Vantagens ambientais, econômicas e técnicas na utilização da palhada de cana
É maravilhoso ouvir o relato sobre o desenvolvimento atual do plantio direto nas lavouras de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo. Ele foi feito à Revista Plantio direto, no 8º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Águas de Lindóia, no mês de junho, pelo engenheiro agrônomo e produtor Oswaldo Siroshi Tanimoto, pertencente à CATI, um dos principais responsáveis por esse momento extraordinário que o sistema vive em diversas regiões produtoras de São Paulo, principalmente naquelas que utilizam a cana-de-açúcar. Tanimoto foi um dos palestrantes do 8º Encontro, quando abordou o caso de sucesso que é o plantio direto na palhada de cana, em seu Estado. Suas apresentações são das mais requisitadas, em várias regiões, e o trabalho que desenvolve, além de significar um suporte técnico básico para os produtores e assistentes técnicos que estão iniciando a nova tecnologia, e também por isso, recebeu um prêmio no Concurso de Novas Tecnologias e Adaptações, promovido pelo Grupo Plantio Direto e Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, entregue durante a realização do evento. As informações sobre a utilização do plantio direto na palhada da cana colhida crua e os resultados que estão sendo obtidos pelos produtores são impressionantes. O sistema é um suporte a mais para aqueles que estão sendo obrigados a deixar de lado a queima dos canaviais, em função da nova legislação ambiental. Porém, as vantagens vão além do significado ecológico, onde se destaca o controle da erosão, proporcionando uma diminuição de custos, melhoria na produtividade de todas as culturas envolvidas, com um manejo mais equilibrado e um melhor aproveitamento do recurso água, entre outros.“Aqui no 8º Encontro Nacional, encontrei um produtor, do qual eu ainda não tivera conhecimento, que já utiliza o plantio direto na palhada de cana há oito anos e que se declarou bastante satisfeito com o sistema e as produtividades da cultura, onde obtém acima de 90 t/ha, com talhões já no oitavo corte. Francamente, não sabíamos disso”, manifestou Oswaldo Tanimoto, em um dos raros momentos em que ele não estava solicitado para falar sobre sua experiência e dar esclarecimentos aos interessados nas suas informações e que, finalmente, conseguimos realizar uma entrevista. Engenheiro agrônomo, formado na UNESP, de Jaboticabal/SP, Tanimoto circulou por diversas regiões do Brasil, principalmente como funcionário da Cooperativa Cotia, atendendo a área de sementes de batata e hortigranjeiros. Em 1982, realizou suas primeiras experiências em plantio direto, nas culturas de soja e feijão, com uma Semeato adaptada, no Fazenda da família, em Pitangueiras/SP. Depois, somente por volta de 1996 é que o sistema foi retomado sem interrupção. Atualmente, ele planta uma área de 220 ha, no município de Aramina, cerca de 13 km da fronteira com Minas Gerais. A seguir, alguns dos principais tópicos da entrevista realizada durante o 8º Encontro, em Águas de Lindóia.Revista Plantio Direto – Você entrou na atual fase do plantio direto por causa da legislação que elimina progressivamente a queima do canavial ou a idéia vinha sendo amadurecida por outros motivos?
Oswaldo Tanimoto – Na região Norte de São Paulo, os produtores tem adotado o plantio da cultura de soja na renovação da cana-de-açúcar porque o sistema utilizado – queima, subsolagem, gradão duas vezes, niveladora três, quatro e até cinco vezes – tornava o solo vulnerável e, quando chovia, levava tudo praticamente, abrindo sulcos e carregando o solo e os produtos para o ribeirão. Infelizmente, ainda existem casos assim, o pessoal é muito cabeça dura. Na minha situação, resolvi adotar o plantio direto depois de 1990, quando voltei para Aramina e perdi quatro safras seguidas de soja. Naquela época, depois de plantada a soja, com cerca de 20-30 dias, a chuva arrebentava com tudo, terraços não suportavam o volume de água. Nesse período, a utilização do plantio direto sempre me passava pela cabeça.
Decreto e palhaRPD – O que significou o decreto que limita a queima da cana?Tanimoto – Os produtores passaram a perguntar: como vamos plantar soja se não podemos mais queimar a cana? Nessa época, chamou-me a atenção, numa viagem que fiz a Goiás, o fato de que os produtores tinham problemas em formar palha. Imaginei que, na nossa região, o que mais temos é palha, nas áreas em que a cana era colhida crua. Será que não dá certo, perguntei a um amigo produtor e ele me disse que não custava tentar. Voltei para casa com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz foi ir até a Usina Junqueira, onde perguntei se eles não me arranjavam uma área onde a cana tivesse sido colhida crua e onde fossem fazer a renovação do canavial. A idéia foi amadurecendo e eles optaram por levar as colhedoras e fazer na minha propriedade mesmo. Fizemos 5 ha de cana colhida crua e mais 5 ha da forma como estava sendo feito normalmente. Na parcela com palha, onde havíamos colocado 20 sementes de soja, nasceram 20 plântulas e, no final, haviam 20 plantas por metro. Na parcela convencional, o estande final tinha 10 a 12 plantas e a produtividade não passou de 30 s/ha, enquanto que na parcela com palha colhemos 41 s/ha, que é uma diferença bem significativa. No ano seguinte, tomei coragem e pedi uma área maior para a Usina. Semeamos uma área de 230 ha de soja. Disseram que o japonês estava ficando louco. Dois sócios que estavam comigo ficaram impressionados e questionaram o amarelo da soja: será que não vamos quebrar? Disse-lhes que, se quisessem, eu continuava sozinho, mas eles sentiram a minha firmeza e resolveram apostar. Nesse segundo ano, colhemos uma média de 48 s/ha. Desde então, a produtividade vem aumentando a cada safra.
Plantio direto de cana
RPD – O plantio direto de cana está evoluindo. Pelo que se conhecia do plantio convencional, o plantio direto parece meio inacreditável na cultura da cana.Tanimoto – Na verdade, após a soja, o produtor não precisa fazer mais nada, não ocorre um preparo da terra, mas ele trabalha com um plantio semi direto. É passado um sulcador e depositado os toletes de cana no sulco. Isto é muito melhor do que fazer todas as operações tradicionais. Há uma economia de 30% com a eliminação do preparo do solo.
RPD – E se o produtor não plantar soja após a colheita da cana?
Tanimoto – Se for plantar cana após cana, o produtor tem que subsolar, incorporar a palhada toda ou queimar, o que não é permitido, com multa pesada para a infração. Mas os produtores de cana tem muitas vantagens com o plantio de soja, crotalária, milho ou amendoim, antes de plantar cana novamente. Se a usina vai plantar cana no ano que vem, ela pode fazer o seguinte plano: nas áreas em que se plantará cana até fevereiro, planta-se crotalária; naquelas em que a cana será plantada após fevereiro, cede para os fornecedores de cana da usina plantarem soja, num processo em que a usina ganha 18 a 20% de arrendamento, além de vantagens nos aspectos agronômicos da rotação de culturas. A conta que temos feito é de que a usina, nesse processo, economiza 90 dólares na eliminação do preparo do solo e ganha cerca de 150 dólares com a soja do arrendamento. Tudo isso paga tranquilamente as operações de plantio da cana. Se o produtor partir para um plantio mecanizado da cana, para o que já existem opções de plantadeiras, é possível economizar 60%, conforme a topografia da região e a habilitação dos operadores.
RPD – A rotação e o plantio direto podem aumentar a produtividade da cana-de-açúcar?
Tanimoto – Na nossa região, nós temos um contrato em que a usina aplica o calcário e fornece o dessecante, ficando com 18 a 20% da produção da cultura da soja. Nesse caso, ela não está com a terra parada, está fazendo rotação e aumentando a produtividade da cana, que é de 20 a 40% a mais, 40 t/ha de cana a mais. O produtor que encontrei aqui em Águas de Lindóia disse que a média dele, acima de 90 t/ha, está dando seis cortes em seis anos. Isso é devido à interação de variedades e pelo fato de não perturbar o solo. O problema de seca é minimizado, porque, com a palha, a cana brota sem problemas, sem prejuízos pelo ataque de elasmo, pois existem variedades que são mais suscetíveis a essa praga. Com o sistema de palhada a cana desenvolve mais rápido.
RPD – Quantas toneladas de palha são depositadas sobre o solo na colheita da cana crua?
Tanimoto – Pessoalmente ainda não fiz avaliações. Estima-se que varie de 10 a 15 t/ha, conforme a variedade, pois existem diferenciais de produtividade entre elas. Temos colegas da Univale que estão fazendo esse tipo de pesquisa, medindo quantidade de palha, percentual de nutrientes, etc., em Valparaíso. A palhada influi positivamente em todas as situações. No caso da soja plantada no preparo convencional, com a ocorrência de veranicos, a maturação tem sido forçada, adiantando o ciclo em 10 a 15 dias. Onde tem palhada isso não acontece, a soja faz um ciclo normal e, às vezes, prolonga até uma semana a mais.
RPD - Quais são os problemas que vocês ainda enfrentam para a evolução do sistema na cultura da cana-de-açúcar?
Tanimoto – Existe uma procura muito grande e uma curva de crescimento da tecnologia não só no meu município, mas em todo o Estado. Não existe uma resistência maior, mas sim um déficit de área disponibilizada. O problema técnico maior é a dificuldade de se ter palhada perto das rodovias, ou nas cercanias de talhões que serão queimados. Quando cai uma faísca, é difícil controlar o fogo nessa palhada. Quando plantamos soja, no início, a palha ainda pega fogo com facilidade. Com 20 dias, ainda é possível perder uma lavoura de soja por causa de fogo na palhada.