Soja em nova fase: monitoramento e controle químico, armas contra a ferrugem
A cultura
Originária da costa leste da Ásia a soja cultivada hoje é muito diferente de suas ancestrais, que se desenvolveram principalmente ao longo do rio Yangtse, na China.
As primeiras citações da soja aparecem no período entre 2.883 e 2.838 AC, quando era considerado, assim como o arroz, trigo, cevada e milheto, um grão sagrado.
Somente no final do século XV a cultura foi introduzida na Europa e na segunda década do século XX, mais precisamente após a Primeira Guerra Mundial, a indústria despertou para o potencial econômico do grão, devido o alto teor de óleo e proteínas. Porém, as primeiras tentativas de introdução da cultura da soja de forma comercial em países como Rússia, Inglaterra e Alemanha fracassaram devido às condições climáticas desfavoráveis ao cultivo.
Foi nesse período que soja começou a ganhar espaço nos Estados Unidos. A partir de 1921 a oleaginosa passa a ocupar um lugar de destaque na economia primária do país consolidando o mercado interno do grão.
A soja começou a ser cultivada no Brasil a partir de 1960 como opção de cultivo no verão em sucessão com o trigo. Nesta fase o Rio Grande do Sul e parte do Centro Oeste adotaram de forma comercial o conhecido binômio trigo-soja. Foi na década de 1970 que a oleaginosa consolidou-se no sul, concentrando 65% da produção nacional do grão no RS. O período conhecido como ”boom” da soja incentivou o desenvolvimento da indústria moageira e de óleo vegetal. O aumento da produção, impulsionado pelas condições de mercado, estimulou, nesta fase, o monocultivo da soja. Porém, o cenário da cultura no início da década de 1980 mudou em função de sucessivos problemas de ordem climática que resultaram em frustrações de safra fazendo com que a produção média e a área plantada diminuíssem no Rio Grande do Sul e aumentasse progressivamente no Paraná e Centro Oeste, no final desse período.
Novo cenário
O cenário da produção da soja no Brasil mudou durante a última década do século XX. A produção nacional voltou a crescer nesta fase impulsionada por avanços tecnológicos, destacando-se a significativa expansão do plantio direto nas lavouras de todo o país. Os produtores passaram a ter como foco o aumento da produção com ganhos em escala vertical e não mais de forma horizontal como vinham sendo conduzidas as lavouras até então. A busca pelo aumento da produção com menor custo deu espaço, na segunda metade da década de 1990, para o início do cultivo de soja transgênica no Rio Grande do Sul, apesar da semente geneticamente modificada não estar liberada para plantio no país.
Atualmente o cultivo da soja está disseminado em praticamente todas as regiões agrícolas e confere ao Brasil a posição de segundo maior produtor do grão no mundo, tendo produzido em 2003 cerca de 50 milhões de toneladas.
A soja é uma das principais commodities mundiais por isso a produção e comercialização do grão influencia direta e indiretamente a economia de grande parte dos municípios e a balança comercial do país. Em função de sua importância econômica a cultura demanda por constantes incrementos de tecnologia aplicada à campo visando garantir altos rendimentos.
Período de adaptações
No entanto, a euforia com a soja foi freada pela nova fase da cultura que iniciou em 2001, pois nas duas últimas safras as lavouras, principalmente do Centro Oeste, tiveram perdas de produtividade consideráveis em função da Ferrugem Asiática, doença detectada pela primeira vez no país há três anos, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. A presença da Ferrugem no país resultou num prejuízo superior a dois bilhões de dólares e levou pesquisadores, produtores e técnicos a uma verdadeira cruzada contra o avanço da doença.
Disseminado exclusivamente pelo vento, o fungo é adaptado à temperaturas que variam de 15° a mais de 30°C. O molhamento por mais de 10 horas favorece o desenvolvimento da doença que se disseminou de forma rápida em praticamente todas as regiões agrícolas brasileiras. Sem possibilidade de erradicação e sem a existência, até o momento, de cultivares totalmente resistentes, produtores contam com a proteção do monitoramento e do controle químico. Tendo que conviver com o problema buscam reduzir ao máximo os custos de controle e as perdas causadas pela Ferrugem.
Safra 2004/05
O fungo chegou aos Estados Unidos antes do previsto, o Departamento de Agricultura do país (USDA), confirmou no dia 10 de novembro as primeiras ocorrências de ferrugem asiática em áreas de soja. O fungo foi detectado em dois campos experimentais em Louisiana, conforme o Serviço de Inspeção Fitossanitária do USDA.
No Brasil, de acordo com o Consórcio Anti-ferrugem, o fungo Phakopsora pachyrhizi, causador da doença, já foi identificado em quatro estados (Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás), na safra 2004/05. Segundo a Embrapa Soja, as áreas onde foram identificados os focos não são de plantio comercial, mas sim de soja voluntária ou em unidades de alerta participantes do Consórcio.
Em Goiás, a ferrugem foi identificada numa unidade de alerta, instalada sob pivô central (irrigação), no município de Jandaia. Em Nonoai, no Rio Grande do Sul, a ferrugem foi encontrada em plantas germinadas voluntariamente, próximas a armazéns de semente da cidade. Já em Sananduva (RS), as amostras de ferrugem são de plantas voluntárias de soja que germinaram dentro de uma lavoura de trigo.
A plantas de soja voluntárias sobreviveram à ocorrência de geadas e, protegidas pelo cultivo de trigo, mantiveram a ferrugem. Além dos dois municípios gaúchos, a ferrugem já havia sido identificada em Primavera do Leste e Ipiranga do Norte, no Mato Grosso, em três unidades de alerta (syntinelas).
As unidades de alerta, instaladas sob pivô central (irrigação) em Primavera do Leste, a ferrugem foi identificada no estádio vegetativo. Em Ipiranga do Norte, a ferrugem foi identificada no final da floração. Em Nova Cantu, no Paraná, sintomas de ferrugem foram identificados em plantas voluntárias de soja no estádio R4 (início do enchimento do grão). Neste caso as plantas voluntárias são fruto da germinação de grãos perdidos na colheita.