Impacto econômico da ferrugem da soja
Joelsio J. LazzarottoPesquisador da Embrapa Soja/ Economia Rural - Londrina - PR
Nos últimos anos, a ferrugem asiática da soja tornou-se um dos mais relevantes problemas que cercam o agronegócio brasileiro. Isso porque pode causar acentuadas perdas técnicas e econômicas com reflexos bastante negativos na rentabilidade do produtor de soja e na própria economia do País, devido, sobretudo, às diminuições nas transações comerciais e nas receitas tributárias.
No Brasil, nas safras 2002/03 e 2003/04, foram relatadas perdas, respectivamente, de 3,4 e 4,6 milhões de toneladas de soja decorrentes da ocorrência da ferrugem (aumento de 35,2%). Essas perdas técnicas foram responsáveis por acentuados prejuízos econômicos, conseqüentes às perdas de grãos, aos gastos com controle químico e às quedas nas receitas tributárias.
Em termos de prejuízos econômicos diretos na produção de grãos, eles foram, respectivamente, de US$0,7 e US$1,2 bilhões, nas safras 2002/03 e 2003/04 (aumento de 66%) (Quadro 1).
Devido à ocorrência da ferrugem, nas últimas duas safras, a maior parte dos produtores de soja, também, teve incremento nos custos de produção da oleaginosa. Isso porque, nas safras 2002/03 e 2003/04, as áreas brasileiras de soja afetadas com a doença foram, respectivamente, de 80% e 70%, resultando em gastos adicionais de controle da ordem de US$427 e US$860 milhões (aumento de 102%).
Embora a área de soja afetada com ferrugem, na safra 2002/03, tenha sido, em termos percentuais, maior do que a da safra 2003/04, os prejuízos nesta foram bem mais acentuados por três fatores principais: ocorrência de maiores danos nos locais onde a doença apareceu; necessidade média de 1,5 aplicação adicional de fungicida/ha onde ocorreu a ferrugem (na safra 2002/03, fez-se, em média, 1,0 aplicação adicional); e, enquanto a ferrugem foi responsável por queda estimada em 6% na produtividade de soja, na safra brasileira de 2002/03, na safra 2003/04, essa estimativa ficou em cerca de 8,4%.
Tomando como base os prejuízos na produção, também foram estimados os impactos nas receitas tributárias. Nesse sentido, estimaram-se as perdas de arrecadação sobre cinco tributos incidentes sobre a produção ou a industrialização da soja brasileira: contribuição provisória sobre movimentações financeiras - CPMF (0,38%), contribuição especial para a seguridade social rural - CESSR (2,3%), imposto sobre operações relativas à circulação de bens e serviços - ICMS (média de 13,9%), programa de integração social do trabalhador - PIS (1,65%) e contribuição para o financiamento da seguridade social - Cofins (7,6%). Para calcular o ICMS, o PIS e a Cofins, foram consideradas somente as quantidades de soja destinadas à industrialização no mercado interno. Isso porque esses tributos não incidem sobre a exportação de grãos. Para facilitar os cálculos desses tributos na indústria de transformação, tomou-se como base o valor bruto da produção, ou seja, não foram considerados os preços efetivos praticados na indústria. Isso faz com que as perdas estimadas de arrecadação, em geral, estejam subestimadas, pois não foram consideradas as margens atribuídas pelo setor a jusante da cadeia produtiva.
A partir dos cálculos, chegou-se às cifras de perdas de receitas tributárias de US$121 e US$201 milhões, respectivamente, para as safras 2002/03 e 2003/04 (aumento de 66%).
No somatório das perdas econômicas, estimaram-se prejuízos, para as safras 2002/03 e 2003/04, respectivamente, de US$1,3 e US$2,3 bilhões (aumento de 78%).
Em termos de análise econômica para os sistemas de produção de soja do País, a partir de avaliações da ocorrência da ferrugem e dos custos envolvidos com o seu controle químico nas últimas duas safras, pode-se fazer algumas inferências importantes. Nesse sentido, caso não sejam tomados os cuidados adequados, a doença pode ocasionar grandes problemas na rentabilidade da exploração sojícola. Esses problemas podem ser decorrentes de quedas na produção, caso não sejam adotadas as medidas corretas de controle. Por outro lado, a diminuição de rentabilidade também pode ser conseqüente ao próprio uso dos produtos químicos (fungicidas). Conforme estudos realizados pelos pesquisadores da área de economia rural da Embrapa Soja, estima-se que na safra 2004/05, o custo total (custos do produto mais custos operacionais) de uma aplicação de fungicida deve variar entre US$30,0 e US$40,0/ha (2,6 a 3,5 sacas de soja/ha). Para uma lavoura com produtividade de 50 sacas/ha, isso significa um custo adicional entre US$0,6 e US$0,8/sc/aplicação. Dessa forma, caso sejam realizadas aplicações de fungicidas sem a real necessidade, as possibilidades de o produtor conseguir rentabilidade adequada tendem a ser bastante prejudicadas.
Os problemas de rentabilidade podem, ainda, ser mais acentuados em função das perspectivas de preços e custos de produção da soja brasileira, para a safra 2004/05. Isso se justifica, pois, associado ao alto custo para efetuar o controle químico da ferrugem, na próxima safra estima-se que o custo total de produção deva ser cerca de 20% superior àquele observado na safra 2003/04. Associado à elevação dos gastos, projetam-se que os preços pagos ao produtor sejam bem menores que os observados na safra 2003/04, uma vez que poderão variar entre US$9,0 e US$11,0/sc (os custos totais de produção devem se situar bastante próximos desses valores). Esses dados fazem com que as perspectivas de margem de lucro para a safra 2004/05 sejam bastante estreitas.
Diante dessas constatações, é fundamental que o produtor realize o monitoramento constante da sua lavoura, de modo a avaliar, com muito critério, se realmente é necessário efetuar determinada aplicação de fungicida, sobretudo de forma preventiva.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 84 - Novembro/Dezembro de 2004, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS