Recomendações de Fertilizantes no RS e o Impacto na Fertilidade do Solo e no Rendimento das Culturas


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Publicado em: 01/02/2006

Recomendações de fertilizantes no RS e o impacto na fertilidade do solo e no rendimento das culturas

Jairo André Schlindwein(1) & Clesio Gianello(2)1Eng. Agr. Dr. em Fertilidade do Solo – UFRGS, Consultor da JM Fertisolo. Jairojas@terra.com.br 2Eng. Agr. PhD em Fertilidade do Solo – Professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS.

1. Introdução

Um Programa de Adubação e de Calagem tem por objetivo corrigir eventuais deficiência de nutrientes e acidez dos solos e manter a fertilidade pelo uso de corretivos e fertilizantes e assim propiciar rendimentos das culturas de máximo retorno econômico. Nesse programa, além da utilização das indicações numéricas das tabelas, é importante considerar o histórico de cultivo da gleba, o histórico de adubação e de calagem, os níveis de produtividade obtidos e os almejados, as condições socioeconômicas do produtor, o manejo da cultura, o clima local e o impacto ambiental da tecnologia proposta. No entanto, o sucesso da utilização das tabelas de recomendação, de qualquer sistema de recomendação de adubação e calagem, dependerá, fundamentalmente, da interpretação do resultado analítico das amostras do solo.

Em um programa de recomendação de corretivos e de fertilizantes, a amostragem do solo é a primeira etapa e deve ser corretamente realizada para se ter sucesso na utilização do sistema. A segunda etapa é a análise de solo, que deve seguir procedimentos metodológicos de laboratório que foram calibrados a campo com o rendimento das culturas para a organização das tabelas de recomendação. A terceira etapa é a interpretação dos resultados das análises de solo, que deve ser feita a partir das faixas de teores de nutrientes das tabelas e deve ser ajustada à realidade do produtor. A quarta etapa é a recomendação de corretivos e de fertilizantes, que pode ser feita por culturas ou por sistemas de cultivo, com o objetivo da máxima eficiência econômica.

A calibração de um método de análise de solo consiste em relacionar o teor de um elemento no solo (nutriente de plantas), com um ou mais parâmetros de plantas cultivadas a campo (produção de grãos), simulando as condições normais de produção. Por exemplo, um valor de fósforo baixo, determinado pela análise de solo, significa que este solo tem probabilidade de produzir menos do que um solo com valor alto de fósforo. A calibração tem por objetivo, em primeiro lugar, definir o teor crítico (acima deste teor a resposta das plantas à adição do nutriente no solo é pequena ou nula e abaixo desse teor a probabilidade de resposta da planta à adição do nutriente aumenta na proporção inversa do valor do mesmo) e as faixas de teor do nutriente do solo (por exemplo, muito baixo, baixo, médio e alto) e, em segundo lugar, definir as doses de fertilizantes para a máxima eficiência econômica da adubação para as culturas em cada faixa de teor no solo.

O atual sistema de recomendação ”Manual de adubação e de calagem” em uso no RS e SC (Comissão... 2004), baseia-se em estudos de calibração feitos entre o final da década de 1960 e meados da década de 1980 no sistema convencional de cultivo, com a utilização do método Mehlich-1 para a determinação de fósforo e potássio do solo e nos conhecimentos acumulados até sua edição. As recomendações foram reeditadas com mudanças ao longo do tempo, porém, a partir da década de 1990, ocorreu uma mudança de sistema de cultivo, passando do convencional para o sistema plantio direto, com diferenças importantes entre ambos. Além disso, a amostragem de solo no sistema plantio direto passou a ser feita na camada de maior concentração de nutrientes (0 a 10 cm de profundidade) e houve um aumento de potencial de rendimento das culturas. Assim, questionam-se as recomendações usadas para o sistema plantio direto pois foram calibradas para o sistema convencional de cultivo.

Este trabalho tem por objetivo conhecer melhor os sistemas de recomendação de fertilizantes fosfatados e potássicos para as culturas soja, trigo e milho cultivadas no RS, ao longo do tempo e visualizar o impacto das mesmas sobre a fertilidade do solo e o rendimento das culturas.

2. Características do atual sistema de recomendação de fertilizantes

O atual sistema de recomendação de fertilizantes (Comissão..., 2004) difere dos demais, pois as quantidades de fertilizantes fosfatado e potássico indicadas nas tabelas de adubação de manutenção para a faixa de fertilidade acima do teor crítico (considerada o nível de suficiência) foram estimadas pela exportação dos respectivos nutrientes pelos grãos ou massa seca (conforme rendimento esperado), mais as perdas do sistema. Para as faixas abaixo do teor crítico (teores muito baixo, baixo e médio) foi acrescida à adubação de manutenção uma dosagem de correção (com o objetivo de adubar também o solo). Portanto, é um sistema misto, ou seja, quando os teores de fósforo e potássio do solo são baixos, deve se feita uma adubação de correção (em um ou dois cultivos, conforme a disponibilidade de capital) mais a adubação de manutenção.

A adubação de correção, tanto de fósforo como de potássio, tem por objetivo elevar o teor desses nutrientes no solo até certo ponto que propicie altas produtividades para um sistema de culturas. As doses de P2O5 e K2O são 120, 60 e 30 kg ha-1 para as faixas de teores muito baixo, baixo e médio, respectivamente.

No atual sistema de recomendação, houve também a inclusão da adubação de reposição (reposição das quantidades exportadas pelos grãos), indicada para a faixa de fertilidade do solo muito alto, em que o produtor pode aplicar doses menores ou até dispensar a adubação no primeiro cultivo.

3. Histórico dos sistemas de recomendação de fertilizantes

Nas tabelas 1 e 2 são apresentadas as faixas de teores de fósforo e de potássio das recomendações de corretivos e de fertilizantes ao longo do tempo no RS, com as respectivas referências bibliográficas.

A primeira proposição de recomendação de adubação para os solos no RS foi feita por Mohr, em 1950 e tinha valores de referência para análises de solo em quatro regiões fisiográficas (Planalto Norte, Sedimentar Central, Escudo Sul-riograndense e Planície Costeira). Estes valores eram para boas produtividades.

Em 1968 foram elaboradas para o programa ”Operação Tatu”, tabelas de dupla entrada de ”adubação de correção” e tabelas de ”adubação de manutenção para as culturas”. Essas tabelas foram fornecidas pelo Laboratório de Solos do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Agronomia e Veterinária (Universidade..., 1968).Os primeiros estudos de calibração no RS foram conduzidos para a cultura do trigo em 16 locais, com a participação de diversas instituições. Esses resultados, somados aos dados de outras culturas, originaram as ”Recomendações de adubação e de calcário para as principais culturas do Estado do Rio Grande do Sul” (Mielniczuk et al., 1969).

Nessas recomendações estabeleceram-se quatro faixas de teores de fósforo (Tabela 1) e de potássio (Tabela 2). As primeiras recomendações feitas a partir de estudos de calibração foram divididas em adubação corretiva e de manutenção para fósforo e potássio. A adubação corretiva tinha por objetivo elevar a fertilidade do solo à faixa ”bom” já no primeiro cultivo, e criar condições favoráveis de nutrição para todas as culturas exploradas pelo agricultor e era feita com base na cultura mais exigente e que proporcionava maior retorno econômico. Assim, as recomendações de adubação corretiva eram válidas para 4 a 5 anos e eram consideradas como investimento para fins de financiamento. As doses, tanto de P2O5 como de K2O para as adubações de correção eram de 120, 80, 40 e 0 kg ha-1 para faixas de teores muito baixo, baixo, médio e bom, respectivamente. As adubações de manutenção, feitas a cada cultivo, tinham a finalidade de manter os níveis de fertilidade e garantir produções elevadas. Foram estabelecidas para cada cultura e eqüivaliam aproximadamente à exportação de nutrientes pelos grãos.

Em 1972 foram publicadas as ”Sugestões para adubação no Rio Grande do Sul”, com a substituição da adubação de correção por outra de elevação da fertilidade do solo a longo prazo (Patella, 1972). Estas sugestões não foram utilizadas nas recomendações no RS e SC.

Em 1973 foram publicadas novas tabelas de adubação corretiva e de manutenção (Universidade..., 1973) para solos e culturas dos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, mantendo-se o critério de adubação de correção do solo. Porém, agregaram-se mudanças significativas aos teores críticos e faixas de teores de fósforo (Tabela 1), para solos com diferentes classes texturais (argiloso, franco e arenoso).

As doses de adubação corretiva estabelecidas por Mielniczuk et al. (1969) foram mantidas, porém alteraram-se as doses de adubação de manutenção, aumentando-se as doses em relação às recomendações anteriores.

A partir de 1976 foram definidos critérios quantitativos de argila para a separação dos solos em grupos texturais (Tabelas... 1976). Assim os solos passaram a ser classificados como argilosos, francos e arenosos para teores de argila >40%, 40-20% e <20% com teores críticos de fósforo 9, 18 e 30 mg L-1, respectivamente (Tabela 1). A adubação corretiva foi mantida na publicação das tabelas em 1976, e as adubações de manutenção de P2O5 foram ajustadas e aumentadas em relação às recomendações anteriores. Essas definições foram mantidas na edição do ”Manual de adubação e calagem para cultivos agrícolas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina” (Manual..., 1981).

Siqueira et al. (1987) introduziram mudanças significativas tanto conceitualmente quanto quantitativamente nas ”Recomendações de adubação e de calagem para os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina”. Entre elas, a substituição do critério de adubação de correção da fertilidade a cada 4 ou 5 anos, mais a adubação anual da cultura pela de máxima eficiência econômica por cultivo com aumento gradual da fertilidade do solo até o teor crítico em 3 cultivos e análise de solos no mesmo período.

Outra mudança importante foi a substituição das três classes de teores de argila, com seus respectivos teores críticos elaborados por Tabelas... (1976), por cinco classes de teores de argila, >55, 55-41, 40-26, 25-11 e <10%, com novos teores críticos de 6, 9, 14, 18 e 24 mg kg-1 de fósforo, respectivamente (Tabela 1). Foi mantida a classe ”solos alagados”, com teor crítico de 6 mg kg-1 de fósforo independentemente do teor de argila. A dose de P2O5 para a máxima eficiência econômica foi estabelecida para cada cultura e em cada classe textural. Do total de P2O5 para os 3 cultivos, aproximadamente 50, 30 e 20% eram aplicados no primeiro, segundo e terceiro cultivos, de modo a permitir uma disponibilidade de fósforo mais ou menos semelhante nos três cultivos.

Nas tabelas de recomendação de adubação publicadas em 1987 (Siqueira et al., 1987) o teor crítico de potássio passou de 60 mg kg-1 (Mielniczuk et al.,1969) para 80 mg kg-1 e as faixas de teores (Tabela 2) foram divididas tal como para o fósforo. As doses de máxima eficiência econômica de K2O também foram especificadas para cada cultura e distribuídas em aproximadamente 50, 30 e 20% da dose para os três cultivos.

Na reedição das tabelas de ”Recomendações de adubação e de calagem para os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina” publicadas em 1989 e 1995 (Comissão...,1989, 1995), foi incorporada a maior parte dos conhecimentos adquiridos com os estudos efetuados desde a implantação do programa de análise de solos a partir da década de 1960.

Schlindwein (2003) elaborou um sistema de recomendação de fósforo e potássio para adubar o solo e a cultura, com base em calibrações desses nutrientes pelos métodos de análise de solo Mehlich-1, Mehlich-3 e resina de troca iônica. A amostragem de solo foi feita nas camadas de 0-10 e 0-20 cm de profundidade, em experimentos cultivados em sistema plantio direto com soja, trigo e milho, conduzidos por várias instituições de ensino, pesquisa e cooperativas no RS (UFRGS, UFSM, EMBRAPA, FUNDACEP, Cotrisa, Cotrijal, Copalma, Cotrel, Cotrisoja, Cotrijuí e Cotribá). Os resultados obtidos por Schlindwein (2003) indicam teores críticos maiores para fósforo e potássio em ambas as profundidades de amostragem (0-10 e 0-20 cm), com faixas de teores mais amplas. As doses de fósforo e potássio também foram maiores se comparadas às recomendações da Comissão... (1995).

Em 2004 a Comissão reeditou as recomendações (Manual de adubação e de calagem) com modificações discutidas anteriormente (item 2). As faixas de teores de fósforo e de potássio são apresentadas nas Tabelas 1, 2.

4. Conseqüências dos sistemas de recomendação de fertilizantes na fertilidade do solo e na produtividade das culturas

Uma das possibilidades de verificar se as doses requeridas pelas culturas cultivadas ao longo do tempo eram adequadas, conforme seus objetivos, é analisar a evolução do valor numérico das doses de fertilizantes estabelecidas nas recomendações (Universidade..., 1968; Mielniczuk et al., 1969; Universidade..., 1973; Tabelas..., 1976; Manual..., 1981, Siqueira, 1987; Comissão..., 1989, 1995) e o reflexo dessas no aumento da fertilidade dos solos no RS, observado nos trabalhos de levantamento da fertilidade do solo (Anghinoni & Bohnen, 1975; Tedesco et al., 1984; Drescher et al., 1995; Rheinheimer et al. 2001).

A Figura 1 mostra que apesar das faixas de teores serem mais amplas para o solo argiloso, as doses de P2O5 recomendadas por Mielniczuk et al. (1969) eram menores do que as recomendadas pela Universidade... (1973). Nas recomendações estabelecidas a partir de 1976 (Tabelas...,1976) houve o aumento de 5 kg ha-1 para a dose de P2O5 na adubação de manutenção da soja e do trigo (não apresentado na Figura 1). No entanto as doses de P2O5 recomendadas por Siqueira et al. (1987) e Comissão... (1989, 1995), são em geral menores do que aquelas recomendadas por Universidade... (1973), especialmente nas faixas mais baixas de teores de fósforo. Em síntese, as doses de P2O5 recomendadas em 1969 eram baixas, aumentaram nas recomendações de 1973 e 1976 e diminuíram a partir de 1987 (Figura 1). Essas variações nas doses também se refletiram na evolução dos teores de fósforo disponível no solo. Em 1973, 78,1% das análises de solo apresentavam teor de fósforo menor do que 6 mg kg-1 nos solos argilosos da região da grande Santa Rosa (Anghinoni & Bohnen, 1975); em 1981, com o aumento nas doses de P2O5 em relação às de 1969, recomendadas a partir de 1973 e 1976, o percentual de solos com teores abaixo do teor crítico diminuiu para 76,4 (Tedesco et al., 1984); e em 1988, ainda sob a influência das recomendações de 1973 e 1976, o percentual de solos com teores abaixo do teor crítico diminuiu para 73 (Drescher et al., 1995). A partir das recomendações de Siqueira et al. (1987) e Comissão... (1989 e 1995), com a diminuição das doses de P2O5 recomendadas para as culturas, verificou-se que em 1998-2000 o percentual de amostras de solo com teor de fósforo abaixo do teor crítico aumentou para 79,3 (Rheinheimer et al. 2001).

As diferenças podem ser maiores quando são comparados os valores das análises de solo e não as faixas de teores (Figuras 1, 2). Por exemplo, a dose recomendada de P2O5 (Figura 1) para a soja, em uma análise de solo com um teor de fósforo menor do que 1 mg kg-1 de solo, é maior (em 20 kg) nas recomendações de 1987, 1989 e 1995, do que nas de 2004. Por outro lado, se a análise do solo tiver 2 mg kg-1, a dose recomendada em 1987, 1989 e 1995 é menor (em 15 kg) do que em 2004. Para o milho, se o fósforo do solo for até 1 mg kg-1 de solo, as recomendações de 2004 são 14% maiores do que as de 1987, 1989 e 1995 e se estiver entre 1,1 e 2 mg kg-1 de solo, as recomendações de 2004 são 57% maiores do que as de 1987, 1989 e 1995.

Em geral, para as diferentes faixas de teores, as doses de fósforo e potássio são maiores nas recomendações da Comissão... (2004) em relação às recomendações de Siqueira et al (1987) e da Comissão... (1989 e 1995) – (Figuras 1, 2, 3).

Ao contrário das recomendações de fósforo, as recomendações de potássio (Figura 2) foram sempre crescentes ao longo do tempo para soja, milho e trigo até 2003 (Comissão... 1995). As recomendações de Mielniczuk et al. (1969) eram relativamente baixas, pois os teores originais de potássio dos solos do RS estavam, em geral, acima do teor crítico (60 mg kg-1). As doses foram aumentadas na recomendação de 1973 e novamente em 1987 e mantidas até 1989 e 1995. Não há dados quantitativos do percentual de amostras de solo analisadas com teores abaixo do teor crítico até 1981, porém, segundo Mielniczuk et al. (1969), a minoria dos solos apresentava teores abaixo do teor crítico. Em 1981 (Tedesco et al., 1984) e em 1988 (Drescher et al., 1995), pela influência das recomendações de 1973, o percentual de amostras de solo com teor de potássio abaixo de 80 mg kg-1 aumentou para 50,7 e 54,1, respectivamente. Após a implementação das recomendações de 1987 (Siqueira et al., 1987; Comissão..., 1989, 1995) com a recomendação de doses maiores de potássio, o percentual de amostras de solo com teores abaixo de 80 mg kg-1 no período de 1998-2000 diminuiu para 41,3 (Rheinheimer et al., 2001).

O aumento dos teores de fósforo e de potássio nas faixas de menor fertilidade do solo e de potássio nas demais faixas, observado por Rheinheimer et al. (2001), pode ser devido às menores perdas por erosão (Bertol et al., 1997; Seganfredo et al., 1997), pelos cultivos no sistema plantio direto e/ou devido à amostragem de solo ser feita, em grande parte, na camada (0-10 cm) de maior concentração de fósforo e potássio. Um possível aumento nos teores de fósforo e de potássio atribuído apenas à profundidade de amostragem pode representar uma estimativa distorcida da real disponibilidade de nutrientes para as plantas, cuja calibração foi feita com amostras retiradas na camada de 0-20 cm de profundidade.

Com base nos resultados dos levantamentos de fertilidade do solo realizados no RS e comparando-os com as doses de P2O5 e K2O recomendadas ao longo do tempo (de 1969 até 2003) pelos programas de fertilidade do solo no RS, verifica-se que os teores de fósforo e de potássio têm aumentado principalmente nas faixas mais baixas e que o programa de fertilidade que permaneceu por mais tempo (Siqueira et al., 1987 e Comissão... 1989, 1995) não atingiu pelo menos um de seus objetivos, que era elevar os teores de fósforo e de potássio até o teor crítico no período de três cultivos. Com isso, a probabilidade de rendimento relativo das culturas soja, trigo e milho se mantêm abaixo de 90% do potencial de rendimento, o que pode ser uma das causas dos baixos rendimentos médios dessas culturas no RS (Emater, 2005; IBGE, 2005).

As doses de P2O5 recomendadas para as culturas soja, trigo e milho sugeridas nas recomendações da Comissão... (2004), são em geral, maiores do que as recomendadas por Siqueira et al (1987) e pela Comissão... (1989, 1995). É provável que a utilização dessas doses eleve os teores de fósforo e de potássio e promova rendimentos maiores, próximo aos de máxima eficiência econômica, corrigindo assim, as deficiências das recomendações anteriores. O último levantamento de fertilidade (Rheinheimer et al., 2001) demonstra que os teores de potássio estão se elevando aos poucos com as doses recomendadas por Siqueira et al. (1987) e pela Comissão... (1987, 1995). Porém, de maneira geral, as doses de potássio sugeridas nas recomendações de 2004 são maiores para soja e milho e menores para o trigo, o que pode elevar os teores de potássio do solo em menor tempo e proporcionar maiores rendimentos das culturas soja e milho.

Outra possibilidade de verificar se as doses de fósforo e de potássio recomendadas pelo programas de recomendação, para as culturas, eram adequadas para atender seus objetivos (por exemplo, atingir o rendimento de máxima eficiência econômica, ou seja, em torno de 90% do rendimento de máxima eficiência técnica) é compará-las com as necessidades de nutrientes e os rendimentos dessas culturas cultivadas ao longo do tempo no RS.

A Figura 4 mostra os rendimentos médios das culturas cultivadas no RS ao longo do tempo. Verifica-se que os rendimentos médios são muito menores do que aqueles obtidos por bons produtores e em muitos estudos de pesquisa (rendimentos superiores a 3000, 2500 e 6000 kg ha-1 de soja, trigo e milho, respectivamente). Sabe-se que o rendimento das culturas depende de vários fatores de produção (fatores climáticos, da cultura, de solo e de manejo), no entanto, discutiremos somente os de fertilidade do solo.

O aumento médio de rendimento da soja foi de 71% (Figura 4) entre os anos 1969 e 2004, enquanto que o do trigo e o do milho foi de 174 e de 148% respectivamente, entre os anos 1970 e 2004. O maior percentual de aumento de rendimento de trigo, em relação ao de soja, pode ser, em parte, devido às maiores doses recomendadas em relação à necessidade do que aquela para a soja (Figura 5, 6), conforme discutido por Schlindwein (2003) e por Schlindwein e Gianello (2004).

A soja necessita mais P2O5 e K2O para a produção de uma tonelada de grãos se comparada às culturas trigo e milho. Esses dados estão de acordo com Raij et al. (1997), que estimaram as quantidades necessárias de P2O5 para plantas inteiras de 36,6, 13,7 e 11,4 kg t-1 de grãos de soja, de trigo e de milho, respectivamente, e de K2O de 27,7 e 21,7 kg t-1 de grãos de trigo e de milho, respectivamente. A necessidade de K2O para a soja pode ser estimada pelos teores em folhas que varia de 1,7 a 2,5%, correspondendo a uma necessidade de K2O de 60 kg t-1 de grãos. A quantidade exportada de P2O5 e K2O pelos grãos também é maior para cultura da soja, se comparada às quantidades exportadas pelas culturas de trigo e de milho (Raij, et al., 1997; Comissão..., 2004).

Verifica-se, pelos rendimentos médios obtidos pelas culturas no RS, que a cultura da soja sempre exportou mais fósforo e potássio do que a cultura do milho, e esta um pouco mais do que a do trigo (Figuras 5, 6). Ressalta-se, no entanto, que as necessidades de nutrientes das plantas inteiras são maiores que as quantidades exportadas. Por isso, não se justificam doses maiores para o trigo, como se recomendava de 1987 a 2003.

A soja necessita dos nutrientes fósforo e potássio em maior quantidade para a produção de grãos, pois é menos eficiente do que o trigo e ambas as culturas, menos eficientes do que o milho, reforçando os dados de Raij et al. (1997). Schlindwein e Gianello (2005) verificaram que o aumento de rendimento da soja foi de 7,2 e 4,3 kg ha-1 por kg de P2O5 e de K2O adicionado ao solo, enquanto que do trigo foi de 12,4 e 15,6 kg ha-1 e do milho de 47,1 e 40,2 kg ha-1 por kg de P2O5 e de K2O adicionado ao solo.

A cultura do trigo tem a maior eficiência agronômica de utilização dos fertilizantes fosfatado e potássico se comparada à da soja, obtendo-se rendimentos elevados de grãos com doses pequenas de P2O5 e K2O. Isso é devido à baixa necessidade de fósforo e de potássio das plantas inteiras (Raij et al., 1997) e à baixa exportação pelos grãos (Raij et al., 1997; Comissão... 2004). O retorno econômico obtido com a cultura do trigo sob sistema plantio direto de cultivo, para uma produção de 2400 kg ha-1, é menor (2,40 US$ ha-1) do que o obtido com milho (111,75 US$ ha-1 para uma produção de milho de apenas 4500 kg ha-1) e com soja (152,80 US$ ha-1 para uma produção de soja de 2400 kg ha-1). Nesta estimativa de receita, foram considerados os custos de produção da soja, de trigo e de milho na média de sete anos e os preços de comercialização na média de 13 anos, descritos em FECOAGRO (2004).

5. Conjuntura atual e o sistema de recomendação de fertilizantes em uso

As doses de fertilizantes recomendadas pela Comissão... (2004) são maiores do que as das recomendações anteriores de Siqueira et al. (1987) e Comissão... (1989; 1995). No entanto, as faixas de teores de nutrientes e seus respectivos teores críticos, embora tenham sido ajustados, são os mesmos dessas recomendações. Schlindwein (2003) e Schlindwein e Gianello (2004) criticaram os teores críticos, e por conseqüência as faixas de fertilidade de fósforo e potássio, por ter sido a calibração feita no sistema convencional de cultivo, no entanto, atualmente, a maior parte da área com soja, trigo e milho no RS é cultivada no sistema plantio direto. Além disso, a amostragem de solo é feita na camada de solo de maior concentração de fósforo e de potássio e atualmente as culturas têm um potencial de rendimento maior, necessitando de mais nutrientes para seu crescimento e exportação.

No sistema plantio direto, destaca-se a maior concentração superficial de nutrientes, entre eles o fósforo e o potássio (Eltz et al., 1989; Schlindwein & Anghinoni, 2000), o aumento da matéria orgânica (Eltz et al., 1989; Schlindwein & Anghinoni, 2000), que associado à resteva das culturas mantida na superfície, diminui as perdas de solo e nutrientes por erosão (Bertol et al., 1997; Seganfredo et al., 1997) permitindo um melhor aproveitamento dos fertilizantes aplicados.

A amostragem de solo sob sistema convencional de cultivo é feita na camada 0-17/20 cm de profundidade, enquanto que em solos sob plantio direto é feita na camada de 0-10 cm. A menor profundidade de amostragem do solo sob sistema plantio direto, associada à concentração superficial de fósforo e potássio, resulta em valores mais elevados dos atributos de fertilidade.

Em experimentos de longa duração estudados por Schlindwein e Anghinoni (2000), foi observado um aumento médio em torno de 50 e 30% nos teores de fósforo e de potássio, respectivamente, nas amostras de solo sob sistema plantio direto, retiradas da camada 0-10 cm, em relação aos valores da camada 0-20 cm sob sistema convencional de cultivo, sugerindo um aumento no valor do teor crítico. Também Schlindwein (2003) demonstrou, tanto para fósforo como para potássio (valor superior da faixa de fertilidade média, Figuras 1, 2), que o teor crítico é maior na camada de 0-10 cm (também de 0-20 cm, não apresentado neste trabalho) em solos sob sistema plantio direto do que para a mesma camada ou na camada 0-20 cm no sistema convencional (Comissão..., 2004).

O rendimento médio de trigo, soja e milho, em lavoura no RS, aumentou ao longo do tempo (figura 4), e pode ser devido à utilização de variedades mais competitivas e/ou técnicas mais avançadas de produção. Sabe-se que as necessidades da cultura e a exportação de nutrientes também aumentaram (Figura 5, 6), sugerindo maiores doses de fósforo e de potássio para se obter maiores rendimentos (máxima eficiência econômica). Assim, Schlindwein (2003) demonstrou que não somente o teor crítico de fósforo e potássio aumentou no solo, mas também as doses desses nutrientes (Figura 1, 2, 3). De acordo com isso, a Comissão... (2004) aumentou as doses de fósforo e potássio (Figura 1, 2, 3), embora, dependendo do teor no solo, as doses recomendadas são menores do que as doses sugeridas por Schlindwein (2003).

6. Conclusões

1) As doses de fósforo recomendadas para as culturas soja, trigo e milho, em geral, eram baixas, aumentaram entre 1973 e 1986, diminuíram entre 1987 e 2003 e tornaram a aumentar em 2004. As doses de potássio, em geral, eram baixas e aumentaram ao longo do tempo, diminuindo para trigo a partir de 2004.

2) O sistema de recomendação de fertilizantes que permaneceu por mais tempo (entre 1987 e 2003) em uso, não atingiu o objetivo de elevar os teores de fósforo e potássio até o teor crítico no período de três cultivos.

3) As doses de fósforo e de potássio recomendadas para soja, trigo e milho, a partir de 2004, devem aumentar a fertilidade do solo e propiciar maiores rendimentos.

4) As doses sugeridas por Schlindwein (2003) são maiores do que as doses recomendadas pela Comissão... (2004) e podem aumentar mais rapidamente os teores de fósforo e de potássio do solo e o rendimento das culturas.

5) Os estudos de Schlindwein (2003) indicam a necessidade de faixas de teores mais amplas nas análises de solo e teores críticos de fósforo e de potássio maiores no sistema plantio direto do que os sugeridos pela Comissão... (2004).

6) O teor crítico e as faixas de teores devem ser ajustados para o sistema plantio direto e a calibração deve ser feita em amostras retiradas na profundidade de recomendação (0-10 cm).

7. Referências bibliográficas

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Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição 91, janeiro/fevereiro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.