Da monocultura algodoeira com preparo do solo para o plantio direto sobre cobertura vegetal (SCV)
L. Séguy1, S. Bouzinac1, E. Maeda2, A. Maeda2, A.L. de Souza1Agrônomos do CIRAD-CA programme GEC em cooperação com USP/CENA - E-mail: lseguy@zaz.com.br 2Responsáveis do grupo MAEDA na sede e nas fazendas - E-mail: edsonmaeda@maeda.com.br
1. Introdução
Em 1994, o grupo agro-industrial Maeda, primeiro produtor privado de algodão do Brasil, com 7% da produção algodoeira do país, cultivava em torno de 33.000 ha, dos quais 23.500 de algodão, 9.000 de soja e o restante de milho e pastagens em várias fazendas situadas próximo ao Trópico de Capricórnio, no Sul do Estado de Goiás e no Norte do Estado de São Paulo. O grupo Maeda assegura o descaroçamento do algodão nas suas fazendas e de parte da produção regional, assim como a transformação e a comercialização dos produtos e sub-produtos.
O Cirad e o Grupo Maeda associaram-se a partir de 1994, para tentar, ao mesmo tempo, melhorar a produtividade e estabilidade algodoeira, e buscar soluções agronômicas para conservação do solo.
Após 9 anos de parceria considerados positivos pelas duas instituições e para o desenvolvimento da agricultura de conservação regional, serão avaliados neste trabalho, sucessivamente:
a) A evolução das performances agronômicas e técnicas do grupo, suas conseqüências econômicas e seus impactos sobre o recurso solo;
b) As perspectivas a curto e médio prazos da cultura algodoeira nos sistemas de cultivo em plantio direto sobre cobertura vegetal criados pela pesquisa que estão, a cada dia, mais produtivos, diversificados, estáveis, rentáveis e preservadores do ambiente.
2. Adoção progressiva e, em seguida, generalizada dos princípios da agricultura de conservação
2.1 Evolução e natureza das áreas cultivadas
No início dos anos 90, a produção algodoeira se concentrava no estado do Paraná, que fornecia 344.000 toneladas de pluma, seja 45% da produção nacional (IBGE, DPE, DEAGRO, 1991). Os Estados do Paraná, São Paulo, Goiás e Minas Gerais juntos produziam 540.000 t, ou seja, 75% da produção brasileira, ”na maioria dos casos” em latossolos vermelhos escuros - oriundos de basalto (Trapps) - pertencendo ao ecossistema das florestas tropicais do Centro-Sul. O Estado do Mato Grosso, na época, produzia apenas 37.000 t., 5% da produção nacional.
Entre 1998 e 2001 o panorama da produção algodoeira se transformou radicalmente: o Estado do Mato Grosso se tornou o 1º produtor do Brasil com uma produção de 311.000 t de pluma em 2001, 48% da produção nacional.
A fronteira de produção máxima, se deslocou de regiões com clima subtropical para os Trópicos Úmidos quentes com forte pluviometria (1.300 a mais de 2.000 mm, distribuída em 7 a 8 meses). A maioria da produção passou assim dos latossolos vermelhos escuros com fortes potencialidades oriundos de rochas básicas para latossolos vermelhos amarelos e amarelos cinzas de potencialidades menores sobre rochas ácidas, muitas vezes com características hidromórficas mais ou menos acentuadas em função da morfologia das unidades de paisagem.
Esta transferência da cultura algodoeira, ocorreu, na realidade, saindo das regiões subtropicais com fortes potencialidades, porém muito limitadas pela prática contínua e desastrosa da monocultura de algodão (degradação das propriedades físicas e biológicas dos solos; Cf. Séguy L. et al, 1998, 1997 –2002), para a região tropical úmida e quente com solos potencialmente menos férteis, mas que, há 7 a 10 anos, estão manejados em plantio direto com sistemas de cultivo diversificados a base de soja, arroz de sequeiro + culturas de sucessão chamadas de safrinhas (milheto, milho, sorgo), as quais propiciam solos biologicamente sadios, protegidos totalmente contra a erosão, providos de excelentes propriedades físicas e biológicas, muito favoráveis à cultura algodoeira ( Séguy L. et al, 1998, 2001).
A estrutura de produção do grupo Maeda acompanhou a rápida transferência da produção algodoeira para os trópicos úmidos e se instalou no Mato Grosso a partir de 1998. Na seqüência, abriu novas terras no Leste do Estado da Bahia, a partir de 2002.
As fazendas do grupo localizadas no Sul do Estado de Goiás e no Norte do Estado de São Paulo que concentravam a maioria da produção de algodão entre 1990 e 1998, se converteram totalmente ao plantio direto, passando gradativamente para a seguinte distribuição de culturas: 2/3 em sucessão anual soja + safrinha de sorgo 1/3 de algodão, e depois na produção exclusiva de grãos de soja + sorgo no Goiás, e de cana de açucar em São Paulo a partir de 2001. A rápida transferência da produção algodoeira para o Mato Grosso, aumentou os custos de produção da cultura de 20 a 30%. Isso ocorreu devido os encargos adicionais ligados a localização das terras, a instalação dos meios de produção, parque mecanizado, usina descaroçadeira, galpões de estocagem dos insumos e ao afastamento, longas distâncias até o sistema de transformação industrial, com estradas precárias.
Se a área plantada mostrou uma migração-extensão notável para outros ecossistemas, ela foi caracterizada ao mesmo tempo:
a) Pelo aumento da área cultivada que passou de 32.484 ha em 1994/1995 para 47.464 ha em 2002/2003, ou seja, 46% de acréscimo;
b) Por uma mudança progressiva dos sistemas de cultivo e de produção :
• em 1994/95, a monocultura de algodão com preparo de solo ocupava 72% das superfícies cultivadas (23.490 ha) e a monocultura de soja estava confinada nos solos mais pobres, sobre 28% das terras (8.994 ha) ; as 2 monoculturas estavam justapostas: a de algodão ocupava os solos mais ricos e profundos e a de soja, os solos de menor potencialidade pouco fundos, em cima de «couraças ».
• em 2002/03, o algodão e a soja são cultivados em rotação e plantio direto sobre cobertura vegetal (SCV); a soja é seguida no mesmo ano de uma safrinha (2° cultura com baixo investimento de insumos) de sorgo dominante, ou de milheto e mais recentemente de pé de galinha (Eleusine coracana). A distribuição das culturas se inverteu em relação ao ano 1994/95 (figura 1): a soja e as culturas de safrinha cobrem 80,3% da área cultivada (com 38.131 ha) contra 19,7% para o algodão (com 9.333 ha).
c) A transição dos sistemas de monoculturas justapostas de soja e algodão, com preparo do solo, para o plantio direto (SCV) em rotação de culturas com produção de grãos dominante foi feito progressivamente, em várias etapas, para ajustar melhor os sistemas de produção às contingências econômicas (rentabilidade das culturas, transformação dos produtos); técnicas, (reestruturação do parque mecanizado, transferência deste parque nas diferentes grandes regiões de produção) e agronômicas (domínio das inovações em matéria de plantio direto, rotação, e transferência-formação em todas as unidades regionais de produção) .
2.2 Evolução da produtividade das culturas e das áreas cultivadas
A produtividade de soja passou de 2.598 kg/ha em 1994/95 para mais de 3.260 kg/ha em média nos 3 últimos anos 2001-2003, com um máximo alcançado em 2001/02 com 3.414 kg/ha.
O ganho médio de rendimento entre 1994/95 e os 3 últimos anos foi de 25,5% sobre uma área plantada em forte crescimento que chegou a mais de 38.000 ha em 2002/03. A produtividade do algodão progrediu de modo regular, de 2.355 kg/ha de algodão caroço em 1994/95 para 3.405 kg/ha em 2002/03, seja um aumento de rendimento de 44,6% (figura 3).
A partir de 1998/99, a adoção do plantio direto foi generalizada em toda a área plantada em soja que passou de 9.595 ha para 38.131 ha em 2002/03. Este cultivo de soja produz de fato duas culturas por ano em sucessão anual e plantio direto sobre cobertura vegetal (SCV): soja seguido de sorgo, como cultura biomassa de safrinha (o leito de palha e de sustentação do plantio direto SCV) praticada com custos de produção muito baixos que variam de 60 a 120 US$/ha; o cultivo da soja que já conquistou mais de 38.000 ha em 2002/03 produz anualmente acima de 3.100 kg/ha de soja, em condições de excesso pluviométrico fortemente prejudicial para a produção em 2002/03, seguido de 1.600 a 2.500 kg/ha de sorgo.
2.3 Evolução dos custos de produção
Em média houve uma sensível queda dos custos de produção em 9 anos. A queda no algodão foi de quase 10% nos 3 primeiros anos, monocultura de soja e algodão x preparo do solo, e os 3 últimos que incorporaram os sistemas de cultivo em plantio direto perfeitamente adaptado (figura 4).
Na soja, a diminuição teve o mesmo índice que o algodão nos 3 primeiros anos e nos 2 últimos, quando a área aumentou, evidenciando os benefícios do plantio direto sobre cobertura vegetal e o nível de domínio técnico do grupo Maeda.
A partir de 1999/2000, época na qual o plantio direto cresceu, graças ao aumento do cultivo de soja + safrinhas, os custos das duas culturas principais, soja e algodão, caíram significativamente.
2.4 Os preços pagos ao produtor
De 1994/95 a 2001/02, o preço pago para o algodão caroço baixou regularmente de 8,28 para 4,73 US $/@ (1 @ = 15 kg), ou seja, uma perda de 43% em 8 anos. Entre 2002 e 2003 houve uma recuperação significativa dos preço pagos: de 4,73 US $/@ em 2001/02 para 6,62 US $/@, ou seja, 41% de alta ; porém este preço está ainda 20% abaixo do de 1994/95.
Os preços pagos pela soja, que é uma cultura muito bem estruturada, oscilaram em torno de 16,7% durante este período, entre um mínimo de 8,4 US $/saco de 60 kg em 2001/2002 e um máximo de 9 ,8 US $/saco em 1997/98.
2.5 As margens líquidas e a taxa de retorno4
No algodão, apesar da forte redução dos preços pagos, as margens líquidas são sempre positivas. Elas variaram entre um mínimo de 64,0 US $/ha em 2001/02 com o menor preço pago historicamente e um máximo de 452,7 US$/ha em 2002/03, na retomada importante dos preços pagos. A lucratividade da cultura pode ser mantida através do aumento regular de produtividade, obtido graças aos sistemas de cultivo em plantio direto e rotações criados pelo projeto de pesquisa Maeda/Cirad.
Na cultura da soja as margens líquidas e a taxa de retorno, exceto das safrinhas de sorgo, foram multiplicadas respectivamente por 3,4 e 3,6 entre os 3 primeiros e os 3 últimos anos do período 1994-2003. Com um domínio técnico mais eficiente, a fertilidade dos solos apresentando melhoria constante em plantio direto e a margem líquida média nos 3 últimos anos de 146,5 US $/ha e a taxa média de retorno de 45,6%, apesar de um acidente climático notável em 2002/03 que prejudicou fortemente a produtividade.
2.6 O parque mecanizado, das prestações de serviços e do consumo de combustível
A adoção do plantio direto permite simplificar o parque e reduzir consideravelmente os encargos operacionais. O número de prestadores de serviço passou de 533 em 1994/95 para 158 em 2002/03, significando uma redução de 71%. Durante o mesmo período, apesar de um aumento de 46% da área plantada, o número total de tratores e colheitadeiras caiu em 53%. O consumo de combustível diesel passou de 267 l/ha para 78 l/ha na média de três anos. Esta economia de 2/3 do combustível com uma área plantada em forte crescimento está ligada simultaneamente aos sistemas de plantio direto cada vez mais atuantes e ao nível de domínio técnico em constante melhoria.
3. Perspectivas da cultura algodoeira de alta tecnologia
A pesquisa constrói sistemas de cultivo cada vez mais diversificados, econômicos em insumos e prossegue seu manejo dos agrossistemas mais próximo do biológico, num ambiente melhor protegido.
A adoção e o domínio progressivo de sistemas de cultivo em plantio direto (SCV)criados pelo projeto de pesquisa Maeda/Cirad e parceiros associados (Agronorte, Coodetec, Laboratório Cena da USP) permitiu ao grupo Maeda ampliar rapidamente a eficiência e domínio técnico de seus agentes de desenvolvimento, reduzir os custos operacionais dos cultivos, estabelecer uma produtividade para a soja acima de 3.100 kg/ha, trazer a do algodão de 2.500 para 3.900 kg/ha (de 167 para 260 @/ha), e minimizar os impactos dos sistemas sobre o meio ambiente, controlando totalmente a erosão e as externalidades em geral.
Todavia, o potencial de evolução do grupo ainda é muito grande a curto prazo, tanto para as performances dos sistemas em plantio direto quanto para a minimização dos impactos dos sistemas no ambiente e a qualidade das produções, como indicam os resultados de pesquisa reprodutíveis mais recentes obtidos no projeto Maeda/Cirad, que não foram ainda ampliadas para todas as áreas cultivadas.
3.1 Como produzir mais com menos insumos químicos simultaneamente?
O aumentando da fertilidade do solo (matéria orgânica) e minimização das perdas de nutrientes no sistema solo-culturas além da redução dos impactos no meio ambiente (solo, águas, infra-estruturas, produções) são formas de atingir esse objetivo.
Os sistemas de cultivo mais atuantes nos planos agronômico e técnico-econômico (economia de adubos minerais e de herbicidas, facilidade de execução, aumento de biodiversidade ) são os que produzem fitomassa máxima acima do solo e no perfil cultural no fim da estação chuvosa e durante toda a estação seca (L. Séguy et al., 2001, 2003) (Figura 5); estes sistemas em plantio direto contínuo sobre cobertura vegetal permanente do solo, foram construídos sobre 3 culturas em sucessão anual nos trópicos úmidos: uma cultura comercial (soja, arroz, milho) seguida de gramíneas, bombas biológicas como milho, sorgo, milheto, Eleusine, consorciadas com espécies forrageiras que também fazem esse papel e asseguram a continuidade da produção das cereais na estação seca e, além disso, podem ser exploradas como adubo verde ou pastagem (gramíneas do gênero Brachiaria, leguminosas fortes fornecedoras de nitrogênio gratuito tais como os gêneros Stylosanthes, Cajanus, Crotalaria) .
Nos sistemas em PD sobre cobertura morta, como no ecossistema florestal, a consorciação das bombas biológicas ”cereal + espécie forrageira” que sucede à cultura comercial no fim da estação chuvosa, utiliza a água profunda do solo na estação seca, muito abaixo 2 m de profundidade. Esta consorciação tem também uma enorme capacidade de rebrota nas primeiras chuvas da estação seguinte ou durante as chuvas parasitas da estação seca, assegurando assim uma cobertura completa e permanente do solo, um controle perfeito das invasoras, uma forte reestruturação do perfil cultural com injeção contínua do carbono em profundidade, e uma potente e profunda reciclagem dos nutrientes (fechamento do sistema solo-cultura- L. Séguy e al. 2001, 2003) (figura 5 e 6). Estes SCV permitem produzir mais de 30 t/ha de matéria seca total por ano, da qual a maior parte no final da estação chuvosa e na estação seca, quando o processo de acumulação de matéria orgânica domina o de mineralização.
Os resultados de pesquisa mais recentes dos Projetos Maeda/Cirad e Coodetec/Cirad, obtidos nos 5 últimos ano, tratam da gestão otimizada dos solos e das culturas em SCV e evidenciam que a produtividade algodoeira elevada pode ser duradoura e rentável se conduzida sob um verdadeiro plantio direto (SCV) com controle químico das rebrotações, plantio direto de potentes biomassas de cobertura, solo jamais preparado, e mantido num manejo de rotações diversificadas, fortes fornecedoras de biomassa acima e dentro do solo, onde o algodão como cultura principal se insere um ano em dois ou um ano em três, após as sucessões anuais soja + milho ou sorgo ou milheto consorciados com Brachiaria; soja + Eleusine (Séguy L. et al., 1997-2003).
Além de sua superioridade agronômica, estes sistemas SCV utilizam como ”bombas biológicas” cereais nobres como sorgos sem tanino com alto teor em proteinas, trigo mourisco, produtos de alimentação humana que, através de seu alto valor agregado, podem permitir aumentar significativamente as margens líquidas após valorização junto da agroindústria.
No plano técnico, as operações atuais de plantio direto, a gestão dos adubos minerais e das invasoras podem ser amplamente simplificadas graças a melhoria das práticas organo-biológicas recomendadas anteriormente: os adubos minerais de base devem ser jogados a lanço em prioridade sobre as biomassas (bombas biológicas) que constituem máquinas biológicas mais eficientes para transformar adubo mineral em adubo orgânico e para controlar melhor e naturalmente as plantas daninhas. Dessa forma, as plantadeiras de plantio direto podem operar sem adubo mineral, portanto muito mais leves e equipadas de simples discos de corte, sem botinha. Estas técnicas proporcionam uma economia de 30% no tempo de plantio e no combustível, e uma capacidade de intervir a qualquer momento, até no decorrer de episódios mais chuvosos, com menor risco de compactação para o perfil cultural e perturbando o mínimo a cobertura perfeita de palha acima do solo, garantia melhor controle das plantas daninhas (L. Séguy et al., 2003).
A escolha das cultivares das culturas principais, tais como o algodão, o milho, o arroz de sequeiro e a soja, devem ser feitas em função da qualidade biológica dos solos, condicionada pela escolha dos sistemas de cultivo SCV. No caso do algodão por exemplo, as variedades rústicas como IAC 23 e IAC 24 devem ser reservadas para parcelas sob forte pressão biológica negativa da monocultura (o pior de todos os sistemas) ou que estão mal providas em biomassa de cobertura (efeito agronômico fraco das bombas biológicas em caso de acidente climático por exemplo) ; pelo contrário, as cultivares mais sofisticados, de alto potencial e com melhores rendimento e qualidade de fibra, devem ser cultivadas nos sistemas SCV diversificados, em rotação, mais produtivos e sadios agronomicamente, descritos acima ; eles permitem expressar o potencial genético do material vegetal minimizando a incidência de doenças tais como a ramulose, o complexo nematóides – bacteriose ; as variedades Delta Penta, Fibermax 966, Coodetec 406 et 407 alcançam assim nesses sistemas produtividades entre 4.500 e 5.300 kg/ha (entre 300 e 350 @/ha) de algodão-caroço, com custos de produção próximos de US$ 1.000/ha (L . Séguy et al. 2002 et 2003).
Estas tecnologias SCV, que podem ser reproduzidas e adaptadas, devem ser generalizadas na totalidade das terras cultivadas do grupo Maeda nos trópicos úmidos. Sua aplicação deve propiciar simultaneamente:
a) ganhos de produtividade de 10 à 30% das culturas em rotações (soja, algodão e safrinhas);
b) uma diminuição gradual dos insumos químicos (adubos minerais, herbicidas, fungicidas, inseticidas) na medida em que a gestão organo-biológica em SCV proposta vai melhorar significativamente a fertilidade do solo (matéria orgânica, qualidade biológica, limitação das perdas de nutrientes, melhor controle das invasoras);
c) uma flexibilidade e eficácia operacionais maiores do parque mecanizado, somadas com um menor consumo de combustível.
3.2 As tecnologias a serem elaboradas no âmbito de SCV mais eficientes a casa ano
Á medida que melhora a fertilidade dos solos por intermédio de uma gestão sempre mais próxima do biológico, com SCV que permitam controlar melhor e naturalmente a pressão parasitária (fungos patógenos, pragas das culturas: insetos, nematóides), serão substituídos gradativamente e com rentabilidade os insumos químicos por insumos orgânicos, mais respeitosos do meio ambiente.
Serão incorporados no manejo organo-biológico algumas produções de alto valor agregado, como os algodões sem gossipol (cadéia de alimentação humana) e os algodões coloridos, os cultivos de trigo, trigo mourisco, gergelim, girassol como safrinhas de sucessão, conduzidos com insumos mínimos.
3.3 Impactos dos SCV nos solos
A quantidade e a qualidade de biomassa que correspondem a natureza dos SCV, comandam as funções agronômicas essenciais, a dinâmica de suas relações com as culturas e sua capacidade em transformar as propriedades físico-químicas e biológicas do perfil cultural (Séguy L. et al., 2001,a ; 2001,d) (Figura 7).
Nos trópicos úmidos, nas ecologias de cerrados e florestas do Mato Grosso, sobre latossolos vermelhos-amarelos oriundo de rocha ácida, os sistemas SCV mais eficientes podem provocar transformações marcantes e rápidas no perfil cultural no que diz respeito a resiliência, a dinâmica do carbono, a CTC e a natureza do complexo absorbante:
Se as perdas em carbono são sempre a regra em solo preparado e monocultura (soja, algodão) e podem ser estimadas em 5 anos entre -0,25 e -1,40 MgC.ha¹.ano¹ em função das condições pedoclimáticas, os ganhos em carbono podem ser tão rápidos quanto as perdas, e dependem da natureza dos SCV praticados. Os sistemas em plantio direto mais eficazes nesse sentido são aqueles que utilizam safrinhas com base em biomassas de cobertura, grandes fornecedoras de fitomassa (matéria seca aérea e radicular) tais como milhetos e sorgos consorciados com Brachiaria, Eleusine coracana, Cynodon dactylon, espécies forrageiras de crescimento ativo na estação seca nos Trópicos Úmidos. Eles possibilitam, mesmo em períodos curtos de 3 a 5 anos, recuperar os teores de M.O. dos ecossistemas originais, podendo até ultrapassá-los. O seqüestro anual de C, por 3 a 5 anos, vai de 0,83 para 1,50 MgC.ha¹.ano¹ no horizonte 0-10 cm em função da natureza dos SCV, mas pode alcançar 1,40 a 1,80 MgC.ha¹.ano¹ no horizonte 10-20 cm, quando espécies forrageiras com sistemas radiculares mais possantes e profundos forem utilizadas nas safrinhas no final da estação chuvosa (Brachiaria ruziziensis e brizantha, Eleusine coracana; Cf. Séguy L. et al., 2001,b). Estes resultados concordam com os obtidos por Corraza E. J. e al. (1999) nos Cerrados do Centro-Oeste brasileiro e os de Cerri C.C. et al. na Amazônia (1992).
A evolução da capacidade de troca catiónica (CTC) acompanha estritamente a do carbono: os SCV mais eficientes criam um poder de retenção dos nutrientes que limita sua lixiviação. Estes mesmos SCV, ligados com a água profunda do solo na estação seca (além de 2 m de profundidade), possuem os mais potentes sistemas recicladores = sorgo e milheto consorciados com Brachiaria ruziziensis, Stylosanthes guyanensis, a Eleusine coracana em cultura pura ou consorciada com Cajanus cajan, e este consorciado com Brachiaria, e enfim as espécies forrageiras Brachiaria brizantha, Panicum maximum implantadas por 3, 4 ou 5 anos em rotação com os melhores SCV. Essas biomassas funcionam como bombas de cations e de nitratos que exercem sua função recicladora abaixo de 2 m de profundidade (Os numerosos perfis culturais, realizados durante 15 anos, evidenciaram densidades radiculares muito elevadas debaixo dessas espécies e consórcios, até mais de 3 m de profundidade).
A elevação altamente significativa do teor de saturação de bases no horizonte 0-10 cm, medidas sob as ”bombas biológicas”, são muito ilustrativas a este respeito (Séguy L. et al., 2001,a). Se todas reciclam bases, as leguminosas do gênero Stylosanthes g. e Arachis p., quando ocupam um lugar importante na rotação dos SCV reciclam fortemente o potássio e os micronutrientes Mn, Cu, Zn (Séguy L. et al., 2002). Os SCV, em função de sua natureza, exercem realmente ações seletivas sobre a dinâmica dos nutrientes confirmando os trabalhos de Miyazawa M., Pavan M.A., Franchini J.C. (2000).
Essas transformações do perfil cultural, que se referem a resiliência, as dinâmicas do carbono e das bases, foram confirmadas mais recentemente nos sistemas de cultivo algodoeiros em plantio direto nas fazendas do grupo Maeda no Oeste do Mato Grosso (L. Séguy et al. 2002, 2003)
Os teores de matéria orgânica e a CTC parecem, após 3 anos de aplicação dos sistemas de cultivo, significativamente maiores sob SCV do que sob o sistema semi-direto, no qual os resíduos de colheita estão incorporados com grades, e as safrinhas tais como sorgo, milheto, Eleusine estão instaladas a lanço e enterradas com grade leve; estas operações de preparo do solo, realizadas a cada ano ou um ano em dois na rotação, levam a um balanço negativo de carbono (Sá et al., 2003); ao contrário, os sistemas SCV nos quais o cultivo soja + safrinha está dominante, mantem um nível elevado de matéria orgânica nos 10 primeiros cm do perfil.
A rotação dos SCV mais eficazes permite, não somente injetar carbono em profundidade, mas também exercer um poder reestruturador no horizonte 0-20 cm: após 5 anos, o índice MWD caracterizando o estado estrutural mostra valores próximos daqueles vigentes em ambientes naturais de florestas e Cerrados, variando entre 4 e 5 (Séguy L. et al., 2002). (Figura 7).
Pela escolha pertinente das biomassas de cobertura nos SCV, se pode agora, após dessecação mecânica ou química das biomassas que precedem o plantio direto, suprimir totalmente os herbicidas nas culturas. Esta via agronômica de controle natural das invasoras por meio da escolha das coberturas, constitue uma alternativa aos transgênicos (OGM), muito importante por ser mais ecológica .
No ecossistema das florestas tropicais do sul do Estado de Goiás e do Norte do Estado de São Paulo, em latossolos vermelhos-escuros, com fortes potencialidades e oriundos de basalto, os parâmetros resiliência e dinâmicas do carbono e das bases, seguem as mesmas tendências dos latossolos dos trópicos úmidos, quando gerenciados com sistemas de mesma natureza. Os impactos diferenciados destes últimos nos indicadores são, no entanto, de menor intensidade em função de uma pluviometria nitidamente mais fraca (900 a 1.700 mm) e de propriedades físicas mais favoráveis que acarretam uma melhor resistência as agressões antrópicas e climáticas (L. Séguy et al., 2001).
Após 15 anos de monocultura algodoeira praticada com preparo de solo utilizando grades e com queima sistematica dos resíduos de colheita, a qualidade biológica dos solos do grupo Maeda foi altamente degradada ao ponto de comprometer totalmente a viabilidade da cultura algodoeira (L. Séguy et al. , 1998, 1999). A infestação generalizada pelos nematóides dos gêneros Meloidogyne, Pratylenchus, Rotylenchulus, Trichodorus, Helicotylenchus, aliada a invasão progressiva das terras pela peste vegetal Cyperus rotondus, além da perda da capacidade de degradar o excesso de pesticidas no sistema de monocultura algodoeiro, poderia ter levado a falência econômica.
A introdução e o domínio dos sistemas de cultivo algodoeiros em plantio direto sobre cobertura vegetal, praticados em rotação, permitiram restaurar rapidamente a qualidade biológica do perfil cultural, pois:
a) A cobertura de Sorgho guinea controla perfeitamente a peste vegetal Cyperus r., e desintoxica eficientemente os solos poluídos pela molécula herbicida sulfentrazone (fitorremediação);
b) Os precedentes culturais soja + Crotalaria spectabilis e soja + sorgo permitiram minimizar a pressão negativa dos nematóides e reencontrar níveis de productividade de algodão rentáveis.
Estas fazendas prosseguem hoje sua depuração biológica por uma conversão total na natureza das produções: no Sul do estado de Goiás, pelo plantio direto (SCV) de grãos exclusivamente com a sucessão soja + sorgo, e no Norte do estado de São Paulo pela cana-de-açúcar.
De modo geral, os fungos do gênero Nomurea e o virus Baculovirus anticarsia se desenvolvem com os SCV e constituem auxiliares preciosos para o controle biológico das lagartas desfolhadoras; os corós, os cupins e as formigas contribuem a manutenção de uma forte macroporosidade.
4. Conclusões
A gestão dos ecossistemas cultivados em plantio direto sobre cobertura permanente do solo proporcionou a conversão de um ciclo de degradação acelerada dos solos devido as técnicas de preparo do solo transferidas dos países do hemisfério Norte, para um ciclo de reconstrução da fertilidade dos solos tanto nos agrossistemas das florestas tropicais próximos do Trópico do Capricórnio (Estados de Goiás e de São Paulo) quanto nos agrossistemas das florestas e cerrados dos trópicos úmidos do Sul da Bacia Amazônica (Estado do Mato Grosso).
Os cenários de agricultura sustentável, que foram criados graças ao plantio direto sobre cobertura vegetal permanente, e que funcionam a exemplo do ecossistema florestal no qual eles se inspiram, foram aperfeiçoados no decorrer do tempo nos planos ecológico, agronômico e técnico-econômico. Eles oferecem hoje todas as garantias da agricultura sustentável: cada vez mais produtivos (produção de mais de 28-30 t/ha de fitomassa seca anual), com uso cada vez menor de insumos químicos, todos eles são construídos numa reconquista da biodiversidade = rotações de culturas (soja, arroz, algodão como culturas principais, e culturas de safrinha, incluindo o algodão safrinha), integração agricultura-pecuária, solos sempre protegidos sob coberturas mortas e/ou vivas, biologicamente ativos, que seqüestram eficientemente o carbono, favorecem a retenção dos nutrientes (CTC maior) e funcionam em circuito fechado como a floresta (reciclagem profunda das bases e dos nitratos; injeção de carbono em profundidade) .
Estes cenários de agricultura de conservação foram elaborados no âmbito da grande agricultura mecanizada brasileira, das frentes pioneiras nas propriedades dos operadores privados com seu apoio financeiro e técnico (o pioneiro Munefume Matsubara, a cooperativa Cooperlucas, a prefeitura de Sinop, as empresas Agronorte, Coodetec/Unicotton e o grupo Maeda).
Aplicadas progressivamente, a medida de sua elaboração – domínio, para todas as terras do grupo Maeda, estas tecnologias de plantio direto (SCV) tem, em 9 anos, transformado radicalmente e melhorado muito as performances agronômicas e técnico-econômicas da produção, além dos aumentos de produtividade de mais de 25% para a soja, de 46% para algodão, de mais de 100% por unidade de área cultivada (2 culturas por ano em vez de uma só). A área cultivada do grupo se diversificou fortemente e cresceu de 46%, conquistando novas terras em outras grandes regiões ecológicas do Brasil Central (trópicos úmidos do Mato Grosso, região dos Cerrados com forte risco climático do Oeste do estado de Bahia). De cultura dominante com 72% da área em 1994/95, o algodão ocupa somente 20% em 2002/03, enquanto a soja + sorgo em safrinha, ou seja, a produção de grãos, cobre 80% das terras nos três estados do Brasil Central. As margens líquidas e a taxa de rentabilidade foram multiplicadas por mais de 3,4 em 9 anos; a prestação de serviços e máquinas do parque mecanizado cairam respectivamente de 71 e de 53%, e o consumo de combustível baixou também em 70%.
Estas performances podem ser ainda rapidamente e significativamente melhoradas incorporando e generalizando os SCV mais produtivos, que incluem a consorciação de espécies forrageiras puras ou em mistura com as culturas de safrinha de alto valor agregado, em sucessão anual da soja .
Os esforços prioritários da pesquisa e de seus parceiros do desenvolvimento devem agora se concentrar no domínio de uma gestão rentável dos insumos orgânicos que deverão substituir gradualmente os insumos químicos nos SCV mais atuantes, para minimizar ainda mais os impactos dos sistemas de cultivo e de produção na qualidade das produções e no meio ambiente.
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Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição 91, janeiro/fevereiro de 2006. Aldeia Norte Editora. Passo Fundo.