Apoio Oficial Ajuda o Desenvolvimento do Plantio Direto no Estado de São Paulo (Sylmar Denucci CATI + Armando Portas + Ivo Drugovich)


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Publicado em: 01/08/2002

Apoio oficial ajuda o desenvolvimento do plantio direto no Estado de São Paulo

O 8º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha foi realizado no Estado de São Paulo porque um dos seus objetivos era o debate sobre as perspectivas daquela que era considerada como uma das últimas fronteiras do sistema plantio direto no Brasil, o próprio Estado de São Paulo. Na nossa avaliação, quando abrimos o foco sobre a área agrícola do estado mais rico da nação, sobre o qual pesava o rótulo de atraso na adoção do plantio direto, descobrimos que, provavelmente, a fronteira agrícola da semeadura direta que os paulistas possuem seja a mais rica e promissora, em termos de viabilidade técnica, econômica, social e ambiental. Embora ainda esteja com seu grande horizonte por ser explorado, nenhum outro estado possui tantas opções no plantio direto, se considerarmos principalmente as áreas de renovação da cultura da cana e de pastagens que, somente elas, somam mais de 12 milhões de ha. Existe um notável desenvolvimento nas culturas de soja, milho, trigo, girassol, feijão e, num processo difícil de encontrar em outros estados, o plantio direto é utilizado em culturas perenes como citrus, reflorestamento, café e também em hortaliças como cenoura e tomate. Hoje, os números oficiais apontam para uma estimativa de um milhão de ha sob plantio direto no Estado de São Paulo, num crescimento significativo, que explodiu nos últimos seis anos.Segundo os registros, o principal fator de desenvolvimento do sistema nesse período tem sido o apoio oficial da Secretaria de Agricultura de São Paulo que, principalmente através da CATI – Coordenadoria de Assistência técnica Integral, tem realizado uma política técnica e econômica de incentivos que alavancou o processo de forma significativa, em menos de uma década.Em Águas de Lindóia, conversamos com engenheiros agrônomos da instituição, que nos deram um perfil do histórico e do status atual do plantio direto nas principais fronteiras internas que o Estado possui. A seguir, a entrevista com Sylmar Denucci, Armando Azevedo Portas e Mário Ivo Drugowich, da CATI, sobre as perspectivas do Sistema em São Paulo.

Revista Plantio Direto – Existem vários fatores que estão favorecendo o desenvolvimento do plantio direto no Estado de São Paulo, principalmente o trabalho da CATI, do IAC e Secretaria de Agricultura, além das associações de produtores e técnicos. Como está ocorrendo esse processo?

Armando Azevedo Portas – A CATI tem um programa forte de microbacias, onde o plantio direto passou a ser um componente importante e a ser incentivado. Entretanto, notamos que o produtor não tinha opções. Ele comprava uma semeadora e, no seguimento, não tinha alternativas de cultivo para seguir o processo. Entre 1996 e 1997, passamos a perceber que o plantio direto era inevitável, quando começamos a utilizá-lo na Fazenda Ataliba Leonel, que produz sementes básicas, no município de Mandurí. Nós também compramos as primeiras semeadoras, mas a prática nos levou a entender que a questão não se resolvia apenas com esse ato. Então, quando aumentou a demanda por sementes de cereais de inverno, nós verificamos que o plantio de trigo estava aumentando não só porque era um bom negócio, mas também porque havia a necessidade de rotação de culturas e palha, dois elementos básicos do plantio direto. Nesse período, aumentamos a produção de sementes de trigo de 12 mil para 120 mil sacas. Outro fato importante que aconteceu foi que esse processo aconteceu paralelamente ao declínio do algodão em São Paulo. A cultura mudou de região e nós ficamos procurando alternativas, porque a produção de sementes de algodão era o carro chefe do Departamento de Sementes e Mudas e, nessa procura, surgiu, naquele momento, a nova dinâmica do plantio direto. Acabamos enxergando um outro caminho enorme à frente.RPD - Notamos que existe um entusiasmo pelas perspectivas de rotação de culturas, que vão desde os cereais de inverno até nabo forrageiro e painço.

Sylmar Denucci – Possuímos 14 espécies de sementes disponíveis para os produtores, desde amendoim, mamona, sorgo e outras. As pesquisas com painço demonstraram que a espécie não é só um cereal para alimentação animal mas também uma excelente fonte de palha, com ciclo curto, ideal para ocupar aqueles espaços que chamamos de janelas. As primeiras pesquisas visando espécies para rotação, adubação verde e formação de palhada foram feitas com nabo forrageiro. Apesar de ser uma planta mais adaptada à região sul, que exige frio, nós temos uma cultivar que vem sendo plantada inclusive no norte do Estado, com resultados muito bons.

RPD - Qual a época em que o nabo forrageiro é plantado?

Sylmar Denucci – Sempre no outono/inverno. O produtor faz o plantio normalmente num período em que não possui nenhuma opção de cultura econômica. Essa cultivar de nabo forrageiro, tendo umidade suficiente para emergir, vai produzir uma quantidade de palha praticamente suficiente para o plantio direto, mesmo no norte do estado. Até com um déficit hídrico acentuado, com um sistema radicular muito vigoroso, a cultura consegue buscar água em camadas profundas, podendo alcançar profundidades superiores a 2,70 m, com uma rede de raízes muito intensa. Trata-se de um material com uma produção de massa adequada, resistência à falta de água e maior tolerância a alumínio, fatores que estão interligados. A demanda por sementes dessa variedade é muito grande. Braquiária, o ovo de Colombo

RPD – Quais são as frentes de crescimento de plantio direto no Estado de São Paulo?

Armando Azevedo Portas – Nós temos uma área pequena de cereais. O que vai crescer mesmo em termos de plantio direto será sobre a área de pastagens, e por isso a nossa preocupação em termos variedades de milho adequadas para esses locais. O produtor precisa ter milho, que é a base da rotação de culturas e, além disso, temos indústrias de aves, ovos, ração e leite que poderão se mudar, se não tivermos oferta de milho. Em 1997, fizemos um trabalho com a Embrapa Dourados quando testamos variedades de soja plantadas sobre braquiária. Os resultados animaram bastante. A integração lavoura pecuária é bastante promissora.

Silmar Denucci – Praticamente, a única palha que se mantém no verão paulista, em condições de elevada temperatura e índices hídricos elevados, é a braquiária, outras palhas são decompostas rapidamente. Pela quantidade de celulose que ela contem, ela se mantém praticamente até a colheita. A braquiária é o ovo de Colombo, pois permite que você tenha o solo coberto durante todo o ciclo de produção. A variedade decumbens é perfeita nesse sentido e ocupa 70% de uma área de mais de oito milhões de ha de pastagens. Bastaria utilizar o plantio direto em cima de uma pequena parte dessas pastagens para que produzíssemos soja e milho em quantidade suficiente para eliminarmos as importações que fazemos desses produtos.

Mário Ivo Drugowich (Gerente de Pesquisas do Programa de Microbacias da CATI) – O volume de pastagens representa mais de 65% na região prioritária um, no Programa de Microbacias, que é o Oeste de São Paulo. Desse percentual, pelo menos 20% está em fase inicial de degradação e nós não estávamos conseguindo fazer nada para reverter essa situação. Depois que estabelecemos o convênio com a Embrapa Dourados, para validar a tecnologia que eles criaram para o Mato Grosso do Sul, de condições similares às nossas, em dois anos, passamos de 20 para 60 unidades demonstrativas em todo o Estado. Tenho percebido que houve um grande avanço em função da utilização do milho variedade, desenvolvido pela CATI. Notamos que os híbridos não conseguem competir direito com a pastagem. A cultura do milho tem um futuro melhor, porque ela é mais tradicional e o agricultor tem uma certa restrição à soja. Isso se deve, em parte, ao tamanho das propriedades, o que não permite um plantio em escala adequada de soja, que possa proporciona um retorno compatível. Nós estamos apenas coordenando os campos demonstrativos, mas os produtores já estão copiando o modelo e isso nos deixa um pouco assustados, porque a tecnologia pode apresentar algum defeito que ainda não corrigimos e o processo ser levado adiante, trazendo alguma frustração para o produtor. Até o momento, está tudo bem.

Pequenos produtores

RPD – Qual o tamanho médio das propriedades e como está a resistência à adoção do plantio direto?

Sylmar Denucci – A média das propriedades é de 10 ha. A grande dificuldade é a falta de organização, o agricultor paulista é isolacionista por tradição, ele gosta de fazer as coisas sozinho. Nós não temos essa tradição de associativismo e cooperativismo que existe em outros estados. A dificuldade maior é essa, mas temos evoluído.

Armando Azevedo Portas – Nosso Departamento produz semente com baixo custo de produção. Se você quer divulgar uma tecnologia e começa com insumos caros, a resistência a aderir a essa tecnologia será grande.

Sylmar Denucci – Essa é a política do nosso Departamento. Fizemos a seleção genética necessária, obtemos a cultivar, temos o material legalmente registrado no Ministério e disponibilizamos a todas as empresas que possam multiplicar, sem cobrar royalties. O Estado não coloca nenhum recurso para o programa de sementes, o programa se mantém com a venda de sementes e mudas. Temos espécies que são mais lucrativas e estas subsidiam as demais. É a maneira pela qual tentamos fomentar o fortalecimento da pequena indústria de produção de sementes de São paulo.