Safra Mundial de Grãos Cheia pode Manter Preços na Linha de Suporte em 2005


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Publicado em: 01/12/2004

Safra mundial de grãos cheia pode manter preços na linha de suporte em 2005

Flávio GassenEngenheiro-agrônomo, Supervisor Técnico CooplantioE-mail: flavio@agri.com.br*Dados estatísticos da China obtidos daShanghai JC Intelligence Co., Ltd. – www.chinajci.com

SOJA

O período atual é caracterizado pelo mercado especulativo do efeito climático sobre o plantio e desenvolvimento das culturas de verão nos países produtores do hemisfério sul, principalmente Brasil, Argentina, Paraguai, Austrália, África do Sul e Uruguai. Mas, nesse ano, o inesperado rendimento da soja norte-americana manteve a pressão de baixa nos preços, que registrou o pico em abril/2004 de USS 9,89 /bushel na média mensal, acumulando perda de 47,8% até novembro. Segundo Darrel Good, Universidade de Illinois, os preços pagos ao produtor mais baixos do estado nos último 31 anos ocorreu no incício ou final do ano comercial (set-ago nos EUA) e atingiu o mínimo em 14 vezes nos meses de setembro ou outubro e 14 vezes no mês de agosto. Na percepção da economia, a queda contínua dos preços por um período longo e amplitude grande, normalmente apresenta forças de sustentação inerente à memória dos preços recentes nos agentes econômicos, mesmo com fundamentos negativos que fariam pressão de baixa mais forte. Estes fundamentos negativos estão presentes e no relatório de novembro do USDA foram reforçados com o novo aumento do rendimento da soja dos EUA e conseqüente recorde de produção. Os relatórios de junho a setembro apresentaram sucessivas quedas na estimativa de rendimento, onde junho apresentou rendimento de 2.688 kg/ha, julho 2.681 kg/ha, agosto 2.627 kg/ha e setembro 2.587 kg/ha. Em outubro, com parte da colheita já realizada, houve correção destas estimativas para 2.822 kg/ha e novembro para 2.863 kg/ha.

Considerando a última estimativa, a produção do país deverá atingir 85,73 milhões de toneladas, representando aumento de 28,3% sobre a safra anterior e quase 9% acima da safra 2001/02 que foi historicamente a maior. Esta surpreendente produção dos norte-americanos promoveu a elevação da projeção da produção mundial 2004/05 para 230 milhões de toneladas, conforme relatório de novembro do USDA. O forte aumento na produção da oleaginosa representa 21,4% acima da safra anterior e repercutirá no incremento de 57% no estoque final de 2004/05. Já no consumo mundial, a previsão está em 207,4 milhões de toneladas e mantendo a trajetória de recuperação que ocorre num ciclo de 3-4 anos e agora estamos entrando no segundo ano. Na relação estoque final mundial sobre o consumo, o indicador para 2004/05 é de 29,6%, tremendamente elevado, mas considera o ano comercial do Brasil/Argentina como out-set. Se for realizado um ajuste para o ano comercial local, esta relação é reduzida para aproximadamente 21%. Vale salientar que este ajuste é somente uma aproximação e é realizado pelo autor visando estimar uma relação de estoque/consumo que apresentou dinâmica assimétrica nos últimos anos devido ao forte aumento da produção de soja do Brasil/Argentina dos últimos anos (11% a.a. desde 1993/94) em relação ao grupo dos EUA e China (1,4% a.a. no mesmo período).

Mesmo com a relação estoque final mundial/consumo em 21%, esta é a mais elevada dos últimos 10 anos e poderá exercer forte pressão de baixa no mercado caso a projeção da safra Argentina e Brasileira sejam atingidas (figura 3).

Ao lado do país que registra as maiores taxas mundiais de crescimento, a China, o consumo total previsto pela empresa Shanghai JC Intelligence Co., Ltd, para 2004/05 está em 38 milhões de toneladas, mantendo sua trajetória de crescimento, mas com a manutenção da política de redução de estoques que está projetado em 11,25% em relação a demanda (consumo doméstico mais exportação), contra 54% registrado na safra 95/96 (figura 3). A relação mais baixa ocorrida nos últimos anos foi a do ano comercial 2001/02, onde atingiu 8,37% e desde esta data pode-se considerar que uma relação estoque final/demanda total adequada para o país está entre 10 e 11%, portanto, a projeção atual está no limite superior desta margem e, portanto, também da China há indicadores de baixa nos preços.

Do lado do Brasil, a relação estoque final/demanda está projetada em 11,1% conforme CONAB (figura 2) e representa aproximadamente o dobro da registrada desde o ano comercial 97/98. Para a safra que está sendo implantada não é esperada nenhuma surpresa em relação a ferrugem asiática, pois a mesma já está presente, e com a experiência do último ano o produtor assumiu a necessidade da aplicação de fungicida. Por outro lado, para o produtor norte-americano esta doença é novidade, mas já foi detectada no país numa unidade de pesquisa em Louisiana, gerando forte pressão de alta na Bolsa de Chicago (CBOT) no decorrer da semana de 11/nov/2004, conforme figura 4.

MILHO

A produção mundial de milho está registrando forte alta para 2004/05 e está projetada em 691 milhões de toneladas, considerando que manteve-se no patamar de 600 milhões de toneladas no período de 1996/97 a 2002/03, que provocou considerável redução do estoque de passagem mundial desde 1998/99, com 32,5% do consumo e atingindo 14,8% no ano comercial 2003/04 (figura 1). Conforme o levantamento da safra 2004/05 da CONAB, a área total projetada de milho está em 12,63 milhões de ha, pouco abaixo dos 12,82 milhões de ha da safra anterior, mas com produção de 42,9 milhões de toneladas, pouco acima das 42,089 milhões de toneladas da safra anterior. São grandes as variáveis que influenciam estes números até sua concretização, mas considerando que a relação neutra na tomada de decisão do produtor em plantar soja ou milho está quando o preço da soja é 2,0 vezes o preço do milho (no Paraná) e no período de pré-plantio esta relação estava em aproximadamente 2,2 vezes, é razoável considerar que haverá proporcional incremento de área de soja sobre a do milho. No lado do consumo, a projeção está em 41,2 milhões de toneladas, pouco acima dos 40,48 milhões de toneladas do ano anterior e com exportação menor. Visto assim, a elevação dos preços está dependendo de desvalorização cambial para permitir paridade de exportação. Na figura 6, considerando os preços pagos ao produtor do Paraná, as condições atuais estão praticamente na linha de suporte ao estimar o mínimo que a economia paga pelo grão no momento atual em relação aos anos passados. No entanto, a taxa cambial nominal está significativamente abaixo da taxa real (ou de paridade), anulando a pressão de alta natural que ocorre nos meses de novembro/dezembro que são os mais elevados do ano. Por este motivo não há recuperação dos preços no período atual e somente será sensível com elevação da taxa cambial nominal.

TRIGO

O comportamento trigo foi semelhante ao do milho do ponto de vista da recuperação da produção e restabelecimento dos estoques mas o declínio da relação estoque final/consumo mundial iniciou um pouco mais tarde, em 2001/02. Segundo o USDA, a produção mundial do grão para 2004/05 está projetada em 616,9 milhões de toneladas contra consumo de 605,8 milhões. Este excedente promoverá a elevação do estoque e encerramento do último ciclo de preços, que já havia sido sinalizada pela banda das linha de resistência e de suporte conforme figura 8. As conseqüências da excelente safra mundial podem ser vistas na figura 7, onde os preços nos portos da Argentina e pagos aos produtores dos EUA apresentaram forte declínio, superando a pressão de baixa normal no decorrer da colheita. Isto é um alerta, pois os preços no mercado interno brasileiro deverão influenciar negativamente o plantio da próxima safra e um dos meios para reverter este cenário está também relacionado com a desvalorização cambial. Na realidade, os preços das commodities agrícolas no mercado interno estão restritos ao fato da taxa cambial estar excessivamente apreciada, além da queda dos preços no mercado internacional. Na figura 8 está sinalizada a variação normal do valor do trigo na economia, conforme a sazonalidade de safra e entre-safra, indicada na margem superior pela Linha de Resistência e na margem inferior pela Linha de Suporte. O estabelecimento desta banda de variação é fundamental e inerente a cada commoditie, pois permite a identificação da normalidade na dinâmica dos preços. Observando no gráfico a última queda do valor do grão (preço deflacionado) na economia, nota-se que a banda de variação negativa foi superada e agora estamos com o dobro em termos de declínio acumulado. Dos fatores responsáveis por esta queda está a valorização cambial do R$ frente o US$, e queda das cotações internacionais (figura 7) provocada pela excelente safra.

Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 84, Novembro/Dezembro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.