São Paulo — Vale do Paranapanema: O Avanço do Plantio Direto


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Publicado em: 01/06/2002

São Paulo: Vale do Paranapanema e o avanço do plantio direto

A descrição básica da região do Vale do Rio Paranapanema, no sudoeste do Estado de São Paulo, retrata uma área agropastoril estabelecida sobre solos variados, de arenosos a argilosos, de topografia plana a levemente ondulada, com verões quentes e úmidos, invernos secos e uma precipitação anual média de 1700 mm, concentrada basicamente nos meses de novembro a março.Na década de 1930, café e algodão eram as principais culturas econômicas. Porém, fortes geadas, o surgimento de pragas e doenças e a introdução de novas espécies provocou mudanças na agricultura da época. Mais recentemente, na década de 1970, a sucessão trigo/soja, com intensa mecanização do solo, sustentou o desenvolvimento da região, mas os prejuízos com perdas de solo e água, aliado à retirada dos subsídios e do Governo na área de comercialização do trigo, inviabilizaram a sucessão (Tabela 1). O trigo foi substituído pelo milho, predominando a sucessão soja/milho safrinha, a partir do início da década de 1990.Atualmente, na safra de verão, cultivam-se aproximadamente 120 mil ha de soja, com uma produtividade média de 3 t/ha, e 10 mil ha de milho, com uma produtividade média de 5 t/ha. No outono/inverno são cultivados 120 mil ha de milho safrinha, com uma produtividade variada de 1 a 5 t/ha, e 10 mil ha de trigo, com produtividade de 2 t/ha. O curto espaço de tempo com chuvas regulares e os resultados de pesquisas direcionam para o plantio antecipado do milho safrinha, o que obriga a ajustes na época de semeadura da soja. Apenas 42% das lavouras de verão são conduzidas sob plantio direto. Em compensação, 90% das áreas de milho safrinha utilizam a semeadura na palha (gráfico).

Erosão e Plantio Direto

Nas décadas de 1970 a 1990, com a sucessão trigo/soja e o preparo convencional do solo, aconteciam perdas significativas de solo, água, fertilizantes e agrotóxicos, causando danos ao ambiente em geral. Os prejuízos com a destruição de estradas e pontes levou ao extremo de, em alguns casos, prefeituras da região decretarem estado de calamidade pública, no final da década de 1990. Esse quadro levou às primeiras experiências com plantio direto, realizadas em 1979, na Fazenda da Família Tronco, em Palmital, e na Fazenda Canadá, em Assis (hoje Tarumã). Porém, em termos gerais, o processo de adoção do plantio direto na região foi bastante lento, em função de insucessos iniciais, ocorridos pela falta de máquinas e equipamentos adequados, bem como a carência de informações técnicas, similar a outras áreas do país.A criação da Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema, que promove encontros, palestras e dias de campo, tem sido o fator fundamental na evolução do sistema entre os produtores, servindo como um suporte técnico importante para a firmeza do programa. Nesse sentido, tem sido fundamental a parceria e o apoio do Instituto Agronômico de Campinas – IAC, que desenvolve trabalhos na região desde 1979. Outras instituições, como a CATI e o Fundo Estadual de Recursos Hídricos – FEHIDRO, tem apoiado a pesquisa, desenvolvimento e difusão do plantio direto, com resultados positivos, incentivando aspectos técnicos importantes como a rotação de culturas, que já apresentam respostas em termos de produtividade (Tabela 2).A redução da erosão, diminuindo perdas de solo e água, além do menor desgaste de máquinas são outros fatores que tem levado os produtores a adotar o plantio direto. De outro lado, as dificuldades técnicas ainda são encontradas por técnicos e agricultores, principalmente nos aspectos de controle de plantas daninhas, compactação, falta de rotação de culturas e dificuldades na formação de palhada. Segundo os dirigentes da APDVP, a evolução do sistema na região depende da conscientização dos segmentos envolvidos para que ocorra a mudança dos paradigmas utilizados, adotando novas tecnologias, principalmente a rotação de culturas.

Tabela 1. Perdas de solo e água por erosão em cultura de milho sob diferentes sistemas de preparo em latossolo roxo, com declive de 6,5%

Manejo

Solo (t/ha)

Água (mm)

Plantio direto

1,0

15,2

Arado escarificador

3,3

30,4

Grade pesada

4,4

42,2

Arado de discos

6,5

58,1

Fonte: Lombardi neto (1990).

Tabela 2. Rendimento de grãos da soja e do milho “safrinha”, em latossolo roxo, em Tarumã, no ano agrícola 1995/96, após dez anos de sistemas de manejo do solo

Produção de Grãos

Sistemas de Preparo

Verão - soja

Inverno - milho safrinha

kg ha-1

%

kg/ha-1

%

GA/GA

2.579

78

4.678

77

ES/GN

3.130

94

5.404

89

ES/SP

3.144

95

5.682

94

PD

3.310

100

6.046

100

(1)GA = grade aradora mais niveladora, ES = escarificador mais niveladora, GN= grade niveladora, SP = semeadura na palha, PD= plantio direto; Fonte: DeMaria & Duarte (1997).

Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema

A Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema reúne produtores e técnicos da região de Assis, São Paulo, tendo sido formada em 1998, com o objetivo de difundir a utilização do plantio direto na palha entre os tradicionais agricultores da região, o que, por si só, identifica uma tarefa com graus de dificuldades. “Sentimos necessidade de investir em pesquisas e desenvolvimento, pois o percentual de preparo convencional ainda é maior na região e, além disso, estamos enfrentando problemas com nematóide de cisto, dificuldades com os veranicos, por falta de palha sobre o solo e, conseqüentemente, baixa retenção de umidade, além da erosão”, afirma o produtor Leonardo Coda, que utiliza o sistema há cinco anos e é o atual presidente da APDVP. Com lavouras no município de Florínea, ele próprio não está com 100% de plantio direto na sua propriedade, pois ainda existem áreas de reforma de canaviais (80 ha este ano) que necessitam de mobilização do solo, segundo sua informação. Como uma estratégia para enfrentar os problemas que o plantio direto apresenta na região, ele e a diretoria da entidade estão fazendo um esforço significativo para levar o maior número possível de produtores interessados ao 8º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Águas de Lindóia/SP.No mês de maio, a Revista Plantio Direto organizou uma pequena entrevista, via internet, com Leonardo Coda, na qual ele nos contou um pouco da história da Associação que preside e as perspectivas do sistema plantio direto na região de abrangência da APDVP.Revista Plantio Direto – Como foi formada a Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema?Leonardo Coda – A APDVP foi criada em 1998, após uma visita do Nonô Pereira à região, onde ele constatou o baixo percentual de lavouras sob plantio direto e a necessidade de uma organização dos produtores em uma associação para desenvolver o sistema. Participei de uma reunião na sede da CATI, em Assis, com a presença de produtores, todos com alguma experiência em plantio direto, pertencentes a quase totalidade dos municípios do Médio Paranapanema. Resolvemos constituir uma associação naquele dia mesmo. Foram escolhidos representantes de cada município e eleita uma primeira diretoria, da qual fui o tesoureiro. Formou-se um grupo de apoio, composto por representantes de diversas empresas regionais e das multinacionais de insumos.

RPD - Como foram os primeiros tempos da Entidade?Leonardo Coda – Começamos o trabalho promovendo alguns eventos regionais sobre o Sistema Plantio Direto. Nossa sede ficou funcionando na CATI de Assis, onde tínhamos o apoio do engenheiro agrônomo Ruy Hamilton Vaz, que colocou pessoal e estrutura à nossa disposição, até que tivéssemos sede própria. A partir de determinado momento, entretanto, por motivos de saúde, precisei ficar ausente dos trabalhos durante algum tempo. Quando voltei a procurar pela APDVP, já no ano de 2000, fiquei sabendo que os trabalhos haviam sido paralisados.

RPD - O que aconteceu naquela ocasião?Leonardo Coda - Não havia uma motivação em torno da Associação. Juntamente com Ruy Vaz, que também estivera afastado, por questões de trabalho, procuramos os membros da diretoria, cujo mandato já havia expirado. Enviamos um convite para uma assembléia de renovação da diretoria e convidamos Herbert Bartz para fazer uma palestra, motivando os produtores da região, que apresentava índices de produtividade muito baixos. Porém, não conseguimos número suficiente de associados para a eleição. Naquela época, formamos um Clube Amigos da Terra, em Pedrinhas Paulista, uma pequena cidade, de colonização italiana, na qual está localizada uma das maiores cooperativas agropecuárias da região, a Cooperativa Agropecuária de Pedrinhas Paulista – CAP, onde sou cooperado.

RPD - O que isso significou para a APDVP?Leonardo Coda – Tivemos um apoio muito importante, da CAP e de produtores de Pedrinhas Paulista, como Bruno Romano, que se encarregou de divulgar a Associação na região e, graças a ele, conseguimos reunir produtores que, hoje, constituem a nossa diretoria. Ela foi eleita, numa segunda tentativa, quando mobilizamos toda a região para uma assembléia, entregando convites de mão em mão. O CAT de Pedrinhas apresentou uma chapa e, como só houve uma candidatura, fomos eleitos. A diretoria da APDVP ficou composta praticamente por produtores cooperados da CAP e, como a sede do CAT fica na cooperativa, fizemos reuniões quinzenais conjuntas.

RPD - Como está a situação atualmente?Leonardo Coda – Hoje, contamos com setenta associados. Existe a necessidade de maiores pesquisas e também de desenvolvimento, para revertermos o quadro em que ainda predomina o preparo convencional. Recentemente, foi fundado o CAT de Palmital e nós estamos incentivando a formação de novos clubes, como em Cândido Mota. Em termos práticos, a Entidade está trabalhando um projeto de pesquisa de espaçamento na cultura do milho, na propriedade do produtor Giuseppe de Angelis, em parceria com a Faculdade de Paraguaçú Paulista, sob a supervisão do professor Edson Tanaka e acompanhamento do engenheiro agrônomo Salvatore de Angelis.

RPD - Quais são os planos para os próximos tempos?Leonardo Coda – Em termos técnicos, estamos elaborando mais dois projetos de pesquisa, sobre variedades resistentes a nematóide de cisto e adubação nas culturas de soja e milho, que deverão ser realizados em parceria com a UNESP, de Botucatu. Em termos institucionais, estamos prevendo a realização de um encontro regional de plantio direto para 2003, quando faremos uma nova assembléia para renovação da diretoria e dos próprios estatutos, visando abrir para a participação de novos municípios e clubes que estão se formando. Seguindo o exemplo da APDC, estaremos propondo a criação de um conselho deliberativo, formado por representantes dos CATs, com o objetivo de estimular a participação de todos os membros nas decisões da APDVP.A última ilhaO Estado de São Paulo tardou na implantação do plantio direto em suas lavouras, mas nos dois últimos anos apresentou resultados inéditos e precoces de expansão do sistema conservacionista.

Gláucio VillelaEnraizada no sul, em expansão no Centro-Oeste, o plantio direto se difundiu pelo país deixando aberta uma lacuna em nosso mapa: o estado de São Paulo. Mesmo com uma agricultura moderna e tecnificada, que corresponde à sua magnitude, o mais rico estado brasileiro ignorou durante décadas a revolução verde que se desencadeou silenciosa em nosso território. Só nos últimos anos, amparado por um grande projeto realizado em parceria com o Bird (Banco Mundial de Desenvolvimento), o estado revelou seu lado preservacionista; apresentou os maiores índices de elevação de áreas agrícolas conservadas do Brasil e expôs ao mundo exemplos inéditos de aplicação do mais ecológico dos sistemas de cultivo economicamente viáveis. Em seu vasto território, dividido em regiões diferenciadas por variados tipos de solo, clima e topografia, o plantio direto hoje se desenvolve com avidez, ignorando as fronteiras naturais das distintas realidades no Estadão. Ao sul (Assis, Ourinhos, Itapetininga e Avaré, entre outras) o sistema é praticado nos moldes da Região Sul brasileira, com culturas de inverno brotando nos campos, inclusive, durante a primavera. No leste, norte e oeste, formados por áreas mais quentes e secas, os agricultores se inspiram no modelo praticado nos Cerrados. E na região centro-oeste (Araçatuba, Andradina, Marília, Fernandópolis, etc.), em que mais de 65% da área total são formadas por pastagens, um grande polo de integração da lavoura com a pecuária – base para elevação vertical dos índices produtivos das áreas agrícolas, com produção de carne a baixo custo -, começa a se formar.

Crescimento estruturado

Ao contrário das grandes regiões produtoras do país, Sul e Centro-Oeste, onde a organização dos produtores foi a grande responsável pela difusão do sistema nas lavouras, a conversão dos agricultores paulistas à nova forma de cultivo ocorre de forma estruturada, principalmente pelo apoio recebido do governo estadual, que abriu um financiamento de máquinas e patrocina e desenvolve, em parceria com o Bird, o projeto Microbacias, com objetivo de implantar o desenvolvimento agrícola sustentável no estado. O projeto Microbacias incentiva a adoção de técnicas agrícolas que promovam a obtenção do máximo de produtividade sem que haja alteração do meio ambiente, sendo este o preceito básico do desenvolviemtno sustentável, traduzido como “aquele que atende às necessidade do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem à suas próprias necessidades”, pelo engenheiro agrônomo José Luíz Fontes, do corpo técnico da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) e gerente de planejamento do projeto Microbacias.