A Ferrugem da Soja no Mato Grosso do Sul


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Publicado em: 01/02/2006

A ferrugem da soja no Mato Grosso do Sul

Revista Plantio Direto: Como pode ser descrita a evolução na ocorrência da ferrugem asiática em soja na região de Chapadão do Sul, MS?

Donita Figueiredo de Alencar Araripe Andrade: Na região de Chapadão do Sul, que compreende os Municípios de Chapadão do Sul, MS; Costa Rica, MS e Chapadão do Céu, GO, a ferrugem asiática foi observada pela primeira vez na safra 2001/2002, mais precisamente no final de fevereiro, quando a maioria das lavouras já se encontravam em adiantado estádio de desenvolvimento fenológico e a pressão da doença já era muito alta, tanto por causa das condições de ambiente altamente favoráveis ao seu desenvolvimento, quanto pelo fato do hospedeiro encontrar-se desprotegido. A não utilização de fungicidas para controle de DFCs e a utilização de fungicidas sem eficiência no controle de ferrugem contribuíram sobremaneira para esse aumento de inóculo na ocasião. Registraram-se perdas médias de 14,0% em Chapadão do Sul, MS e 12,8% em Chapadão do Céu, GO. Nessas regiões, a soja cultivada na safrinha teve até 100% de quebra na produção, devido à ferrugem.

Na safra 2002/2003, a ferrugem da soja só foi detectada na região em final de janeiro de 2003, época esta em que a maioria das lavouras já haviam sido protegidas com fungicidas utilizados para controle de DFCs e também eficientes no controle da ferrugem. Nessa safra a ferrugem não chegou a causar problema.

Na entressafra de 2003, o cultivo de soja sob pivô na região do cerrado, no projeto Rio Formoso, em Tocantins e até mesmo lavouras de soja da Bolívia, funcionaram como ”ponte verde”, multiplicando a ferrugem nessa época do ano e fazendo com que fosse detectada mais cedo na safra 2003/2004. Nessa ocasião, na região de Chapadão do Sul, os primeiros sinais da doença apareceram em dezembro de 2003, em lavouras que já haviam atingido a fase reprodutiva de desenvolvimento.

Após esse período, no centro-sul do Estado, devido à seca, a doença não evoluiu, ao passo que na região de Chapadão do Sul, começou a progredir após os primeiros dez dias de janeiro, mas foi eficientemente manejada, com algumas exceções, onde os agricultores atrasaram o início do controle.

Na safra 2004/05, a doença apareceu no início de dezembro, na região Centro-sul do Estado e no final de dezembro na região de Chapadão do Sul. A partir de fevereiro, todo o Mato Grosso do Sul foi acometido por um período prolongado de estiagem, o que diminuiu a taxa de progresso da doença. Com a volta das chuvas na região norte do Estado, a doença passou a evoluir mais rapidamente. No geral, a ferrugem da soja foi satisfatoriamente manejada em Mato Grosso do sul, na safra 2004/05.

Na safra atual, a ferrugem foi detectada na região sul de Mato Grosso do Sul no início de novembro e na região nordeste (Chapadão do Sul) em meados do mesmo mês e encontra-se distribuída em todos os municípios onde se cultiva soja.

RPD: O que mudou a partir do surgimento dessa doença para os envolvidos na produção da cultura da soja?

Donita: Com o advento da ferrugem asiática nas principais regiões produtoras de soja do país, houve uma grande mobilização dos órgãos de pesquisa, sejam públicos ou privados, no sentido de reunir o maior número de informações a respeito das formas mais eficazes de manejo da doença e difusão dessas informações em tempo hábil aos produtores, técnicos e demais pessoas ligadas ao segmento de produção de soja. Vários programas de monitoramento foram desenvolvidos nas últimas safras, visando não apenas possibilitar o estudo da dispersão do patógeno, como também auxiliar os produtores e técnicos no manejo seguro e eficiente da doença.

Um bom exemplo dessa mobilização em torno da problemática gerada pelos prejuízos causados pela ferrugem asiática da soja foi o programa desenvolvido pelo Governo do Estado, de monitoramento das lavouras, treinamento de pessoas e instalação de mini-laboratórios de detecção da doença espalhados em várias localidades consideradas estratégicas. Nestes laboratórios, equipados com microscópios estereoscópicos, recursos humanos devidamente treinados para receber amostras foliares das lavouras da região, fazendo o pronto reconhecimento dos primeiros sinais da doença, processo fundamental para nortear o início das aplicações com fungicidas, ponto considerado a chave do controle químico satisfatório.

Empresas do setor privado também criaram uma série de programas de monitoramento, alguns dos quais baseados na instalação de unidades de alerta, que são áreas semeadas precocemente para detectar a presença do fungo na região.

Não se pode deixar de mencionar também a reunião de esforços de instituições públicas e privadas, que deu origem ao Consórcio Anti-Ferrugem, um projeto de manejo integrado da ferrugem asiática, coordenado pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Trata-se de uma espécie de campanha nacional de conscientização junto a técnicos, produtores e empresários para divulgar questões envolvendo o manejo da doença. O Consórcio Anti-Ferrugem atua nas áreas de biotecnologia, melhoramento genético, fitopatologia e transferência de tecnologia e têm laboratórios credenciados disponíveis em todas as regiões produtoras de soja.

A necessidade de controle da ferrugem elevou os custos de produção, uma vez que sem o controle químico as perdas seriam drásticas, em determinadas condições. Porém, em contrapartida, tem se verificado que aplicações generalizadas de fungicidas para o controle da ferrugem têm reduzido o potencial de inóculo de outras doença da cultura.

Hoje, a recomendação para o controle da ferrugem, de um modo geral, é feita levando-se em conta o complexo das doenças existentes na região.

RPD: A evolução dos fungicidas acompanhou a demanda gerada pela ferrugem asiática, em termos de grupos e produtos específicos no controle?

Donita: Muitos dos produtos que controlam a ferrugem já existiam no mercado, antes da doença aparecer e eram utilizados no controle de outras doenças da soja ou em outras culturas. Esses fungicidas têm mostrado boa performance no controle da doença e têm sido empregados com sucesso pelos produtores, desde que aplicados no momento certo. Inclusive, vale ressaltar que, uma demanda muito grande existente nesse setor é a pesquisa por novos grupos de fungicidas eficazes, com modos de ação distintos, a fim de se evitar a pressão de seleção de novas raças do fungo resistentes aos fungicidas atualmente usados. Praticamente os fungicidas mais eficientes hoje empregados no controle da ferrugem da soja pertencem a apenas um grupo químico (o dos triazóis) ou mistura com esse grupo, o que é preocupante, considerando a possibilidade de desenvolvimento de resistência.

RPD: Na sua opinião, de forma geral, a ocorrência e a severidade da ferrugem asiática pode ser previsível?

Donita: A ferrugem asiática da soja é uma doença extremamente agressiva e ainda imprevisível. A manifestação inicial da doença e os danos que ela vai ocasionar à cultura dependem de uma série de fatores, como condições climáticas e quantidade de inóculo presente na área ou em seus arredores. A própria maneira como a doença tem se comportado ao longo das últimas safras tem demonstrado o quanto isso é verdadeiro, ora aparecendo cedo, ora tarde, no período de desenvolvimento da soja. Quando na entressafra se verificam, em abundância, plantas voluntárias de soja, como soja guaxa, ou a presença de plantas hospedeiras alternativas do fungo, e/ou existem grandes áreas de plantios irrigados, estabelece-se a chamada ”ponte verde”, que além de garantir a sobrevivência do fungo durante todo o ano, aumenta o inóculo na região, contribuindo para que a doença surja mais cedo no plantio de verão. Em regiões mais distantes dessas fontes de inóculo (plantas hospedeiras alternativas do fungo e plantios irrigados), o aparecimento da ferrugem pode ser mais tardio, o que favorece o manejo da doença. Por isso é que o monitoramento da lavoura é imprescindível.

RPD: O conhecimento disponível atualmente é suficiente para amenizar as possíveis perdas causada pela ferrugem?

Donita: O conhecimento disponível é suficiente para amenizar as perdas. Sabemos quais produtos controlam bem a doença, o momento certo de aplicá-los, a importância das plantas hospedeiras alternativas do fungo que possam existir nos arredores, a importância dos plantios de entressafra no aumento do inóculo na região. Porém, isso não significa dizer que sabemos tudo e que devemos parar por aí, acomodados pelos resultados de controle satisfatórios que têm sido verificados em muitos lugares onde se produz soja no país. Apesar dos resultados de pesquisa obtidos até então terem apontado para a existência de produtos eficazes no controle da doença, muito ainda há por ser investigado, como a criação de produtos pertencentes a outros grupos químicos, com diferentes modos de ação dos atualmente em uso, visando evitar o surgimento de novas raças do fungo resistentes aos fungicidas atualmente recomendados para o controle da doença. Espera-se que a pesquisa, dentro em breve, também, consiga disponibilizar aos produtores, variedades de soja resistentes à doença, que seria a forma ideal de controle.

RPD: É possível quantificar o retorno econômico e os possíveis prejuízos com o uso ou não do tratamento para a ferrugem da soja?

Donita: A ferrugem pode levar a perdas na produtividade, cuja expressão vai depender de alguns fatores, como por exemplo, o estádio de desenvolvimento em que a planta se encontra quando de sua ocorrência. Quanto mais cedo aparecer no ciclo da cultura, mais prejuízos acarretará, logicamente se as condições ambientais estiverem favoráveis ao fungo. Outro fator que pode determinar a redução na produtividade é a intensidade da doença, ou nível de dano, que é proporcional às perdas ocasionadas. O nível de dano depende também da tolerância e do ciclo da cultivar utilizada. Em ensaios realizados pela Fundação Chapadão/Embrapa, procurou-se estabelecer parcelas com diferentes níveis de severidade, o que foi alcançado com fungicidas aplicados cada vez mais tarde no período de desenvolvimento da soja e diferentes números de pulverizações, a fim de se estudar as perdas ocasionadas pela doença. No Quadro 1 estão esquematizados os tratamentos de um desses experimentos onde se procurou estabelecer esse gradiente da doença. Parte dos resultados obtidos em referido trabalho encontra-se ilustrada na Figura 1, onde observa-se o efeito inverso da severidade da doença sobre a produtividade. Nos pontos onde a severidade foi maior, ou seja, onde estimou-se maiores porcentagens de área foliar lesionada, obteve-se as menores produtividades e vice e versa.

RPD: O produtor está investindo no controle da ferrugem?

Donita: O produtor está investindo, embora nem sempre da maneira adequada. Quando segue um calendário de aplicações, ele passa a desconsiderar fatores essenciais ao controle bem sucedido, que é a constatação do início da infecção para nortear as primeiras pulverizações e a observação da evolução da doença para a tomada de decisão quanto à necessidade de nova(s) aplicação (ões). Muitas vezes pode acontecer da doença aparecer cedo e não evoluir conforme o esperado, devido a um período maior de estiagem, condição que não favorece o desenvolvimento do fungo, que requer a presença de água livre na superfície foliar.

RPD: Quais os riscos e vantagens do tratamento preventivo e curativo?

Donita: O tratamento preventivo pode resultar em gasto adicional desnecessário, uma vez que a doença tem se mostrado imprevisível, ora aparecendo cedo no ciclo da cultura, ora aparecendo mais tardiamente. Desde quando foi detectada a ferrugem na região (safra 2001/2002) a doença tem surgido em diferentes fases do desenvolvimento da cultura. Portanto, não há como precisar em que momento do desenvolvimento da soja ela irá surgir. E aí é que o controle preventivo pode ser problemático, pois se a primeira aplicação for feita muito antes do aparecimento das primeiras pústulas (primeiros sinais da doença), pode ser que quando os primeiros sinais da doença forem detectados, o prazo de proteção oferecido pelo fungicida (poder residual) já tenha expirado, exigindo uma nova aplicação. Nesse ritmo, pode haver necessidade de muitas aplicações até o final do ciclo da cultura, o que elevaria demais os custos de produção. Há, no entanto, situações em que se justifica o controle preventivo, que é quando o produtor não tem capacidade operacional (infra-estrutura de máquinas e pessoas) de aplicar o produto em sua propriedade em curto espaço de tempo e tem conhecimento da detecção da doença em alguma unidade de alerta da região ou em lavouras vizinhas.

Já o tratamento curativo, desde que realizado quando da detecção das primeiras pústulas, tem todas as chances de sucesso. Trabalhos feitos em parceria da Fundação Chapadão com a Embrapa têm demonstrado ser viável o controle da ferrugem com apenas uma aplicação, feita logo no aparecimento dos primeiros sinais da doença (Quadro 2), o que só vem ressaltar a importância do monitoramento freqüente da lavoura para que se tenha êxito no manejo da ferrugem da soja. O controle tardio, feito quando os níveis da doença estão elevados tem se mostrado ineficaz (Circular Técnica n. 11, Ferrugem Asiática: uma ameaça à sojicultura brasileira, Embrapa Agropecuária Oeste, Novembro de 2002).

RPD: Na sua opinião qual será o cenário de ocorrência e severidade da ferrugem asiática nesta safra de soja?

Donita: Nesta safra a ferrugem apareceu mais cedo (início de novembro na região sul e meados do mesmo mês na região nordeste do Estado) e o clima aqui na região de Chapadão do Sul tem se mostrado favorável ao seu desenvolvimento. Por isso a expectativa é que seja necessário um número maior de aplicações para controlar a doença satisfatoriamente.

RPD: O que pode ser sugerido aos produtores e assistentes técnicos para a obtenção de melhores resultados no controle da doença nas próximas safras?

Donita: Como o controle químico é, no momento, a forma mais eficiente de controle da ferrugem da soja que se dispõe, o que se preconiza é que este seja feito eficientemente. Para tanto, seguem algumas recomendações, com base no que vem sendo orientado pelo Consórcio Anti-Ferrugem:

1. Antes de tudo é aconselhável que o produtor faça a semeadura dentro do período recomendado para a região, evitando-se, na medida do possível, plantios tardios, que são mais propensos a ataques severos da doença, dado o aumento de inóculo proporcionado pelos plantios realizados mais cedo.

2. É fundamental que se faça o monitoramento, com inspeções freqüentes à lavoura, a fim de se constatar os primeiros sinais da doença. Para tanto é imprescindível o auxílio de lupa. Valendo ressaltar que esse monitoramento deve ser feito desde os estádios vegetativos, porque potencialmente a doença pode atacar a planta em qualquer estádio. Na fase de florescimento, as visitas à lavoura devem ser intensificadas, uma vez que o risco de danos ocasionados pela doença é maior nos estádios reprodutivos.

3.Uma vez detectada a doença, deve-se lançar mão de fungicida eficiente, empregando-se tecnologia de aplicação correta. Há muitos produtos registrados junto ao MAPA para o controle químico da ferrugem da soja.

4. É preciso manter as inspeções para avaliar a necessidade de novas aplicações, não esquecendo de observar se as condições climáticas estão e permanecem favoráveis à ferrugem.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição 91, janeiro/fevereiro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.