Trigo: condição das lavouras causou preocupação em 2004
Depois da melhor safra de trigo colhida no Brasil no ano de 2003, seguido do entusiasmo provocado pelos preços favoráveis de soja, o trigo semeado no inverno de 2004 gerou grande expectativa de produção. O agricultor investiu em fertilizantes e em produtos fitossanitários para garantir o potencial de produção da lavoura.
Porém, no mês de setembro reclamações relacionadas à morte de folhas de plantas de trigo começaram a surgir entre os produtores e puderam ser observadas pelos técnicos em lavouras de todo o Estado. As causas, a princípio, foram relacionadas à ocorrência de manchas foliares, efeitos de clima e dúvidas sobre a eficácia de fungicidas.
Para debater o assunto e levar até os produtores e assistentes técnicos a opinião de especialistas na área, a Revista Plantio Direto organizou no dia 25 de outubro uma reunião que contou com a participação dos pesquisadores José Maurício Fernandes e Gilberto Cunha da Embrapa Trigo (Passo Fundo), Erlei Melo Reis da Universidade de Passo Fundo (Passo Fundo), Carlos R. de Sousa da Fundacep (Cruz Alta), André Cunha Rosa da OR Sementes (Passo Fundo) e dos engenheiros-agrônomos Ricardo de Quadros da Cotrijal (Santo Antônio do Planalto), Jair Mello da Cotrijui (Ijuí), Sérgio Schneider da Coopermil (Santa Rosa), Nilso Antoniazzi da Cotrel (Erechim), Dirceu Gassen (Porto Alegre), Flávio Gassen (Maravilha-SC) e Décio Fernando Neuls (Carazinho) da Cooplantio, Ronaldo dos Santos da Sementes E. Orlando Roos (Não-Me-Toque) e Sandra Maria Zoldan, da Razera Agrícola (Passo Fundo).
A questão das manchas foliares em especial a mancha-amarela, época de aplicação e dose de fungicidas, a influência das toxinas, rotações de culturas e o mal-do-pé, foram assuntos levantados e debatidos entre os participantes da reunião.
Mancha-amarela
A mancha-amarela é causada pelo fungo Peronospora tritici repentis (Dreschlera tritici). O desenvolvimento de epizootias da mancha-amarela está associado à presença de palha de trigo do ano anterior ou de sementes infectadas. A monocultura sucessiva de trigo sobre trigo é destacado como fator mais importante no desenvolvimento da doença. Temperaturas elevadas, em torno de 18 °C e períodos prolongados de molhamento (18h) são condições favoráveis para o desenvolvimento da doença em plantas de trigo.
Durante o debate, diferentes cenários foram apresentados sobre a disseminação de propágulos do patógeno. Um dos cenários apresentados sugere a impossibilidade de disseminação do patógeno pelo vento em função do tamanho e peso do esporo, que limitaria seu avanço a menos de um metro. Outro cenário sugerido foi a possibilidade de esporos do fungo, sob condições muito favoráveis de clima, formarem ”nuvens” de propágulos que poderiam ser disseminados para distâncias maiores. Isso justificaria a ocorrência de danos severos da mancha-amarela em áreas de trigo semeadas com rotação de culturas.
Foi unânime entre os participantes da reunião a opinião de que safra 2004 de trigo foi a de maior incidência e severidade de mancha-amarela. A doença foi constatada logo após a emergência das plantas de trigo que apresentaram lesões nas primeiras folhas. A maior incidência do patógeno foi atribuída a presença de palha de trigo do ano anterior, como conseqüência da estiagem de verão, que afetou severamente a produção de soja e manteve a palha sem decomposição.
Para os pesquisadores e técnicos, a situação de elevada incidência da mancha-amarela no início do desenvolvimento de trigo e a falta de orientação técnica para controle do patógeno resultaram em dúvidas sobre a melhor estratégia de controle da doença.
Nesta safra foi observado que o patógeno se manifestou na segunda e terceira folha de trigo, aparentemente não se desenvolvendo na fase de afilhamento e alongamento. Segundo os técnicos, essa situação induziu os agricultores a retardar a aplicação de fungicidas combinando com o uso da menor dose considerada eficiente. Durante o debate foi levantado que aplicações de fungicidas em plantas de trigo com sintomas iniciais de mancha-amarela, resultaram no secamento das folhas poucos dias após e a segunda aplicação teve pouco ou nenhum efeito na manutenção do restante das folhas verdes.
Toxinas
Durante a reunião foi destacado que o fungo da mancha-amarela produz toxinas que causam o amarelecimento e morte de folhas de trigo. Segundo os pesquisadores, a resposta para o amarelecimento de folhas por toxinas está diretamente relacionada com a reação de cada cultivar. Foi levantado pelos participantes que, cultivares mais sensíveis com manchas foliares pequenas, mesmo com a aplicação de fungicidas e controle do patógeno, podem apresentar secamento das folhas pelo efeito deletério da toxina.
Fungicidas
A ineficácia de diferentes grupos de fungicidas foi uma das hipóteses sugeridas durante o debate para explicar a morte de folhas de trigo. Porém a questão da aplicação atrasada, já com folhas infectadas e doses mínimas, consideradas econômicas, foram destacadas como fatores relevantes para explicar a situação das lavouras nesta safra. Os presentes à reunião consideraram que as doses tecnicamente eficientes são base para a eficácia de fungicidas no controle de manchas foliares em trigo.
Rotação de culturas
A rotação de culturas foi destacada como prática necessária para evitar frustrações causadas por manchas foliares e doenças radiculares.
Segundo os pesquisadores e técnicos, nunca se conseguiu pleno sucesso de uso de fungicidas para o controle de doenças em trigo sem a prática da rotação de culturas. O risco de maior incidência e maior severidade de doenças é muito grande para o trigo semeado sobre trigo sucessivamente.
Durante o debate foi destacado que 18 meses é o tempo necessário para a decomposição da palha e para a interrupção da sobrevivência dos principais fungos causadores de manchas foliares e podridões radiculares em trigo. Para o grupo presente ao debate, um ano de rotação de culturas assegura a decomposição da palha é suficiente para restabelecer as condições para o desenvolvimento da cultura com o mínimo aceitável de sanidade para climas subtropicais e tropicais.
Aveia e azevém espontâneos
O desenvolvimento de aveia, de azevém e de outras gramíneas espontâneas (guaxas), com a evolução de área cultivada sob plantio direto foi considerado um fator importante de manutenção e multiplicação de viroses e fungos que atacam cereais de inverno.
Mal-do-pé
Nesta safra o mal-do-pé, causado pelo fungo Gaumanomices tritici, voltou a ocorrer em áreas extensivas e também de forma generalizada nas lavouras de trigo e de cevada. Essa doença havia deixado de ser fator limitante de produção das lavouras no sul do Brasil desde o início da década de 1980. A rotação de culturas e a racionalização de uso de calcário foram importantes para a redução de intensidade de ocorrência do mal-do-pé.
A ressurgimento do problema na safra de 2004 é atribuído ao aumento da área cultivada de trigo sobre trigo e, principalmente, à combinação do uso de calcário na superfície do solo com a maior precipitação pluviométrica no mês de setembro.
Outro fato levantado foi o uso sucessivo de doses reduzidas (2 t/ha) de calcário sob plantio direto, que pode induzir a elevação do pH apenas na camada superficial do solo, favorecendo o desenvolvimento do patógeno.
Segundo os pesquisadores, dados experimentais relacionam a maior severidade da doença, quando combinados a sucessão de trigo sobre trigo, o uso exagerado de calcário e precipitações superiores a 200 mm, como ocorreu no mês de setembro, no Rio Grande do Sul.
Índice de área foliar
A pequena área foliar e o pensamento de que folha bandeira do trigo é suficiente para garantir o enchimento de grãos, foram assuntos discutidos e questionados entre os participantes da reunião. De acordo com dados coletados em Santa Catarina e apresentados para os técnicos e pesquisadores, medições realizadas em 4 cultivares de trigo demonstraram como resultado um índice de área foliar de 1,3:1, na fase de enchimento de grãos. Ou seja, 1,3 m2 de área foliar para cada 1 m2 de superfície de solo. Sabe-se que para altos rendimentos de grãos o índice de área foliar deve ser superior a 3:1. Portanto, é necessário manter no mínimo três folhas de trigo verdes durante essa fase. Nesse aspecto, técnicos e pesquisadores confirmam que para manter maior área foliar é necessário combinar características de resistência à doenças, fazer rotação de culturas para diminuir a pressão de patógenos e usar fungicidas antes da infecção nas folhas inferiores.
O momento de aplicação de fungicidas, destacando a necessidade do início dos tratamentos antes do estádio de folha bandeira com objetivo de garantir melhor sanidade das folhas, também foi assunto discutido, sendo, juntamente com o índice de área foliar, temas sugeridos como demanda imediata para a pesquisa.
Problemas
Entre os presentes ao debate sobre os problemas ocorridos na safra de trigo 2004, foi unânime a opinião de que as manchas foliares foram a principal causa da morte acentuada de folhas nas lavouras de trigo. A intensidade do dano foi associada à ausência da rotação de culturas, época de semeadura, reação de cultivares, época de aplicação de fungicidas e dose de produtos.
Diante do quadro apresentado pelos pesquisadores e técnicos concluiu-se que há necessidade de recomendações técnicas por cultivar, levando em conta a expectativa de produção de cada agricultor. Segundo os participantes da reunião as informações por cultivar de trigo deveriam contemplar época de semeadura, densidade, adubação, reação à doenças, eficácia de fungicidas (produtos, doses, momento e freqüência de aplicação) para cada nível de produção desejado.
Conclusões
Ao final do debate concluiu-se que a discussão sobre manchas foliares em trigo aconteceu no momento adequado e de ocorrência do problema na lavoura. Foi destacada a necessidade da reunião constante das entidades que tenham informações geradas de experimentos e observações a campo para a emissão de orientações visando colaborar com a solução de problemas enfrentados pela assessoria técnica.
Também foi destacada a necessidade do desenvolvimento de modelos consistentes de previsão de doenças, usando unidades modernas de coleta de informação meteorológicas, relacionando com a reação e potencial de cada cultivar e outras práticas culturais adotadas na lavoura.
Revista Plantio Direto, edição nº 84, novembro/dezembro de 2004, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS