores simplesmente desabaram em 2001 , chegando a R$ 7,00/saco de milho no Sul do país, e menos do que isso no Centro Oeste. Se não fossem as exportações de mais de 5 milhões de toneladas, contratadas durante 2001, seria possível que essa queda fosse ainda maior! Ao mesmo tempo, a soja, com seu mercado altamente profissional, “hedgeável” e ancorado no dólar, valia nessa mesma época, para o produtor, por volta de R$17,00 o saco. Como todos sabem, o ponto de equilíbrio de preço de soja e milho é aproximadamente 2:1. Assim, os produtores – influenciados pelo baixo preço do milho e sua relação com o preço da soja - decidiram aumentar a área de soja e diminuir a área de milho, na safra Verão 2001/02. De acordo com levantamento feito pelas empresas de sementes, a área plantada de milho no verão no Centro Sul do Brasil, em 2001 /02, foi por volta de 20% menor que a safra 2000/01. (Observe no quadro1, que a safra verão no Centro Sul, apesar de representar um pouco mais da metade da área plantada do Brasil, responde por quase 80% da produção.)Aliado a essa diminuição de área, a seca castigou duramente boa parte do RS e SC, que plantaram uns 30% da área total de verão do Centro Sul. Apesar do PR, MG e GO terem tido uma boa safra, acreditamos que a produtividade média da safra verão no Centro Sul do Brasil, devido à seca do Sul, tenha sido um pouco abaixo (-3 a -5%) da produtividade da safra 00/01. Com esses fatos, grande queda da área plantada e pequeno recuo na produtividade, estimamos que a produção da safra de verão no Centro Sul tenha caído de 31,5 milhões de toneladas para 24 a 25 milhões de toneladas, no máximo.

Quadro 1. Área, produtividade e produção de milho no Brasil, safra 2000/01

Safra/região

Área plantada (ha)

Produtividade (t/ha)

Produção (1000 t)

Verão Centro Sul*

7.200.000

4,4

31.700

Verão NO/NE**

3.500.000

1,0

3.500

Safrinha***

2.300.000

2,6

6.000

Total Brasil

13.000.000

3,2

41.200

* Inclui Sudoeste BA, parte de MG (Triangulo, Alto Paranaiba e Sul de Minas), e a totalidade dos estados de GO,DF,TO, MT,MS, SP, PR, SC,RS.** Inclui maior parte da BA, N, Leste e NE de MG, mais a totalidade dos outros estados do NO e NE.*** Milho plantado de Jan a Março, após soja, no PR, SP,GO,MS e MT, principalmente.

Por ocasião do plantio da safrinha de 2002 – Janeiro a Março de 2002 - os preços de milho já haviam subido com as notícias da diminuição da área do verão e da seca do Sul. Na verdade, havia intenção de aumento considerável da área plantada na safrinha 2002 em todas as regiões. Porém, no Norte e Oeste do PR e no Sul do MS - onde se planta quase metade da safrinha - as últimas chuvas foram em meados de Fevereiro. Desde lá, em muitas regiões, até essa data não tem chovido. Com isso, a intenção de aumento de plantio não pode ser totalmente concretizada.Estima-se que o PR tenha plantado de 10 a 15% a mais de área que no ano passado, quando se esperava plantar uns 30% a mais. Já no MS, o aumento de área plantada foi de apenas 5%. No entanto, mesmo que volte a chover em breve, ambos estados estão com a produtividade da safrinha fortemente comprometida, com queda estimada de 30 a 40%, no mínimo. Em SP, com o crescimento da área de cana, o atraso da colheita da soja e a seca a partir do final de Fevereiro, a área plantada da safrinha caiu em torno de 15 a 20% em relação à safrinha de 2001. Já em GO e MT, devido às boas condições de plantio, a área da safrinha aumentou cerca de 20 a 30%. A produtividade em GO deve ser igual ou ligeiramente menor que do ano passado. Por outro lado, no MT o clima corre bem e deve ser o único estado com produtividade da safrinha 2002 maior que a de 2001. No geral, estima-se que a safrinha de 2002 tenha tido um crescimento em torno de 7% na área plantada de milho, mas com uma tendência à diminuição de produtividade de, no mínimo, 20%.Desta forma, a safrinha desse ano deve produzir, no máximo, 5 milhões de toneladas de milho, contra 6 milhões de toneladas produzidas no ano passado.Assume-se que a produção de milho do NO/NE será próxima da produção do ano passado, por volta de 3,5 milhões de toneladas. Esses dados levam ao resumo do quadro 2.

Quadro 2. Área, produtividade e produção de milho no Brasil safra 2001/02

Safra/região

Área plantada (ha)

Produtividade (t/ha)

Produção (1000 t)

Verão CentroSul*

5.800.000

4,25

24.500

Verão NO/NE**

3.500.000

1,0

3.500

Safrinha***

2.450.000

2,0

5.000

Total Brasil

11.750.000

2,8

33.000

Comparando os quadros 1 e 2, chega-se à conclusão que a produção de milho no Brasil, em 2002, será em torno de 8 milhões toneladas a menos que 2001! Assumindo o consumo de milho por volta de 36 a 37 milhões de toneladas no Brasil e levando em consideração que os estoques de passagens do governo estão baixos, e que as exportações em 2002 já estão em torno de 2 milhões de toneladas, pode-se concluir que o Brasil terá que importar em 2002 em torno 3 a 3,5 milhões de toneladas de milho para poder abastecer a demanda interna por esse cereal!Esse desabastecimento de milho, que provavelmente será visto no 2o semestre deste ano, não foi criado agora, mas sim no ano passado. Em 2001, quando o preço ao produtor estava baixíssimo, tentou-se alertar as indústrias consumidoras de milho e o governo que o produtor iria trocar o cultivo do milho pelo cultivo da soja.Acredita-se que esse “vai e vem” da produção de milho, ano após ano, no Brasil (a famosa curva “M” de área, produção e preços de milho) só terminará quando se alcançar estabilidade dos preços nos anos em que existe uma maior oferta de milho. Para as indústrias e órgãos governamentais envolvidos na cadeia do milho, a sugestão é que se consiga estruturar e fortalecer, o quanto antes, um Mercado Futuro de Milho, com suficientes “players” e volumes de ambos os lados. Somente um mercado futuro organizado poderá trazer estabilidade nos preços de milho ao longo dos anos e, assim, estabilidade da área plantada e da produção. É importante deixar claro que preços estáveis e, conseqüentemente, área plantada estável, é saudável para todos os elos da cadeia do milho:- para indústria de aves e suínos, fábricas de rações e consumidores de milho em geral, que podem planejar seus custos e margens ano a ano sem maiores sobressaltos; - para as cooperativas, cerealistas e armazenadores particulares que podem melhor planejar sua logística de recebimento e armazenamento a médio prazo;- para os produtores, que sabem da importância de se plantar milho em rotação com a soja, preços estáveis de milho permitiriam manter o seu padrão ideal de rotação de culturas todos os anos, e assim fazer o melhor pela sua terra.