Um caso de sucesso do plantio com espaçamento reduzido
Desde menino, o agricultor Cornelis Souilljee trabalhava na lavoura, juntamente com seus pais e irmãos. Em 1966, com 19 anos, iniciou as atividades da empresa que, um pouco mais tarde, se tornaria a “Sementes São Bento”, nome escolhido em homenagem à localização do empreendimento, no Distrito de São Bento, em Carazinho, RS. Em 1992, Souilljee já possuía uma área de 650 hectares, quando iniciou a utilização do plantio direto. Atualmente, a área total da São Bento é de 1.200 hectares.Quando começou a fazer a semeadura direta, em 1992, ele assumiu a presidência do Clube Amigos da Terra de Carazinho. Anualmente, o CAT realiza ensaios de competição entre híbridos de todas as empresas que se dispõem a mostrar seus materiais, dentro das normas criteriosas estabelecidas pelos integrantes da Entidade, cujos objetivos são oferecer informações técnicas aos produtores da região para que eles possam optar pelos materiais que melhor se adaptem às suas necessidades.Nos últimos quatro anos, o CAT de Carazinho realizou ensaios de competição com as variedades de soja mais plantadas na região, em torno de 25 materiais, plantados lado a lado, com e sem tratamento contra fungos da parte aérea, em duas repetições, tal como é feito nas parcelas de milho. Neste inverno, foram iniciados ensaios também na cultura de trigo, em função da sua crescente importância e a necessidade de dados comparativos para a escolha dos materiais, por parte dos produtores.
Redução de espaçamento em milho
Para adotar a redução de espaçamento entre linhas na cultura do milho, Cornelis Souilljee fez um planejamento detalhado, utilizando dezenas de resultados apresentados nos dias de campo que tinha visitado. Alguns deles o deixaram bastante animado, como aqueles que apresentaram 20% de aumento na produtividade quando a distância entre linhas eram reduzidas de 1m para 30 cm.No decorrer de vários anos, ele também analisou resultados vindos dos EUA, através de produtores que lá estiveram. Além disso, Cornelis Souilljee também contou com o apoio da Pioneer Sementes, que tem investido muito neste tipo de avaliação, o que também o ajudou a ampliar o conhecimento sobre os benefícios obtidos com a redução de espaçamento entre plantas na cultura do milho. A Pioneer sempre foi parceira importante, desde o início das atividades da Sementes São Bento.Na busca do conhecimento, Souilljee sempre assiste palestras sobre novas tecnologias para a agricultura e, quando comprovadamente boas, segundo ele, “é preciso por a mão na massa e fazer acontecer.” O produtor de Carazinho passou a estudar as possibilidades de adaptar a plataforma de quatro linhas de 80 cm, e verificou que a parte mecânica era relativamente fácil de fazer. Além disso, analisou a mão-de-obra que seria necessária para adaptar uma plataforma usada com o objetivo de suprir as três linhas de plantio que faltavam, passando de quatro linhas de 80 cm para sete linhas de 50 cm. Hoje, Cornelis possui plataformas de várias marcas e combinações de espaçamentos. Segundo sua projeção, o custo de uma plataforma de 4 para 7 linhas aumenta 48%, aproximadamente.
Vantagens da redução do espaçamento
Após adotar a redução, o produtor observou um aumento significativo da produtividade, mérito que atribui à melhor distribuição das plantas, controle de invasoras por sombreamento, à existência de uma boa palhada e de raízes, e ao melhor aproveitamento da energia solar.Na sua avaliação, com o espaçamento reduzido, as plantas fecham mais rápido as linhas entre as fileiras de milho, proporcionando melhor aproveitamento da luz solar através da maior interceptação pelas folhas. Além disso, a redução de espaçamento proporciona o sombreamento mais rápido do solo, reduzindo a evaporação da água e ajudando no controle das plantas daninhas.Outro fator importante na produtividade é o tamanho das plantas. “O porte das plantas é mais baixo quando se reduz o espaçamento e, conseqüentemente, temos menor tendência ao acamamento”, explica Souilljee, afirmando que esse fato é decorrente da menor competição entre as plantas dentro da linha de plantio, pois ocorre também uma redução do número de plantas na linha, caso seja mantida a mesma população de plantas por área.O produtor também observou facilidades operacionais na propriedade, possibilitando plantio de outras culturas com a mesma distâncias entre linhas. “Você ganha tempo, que poderá ser utilizado em outras atividades dentro da propriedade, ao plantar a soja e o milho com o mesmo espaçamento, evitando as mudanças que seriam necessárias na semeadora”, afirma ele. É a racionalização do tempo na atividade agrícola. Em testes com vários materiais, Cornelis obteve resultados que variam de 0 a 15% de acréscimo no rendimento, sendo que este percentual oscila conforme o material utilizado. Na sua opinião, as diferenças na produtividade dependem das características existentes entre os híbridos, principalmente aquelas que se referem à arquitetura de plantas. Os híbridos de porte mais baixo e de folhas eretas são os mais indicados e tendem a responder melhor em produtividade, quando se reduz o espaçamento.
Desvantagens
Nem todas as coisas são perfeitas e essa regra também pode ser aplicada à redução de espaçamento entre linhas no milho. Cornelis Souilljee encontrou alguns problemas ao decidir mudar. Na adaptação da colheitadeira, com o objetivo de colher as plantas semeadas com espaçamento reduzido, a primeira dificuldade foi o considerável aumento de peso na plataforma. A solução desse item veio com a colocação de mais um pistão hidráulico, normalizando o trabalho.Ele também observou uma folga menor nas entrelinhas, o que exigiu maior atenção do operador para as práticas que apresentavam a necessidade de entrar na lavoura após a emergência da cultura.Na avaliação das dificuldades, Cornelis salienta a importância de um prévio planejamento da lavoura, a fim de que se possa antecipar os prováveis problemas decorrentes da redução do espaçamento. Entre as necessidades elementares, ele cita a estrutura de maquinas e equipamentos adequados para controle de plantas daninhas, controle de pragas e adubação de cobertura.
Recomendações
Além da adaptação da automotriz para colheita com espaçamento reduzido, recentemente, Cornelis Souilljee desenvolveu uma máquina que possibilita a aplicação de cobertura nas fileiras, direto no solo, evitando perdas de N e queima nas folhas de milho. O primeiro protótipo já foi utilizado na aplicação de N em cobertura, numa lavoura de 400 ha de milho e 200 ha de feijão, apresentando excelentes resultados. Finalmente, ele recomenda que “ninguém deve esperar colher produtividades de alta tecnologia utilizando baixa tecnologia ou apenas reduzindo espaçamento”. No seu ponto de vista, a cultura expressa seu potencial produtivo pelo bom manejo do solo, com coberturas abundantes, que aumentam a matéria orgânica e protegem o solo, e com adubações corretas, visando alta produtividade. Além disso, o resultado final da lavoura depende do clima, de um bom manejo e controle de pragas, de um bom manejo e controle de plantas daninhas e, naturalmente, de um melhor arranjo espacial de plantas”.