Pastoreio da aveia e compactação do solo
Júlio Cesar Salton1; Amoacy Carvalho Fabricio2; Luís Armando Zago Machado3; Henrique de Oliveira41Eng. Agr., M.Sc., Embrapa Agropecuária Oeste, Caixa Postal 661,79804-970 - Dourados, MS. E-mail: salton@cpao.embrapa.br2Eng. Agr., Dr., Embrapa Agropecuária Oeste. E-mail: amoacy@cpao.embrapa.br3Eng. Agr., M.Sc., Embrapa Agropecuária Oeste. E-mail: zago@cpao.embrapa.br4Eng. Agr., M.Sc., Embrapa Agropecuária Oeste. E-mail: henrique@cpao.embrapa.br A integração lavoura-pecuária está sendo incrementada na região Centro-Sul do Mato Grosso do Sul, utilizando o Sistema Plantio Direto. No período outono/inverno é utilizada a aveia preta visando suplementação alimentar para os animais.Os sistemas de manejo do solo e de animais sob pastejo podem proporcionar mudanças nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, afetando o desenvolvimento radicular e a produção das culturas.A densidade do solo geralmente aumenta com a profundidade do perfil por causa das pressões exercidas pelas camadas superiores. Essas pressões provocam o fenômeno da compactação, reduzindo a porosidade do solo. O valor da densidade é variável para um mesmo solo, dependendo da natureza, das dimensões e da maneira como estão dispostas as partículas e, também, do teor água e de matéria orgânica presentes no mesmo (Kiehl, 1979). A compactação pode ser causada pelo uso de máquinas nas diversas operações realizadas no campo e pelo pisoteio de animais (Alegre & Lara, 1991; Trein et al., 1991). Ao analisar o efeito de diferentes formas de uso de latossolos, Kondo (1998) evidenciou o efeito da compactação causada pelas máquinas de preparo do solo na camada de 27-30 cm, enquanto para a pastagem ficou demostrado o efeito do pisoteio do gado na camada superficial de 0-3 cm. Como fatores determinantes da compactação do solo pelo pisoteio animal, destaca-se também a lotação de animais e a cobertura do solo proporcionada pela pastagem, podendo ser associada à pressão de pastejo (kg de forragem/kg de peso vivo).Associada à densidade do solo, outra propriedade também importante, e influenciada pelo manejo, é a porosidade. Ela é classificada em microporosidade e macroporosidade, ou seja, os volumes ocupados por água e ar, respectivamente (Kiehl, 1979).Visando avaliar as alterações na densidade, macro e microporosidade do solo, foram realizadas amostragens em uma área conduzida no Sistema Plantio Direto com a rotação soja/aveia/soja. O experimento foi desenvolvido na Embrapa Agropecuária Oeste, numa área de 4 ha dividida em quatro piquetes para realizar o pastejo rotacionado. Foram coletadas amostras indeformadas nas profundidades de 0,00 a 0,05, 0,10 a 0,15 e 0,20 a 0,25 m, em pontos eqüidistantes de 30 m, totalizando 12 pontos e compondo uma grade. As amostragens foram realizadas em duas épocas, antes da entrada dos animais (junho) e após a retirada dos mesmos (agosto). Nessa área o solo é classificado como Latossolo Vermelho distroférrico típico, muito argiloso. A aveia apresentava em torno de 1,1 t/ha de massa seca no momento de acesso do lote de 15 novilhos com peso médio de 250 kg. Considerando a variabilidade espacial do solo e problemas existentes na metodologia de amostragens pontuais com metálicos, decidiu-se efetuar uma análise dos resultados, utilizando-se técnicas de mapeamento com sistema de informações geográficas (SIG).Os valores resultantes das análises foram processados no SGI/INPE através de um modelo numérico de terreno (MNT), que permite associar dados de coordenadas aos atributos numéricos como densidade do solo, macro e microporosidade. O acompanhamento dos atributos pode ser efetuado pela análise visual dos mapas e também quantitativamente, pelas áreas ocupadas por cada classe. Através da utilização do SGI/INPE foi possível discriminar e espacializar as regiões onde houve alterações na densidade do solo, ocasionadas pelo pisoteio dos animais.A figura 1 apresenta as precipitações pluviais do período anterior e durante o pastejo da aveia, onde observam-se ocorrências anormais para a época do ano, resultando em elevada umidade do solo quando da entrada dos animais nos piquetes.A figura 2 apresenta os mapas de densidade do solo nas camadas avaliadas, antes e após o pastejo da aveia pelos bovinos, possibilitando observar a distribuição espacial das áreas com alteração neste atributo.Na Tabela 1 estão os valores de densidade do solo na profundidade de 0,00 a 0,05 m, onde verificou-se aumento da densidade do solo em cerca de 60% da área, passando da classe A (1,20 a 1,30 kg/dm3) para a classe C (1,30 a 1,40 kg/dm3). Trein et al. (1991), também verificaram aumento na densidade do solo e diminuição da macroporosidade na camada superficial devido ao pisoteio dos animais. No entanto, Boeni et al. (1995), ao comparar o efeito do pisoteio de animais, em pastejo continuo de junho a outubro sobre pastagem de aveia + azevém, em um solo franco siltoso do Rio Grande do Sul não observaram alterações significativas na camada 0 a 10 cm. Silva et al. (2000), também não observaram variações na densidade do solo, em um Podzólico Vermelho-Amarelo textura franca, em função do pastejo dos animais. Estes dados demonstram a importância da textura do solo em apresentar efeitos mais significativos do pisoteio animal.Na profundidade de 0,20 a 0,25 m observa-se que ocorreu diminuição nos valores da densidade do solo, em cerca de 50% da área, provavelmente pelo efeito do crescimento do sistema radicular da aveia (Tabela 2).Com relação à porosidade do solo, verificou-se diminuição de 18% na macroporosidade na camada até 0,05 m em função do pisoteio dos animais (Fig. 3). Resultados semelhantes foram observados por Trein et al. (1991) e Silva et al. (2000), os quais verificaram, também, mudanças no volume total de poros em função do manejo de animais. A utilização das culturas de cobertura do solo, tais como a aveia preta, como forrageira de outono/inverno, pode contribuir para a viabilização de sistemas de produção na região centro-sul do Estado; contudo, os agricultores devem estar cientes que o uso desta prática, sobretudo de forma contínua e sem considerar a ocorrência de períodos chuvosos, poderá comprometer a sustentabilidade da atividade e do Sistema Plantio Direto, pela degradação dos atributos físicos do solo.Sugere-se como formas de contornar tais problemas:a) manejar o pastejo da aveia, de forma a restar massa vegetal suficiente para oferecer alguma cobertura do solo, após a retirada dos animais;b) utilizar aveia como forrageira de forma programada, compondo um sistema de rotação de culturas, proporcionando um intervalo de algumas safras entre seu uso para pastagem;c) cultivar espécies de rápido crescimento vegetativo e radicular, tais como o milheto, logo após o término do pastejo, semeado por ocasião das primeiras chuvas, geralmente no final de agosto/início de setembro, com o objetivo de restabelecer a palhada de cobertura da superfície do solo;d) para a semeadura direta de soja em solos de textura média à argilosa, usar semeadoras equipadas com facão de corte, como forma de romper a camada superficial de maior densidade.
Tabela 1. Alteração da densidade do solo na camada 0,00 a 0,05 m de profundidade em um Latossolo Vermelho distroférrico típico, muito argiloso, avaliado antes e após o pastejo, na área experimental da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS.
Densidade do solo (kg/dm3
Área
Antes
Depois
(m2)
(%)
1,10 a 1,20
0
1,02 a 1,10
1,20 a 1,30
0
1,30 a 1,40
59,95
1,36
> 1,40
12,62
0,29
Total da classe 1,02 a 1,10:
72,57
1,65
1,10 a 1,20
41,02
0,94
1,10 a 1,20
1,20 a 1,30
170,37
3,89
1,30 a 1,40
590,0
13,44
> 1,40
9,46
0,21
Total da classe 1,10 a 1,20:
810,85
18,48
1,10 a 1,20
0
1,20 a 1,30
694,12
15,82
1,30 a 1,40
2.158,08
49,17
> 1,40
0
Total da classe 1,20 a 1,30:
2.852,20
64,99
1,10 a 1,20
0
1,30 a 1,40
1,20 a 1,30
246,10
5,61
1,30 a 1,40
407,01
9,27
> 1,40
0
Total da classe 1,30 a 1,40:
653,11
14,88
Total geral
4.388,73
100
Tabela 2. Alteração da densidade do solo na camada 0,20 a 0,25 m de profundidade em um Latossolo Vermelho distroférrico típico, muito argiloso, avaliado antes e após o pastejo, na área experimental da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS.
Densidade do solo (kg/dm3
Área
Antes
Depois
(m2)
(%)
1,20 a 1,30
1,20 a 1,230
257,40
5,86
1,30 a 1,40
560,19
12,76
Total da classe 1,20 a 1,30:
817,59
18,62
1,30 a 1,40
1,20 a 1,30
1.979,74
45,11
1,30 a 1,40
1.307,91
29,80
Total da classe 1,30 a 1,40:
3.287,65
74,91
> 1,40
1,20 a 1,30
283,49
6,46
1,30 a 1,40
0
Total da classe > 1,40:
283,49
6,46
Total geral
4.388,73
100
Referências BibliográficasALEGRE, J. C.; LARA, P. D. Efecto de los animales em pastoreo sobre las propriedades físicas de suelos de lá región tropical húmeda de Perú. Pasturas Tropicales, Cali, v. 13, n. 1, p. 18-23, 1991.BOENI, M.; BASSANI, H.J.; REINERT, D.J.; SCAPILI, C.; RESTLE, J. Efeito do pisoteio animal durante o pastejo de inverno sobre algumas propriedades fisicas do solo. In: CONGRESSO BRASILERO DE CIÊNCIA DO SOLO, 25.,1995, Viçosa. Resumos expandidos... Viçosa: UFV, 1995. v. 1, p. 160-161.KIEHL, E. J. Manual de Edafologia: relação solo-planta. São Paulo: Agronômica Ceres, 1979. 262p.KONDO, M. K. Compressibilidade de três latossolos sob diferentes usos. 1998. 95p. Dissertação - Universidade Federal de Lavras.SILVA, V. R.; REINERT, D. J. REICHERT, J. M. Densidade do solo, atributos químicos e sistema radicular do milho afetados pelo pastejo e manejo do solo. Revista Br