Evolução e perspectivas da ferrugem da soja para a próxima safra
José Nunes JuniorFitopatologista do Centro Tecnológico para Pesquisas Agropecuárias -CTPA, Senador Canedo - GOE-mail: nunes@ctpa.com.br
Como toda cultura exótica, a soja [Glycine max (L.) Merrill] iniciou sua expansão com excelente sanidade no Brasil. Entretanto, com poucos anos de cultivo comercial, as doenças começaram a aparecer, passando a representar um dos principais fatores limitantes ao aumento e à estabilidade do rendimento. No início, as doenças associadas à soja eram aquelas existentes nos Estados de onde as primeiras sementes foram introduzidas. A falta de medidas profiláticas e de cuidados na produção e na seleção de sementes sadias permitiu que as sementes transmitissem e disseminassem os patógenos nas novas áreas de cultivo.
A importância econômica de cada doença de soja varia de ano para ano e de região para região, dependendo das condições climáticas de cada safra. As perdas anuais de produção por doenças de soja são estimadas em cerca de 15% a 20%, entretanto, algumas doenças podem ocasionar perdas de quase 100%. Apesar da soja em áreas sob cerrados apresentar boa produtividade, é indispensável a constante atenção a fim de detectar a tempo as normalidades que venham surgir. Diversas doenças causadas por bactérias, fungos, nematóides e vírus afetam a soja nos cerrados e algumas têm causado sérios prejuízos, como a podridão branca da haste (Sclerotinia sclerotiorum) o cancro da haste (Diaporthe phase olorum f.sp. meridionalis), o oídio (Mycrosphaera diffusa), as doenças de final de ciclo, causadas por Septoria glycines (mancha parda) e Cercospora kikuchii (crestamento foliar de cercospora), o nematóide de cisto (Heterodera glycines), o vírus da necrose da haste e a ferrugem asiática (Phakopsora pachyr -hizi).
A ferrugem da soja é causada por duas espécies de fungos do gênero Phakopsora: P. meibomiae, causadora da ferrugem ”americana” e P. pachyrhizi, causadora da ferrugem ”asiática”. A ferrugem ”americana” foi constatada no Brasil em 1979, no município de Lavras, Minas Gerais. A sua ocorrência é mais comum no final da safra, em soja ”safrinha” e em soja guaxa, estando restrita às áreas de clima mais ameno, raramente causa dano econômico. No caso da ferrugem ”asiática”, a sua ocorrência foi identificada pela primeira vez no Japão no ano de 1902. Disseminou-se para outros países orientais, mas ficou durante vários anos restrita a Ásia e a Austrália. Em 1994 foi identificada no Havaí, em 1997 na África e em março de 2001 na América do Sul, mas especificamente no Paraguai. Também em 2001, ao final da safra, foi identificada no Brasil, no Estado do Paraná. Ainda não foi constatada na região continental dos Estados Unidos.
Desde a sua primeira detecção no Paraguai e no Paraná, em 2001, a ferrugem ”asiática se espalhou por todo o Paraguai, Bolívia, quase todo o Brasil, parte da Argentina e por último na Colômbia. As perdas relatadas vão de 10 a 90% na Índia e Austrália, 20 a 50% na China, 20 a 90% em Taiwan e 40 % no Japão. No Brasil foi constatada na safra 2001/02, nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Goiás atingindo mais de 60% da área cultivada. Estimou-se que nessa safra, cerca de 400 mil ha foram afetados, com perdas atingindo níveis de danos econômicos. O total de perda foi avaliada em 112.000 toneladas ou o equivalente a US$ 24,7 milhões. Na safra 2002/03 e 2003/04, estimou-se a sua ocorrência em 95% das áreas de soja no país, sendo observada nos estados de Goiás, do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais, do Piauí, do Maranhão, do Pará, do Tocantins, da Bahia, do Rio Grande do Sul, em Rondônia e Santa Catarina. Na safra 2002/03, estimaram-se perdas na produção da ordem de 3,4 milhões de toneladas (US$ 737 milhões). Sendo que os gastos com o controle da doença (uma aplicação adicional de fungicidas, em 80% da área) e os prejuízos na arrecadação foram, respectivamente, de US$ 427 milhões e US$ 121 milhões. Para a safra 2003/04, as perdas na produção ficaram em torno de 4,6 milhões de toneladas (US$ 1,2 bilhão) e os gastos com o controle (1,5 aplicação adicional de fungicidas, em 70% da área) e os prejuízos na arrecadação totalizaram, respectivamente, US$ 860 milhões e US$ 201 milhões. Esses resultados evidenciaram perdas altamente significativas para o país: cerca de US$1,3 bilhão e US$2,3 bilhões, respectivamente, nas safras 2002/03 e 2003/04. Os Estados mais afetados pela ferrugem ”asiática” desde o seu aparecimento no Brasil foram: Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Uma conjugação de fatores, como temperaturas elevadas, altas taxas de umidade do ar, chuvas de alta intensidade e por períodos prolongados e a presença da soja o ano todo no país, seja através de plantas voluntárias (guaxas ou tigüeras) ou pelo plantio no inverno, que ocorre na Região Central do Brasil, em geral com o uso do pivô central, para multiplicação de sementes tem sido responsável pelos altos prejuízos causados pela ferrugem ”asiática” nas últimas safras.
As instituições de pesquisa tem buscado desenvolver cultivares de soja que tolerem o ataque do fungo causador da ferrugem ”asiática”. Até o momento nenhum cultivar mostrou-se suficientemente tolerante à doença. O controle químico tem sido o mais eficiente, porém seu uso eficaz e econômico depende de algumas estratégias apresentadas no quadro 1.
Quadro 1. Estratégias para tornar controle químico mais eficiente
A) soja na entressafra (eliminação da soja voluntária, o monitoramento fitossanitário da safrinha e plantio irrigado);B) tática de fuga (escape) através da época de semeadura/ciclo de variedades;C) monitoramento da lavoura (unidades de alerta): realizar monitoramento mais abrangente possível com maior atenção para os primeiras semeaduras e locais com maior acúmulo de umidade e caminhamento e freqüência de amostragem (a partir da emergência e intensificada após florescimento e constatação da ferrugem na região);D) Quando controlar: Aplicação após os primeiros sintomas (uma pústula no terço inferior) ou preventiva, considerando: sintomas nas unidades de alerta, capacidade operacional, condições climáticas, estádio da cultura, situação da ferrugem na região e incidência de outras doenças;E) Número de aplicações: época que a doença iniciar na cultura, reincidência da doença, outras doenças que incidirem na cultura e custo/benefício do tratamento;F) Produtos registrados: tabela e recomendação:§ Os produtos podem ter o mesmo comportamento em situações de baixa pressão da doença;§ A diferença em eficiência não implica em flexibilidade de aplicação§ O atraso na aplicação resulta em reduções de produtividade, caso as condições climáticas favoreçam o desenvolvimento da doença;§ Após constatada a doença na região dar preferência para produtos ** e ***, conforme tabela de fungicidas registrados para o controle da ferrugem disponível nesta publicação e em www.agricultura. gov.br.
Após três safras da sua ocorrência em quase todo o país, a ferrugem ”asiática” veio para ficar e o sistema de produção de soja do Brasil terá que aprender a conviver com ela, mantendo-se alerta o tempo todo e adotando medidas que possam minimizar os danos. A expectativa para safra 2004/05, se as condições climáticas forem favoráveis para o desenvolvimento do fungo P. pachyrhizi é que se tenha novamente uma incidência e severidade alta devido a presença do fungo na soja guaxa/tigüera (julho de 2004) e no plantio de inverno (pivô central e Projeto Formoso/TO) na Região do Brasil Central. Já foi detectada a doença (início de novembro de 2004) em Tangará da Serra/MT, em unidades de alerta.
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Revista Plantio Direto, edição nº 84, novembro/dezembro de 2004, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.