Alternativa para Melhorar a Produção (Irrigação)


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Publicado em: 01/06/2002

Alternativa para melhorar a produção

Gláucio VillelaCom a utilização de sistemas de irrigação mais modernos e técnicas agrícolas mais apropriadas, produtores gaúchos trocam o arroz inundado pelo milho rotacionado e começam a mudar a realidade dos campos do sul do País; o processo é incentivado por instituições de pesquisa, empresas privadas e universidades, e impulsiona o plantio direto na regiãoOs agricultores gaúchos estão começando a descobrir que podem utilizar menos água por hectare, e lucrar mais. A nova realidade se concretiza a cada vez que é substituído o tradicional sistema de irrigação por inundação - usado há gerações nas seculares estâncias gaúchas de produção de arroz inundado - por equipamentos de irrigação mecanizada, que propiciam o desenvolvimento de culturas diversas, ampliam a movimentação e a geração de riquezas nas propriedades e tornam sustentável a exploração agrícola na região. A transformação do cenário ocorre em uma região de tradições arraigadas. A inundação dos campos produtivos é cultura centenária nos Pampas do Rio Grande do Sul, sul do estado, região na qual a produção de arroz e a pecuária extensiva dominam as gélidas planícies, mas onde já se começa a notar uma mudança nesta filosofia de produção, tornando mais sustentável e econômica a produção local. O novo cenário tem um tom dourado. O milho, e a sua conseqüente lucratividade, é o carro-chefe das mudanças. Praticamente inédito na região, é através dele - e após a implantação de modernos equipamentos de irrigação -, que os produtores começam a diversificar as lavouras, seguindo posteriormente, até pela necessidade da rotação de culturas, para o cultivo do feijão, soja, capim, entre outras, que entram na seqüência produtiva, conferindo harmonia e continuidade na condução das culturas, na sustentabilidade do sistema e na geração de lucros.Parâmetros da lucratividade – Em uma região de pecuária forte e rizicultura abundante, mas onde o milho é matéria prima rara, a expectativa é de que a nova realidade comece a mudar os parâmetros da lucratividade local, pelo desenvolvimento, na prática, do conceito da integração lavoura-pecuária.Um bom exemplo de que a concretização deste sonho já começa a se realizar pode ser encontrado na Estância Guatambu, em Dom Pedrito, de propriedade do médico veterinário Valter José Pötter, na qual já se encontram três pivôs instalados e onde vem sendo praticada a produção de milho para fomentar a criação de animais de elite da raça Hereford.Na propriedade de Pötter, é praticado um sistema semi-intensivo de criação de gado britânico de elite e foi implantada uma metodologia de manejo do rebanho por eles denominado “Sistema Um Ano”. Nele, é eliminada a recria do trinômio cria, recria, engorda. Assim, os reprodutores e matrizes são trabalhados para fornecer crias, que por sua vez não recriam: são abatidas após um ano de vida, ou no período máximo de 18 meses, com exceção de uma pequena parte, poupada para ser inserida no sistema produtivo.“A irrigação é uma tendência irreversível nesta região”, comenta Pötter, que também é vice-presidente da associação de produtores da região. “Temos verões secos, mas um ótimo solo e grandes reservatórios de água”, complementa. De fato, neste município, onde está localizada a estância Guatambu, o abastecimento hídrico é tão grande que foram construídas 400 barragens individuais em propriedades particulares, com praticamente todas sendo utilizadas para inundação de lavouras de arroz. A da estância Guatambu, sozinha, ocupa uma área de 240 hectares. Estas barragens, que hoje abastecem 45 mil hectares de lavouras de arroz, são suficientes para a condução de 200 mil hectares de soja, milho, ou de produção de pastagens cultivadas. Com tanta água disponível, além dos projetos individuais, três grandes barragens estão sendo construídas com base em projetos desenvolvidos pelo Comitê de Gerenciamento da Baia do Rio Santa Maria, que tem suas ações delegadas a uma área que envolve sete municípios da região.Os membros do comitê afirmam que existe um grande esforço no sentido das barragens não serem utilizadas exclusivamente na produção do arroz, mas em especial para culturas onde a utilização de água é menor a o valor agregado aos produtos finais, maior, como na fruticultura e horticultura, entre outras.

Perfil do irriganteNa região de Dom Pedrito, assim como na maior parte da Metade Sul do estado, a prática da agricultura irrigada não é novidade e a migração para sistemas mecanizados, mais modernos e eficazes, segundo o pensamento de especialistas do setor, não deverá ser problemática. Isto, segundo eles, porque “pampeiros” têm familiaridade com a agricultura irrigada, base da tradição agrícola da região em conseqüência das condições climáticas da mesma. “Ou fazem bem, ou quebram”, resumem os especialistas. Uma das grandes provas da competência dos “pampeiros” no manejo da agricultura irrigada é a taxa zero de inadimplência dos agricultores de Dom Pedrito, financiados pelas diversas linhas de crédito do Banco do Brasil, via agência local. Mas a pujança da agricultura irrigada naquela região revela outros dados interessantes. Este mesmo município foi o que mais absorveu investimentos do Programa de Modernização da Frota Agrícola (Moderfrota), do Governo Federal; foi o que gerou o maior volume de recursos agrícolas para o estado e, também, foi o que apresentou os maiores índices de produtividade em arroz do Rio Grande do Sul, segundo os dados do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga).

Aporte científicoA conversão de sistemas de produção com base da irrigação por inundação para sistemas mecanizados nas propriedades rurais do estado do Rio Grande do Sul vem sendo apoiada por órgãos públicos, instituições de pesquisa, universidades e pela iniciativa privada. Vários projetos de pesquisa, alguns realizados em parceria entre empresas e instituições do setor estão em andamento, visando o levantamento de dados científicos que possam otimizar o aproveitamento dos sistemas irrigados mecanicamente. Alguns deles pretendem definir as culturas que se adaptam ao sistema irrigado mecanicamente e quais as mais economicamente viáveis, além das melhores seqüências de culturas, as cultivares mais indicadas e até a otimização do uso da tecnologia com a análise de dados meteorológicos. “Queremos definir quanto e quando, de acordo com dados obtidos em estações meteorológicas instaladas nas próprias fazendas, os produtores devem utilizar os equipamentos”, afirma o engenheiro agrônomo Victor Hugo Cainelli, que vem desenvolvendo estudos com a utilização de equipamentos meteorológicos. “Incentivamos a utilização de sistemas de gerenciamento, buscando a maior eficiência na relação solo, água, planta”, ressalta ele, acrescentando que “assim, pode-se realizar as aplicações na hora, local e quantidades certas, de acordo com as informações obtidas e processadas por um softwere específico, capaz de gerenciar as ações do equipamento de irrigação, através de um painel programável”, complementa o especialista.Dentre as principais parcerias firmadas para o desenvolvimento da tecnologia da irrigação no estado do Rio Grande do Sul, destaca-se o desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Uruguaiana e outro, que consiste de uma grande parceria, envolvendo um grande grupo de trabalho formado por representantes da Fundacep Fecotrigo, Pionner, Fockink, Coprel, UFSM e a Cotribá, entre outros, que vêm desenvolvendo um projeto de pesquisa visando avaliar a viabilidade técnica e econômica de diferentes sistemas de rotação de culturas sob irrigação por aspersão. “Queremos saber quais as opções de culturas mais rentáveis no sistema irrigado nesta região, além do milho e do feijão, e quais os melhores sistemas de rotação de culturas possíveis de serem utilizados”, definiu Jackson Fiorin, pesquisador da Fundacep.

Manejo do soloNeste trabalho, desenvolvido através da instalação de um pivô central na área experimental da Fundacep, em Cruz Alta, são testados diferentes sistemas de rotação, envolvendo as culturas do milho, soja, trigo, feijão, canola, cevada e até de culturas de cobertura visando a obtenção de dados que venham a fomentar a técnica do plantio direto, que diminui a necessidade de água nas lavouras produtivas, tornando mais econômico e ecológico o sistema produtivo.“A sustentabilidade do sistema de produção das áreas irrigadas está estreitamente ligada ao plantio direto”, afirma Fiorin. Segundo ele, o sistema deve funcionar operando cronologicamente, “obedecendo às épocas de semeadura mais recomendadas, afim de permitir a máxima expressão do potencial das espécies cultivadas”, explica.

Retorno do investimentoEnquanto as pesquisas começam a quantificar e definir as melhores opções e épocas de cultivo, alguns produtores já se beneficiam do novo sistema. Segundo os cálculos de Pötter, o investimento demandado para instalação dos equipamentos de irrigação, como os encontrados em sua propriedade, gira, no máximo, de três anos a três anos e meio. “Além de haver um aumento na produção da área irrigada, há também o pagamento diferenciado para os produtos oriundos de sistemas irrigados, porque estes apresentam qualidade superior”, afirma. Mas o retorno do investimento pode ser ainda mais rápido: “Se tomarmos como base um ano de verão extremamente seco, como o da última safra (2001/2002), em apenas uma safra poderemos notar os benefícios que a tecnologia da irrigação tem a oferecer aos agricultores desta região. Na maior parte das áreas em que não há irrigação simplesmente também não houve safra e, nas irrigadas, foram colhidos os frutos da tecnologia”, conceitua o empresário.

Mercado diversificadoAs vantagens da substituição do sistema de irrigação por inundação para pivôs são inúmeras. A rizicultura, que domina os campos inundados, está atrelada a cinco ou seis grandes indústrias, possuindo um mercado segmentado, para não dizer monopolizado. Já o milho, cultivo mais utilizada na conversão para o sistema mecanizado, possui mercado muito diversificado. Com ele, pode-se produzir ração para consumo dos animais da propriedade ou colocar os grãos no mercado, com milhares de compradores em potencial. No caso da Estância Guatambu, em que é praticada uma pecuária de corte empresarial, intensiva de ciclo curto, após desmamados, novilhas e terneiros seguem para o confinamento, onde são alimentados a base de silagem de soja e de milho, produzidas através do novo sistema. “Trata-se de uma situação bastante possível de se difundir pela região. Com a produção do super-precoce britânico, após 100 ou 120 dias após a desmama, se consegue de 1.500 gramas à 1.600 g de ganho de peso diário, em alguns lotes de confinamento”, revela Pötter.

Exemplo do norteMas nem só na Metade Sul do rio Grande do Sul a tecnologia vem demonstrando a que veio. Mesmo na rica, consagrada e turística região serrana, ao norte do estado – considerada o berço da irrigação no estado -, tem dado demonstrações do quanto ainda é capaz de se expandir e contribuir com o desenvolvimento da economia agrícola local. Na Granja Linburgia, em Palmeira das Missões, uma respeitada empresa rural do município, há apenas três anos é praticada a agricultura irrigada. Antes da entrada da tecnologia na propriedade, as culturas menejadas se restringiam à soja e milho (industrial), no verão, e ao trigo, no inverno, todas dependentes das condições meteorológicas. Com o novo sistema, implantado em 600 hectares dos 2.400 da fazenda, foi agregado valor ao produto final das culturas, principalmente no caso do milho, que continua sendo produzido, mas agora para fins de sementes em sua maior parte. Depois que implantaram sete pivôs, sendo um móvel, que vale por dois, os proprietários da fazenda conseguiram firmar importantes parcerias com empresas de sementes. A primeira delas foi com a Agroeste, de Santa Catarina, para a qual eles reproduzem as sementes da empresa. Outra importante parceria foi firmada com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), pela qual eles estão começando a produzir uma semente própria, a van Ass, um híbrido duplo (BR 2160). Ainda pela parceria com a Embrapa, segundo alexandre van Ass, eles estão desenvolvendo a produção de sementes da BRS Valente, que será lançada no final deste ano.

Lucratividade em dobroSegundo Alexandre, na área irrigada a lucratividade dobra. Não só porque aumenta o número de cultivos, mas porque aumento o valor agregado aos produtos finais. No caso do feijão, outra cultura trabalhada após a implantação da irrigação, a colheita já era feita em janeiro, quando sem a tecnologia só seria possível um mês após. Outra vantagem ressaltada por Alexandre van Ass, é o maior aproveitamento dos recursos da fazenda, como de máquinários, mão de obra e também na unidade de beneficiamento que antes permanecia parada por grandes períodos e, agora, trabalha praticamente ininterruptamente. “No início do ano trabalhamos com o tratamento dos grãos de feijão, logo após começa a chegar o milho e mais tarde ainda chega a soja”, explica. Assim, até a sazonalidade da mão de obra na fazenda diminuiu. No caso da unidade de beneficiamento, que antes empregava quatro funcionários, agora possui oito funcionários fixos.