Alternativas ao Melhoramento Genético e ao Manejo Cultural para Incrementar a Habilidade Competitiva da Soja com Plantas Daninhas


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Publicado em: 01/08/2002

Alternativas ao melhoramento genético e ao manejo cultural para incrementar a habilidade competitiva de soja com plantas daninhas

Mario A. Bianchi(1) e Nilson G. Fleck(2)1 Eng.-Agro., Pesquisador da FUNDACEP e aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia da UFRGS. Caixa Postal 776, CEP 91501-970, Porto Alegre, RS. E-mail: mario.bianchi@ufrgs.br 2 Eng-Agro., Ph.D., Professor do Departamento de Plantas de Lavoura da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Bolsista do CNPq. O desenvolvimento de herbicidas seletivos à cultura da soja, nas últimas décadas, tornou o controle de plantas daninhas mais prático e eficiente, possibilitando a obtenção de altos rendimentos e ampliando o cultivo da soja em extensas áreas. O advento dos herbicidas também impulsionou o desenvolvimento da ciência das plantas daninhas, em especial a área que estuda esses produtos (herbicidologia). A crescente preocupação da sociedade com a qualidade do ambiente, a necessidade de reduzir os custos de produção para manter a competitividade da soja no mercado, o surgimento de plantas daninhas resistentes aos herbicidas e a seleção de outras de difícil controle, têm estimulado pesquisas para direcionar o controle a outras alternativas que não o uso exclusivo de herbicidas. Nesse sentido, estudos relacionados à habilidade competitiva (HC) das culturas com plantas daninhas podem contribuir para estabelecer estratégias eficientes para seu manejo integrado. Infestações de plantas daninhas resistentes a herbicidas, em especial Lolium rigidum em lavouras de trigo na Austrália e na Europa e de plantas de difícil controle como Oryza sativa L. (arroz-vermelho) em arroz, estimularam estudos para definir características que confiram maior HC às culturas. Nesses casos, tais estudos assumem grande importância, devido ao fato de herbicidas apresentarem baixa ou nenhuma eficiência.Nesse contexto, torna-se técnica e economicamente viável investir na identificação de características de plantas de soja que confiram maior HC com plantas daninhas, de modo a introduzi-las em novas cultivares, bem como, aprimorar técnicas de manejo da cultura que propiciem incremento em sua HC.Inicialmente, é importante conceituar os têrmos interferência e competição. Interferência representa o conjunto de interações positivas ou negativas que ocorrem entre espécies ou populações dentro de uma espécie crescendo próximas. Entre interações com efeito negativo, a competição é considerada o componente mais importante da interferência. A competição é definida como o efeito mútuo adverso de organismos que utilizam um recurso em suprimento escasso, como água, energia solar (luz) e nutrientes.A HC refere-se às características intrínsecas das plantas que afetam a intensidade de competição entre cultura e plantas daninhas, podendo ser analisada através dos efeitos de supressão ou de tolerância. Supressão é a habilidade da cultura competir com plantas daninhas, reduzindo-lhes a massa e produção de sementes. Tolerância é a habilidade da cultura suportar a competição com as plantas daninhas, enquanto mantém inalterado o rendimento de grãos. A habilidade supressora é preferível, por reduzir a produção de sementes pelas plantas daninhas e beneficiar seu manejo nas estações de crescimento subseqüentes, enquanto a tolerância às plantas daninhas somente beneficia o manejo na estação corrente de crescimento.Várias pesquisas relatam que existe variabilidade genética nas cultivares de soja quanto à HC com plantas daninhas. Diferenças na HC estão associadas a um conjunto de características e não a uma isoladamente. Rápido crescimento inicial, expresso em estatura de planta, massa, área folhar e produção de ramos, está diretamente associado a maior capacidade da planta de soja suprimir ervas. Recentemente, foi demonstrado que tanto cultivares de ciclo tardio quanto precoces podem ser competidoras potenciais, desde que apresentem rápido crescimento inicial. Adicionalmente, sementes com maior peso propiciam melhor emergência, população uniforme de plantas e crescimento inicial vigoroso, resultando em maior HC da cultura.As características de plantas daninhas também devem ser consideradas nos estudos de HC. Espécies como leiteira (Euphorbia heterophylla), picão-preto (Bidens spp.), guanxuma (Sida rhombifolia), balãozinho (Cardiospermum halicacabum), corriola (Ipomoea spp.) e carrapichão (Xanthium strumarium), comuns em lavouras de soja no RS, apresentam arquitetura de planta, massa e ciclo de crescimento diferenciados, podendo, desse modo, causar resposta variável no crescimento de cultivares de soja. Várias características de planta que conferem HC com plantas daninhas são domináveis geneticamente, podendo ser manipuladas pelo melhoramento vegetal. Após a constatação de variabilidade genética na cultura e identificação de uma ou várias características que confiram HC superior, é necessário elucidar os mecanismos envolvidos e a influência do ambiente na expressão de tais características. Além disso, também é necessário identificar genes codificados para a característica pretendida, bem como avaliar se o caráter pode ser selecionado. Nesse sentido, o melhoramento genético, além de selecionar linhagens de soja para elevado rendimento de grãos, pode, paralelamente, selecionar para elevada HC. No entanto, se ocorrerem perdas em características agronômicas desejáveis durante o processo de melhoramento genético objetivando obter cultivares supressoras de plantas daninhas, o desempenho final da cultivar pode ser recuperado, devido ao melhor manejo de plantas daninhas propiciado com a utilização desses genótipos.Especula-se que rápido crescimento vertical (estatura) e horizontal (ramos e folhas com menor ângulo em relação ao solo), área folhar elevada e alta capacidade de ramificação, são características de planta desejáveis na fase vegetativa. Tais características levariam à rápida cobertura do solo, garantindo vantagem competitiva à soja. Além disso, cultivares competitivas devem manter seu crescimento durante a fase reprodutiva, conservando a capacidade de suprimir plantas daninhas durante todo o ciclo e, ainda, apresentar resistência ao acamamento e produtividade satisfatória.O sistema de manejo que objetiva alcançar elevada quantidade de resíduos de culturas na superfície do solo, antecedendo a semeadura, associado à eliminação eficiente de plantas daninhas (dessecação), possibilitam rápido crescimento inicial da soja sem a presença de plantas daninhas. A antecipação da emergência da cultura em relação às ervas, empregando essas práticas, faz com que a cultura possa conviver com maior número de plantas daninhas sem sofrer prejuízo econômico, o que significa, em outras palavras, conferir maior capacidade de supressão de plantas daninhas à cultura.Condições adequadas na semeadura da cultura, como solo úmido, profundidade apropriada e uniforme, contato estreito entre semente e solo, bem como sementes de qualidade certificada, contribuem significativamente para garantir vantagem competitiva à cultura, por propiciarem rápida emergência das plântulas e populações uniformes, que logo ocuparão seus nichos ecológicos e dominarão o espaço.Além de propiciar maior rendimento de grãos, espaçamentos reduzidos podem, simultaneamente, suprimir plantas daninhas. Arranjos de plantas formando quadrados ou triângulos equiláteros, permitem melhor aproveitamento de energia solar, água e nutrientes, garantindo vantagem à cultura na competição com ervas. A redução do espaçamento entrelinhas exerce forte efeito supressor sobre plantas daninhas, principalmente se associado ao aumento na densidade de plantas de soja. O rápido sombreamento do solo nos espaçamentos reduzidos permite o uso de dose reduzida de herbicida, com manutenção da eficiência de controle. No entanto, a aplicação do herbicida pós-emergente deve ser efetuada mais precocemente para garantir que quantidade suficiente de produto atinja as plantas daninhas, haja vista que, nessa situação, o dossel da cultura é capaz de interceptar maior fração do produto aplicado.Especula-se que, com a redução do espaçamento entrelinhas e densidade de 50 plantas m-2 (valor máximo recomendado), possa ser obtido maior supressão de plantas daninhas em cultivares de soja de ciclo precoce quando comparadas às tardias. Essa resposta baseia-se na menor HC, maior resistência ao acamamento e maior probabilidade de ganhos em rendimento de grãos das cultivares precoces nesses espaçamentos. Caso a utilização de densidade elevada de plantas de soja implique em maior custo de sementes, por sua vez baixas densidades exigem elevada qualidade de sementes, perfeita distribuição pela semeadora e alta eficiência herbicida no controle das ervas. Nesse caso, condições que levem à distribuição irregular de plantas, aliada à deficiência no controle, poderão refletir-se em perdas no rendimento de grãos devido à competição exercida por plantas daninhas remanescentes, em decorrência da cultura ter sua capacidade de supressão de ervas reduzida.Cultivares selecionadas para alta HC e manejo adequado apresentam vantagens semelhantes, pois ambas as alternativas proporcionam supressão das plantas daninhas. Os benefícios com sua utilização estão associados à redução da necessidade de herbicidas de pós-emergência; menor pressão de seleção para resistência de plantas daninhas aos herbicidas; redução da quantidade de herbicidas depositados no ambiente; maior eficiência ao herbicida, mesmo em condições adversas de ambiente; e, redução da densidade de ervas em cultivos subseqüentes. Além disso, cultivares com HC superior podem ser utilizadas onde, por motivos de maior praticidade na semeadura, seja usado o mesmo espaçamento entrelinhas, em geral de 50 cm, para soja e milho, e onde o uso do controle químico não seja empregado (cultivos sem aplicação de agroquímicos). Finalizando, nota-se que a contribuição do manejo da cultura, em especial do arranjo de plantas, é vantajosa para aumentar o potencial competitivo da soja com plantas daninhas, constituindo-se em prática de fácil implementação a curto prazo. Por outro lado, o melhoramento genético tem papel fundamental na obtenção de plantas com HC superior. Já sua contribuição, geralmente, ocorrerá a longo prazo, na medida em que características de competitividade sejam identificadas e possam ser introduzidas em novas cultivares. Referências bibliográficas

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Dados para citação em referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 70.Aldeia Norte Editora, Julho/Agosto de 2002, 40 páginas.