Estoques Elevados nos EUA Podem Definir Mercado


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Publicado em: 01/02/2006

Estoques elevados nos EUA podem definir mercado

Flávio Renato GassenEngenheiro-agrônomo, Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.brO mercado de grãos continua sendo pressionado negativamente pela apreciação da taxa cambial observada nos últimos meses e sua manutenção mostra grande robustez. Apesar das iniciativas do Banco Central em reduzir a oferta de dólar no mercado, os bons fundamentos da economia brasileira estão promovendo a queda contínua da avaliação do Risco País e, consequentemente, a percepção positiva dos investidores internacionais sobre nossa economia. As percepções e expectativas do futuro regem as iniciativas dos agentes econômicos, independente de seu tamanho e poder. Assim, o indicador de risco que oferece uma economia sobre investimentos tem grande influência na capacidade de troca da sua moeda, ou seja, taxa cambial. Um dos indicadores de risco mais visados pelos investidores internacionais é o elaborado pela J.P. Morgan que apresenta estreita correlação com a taxa cambial no médio prazo (figura 1). Mantendo-se o Risco Brasil em 230 pontos (2,3% ao ano), como registrado na primeira semana de fevereiro/2006, não há pressão para a depreciação do R$. Por outro lado, se o índice continuar sua trajetória de queda, haverá possibilidade de apreciação ainda maior da moeda brasileira, considerando que seu ritmo é lento e está sendo gradativamente absorvido pelo setor produtivo devido à redução dos preços dos insumos importados.

SOJA

Os preços internacionais da soja apresentaram sensível recuperação na virado do ano (figura 2), estimulados pela estiagem nos países produtores sul-americanos, após pressão de baixa gerada pelos ótimos resultados da safra norte-americana que registrou rendimento recorde de 2.910 kg/ha e produção de 83,9 milhões de toneladas. Esta produção não foi a maior registrada no país, pois houve redução de área de 30,46 para 29,2 milhões de ha, da safra 2004/05 para 2005/06. Apesar disso, o fato da produção ter alcançado e, até mesmo, superado os 80 milhões de toneladas surpreendeu o mercado e resultou na forte ampliação dos estoques do país. O relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) de fevereiro/2006 aponta significativo aumento das reservas do grão nos EUA e possibilidade do estoque final da safra 2005/06 atingir o recorde de 15,08 milhões de toneladas, representando 19,8% da demanda do país para o mesmo período (fig 3). Da mesma forma que os investidores internacionais acompanham os indicadores de risco-país para estabelecer suas estratégias de investimentos, os fundos de investimentos dos EUA que representam as maiores operações do mercado futuro de grãos nas Bolsas de Mercadorias, acompanham o equilíbrio na oferta dos grãos em relação à sua demanda. Sendo assim, o estoque final em 19,8% da demanda do país é péssimo indicador no estabelecimento de negócios para o mercado futuro. A marca de 20% de estoque final foi atingida somente nas safras 1985/86 e 1986/87, ou seja, duas vezes na história dos EUA e provocou a queda dos preços para 4,5 dólares/bushel no período.

A bolha especulativa sobre a soja que superou 10 dólares/bushel (22 dólares/60kg) nos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago (CBOT) no primeiro semestre de 2004, em parte foi gerada pelo entusiasmo dos fundos de investimento sobre a relação estoque final/demanda de 4,4%. Observando a dinâmica deste indicador de estoque e os preços pagos ao produtor dos EUA desde 1995 (fig 3), pode-se concluir que há grande probabilidade dos preços serem mantidos abaixo dos 5,5 dólares/bushel (12 dólares/60kg).

A produção mundial de soja 2005/06 projetada pelo USDA está apontando para 222,76 milhões de toneladas, cerca de 3,5% acima da registrada na safra anterior, mas com pequena redução (-0,12%) em relação ao relatório de janeiro/06 devido ao declínio da produção esperada no Paraguai, Argentina, Uruguai e sul do Brasil, devido a estiagem. Ainda não há informações seguras sobre a produção sul-americana, mas considerando as projeções atuais, os estoque final mundial para a safra 2005/06 poderá atingir 53,8 milhões de toneladas, ou seja, quase 20% superior ao da safra anterior. Para o mesmo período, no consumo mundial é esperado aumento de somente 3,9%, resultando em 25,2% de estoque final em relação à demanda mundial (fig. 4) e igual ao registrado na safra 1985/86. Sem dúvida, se for especular sobre o ímpeto dos fundos de investimentos em utilizar o mercado futuro da soja para compor suas estratégias de negócio, o cenário mundial mostra más notícias, sendo que o indicador mais crítico é o forte desequilíbrio dos estoques domésticos dos EUA.

Na figura 5 estão os preços pagos ao produtor paranaense desde a implantação do Plano Real, onde os preços nominais foram também deflacionados pelo IGP-M visando trazer para o momento presente os valores da soja no passado. Assim, o valor do grão desde o final do ano passado atingiu o menor patamar no período e somente igualado ao registrado no primeiro semestre de 1995, onde as cotações dos contratos de primeira posição de Chicago estavam semelhantes aos atuais, mas havia um forte efeito de base negativa (também chamado de prêmio negativo) para o grão nacional. Considerando o cenário negativo proporcionado pelos elevados estoques mundiais e dos EUA e conseqüente tendência de queda dos preços internacionais, se não ocorrer quebra significativa da safra sul-americana, e a possibilidade da taxa cambial manter seu patamar atual ou cair ainda mais, os preços ficarão abaixo da linha de suporte indicada na figura 5.

MILHO

A produção mundial de milho 2005/06 está projetada em 683,76 milhões de toneladas e o consumo em 687 milhões de toneladas. O consumo acima da produção é um indicador animador para o setor produtivo, principalmente se o acumulado dos últimos anos resulta na redução da participação do estoque final no consumo mundial. No entanto, a menor participação do estoque dos últimos anos foi registrada na safra 2003/04 (fig 4), onde atingiu 16,1% do consumo e agora está projetada em 18,7%. Da mesma forma do mercado futuro da soja, o estímulo das operações no mercado futuro do milho também é estabelecido pelo indicador estoque projetado. Assim, os EUA que produzem quase a metade (41%) de todo o milho mundial, estão apresentando indicadores nada animadores, pois a participação do estoque final sobre a demanda do país está projetada em 22,2%, muito superior do nível de aproximadamente 10% que é considerado um forte estimulador do mercado. Sua influência internacional é muito grande e responsável por mais de 64% de todo o milho exportado do planeta, com as operações futuras em bolsa norte-americana estabelecendo grande parte dos negócios. Assim, não haveria outra forma, do que os preços praticados em muitos mercados domésticos acompanharem os dos EUA no médio prazo. Na figura 6 está representada a curva de médio prazo dos preços do milho nos EUA e sua estreita correlação invertida com a participação do estoque final na demanda do país. No período de 1999 a 2001, a relação estoque final/demanda dos EUA variou entre 18 e 19%, onde os preços pagos ao produtor ficaram abaixo de 2 dólares/bushel (4,7/60kg).

No Brasil, o levantamento da CONAB de fev/2006 projeta uma produção de 41,6 milhões de toneladas, contra 34,97 da safra anterior, mas ainda sem precisar as perdas provocadas pela estiagem no sul do país. Considerando a produção citada e o consumo projetado de 40,8 milhões de toneladas, o estoque final será de 4,47 milhões de toneladas e representando 11% da demanda. Na melhor das hipóteses será este o estoque projetado, já que o efeito da estiagem será maior do que o considerado. Na figura 7, os preços pagos ao produtor paranaense estão em plena recuperação após atingir cerca de 11 reais/60kg. No cálculo dos preços deflacionados pelo IGP-M, onde é estimado o valor do grão, nota-se a forte perda de valor causada pela taxa cambial, considerando que o preço do milho em dólar estava maior nos últimos meses do que os registrados no final de 2004 e meados de 2003, conforme setas da figura 7.

TRIGO

A produção mundial de trigo para 2005/06 poderá declinar em 1,7%, atingindo 616,17 milhões de toneladas, conforme USDA. Por outro lado, o consumo está projetado com aumento de 2,39%, resultando na redução de 5,1% no estoque mundial. Bons ventos estimulam o grão, já que a participação do estoque no consumo está projetado em 22,8%, um dos mais baixos. Novamente, a taxa cambial é a vilã do mercado e poderá continuar assim, restando somente a sustentação dos preços no mercado internacional como suporte ao mercado interno. Na figura 8 nota-se a recuperação dos preços dolarizados no PR, onde os picos são registrados no período de entre-safra e foram aviltados pelo efeito cambial. Conforme discussão inicial sobre política cambial, é razoável considerar a taxa cambial em patamares baixos para os próximos meses.