Plantio direto de soja sob palhada de cana-de-açúcar
Introdução
Nos últimos dois anos, a área do Estado de São Paulo cultivada com PDP aumentou cerca de 670%, podendo-se dizer que, na safra agrícola de 2000/2001, aproximadamente 600 mil hectares foram cultivados no sistema. Esse crescimento foi gerado principalmente pelo estímulo governamental, através de crédito para compra de semeadoras específicas para o sistema, com juros de 4% ao ano, pela realização de diversos eventos de divulgação e pelo surgimento de duas novas situações de renovação de áreas agrícolas: a produção de grãos sobre canaviais colhidos mecanicamente sem despalha a fogo, normalmente conhecida como “cana crua”, e a utilização de pastagens degradadas.No sistema de produção da cana-de-açúcar em São Paulo, desde o final da década de 1970, é preconizado, por ocasião da renovação dos canaviais, o cultivo de culturas graníferas com os objetivos de gerar receita e proporcionar os benefícios da rotação de culturas. Normalmente, são mais indicadas espécies leguminosas, procurando, além do fornecimento de nitrogênio, melhorar as características físicas e biológicas do solo e reduzir a população de patógenos, nematóides e outras pragas.Embora predomine o cultivo de soja e amendoim, o uso de espécies de adubos verdes, principalmente Crotalaria juncea e mucuna-preta, é prática comum em algumas áreas, podendo proporcionar aumentos na produção de 22 a 47%, o que representa um acréscimo de até 5 t/ha de açúcar (Mascarenhas e Tanaka, 2000). O sistema plantio direto vem agregar a esses objetivos os benefícios de não movimentar o solo no período de maior pluviosidade, reduzindo os riscos com erosão.As empresas do setor sucroalcooleiro paulista, em função da legislação (Decretos nº 41.719/97 e nº 42.056/97), estão reduzindo gradativamente (12,5% ao ano) as queimadas em áreas de canaviais. Mais recentemente, o Decreto nº 45.869 de 22/06/2001 estabeleceu prazos maiores para a eliminação do uso do fogo, todavia, independentemente de novas legislações, o advento tecnológico da colheita de cana sem despalha a fogo é uma realidade que veio para ficar. Conseqüentemente, tem ocorrido o aumento do uso de máquinas colhedoras de “cana crua”, que deixam sobre a superfície do solo, após a colheita, cerca de 15 t/ha de matéria seca, formando uma camada de 8 a 10 cm de espessura. Pode-se dizer que somente na região de Ribeirão Preto (SP) mais de 50% das áreas são colhidas sem queimadas.Considerando que no Estado de São Paulo a cultura da cana-de-açúcar ocupa uma área de 2,8 milhões de hectares e que, anualmente, são destinados para renovação cerca de 350 mil hectares, dos quais aproximadamente 150 mil apresentam-se com palhada, o PDP da cultura de sucessão nessas condições surge como uma expressiva e inovadora iniciativa.
Características desse sistema de produção: vantagens e desafios
Nesse sistema, todas as operações de preparo do solo são substituídas pela destruição química da soqueira da cana-de-açúcar com herbicida sistêmico (de 5 a 6 l/ha de glifosate), a qual deve ser realizada quando as plantas estiverem com 60 cm de altura, antes da formação de colmos. Os canaviais colhidos de junho até a primeira quinzena de setembro favorecem o manejo químico e possibilitam a semeadura da soja em tempo hábil, liberando as áreas para plantio da “cana de ano e meio”. De maneira geral, as áreas destinadas à colheita mecanizada sem queimadas são sistematizadas, extensas e mais próximas das cidades, consistindo em vantagem para o arrendatário. Convém salientar que, no passado, em função dos terraços, os talhões apresentavam comprimento médio de 250 metros, mas, diante da necessidade de sistematizar as áreas para colheita mecanizada, o comprimento médio das glebas situa-se entre 800 e 1.000 metros, com a finalidade de aumentar o rendimento das operações de colheita mecanizada da cana-de-açúcar.Durante o ciclo de exploração da cana, nesse sistema, deixa-se grande quantidade de palhada, impedindo que haja problemas com erosão. Entretanto, por ocasião da implantação da cultura de sucessão, quando é utilizado o preparo convencional, são drásticos os problemas com erosão, pois os terraços não foram dimensionados para as culturas anuais e, freqüentemente, as operações de campo coincidem com os períodos de maior pluviosidade. A conservação de solo já bastaria para justificar a implantação do PDP nessa situação. A palhada da cana, aliada ao plantio direto, pode conferir outras vantagens ao ambiente agrícola, ao produtor e à sociedade em geral, bem como os desafios a serem superados.
Vantagens
a) Excelente rotação de culturas, comprovada pela pesquisa, que agrega os benefícios do PDP;b) Áreas sistematizadas e extensas, aumentando o rendimento das operações mecanizadas;c) Grande quantidade de palha (15 t/ha de matéria seca) que, em regiões de outono/inverno seco, é possível de se conseguir;d) Controle total da erosão;e) Diminuição da temperatura do solo, sobretudo em solos arenosos;f) A grande quantidade de palhada conserva a umidade no solo, permitindo a semeadura da soja sem interrupção, conferindo melhor estande na lavoura e atenuando o estresse hídrico quando da ocorrência de veranicos;g) Dispensa ou reduz sobremaneira o emprego de herbicida pré e pós-emergentes;h) Melhor fluxo de caixa, pois no convencional, após a colheita da cana, são necessários gastos com a destruição da soqueira;i) Maior aproveitamento (até quatro vezes mais) da frota de tratores, possibilitando a ampliação da área;j) Maior vida útil das máquinas, devido à menor quantidade de poeira;k) Utilização de tratores de menor potência (100 a 120 cv);l) Menor custo operacional e maior rendimento da frota;m) Redução do custo de produção, sendo 11% no custo operacional, 71% no consumo de diesel, 62% na mão-de-obra, 44% na frota de máquinas.DesafiosAssim como todas as novas propostas, existem pontos que se caracterizam como desafios, mas são passíveis de ajustes e adaptações. Como por exemplo:a) Em solo com alta porcentagem de argila (Latossolo roxo), pode ocorrer compactação ou adensamento superficial por causa do trânsito de máquinas colhedoras, principalmente quando ocorrem chuvas no período de colheita (meses de inverno);b) Dificuldade de utilização de facão ou botinhas na semeadura, embora recentemente tenha sido criado o sistema denominado de “guilhotina”, que é um a haste conjugada com disco de 20 polegadas na distribuição do adubo;c) Custo mais elevado de semeadoras apropriadas para essa situação (disco de 20 polegadas, com bastante lastro, pantográfica, etc);d) Risco com fogo na palhada em períodos secos no início do desenvolvimento da cultura;e) Exigência de maior conhecimento técnico do produtor.
Sugestões de rotação de culturas
Com o Sistema Plantio Direto na Palha de leguminosas (soja e crotalária) em sucessão/rotação há possibilidade de:a) viabilizar o plantio mecanizado da cana-de-açúcar no PDP, sem grandes mobilizações de solo, dispensando a operação de cultivo de quebra-lombo com o preparo reduzido proposto pela Monsanto e a adoção do PDP de crotalária como cultura de rotação;b) reciclar os nutrientes, que proporcionam aumentos na produção de 22 a 47%, o que representa um acréscimo de até 5 t/ha de açúcar (Mascarenhas e Tanaka, 2000).
Benefícios da sucessão e da rotação de culturas na renovação do canavial
Redução de custo de formação do canavialCom esse sistema, além de deixar de existir o efeito prejudicial da monocultura na região, economizam-se as operações de preparo do solo no plantio da cana (mais ou menos US$ 90,00/ha). Também, se as condições forem boas (clima, produção e preço), o lucro obtido com a cultura de sucessão (soja, amendoim, etc), ou seja, mais de US$ 150,00, paga todas as operações de mão-de-obra e equipamentos no plantio de cana-de-açúcar.
Fornecimento de adubo residualO plantio da cana em sucessão/rotação das culturas de leguminosa beneficiam-se muito dos resíduos da adubação realizada na cultura de soja que não foi totalmente absorvida durante o ciclo da cultura. Além desses resíduos (fósforo, potássio, cálcio e magnésio), as leguminosas a seguir ainda deixam sob o solo, que são indispensáveis para a cultura de cana-de-açúcar quantidades de nutrientes N, P2O5, K2O.
Resultados obtidos
Pode-se notar que sempre houve maior produção de soja semeada sobre a palhada de cana crua, independente do ano agrícola e tipo de solo, comparando os cultivares avaliados nos sistemas de cultivo convencional e plantio direto sobre palhada de cana. Verifica-se que as produções de soja (sacos/ha) são superiores às produções dos mesmos cultivares no sistema convencional. Na safra 2001/2002, as maiores diferenças foram observadas para os cultivares IAC-18 E IAC Foscarin 31, respectivamente 6 e 15 sacos por hectare.Nesse ano agrícola, as maiores produções foram obtidas com o cultivar Vencedora, as quais ultrapassaram 4.000 kg/ha de grãos. Convém destacar que o ciclo de cultivares no PDP sobre palhada de cana tende a ser maior pois, nesse sistema, há maior disponibilidade de água. Observa-se, no quadro 2, que o custo de produção para um hectare de soja em área de palhada, caso seja feito o preparo do solo, é maior que em área de PDP, pois a grande quantidade de resíduos demanda maior número de operações. O sistema plantio direto sobre palhada de cana proporciona economia de 30,2% no custo por hectare que, aliado ao maior potencial produtivo, resulta em aumento na renda líquida do produtor
Quadro 2. Custos de produção da cultura da soja no Preparo Convencional e Sistema Plantio Direto.
Sistemas de plantio
PC soja cana crua
PC soja cana queimada
PD soja cana queimada
PD soja cana crua
Especificações
Valor (R$)
Valor (r$)
Valor (R$)
A - Operações
351,90
335,77
171,02
156,77
Preparo do solo + aplic. (corretivo ou dessecação herbicida)
215,00
192,12
26,62
Plantio + tratamento de sementes
26,25
33,75
26,25
Tratados culturais
20,25
27,00
20,25
13,50
Colheita
64,00
Transportes(transp. interno e externo)
26,40
B - Insumos/ Materiais
645,26
523,76
645,26
555,26
Corretivos
54,00
Sementes
56,00
Fertilizantes
147,84
Defensivos
185,82
64,32
185,82
85,82
Outros (arrendamentos + juros bancos)
201,60
Total A + B
997,16
859,53
816,28
712,03
Custos p/40 sacos/ha(custo saco)
24,93
21,49
20,40
17,80
Redução de custos
0
13,8%
18,2%
30,2%
Dados para citação em referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 70.Aldeia Norte Editora, Julho/Agosto de 2002, 40 páginas.