Controlar ou Não Controlar as Plantas Daninhas — Critérios para Controle (Especial Plantas Daninhas)


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Publicado em: 01/08/2002

Controlar ou não controlar as plantas daninhas: critérios para decisão

Mauro Antônio Rizzardi1; Nilson Gilberto Fleck2; Dirceu Agostinetto3; Alvadi Antônio Balbinot Jr.3; Mário Antônio Bianchi31Engo. Agro., Dr., Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo.Caixa Postal 611, CEP 99001-970, Passo Fundo-RS. E-mail:rizzardi@upf.tche.br.2Engo. Agro., Ph.D., Professor da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail:fleck@ufrgs.br.3Engo. Agro., M.Sc., aluno do Programa de Pós-graduação em Fitotecnia da UFRGS.Introdução

A soja é a principal espécie em área cultivada no Rio Grande do Sul (RS), com aproximadamente 3 milhões de hectares. Em média, sua produção tem sido crescente, o que está associado ao nível de tecnologia aplicado à cultura, ao emprego de materiais genéticos de melhor potencial produtivo e à crescente profissionalização dos produtores rurais (Bisotto & Farias, 2001). Segundo estes autores, a produtividade média nos estados produtores de soja varia de 1800 a 2400 kg ha-1. No caso do RS, essa produtividade situa-se no limite inferior.Entre as causas da reduzida produtividade da soja no RS destaca-se a presença de plantas daninhas, as quais interferem com o desenvolvimento pleno da cultura. Estima-se que sejam perdidos anualmente, no RS, o equivalente a 162 milhões de dólares por causa da interferência das plantas daninhas com a cultura da soja (Vidal et al., 2000). Essas perdas, causadas pela competição de plantas daninhas por recursos do ambiente, variam com as espécies de ervas presentes na área. Em geral, mais de uma espécie ocorre simultaneamente nas lavouras, destacando-se Brachiaria plantaginea (Link) Hitchc.; Bidens spp., Sida rhombifolia L., Ipomoea spp. e Euphorbia heterophylla L. como as mais freqüentes.Os herbicidas tem desempenhado papel importante no desenvolvimento da agricultura intensiva em todo o mundo. Entretanto, ao aumentar a preocupação sobre seus efeitos colaterais no ambiente, particularmente a poluição da água subterrânea e superficial, a evolução da resistência aos herbicidas em biótipos de ervas e a necessidade econômica de baixar os custos dos insumos na agricultura, resultaram em pressão sobre os agricultores para redução do uso destes produtos. Por décadas, o controle de ervas, nas principais culturas de interesse agronômico, é realizado predominantemente com o uso de herbicidas. Em anos recentes, relatos de casos de resistência de ervas e preocupações ambientais têm levado ao desenvolvimento de programas de manejo integrado de plantas daninhas, com o uso mais racional de herbicidas. A implementação de tais estratégias requer a integração de múltiplos fatores, incluindo a predição dos efeitos da interferência das ervas no rendimento da cultura.A identificação e a adoção de técnicas que permitam prever os efeitos das ervas na cultura podem desempenhar uma função importante em se mudar de um manejo que está baseado no uso intensivo de herbicidas em área total para um sistema de manejo integrado, baseado no conhecimento das relações de interferência cultura:ervas. O sucesso dessa mudança de atitude depende da habilidade do produtor em determinar quando as população de ervas excedem os níveis de dano econômico.

Densidade de ervas e perdas de rendimento

Os efeitos negativos de plantas daninhas em culturas decorrem tanto da densidade de ervas quanto da duração da interferência. Em relação à densidade, os incrementos nas densidades de picão-preto e guanxuma, por exemplo, aumentaram as perdas de rendimento de soja (Figura 1). Percebe-se, nessa Figura, que as perdas máximas de rendimento foram de, aproximadamente, 58% e 14% para picão-preto e guanxuma, respectivamente.A não-linearidade da resposta ocorre porque cada planta adicional de erva, em densidade elevada, apresenta menos impacto ao rendimento da cultura do que quando as ervas encontram-se em densidades relativamente baixas (Cousens, 1985). Ou seja, em densidades muito baixas, o rendimento final da população é determinado pelo número de indivíduos, mas, em densidades elevadas, quando a capacidade do ambiente em suprir recursos tornar-se limitada, o rendimento final independe da densidade de plantas.

Época de emergência das ervas

A estimativa precisa da densidade de nível de dano é difícil de estimar, devido à distribuição das ervas em manchas na lavoura, mas também porque elas usualmente emergem em fluxos sucessivos. De forma geral, os efeitos das ervas sobre o rendimento da cultura usualmente decrescem quanto mais tarde ocorrer a emergência das ervas. Para picão-preto, que emergiu 4 dias antes da soja, observou-se redução de 4,9 g m-2 de massa seca da cultura para cada acréscimo unitário da erva, ocasionando redução total de 38% na massa seca com incremento na densidade de zero para 64 plantas m-2 (Rizzardi, 2002). Para emergência simultânea da erva e da soja, a redução foi de 3,9 g m-2, perfazendo perda global de 23%. Já, na emergência da erva 4 dias após a soja, a redução média na massa seca da cultura foi de apenas 13%. Esses resultados indicam que a época de emergência das ervas em relação à cultura pode modificar as respostas da cultura ao incremento na densidade de ervas. Do ponto de vista prático, pouco ou nada pode-se fazer visando inibição completa da emergência de ervas, além da adoção de práticas de manejo, como não revolvimento do solo e agregação de palha ao sistema, para tentar reduzir ou atrasar o fluxo de emergência. Por outro lado, muito pode ser feito visando rápido estabelecimento da cultura, como uso de sementes certificadas, com alto poder germinativo e vigor, e semeadura da cultura em condições que lhe sejam mais favoráveis a competir. Neste sentido, o atraso na semeadura da soja em relação à dessecação da cobertura vegetal aumenta os níveis de perda de rendimento em decorrência da interferência de plantas daninhas, principalmente picão-preto (Figura 2).Uso do nível de dano econômico (NDE) na tomada de decisão para controle de ervas

O NDE é um conceito simples que integra fatores biológicos e econômicos, e que se destina a tornar lucrativa a tomada de decisão para controle de plantas daninhas (Cardina et al., 1995). O NDE representa a perda monetária de rendimento ocasionada pela erva que excede o custo de seu controle. O sucesso na utilização dos programas de manejo das plantas daninhas relacionados com NDE, depende da habilidade em se prever a função dano. Ela descreve o impacto da população de plantas daninhas sobre o potencial de rendimento da cultura, e também a função controle, que descreve o impacto de herbicidas pós-emergentes sobre a população de plantas daninhas (Dieleman et al., 1996). Para se prever estas funções, deve-se estimar o efeito que as ervas ocasionarão à cultura, rendimento da cultura na ausência da planta daninha, eficiência do método de controle utilizado, custo do método de controle e preço a ser recebido pelo produto colhido. Os valores de NDE calculados para infestações de picão-preto em soja sofrem variações por influência da época de semeadura da soja em relação à dessecação da cobertura vegetal, potencial de rendimento de grãos e preço obtido pelo produto, eficiência do tratamento herbicida e custo do controle (Figura 3). Em função dessas variáveis, o NDE variou amplamente de 1 a 33 plantas m-2. Na estimativa de NDE apresentado na Figura 3, para as duas primeiras épocas de semeadura da soja, constatou-se que a variação dos valores estimados foi afetada geralmente pela seguinte ordem decrescente de contribuição dos fatores envolvidos: época de semeadura da soja pós- dessecação da cobertura > ambiente do estudo > potencial de rendimento da soja @ custo de controle de plantas daninhas > eficiência do tratamento herbicida > preço obtido pela soja. Desse modo, pode-se afirmar que os quatro primeiros fatores desempenham uma contribuição muito importante na definição dos níveis de dano, enquanto os dois últimos mostram participação bastante restrita em alterar seus valores. Novamente, constata-se que a época de semeadura da soja pós-dessecação da cobertura foi o fator mais decisivo e relevante em afetar as estimativas dos NDE.Para guanxuma, Rizzardi (2002) identificou valores de NDE variáveis de 2 a 50 plantas m-2 e de 2 a 17 plantas m-2 em trabalhos conduzidos em Passo Fundo e Eldorado do Sul, respectivamente. De forma similar ao observado para picão-preto, à medida em que se atrasou a semeadura da soja em relação à dessecação da cobertura vegetal, diminuíram os valores de NDE, o que é explicado pelo efeito desse fator na função dano das ervas. Diante dos resultados obtidos para guanxuma e picão-preto, fica claro que os NDE não representam valores constantes, mas que eles variam em função de diferentes fatores biológicos e econômicos. As dificuldades e as restrições inerentes à utilização do NDE como ferramenta para manejo de plantas daninhas devem servir como um alerta, de modo que sua adoção somente se torna viável em situações de lavouras que integrem outras práticas de manejo, que possam minimizar os possíveis efeitos negativos das populações de plantas daninhas não controladas, como utilização de rotação de culturas, arranjo adequado de plantas, uso de cultivares mais competitivas e aplicação de doses eficientes de herbicidas.Impacto da produção de sementes por ervas na tomada de decisão de controle

Os NDE quantificam as perdas de rendimento somente na estação atual de crescimento, sendo consideradas medidas de um só ano dos efeitos das ervas. Não tratar uma população de ervas próxima do NDE pode definir se um nível de dano será excedido em anos subsequentes. Os programas de manejo de ervas de longo prazo devem considerar a produção de sementes de ervas, bem como as perdas de rendimento que permitam estimativas precisas do custo e que aumentem a probabilidade de que o critério definido seja de fato adotado pelos agricultores.Utilizando-se as estimativas de parâmetros que refletem variações na produção de sementes, estimou-se valores aproximados de NDE ótimo (NDEO), o qual considera o impacto da produção de sementes pelas plantas daninhas mantidas na área (Rizzardi, 2002). Para picão-preto, fixando-se o rendimento de grãos de soja em 2500 kg ha-1, o NDEO em Passo Fundo variou de 0,2 a 2 plantas m-2, para as diferentes épocas de semeadura da soja após a dessecação da cobertura vegetal; enquanto, em Eldorado do Sul, variou de 1 a 4 plantas m-2 (Figura 4). Como se constata, os valores de NDEO (Figura 4) foram bem inferiores aos obtidos para NDE (Figura 3), o que demonstra a importância de se incorporar a produção de sementes como variável relevante na tomada de decisão para controlar ou não as ervas. Assim, um dilema em se usar NDE como estratégia de manejo, refere-se à importância das sementes produzidas por plantas daninhas presentes em densidades abaixo do NDE.A adoção de práticas de manejo de ervas, como arranjo apropriado de plantas da cultura, emprego de cultivares com maior habilidade competitiva e uso de doses reduzidas de herbicidas, podem neutralizar os efeitos decorrentes do aumento das reservas de sementes no solo, causado pela adoção do manejo de ervas com base simplesmente em NDE. Desse modo, o emprego de estratégias de manejo das populações residuais de ervas, com base na redução de seu crescimento pode trazer resultados compensadores.

Perspectivas futurasA análise dos resultados obtidos revela algumas limitações para adoção do conceito de NDE para tomada de decisão no controle de plantas daninhas dicotiledôneas em pós-emergência na cultura da soja. Dentre as limitações, destacam-se: a tradição do agricultor em não aceitar a presença de ervas na lavoura, o efeito das ervas na eficiência da colheita, o impacto da produção de sementes de ervas não controladas em reinfestar a área, a falta de experimentos regionais para definir os NDE para a maioria das espécies daninhas e a ocorrência comum de múltiplas espécies em proporções variáveis entre elas.Muitas destas limitações podem ser superadas pela pesquisa, a qual tem como desafio esclarecer sob que condições o controle de plantas daninhas que se baseia no conceito de NDE pode ser integrado com sucesso à agricultura de precisão. Neste contexto, uma das questões mais importantes é como determinar a distribuição das ervas de modo rápido e econômico. No momento, as observações sistemáticas da lavoura, através da geração de mapas com a utilização de sistemas de posicionamento global diferencial (DGPS) parecem constituir a possibilidade mais realística. No entanto, estes mapas deveriam integrar diferentes níveis de infestação, de modo a possibilitar o controle das ervas com base em NDE e, se possível, utilizando doses herbicidas específicas para cada situação de infestação observada.A partir das constatações apresentadas, pode-se afirmar que a possibilidade de utilização do conceito de NDE é amparada por uma série de informações experimentais comprovadas, as quais indicam ser possível a tomada de decisão para controle de ervas a partir do uso de modelos empíricos; as limitações para adoção do conceito de NDE associadas à variabilidade entre locais e anos pode ser diminuída pela inclusão da época relativa de emergência das ervas no modelo matemático.Referências bibliográficas

BISOTTO, V.; FARIAS, A.D. Algumas considerações sobre a cultura da soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL, 29, 2001. Porto Alegre. Indicações Técnicas 2001... Porto Alegre: Fepagro, 2001. p.7 a 17.CARDINA, J.; REGNIER, E.; SPARROW, D. Velvetleaf (Abutilon theophrasti) competition and economic thresholds in conventional and no-till corn (Zea mays). Weed Science, v.43, n.1, p.81-87, 1995.COUSENS, R. An empirical model relating crop yield to weed and crop density and a statistical comparison with other models. Journal of Agricultural Science, v.105, n.3, p.513-521, 1985.DIELEMAN, A.; HAMILL, A.S.; FOX, G.C.; SWANTON, C.J. Decision rules for postemergence control of pigweed (Amaranthus spp.) in soybean (Glycine max). Weed Science, v.44, n.1, p.126-132, 1996.RIZZARDI, M.A. Nível de dano econômico para tomada de decisão no controle de picão-preto (Bidens spp.) e ganxuma (Sida rhombifolia L.) na cultura da soja. Porto Alegre, UFRGS, 2002, 175f. Tese (Doutorado em Fitotecnia – Plantas de Lavoura). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre, 2002.VIDAL, R.A.; BIANCHI, M.A.; FLECK, N.G.; et al. Impacto bioeconômico das plantas daninhas na cultura da soja no Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DA CIÊNCIA DAS PLANTAS DANINHAS, 22, Foz do Iguaçú. Resumos...Londrina:SBCPD, 2000. p.164.

Dados para citação em referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 70.Aldeia Norte Editora, Julho/Agosto de 2002, 40 páginas.