Aspectos técnicos de controle da ferrugem da soja
Cláudia V. Godoy Fitopatologista, pesquisadora da Embrapa Soja – Londrina-PR
Safra após safra, as doenças que incidem na cultura da soja têm assumido papel importante na definição da produtividade da cultura. Atualmente, a ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, tem papel de destaque, em função dos danos que pode causar. A primeira constatação da ferrugem asiática em lavouras no Brasil ocorreu na safra 2001/02 e rapidamente espalhou-se pelas regiões produtoras, em função da eficiente disseminação pelo vento. Recentemente, foi confirmada pelo USDA/ ARS a presença próximo a Cali, na Colômbia, deixando os produtores dos Estados Unidos em alerta para uma possível entrada da doença naquele país, nas próximas safras. O principal dano ocasionado pela ferrugem é a desfolha precoce, que impede a completa formação dos grãos, com conseqüente redução da produtividade. O nível de dano que a doença pode ocasionar depende do momento em que ela incide na cultura, das condições climáticas favoráveis à sua multiplicação após a constatação dos sintomas iniciais, da resistência/ tolerância e do ciclo da cultivar utilizada. Reduções de produtividade próximas a 70% podem ser observadas quando comparadas áreas tratadas e não tratadas com fungicidas. Esses números não são divulgados com a intenção de assustar o produtor, mas a de alertar para a existência de uma nova doença com alto potencial destrutivo.
Para conscientização de técnicos, produtores e empresários do setor que compõem a cadeia produtiva da soja, e divulgação de questões que envolvam a prevenção e o controle da ferrugem, foi criado um projeto de manejo integrado da ferrugem da soja, denominando Consórcio Anti-Ferrugem. Este projeto é coordenado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e que conta com a participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), fundações de apoio à pesquisa, empresas estaduais de pesquisa, de transferência de tecnologias, cooperativas, universidades, Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) e da Associação Brasileira de Defensivos Genéricos (Aenda). Além da divulgação de informações sobre a doença, o projeto tem como objetivo auxiliar a diagnose, através de laboratórios espalhados pelas diferentes regiões produtoras e realizar o monitoramento e acompanhamento da doença ao longo da safra. Informações sobre os laboratórios de diagnose e focos de ferrugem poderão ser acompanhadas ao longo da safra pelo Sistema de Alerta, disponível na página da Embrapa Soja (www.cnpso.embrapa.br/alerta).
Ainda hoje, após três safras com a doença no Brasil, a principal dificuldade no campo é a correta identificação da doença. Isso ocorre porque existem outras doenças com sintomatologia semelhante e também porque, no início, os sintomas da ferrugem são bastantes discretos, passando despercebido em um monitoramento superficial. O monitoramento da doença e sua identificação nos estádios iniciais são essenciais para o controle eficiente, devendo ser realizadas vistorias freqüentes na lavoura, a partir da germinação e intensificadas após o florescimento ou constatação da doença na região. Em condições de alta pressão de inóculo e clima favorável, os sintomas podem ser observados na fase vegetativa, como ocorreu na safra 2003/04, quando os cultivos se iniciaram próximos a lavouras irrigadas da entressafra, com a presença da doença.
Os primeiros sintomas da ferrugem se iniciam pelo terço inferior ou médio da planta e aparecem como minúsculas pontuações mais escuras que o tecido sadio da folha. No início da infecção, a folha permanece verde, dificultando a identificação quando a lavoura é observada de forma superficial. Para identificar a doença no início, deve ser realizado um monitoramento cuidadoso, coletando diversas folhas da parte inferior da planta e observando contra a luz para verificar a presença de pontuações escuras. Embora doenças como a mancha parda (Septoria glycines), o crestamento bacteriano (Pseudomonas savastanoi pv glycinea) e a pústula bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv glycines) causem sintomas semelhantes, a confirmação da ferrugem é feita pela constatação no verso da folha (face abaxial), de saliências semelhantes a pequenas feridas (bolhas), que correspondem à estrutura de reprodução do fungo (urédias). Essa observação é facilitada com uma lupa de 10 a 20 aumentos.
Unidade de alerta têm sido utilizadas para facilitar o monitoramento e alertar o agricultor para a presença da doença na região. Essas unidades se constituem de pequenas áreas de soja, semeadas até um mês antes da semeadura normal, e sem aplicação de fungicida na parte aérea. Como os sintomas da ferrugem são observados geralmente após o florescimento, essas áreas apresentam a tendência de ter sintomas antes da lavoura comercial, podendo o agricultor ficar alerta para o controle da doença na sua lavoura. Integrantes do Consórcio Anti-Ferrugem irão repassar as informações dos focos identificados nas unidades de alerta para o Sistema de Alerta, para que a assistência técnica e os agricultores acompanhem a evolução da doença da região e fiquem atentos para o controle.
A ferrugem se dissemina principalmente pelo vento e o fungo só sobrevive e se multiplica no hospedeiro vivo. Em função da entressafra, era de esperar que a quantidade de esporos do fungo presente no ar diminuísse nesse período, sendo o inóculo construído a cada safra, a partir dos primeiros cultivos. No entanto, cultivos de soja, na entressafra, irrigados ou não, têm funcionado como ”ponte verde” para o fungo. Embora o fungo tenha diversos hospedeiros secundários, no Brasil, o principal hospedeiro na entressafra tem sido a própria soja.
As condições climáticas são determinantes para a ocorrência de epidemias, sendo favorecidas por molhamento foliar acima de seis horas (orvalho ou chuvas bem distribuídas) associado a temperaturas amenas (18o a 26oC). Essas condições são favoráveis para que se estabeleça o processo inicial de infecção do fungo. Quanto maior o número de dias com condições favoráveis, mais infecções podem ocorrer e, desse modo, desencadear o processo epidêmico. Períodos quentes e secos desfavorecem a ocorrência da doença. A precipitação tem mostrado ser o fator crítico para o desenvolvimento de epidemias de ferrugem. Ensaios realizados em várias localidades em Taiwan mostraram alta correlação entre velocidade de desenvolvimento da ferrugem e a ocorrência de chuvas freqüentes e bem distribuídas durante a estação de cultivo. Essa mesma tendência tem sido observada no Brasil. Embora a ferrugem tenha sido constatada em praticamente todas regiões produtoras de soja no País, os locais onde ela evoluiu mais rapidamente foram as regiões que apresentam boa distribuição de chuvas durante a safra. Na safra 2003/04, nos Estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo, nas regiões onde foram observados um desenvolvimento mais agressivo da doença, as chuvas ocorreram de forma freqüente e bem distribuídas, muitas vezes dificultando a aplicação dos fungicidas e comprometendo o controle da doença. No Estado do Rio Grande do Sul, onde as maiores perdas foram atribuídas à falta de chuvas, os focos de ferrugem identificados não evoluíram.
O desenvolvimento de cultivares resistentes tem sido dificultado pela variabilidade genética do fungo. Na safra 2001/02, materiais que haviam sido selecionados com resistência completa tiveram sua resistência quebrada. Hoje, a estratégia do melhoramento é utilizar todos os genes disponíveis e suas possíveis combinações, junto com outras fontes de resistência qualitativa ou tolerância, na obtenção de cultivares resistentes a essa doença. Na ausência de cultivares resistentes, medidas de manejo como a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, monitoramento constante da lavoura associado ao controle com fungicidas têm sido recomendadas para diminuir os danos que essa doença pode causar.
O controle químico tem viabilizado o cultivo da soja na presença da ferrugem, evitando perdas de produtividade. Para a safra 2004/05, 21 produtos comerciais foram registrados para o controle da ferrugem e outros devem obter registro no decorrer da safra. As informações atualizadas sobre os produtos registrados para ferrugem podem ser encontradas no site do Ministério da Agricultura (www.agricultura.gov.br) - AGROFIT. Os produtos aprovados na Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central, realizada em Ribeirão Preto, SP, e que constam na publicação ”Tecnologias de Produção da Soja – Região Central do Brasil 2005”, são apresentados na Tabela 1. Nesta tabela, foi incluída uma coluna de agrupamento dos produtos, baseado em resultados de pesquisa realizados por diferentes instituições de pesquisa do País, na safra 2003/04. Embora os produtos tenham sido agrupados por eficiência, através da análise conjunta dos resultados, em diferentes locais, é importante salientar que os mesmos podem ter eficiência semelhante no campo, sob baixa pressão da doença. Essa diferença na eficiência dos produtos é mais fácil de ser observada em situações onde a doença é mais agressiva. A formação de três grupos não implica em flexibilidade na sua aplicação para o controle. A aplicação do fungicida deve ser feita após os sintomas iniciais da doença na lavoura ou na região ou preventivamente. Os produtos sem informação na Tabela 1, obtiveram registro após o início dos ensaios e deverão ser avaliados nessa safra.
A decisão sobre o momento de aplicação (sintomas iniciais ou preventiva) deve ser técnica, levando em conta os fatores necessários para o aparecimento da ferrugem (presença do fungo na região, idade das plantas e condição climática favorável), a logística de aplicação (disponibilidade de equipamentos e tamanho da propriedade), a presença de outras doenças e o custo do controle. O atraso na aplicação, após constatados os sintomas iniciais, pode acarretar em redução de produtividade, caso as condições climáticas favoreçam o progresso da doença. O número e a necessidade de re-aplicações vão ser determinados pelo estádio em que a doença for identificada na lavoura e pelo período residual dos produtos. É importante salientar que outras doenças, que necessitam controle químico, como o oídio (Erysiphe diffusa), a mancha alvo (Corynespora cassiicola) ou a mela (Rhizoctonia solani), podem aparecer antes da ferrugem e, dessa modo, a decisão sobre o momento de aplicação também deve levar em conta a incidência dessas doenças. Assim como a ferrugem, essas doenças apresentam condições climáticas específicas para o desenvolvimento e, dessa forma, é difícil ter uma recomendação única de controle que funcione em 100% dos casos, nas diferentes regiões produtoras do Brasil.
Em função do alto número de hospedeiros do fungo e da sua eficiente disseminação pelo vento, a ferrugem, após introduzida, não pode ser erradicada. O agricultor vai ter que aprender a conviver com ela, devendo efetuar o manejo de forma racional para evitar perdas sem aumentos desnecessários no custo de produção. As condições climáticas, associadas à época de constatação da presença do fungo numa dada região, irão determinar onde a ferrugem pode ser mais agressiva, o que pode variar de safra para safra, como já observado nos últimos três anos, após sua introdução no país.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 84, Novembro/Dezembro de 2004, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS