Soja: reestruturação da produção como conseqüência da ferrugem
Por Marcelo PimentelGoiânia-GO
Pouco mais de três anos se passaram entre a primeira identificação e a certeza de que a sojicultura brasileira nunca mais seria a mesma. A cataclísmica aparição da ferrugem asiática nas lavouras do país mudou de tal forma a atividade, que hoje é tida como um verdadeiro marco, um divisor de águas. Por isso, muitos especialistas afirmam que a soja no Brasil tem dois momentos, antes e depois da ferrugem.
Mesmo cotada entre as mais eficientes do mundo a agricultura brasileira ficou abalada, pois a doença chegou obrigando todos os agentes do segmento a reverem seus sistemas de produção. O resultado foi uma surpresa até para os próprios produtores e o que parecia improvável aconteceu em algumas regiões: alargamento dos limites produtivos e um salto considerável na qualidade da soja.
De acordo com levantamento realizado pela Embrapa, a ferrugem asiática provocou perdas de cerca de 4,5 milhões de toneladas de soja, na safra 2003/04. Associando o que deixou de ser colhido e os gastos com o controle químico (fungicidas e despesas com aplicação), os prejuízos gerados pela ferrugem ultrapassaram US$ 2 bilhões. ”Esses valores representam praticamente o dobro de prejuízo levantado na safra anterior”, diz o presidente da Embrapa, Clayton Campanhola.
A fisgada no bolso foi a forma mais dolorosa de o produtor perceber que algo precisava ser revisto. Não lhe restou alternativas a não ser crescer mais. A síntese do que está acontecendo no Brasil, nesta safra 2004/2005, foi a experiência vivenciada pela Bahia um ano antes.
Vindos de anos de curva produtiva ascendente os produtores do cerrado baiano chegaram à safra 2002/2003 com expectativa de colheita recorde. Imaginava-se que a média na região ficaria em torno das 40 sacas de soja por hectare. Contudo, subestimaram o poder de destruição da ferrugem e, por conta disso, amargaram um prejuízo da ordem de US$ 150 milhões. O estrago foi tão grande que a média produtiva regional ficou dez sacas abaixo da previsão inicial.
Mobilização
Ainda sentido o baque, o segmento se organizou em torno do Programa Estratégico de Manejo da Ferrugem Asiática da Soja. A idéia uniu produtores, entidades, empresas públicas e empresas, que revisaram minuciosamente todas as fases do sistema de produção, desde o preparo do solo até a colheita, passando por todos os tratos culturais.
De acordo com Sérgio Pitt, vice-presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia, Aiba, o programa formulou uma série de procedimentos básicos capazes de minimizar os efeitos da doença na região para o ano seguinte. Sendo assim, os produtores baianos analisaram e corrigiram o solo devidamente, capacitaram os funcionários responsáveis pela aplicação dos produtos, regularam cuidadosamente as máquinas, respeitaram rigorosamente todas as datas de plantio, aplicação de defensivos e colheita.
Enfim, seguindo com cuidado as recomendações técnicas, controlaram a ferrugem e, por tabela, maximizaram o potencial de suas lavouras, chegando à média de 48 sacas por hectare na safra 2003/2004. Uma saca a menos que a região de Balsas, MA, onde a média ficou em 49 sacas por hectare, porém com área menor.
Os estados mais castigados pela doença em 2003/2004 foram Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A Bahia foi o que menos sofreu, justamente, por apresentar maior eficiência no controle da doença. Mérito para o esforço concentrado que permitiu uma ampla divulgação do problema e das ações de controle a serem adotadas. Todavia, ao contrário do que se imagina, a presença da ferrugem nas lavouras baianas foi, segundo Pitt, maior que no fatídico ano anterior, mesmo assim, os efeitos foram menores.
Para o pesquisador da Embrapa Soja, especialista em ferrugem, José Tadashi Yorinori, além de todo o trabalho de divulgação, foi fundamental a conscientização dos produtores e a pronta resposta com a adoção das medidas de controle à doença.
Para o trabalho, o investimento total realizado pelo programa baiano foi de R$ 460 mil. ”Um valor relativamente baixo diante do prejuízo evitado e dos resultados concretos alcançados. Entramos com muitas dúvidas no plantio e saímos da colheita com a certeza de ter conquistado o melhor resultado da história”, observa Pitt. Para a safra atual, a área de soja a ser monitorada crescerá em torno de 10%, saltando de 820 mil hectares para 900 mil. O investimento total no programa também será elevado para R$ 560 mil, em função de ampliações e aperfeiçoamento de algumas ações.
Informação
Em Mato Grosso, maior produtor nacional, a ferrugem esteve fortemente presente na safra passada, fazendo com que muitos produtores registrassem as piores colheitas da história, enquanto outros, paradoxalmente, tivessem sua melhor safra. Houve agricultores que colheram 65 sacas por hectare e vizinhos não chegaram as 20 sacas. De acordo com o superintendente da Fundação Mato Grosso, Dario Hiromoto, o disparate nas performances aconteceram porque houve quem tivesse acesso às informações repassadas pelos técnicos e as transformasse em práticas gerenciais. Outros, até tiveram acesso, mas optaram por não segui-las.
Ele explica que alguns produtores acreditaram que a ferrugem seria um problema sério, enquanto outros fizeram pouco caso, principalmente, achando que o controle preventivo seria dinheiro jogado fora. Mais tarde, depois que a doença se estabeleceu, tentaram fazer a aplicação curativa, mas choveu e faltou produto no mercado.
”Na prática, a pulverização curativa mostra-se inviável. É muito comum ouvir que é melhor fazer o curativo, basendo-se na idéia de que um monitoramento bem feito vai resolver o problema. Contudo, primeiramente, a maioria dos produtores tem dificuldade para reconhecer a ferrugem no estágio inicial. Em segundo lugar, mesmo que achem focos da doença, não se controla clima e três dias consecutivos de chuva acabam com qualquer chance de combate. Há também que se considerar que a capacidade de pulverização está aquém da desejável, pois não há máquinas suficientes para cobrir a grande quantidade de área no caso de uma necessidade de aplicação curativa. Por fim, a capacidade gerencial normalmente também deixa a desejar. Em tese, é possível se fazer o tratamento curativo, mas as possibilidades de insucesso são grandes demais”, diz Hiromoto.
Marco
Para evitar que o problema da última safra se repetisse nos meses que precederam o plantio, a Fundação MT promoveu em 22 municípios do Estado um ciclo de eventos denominado ”Mato Grosso, É Hora de Plantar”. O interesse por parte dos produtores foi muito grande. ”De uma previsão inicial de público de 3,5 mil pessoas, apareceram mais de 6 mil pessoas. Todos estavam muito receosos com a ferrugem. Sendo assim, acreditamos que, desta vez, o pessoal esteja melhor preparado para encarar a doença. O processo de controle já está ajustado. O manejo preventivo não só da ferrugem, como de outras doenças vai culminar numa maior produtividade, repetindo o exemplo do cerrado baiano. Pena que isso ocorra num momento de preços de mercado desfavoráveis”, afirma.
As informações foram postas à prova ainda no mês de outubro, quando os primeiros focos de ferrugem apareceram na soja 2004/2005. Hiromoto explica que não é nada alarmante, pois era de se esperar que isso acontecesse nas áreas onde havia soja durante o inverno e sob pivô central. ”No município de Primavera do Leste, já começou entrando na fase vegetativa, porque estão plantadas em áreas irrigadas com pivô, permitindo um ambiente favorável para o desenvolvimento do fungo, em função da presença constante do inóculo da doença”.
A orientação da Fundação MT é que, caso não ocorra a ferrugem durante o período vegetativo, faça-se a aplicação preventiva para a ferrugem e outras doenças da soja. Contudo, achamos que em cerca de 95% das áreas de soja de Mato Grosso, a ferrugem virá somente após o florescimento. O problema do aparecimento precoce da doença não é o dano específico que ela pode causar nas lavouras, mas sim o aumento da possibilidade de transmissão do inóculo. O superintendente da Fundação MT diz que todo o controle já foi feito para evitar esse tipo de problema.
”A ferrugem é um marco na produção de soja no Brasil. Produzir soja antes da ferrugem era uma coisa. Agora, é outra, completamente diferente. Porque antes ainda conseguia-se trabalhar com prazos mais largos, com menos equipamentos, hoje é preciso ter muitas máquinas para se plantar dentro dos prazos. No máximo, dentro de 20 ou 30 dias toda a lavoura deve estar plantada. Os prazos têm de ser respeitados para que os procedimentos aconteçam na hora certa. Precisa-se ainda de uma equipe coordenada, qualificada e bem treinada, além de alta produtividade para conseguir fechar as contas. É necessária ainda uma gestão de custos muito eficiente”, detalha Hiromoto.
Uma só língua
Indicativo do nível da maturidade da agricultura brasileira, a padronização do combate à ferrugem no país revela também um grau crescente de profissionalismo, capaz de mobilizar todos os envolvidos com o segmento, produtores, técnicos, pesquisadores, empresas públicas e privadas de norte a sul do país em torno de uma causa comum.
O chamado Consórcio Anti-Ferrugem, coordenado pelo Ministério da Agricultura, reúne 60 pesquisadores e profissionais da área de assistência técnica dos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins, Pará e Piauí, além do Distrito Federal.
A intenção é divulgar questões que envolvam a prevenção e o controle da doença. Formando-se paralelamente uma rede de profissionais de transferência de tecnologias, para a qual estão sendo capacitados 40 agentes de transferência que possam habilitar cerca de 2 mil multiplicadores a repassar informações sobre ações preventivas de sanidade vegetal, identificação da doença, manejo e controle da ferrugem da soja a cerca de 100 mil sojicultores brasileiros.
O Consórcio, que prevê ainda o estabelecimento de 400 unidades-sentinela em todas as regiões produtoras de soja para monitorar a dispersão do fungo causador da doença, terá ações a serem realizadas nas próximas três safras.
Para o chefe de pesquisa da Embrapa Soja, João Flávio Veloso, o Consórcio é fruto de esforços para harmonizar o discurso sobre a doença entre os agentes de transferência de tecnologias, formando uma rede para troca de informações sobre a ocorrência da ferrugem em todo o Brasil, durante toda a safra. Edson Borges, diretor da Fundação Mato Grosso do Sul, compartilha da mesma opinião e diz que a idéia é que todos falem a mesma língua, unificando o vocabulário e o conhecimento que se tem.
As informações obtidas ficarão acessíveis para toda a sociedade e serão disponibilizadas pela internet no Sistema de Alerta, que será administrado pela Embrapa Soja, podendo ser acessadas nas páginas do Ministério da Agricultura, de cooperativas e outras instituições participantes do Consórcio.
”É uma operação de cunho técnico que visa capacitar o agricultor na busca de solução para um problema que ele ainda não está familiarizado”, explica o gerente técnico da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef, Marcos Caleiro. Ele explica também que o Consórcio pretende dar amplo suporte à recomendação técnica que os multiplicadores irão levar aos produtores com o propósito de orientar sobre a escolha do produto para o controle da doença, a maneira adequada de aplicá-lo e, no momento correto, antes que a doença cause danos à produtividade.
”Nessa safra haverá fungicidas suficientes para atender à demanda nacional. Somente as empresas produtoras de insumos vinculadas à Andef têm quantidades para atender duas aplicações de produtos em 20 milhões de hectares, o que é praticamente a totalidade da área plantada com soja no Brasil”, diz.
Cruzada
No caso de Mato Grosso do Sul, dois programas distintos atuam ao mesmo tempo no controle da ferrugem nesta safra e convergem para o Consórcio. O primeiro programa é o das Áreas-Sentinela, desenvolvido em parceria entre a Fundação MS e a Empresa Syngenta, fabricante de defensivos. A partir do início de outubro, foram plantadas pequenas lavouras espalhadas em propriedades por todos os municípios do estado. As parcelas, que possuem 14 linhas por 20 metros, servem de chamariz para ferrugem.
O sistema permite a detecção do momento da contaminação da planta pelos esporos do fungo da ferrugem. Os agrônomos da empresa ficam incumbidos de fazer o monitoramento e, assim que detectarem a presença de algum sinal da doença, levam as plantas para os laboratórios da Fundação MS ou da Embrapa para saber se é ou não ferrugem. ”Confirmando o diagnóstico, o produtor e a comunidade são alertadas. Isto não significa que o produtor deva sair aplicando fungicida. Significa apenas que deve redobrar o cuidado, aumentando o monitoramento da lavoura, tendo em vista que a ferrugem chegou”, observa Borges.
Um segundo programa, conta com a presença do Governo do Estado, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, a Embrapa e a Bayer, também fabricante de agroquímicos. A empresa entra com recursos, melhorando os laboratórios de pesquisa existentes e ajudando a custear alguns técnicos para os laboratórios, o governo estadual entra com o apoio logístico e recursos. Os demais participam com os laboratórios.
O intuito é fazer os testes com o material que possa estar contaminado e, a partir do momento da confirmação, aciona-se a imprensa para a divulgação da informação, bem como das medidas cabíveis.
”É mais uma cruzada que vem para complementar o primeiro programa. Nesse contexto, uma das principais atribuições da Fundação MS é repassar as informações a todos os técnicos do estado. Essa é a força contra a ferrugem em Mato Grosso do Sul, que vem deixando, num certo sentido, os produtores mais tranqüilos, porém bem alertas com relação à doença”.
Borges diz que a ferrugem é como criar uma cascavel dentro da própria casa. ”Sempre que você chega em casa e a encontra no canto dela, fica tranqüilo, mas no dia que você não na encontrar a história é bem diferente. O segredo da ferrugem é esse. O produtor deve andar dentro da lavoura procurando-a, quando encontrar, ótimo. O que não pode deixar é que ela o encontre primeiro. A ferrugem tem que ser controlada nos primeiros sintomas. O monitoramento da lavoura é fundamental para detectar a doença no início e tomar as medidas na hora certa”, ressalta.
Contra o prejuízo
Goiás também corre atrás do prejuízo. Sob o slogan ”Goiás – Soja Protegida”, o estado lançou o Programa Estadual de Manejo e Controle de Pragas da Soja. Coordenado pela Secretaria de Agricultura estadual (Seagro), o programa conta com a elaboração e condução integrada da AgenciaRural, Agência Goiana de Defesa (Agrodefesa), Delegacia Federal de Agricultura em Goiás (DFA-GO), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Federação da Agricultura do Estado de Goiás (FAEG), Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB-GO), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Centro Tecnológico de Pesquisa Agropecuária (CTPA), e com patrocínio e apoio financeiro da Bayer.
O principal objetivo do programa é uniformizar ações e procedimentos para reverter o impacto prejudicial que as pragas estão imprimindo à sojicultura goiana. Nesse primeiro momento, a ênfase é para o combate à ferrugem asiática. De acordo com a Assessora Técnica da FAEG, Mariana Amaral, a ferrugem já está instalada no estado há cerca de três anos, mas foi na última safra, 2003/2004, que as perdas foram mais significativas. ”A doença já está presente em praticamente todas as regiões produtoras goianas. A produtividade média que era de 45 a 50 sacas por hectare, caiu para 25 a 30”, afirma Mariana.
Os prejuízos não pararam por aí. Segundo a chefe da Assessoria Técnica da Seagro, Rossana Serrato, os prejuízos econômicos decorrentes da ferrugem chegaram a quase US$ 600 milhões. ”De uma produção potencial de 7,4 milhões de toneladas, o estado colheu cerca de 6,08 milhões de toneladas, o que representou 1,4 milhão de toneladas a menos, uma perda de 19% na produção de soja”, explica ela.
Estrutura
”Alguns fatores foram preponderantes para a disseminação da ferrugem, como as condições climáticas que favoreceram a proliferação do fungo e impediram a aplicação dos produtos, a não identificação da doença por parte dos produtores no momento certo e a insuficiência e má distribuição de fungicida”, explica a assessora da FAEG.
Amaral acredita que, com o programa, será possível combater melhor a doença, uma vez que os produtores estarão melhor preparados. ”Já foram treinados cerca de 150 agrônomos de vários municípios, que servirão de multiplicadores, informando aos produtores, técnicos e demais parceiros sobre o manejo correto das lavouras, rotação de culturas, identificação das doenças, os cuidados e recomendações técnicas a serem tomadas”, afirma.
Segundo ela, a idéia agora é oferecer a melhor estrutura possível aos produtores para o combate a ferrugem. ”Os produtores contarão, além do auxílio de cartilhas, manuais, CDs, cartão de procedimentos e lupas, com um novo sistema de monitoramento e acompanhamento das lavouras por meio de microscópios fornecidos pela Bayer. Os 40 microscópios já estão sendo colocados em pontos estratégicos em diversos municípios e não gerarão custo algum ao produtor que, quando desconfiar do foco da doença em sua lavoura, deve dirigir-se imediatamente ao laboratório mais próximo para obter um diagnóstico correto”, explica Amaral.
Dados para referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 84, Novembro/Dezembro de 2004 - Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.