Desequilíbrio Mundial (Mercado)


Autores:
Publicado em: 01/06/2006

Desequilíbrio mundial: soja em excesso e déficit de milho/trigo

Flávio GassenEngenheiro-Agrônomo, Supervisor Técnico CooplantioE-mail: flavio@agri.com.br

Apesar do esforço das organizações da agricultura brasileira em alertar as autoridades sobre a crise do setor, não estão surgindo ações governamentais para reduzir o efeito do movimento de empobrecimento rural imposto pela taxa cambial excessivamente apreciada. A maioria dos grãos, com exceção da soja, está apresentando pressão de alta no mercado internacional e este movimento não está sendo aproveitado pelo nosso produtor, mas sim, pelo produtor Argentino. A figura 1 mostra a grande distorção da paridade cambial com o dólar entre as moedas do Brasil e da Argentina, garantindo uma excelente remuneração pelas commodities no país vizinho, além de estabilidade cambial desde meados de 2003. Considerando os preços de 11 dólares por saca de 60 kg de soja, o produtor brasileiro receberia cerca de 25 reais e na Argentina seria o equivalente a 34 reais, além da menor incidência de tributos sobre os insumos e máquinas agrícolas. Nessa ótica, os argentinos provavelmente manterão ou aumentarão a área de soja para a safra 2006/07. Por outro lado, o regime cambial adotado pela Argentina está gerando pressão inflacionária na sua economia pela menor acessibilidade de produtos estrangeiros mais competitivos e poderá promover menor crescimento da sua produtividade no longo prazo. Como sugestão, estaríamos numa posição mais favorável, considerando o Mercosul, se a taxa cambial de ambos países estivessem numa posição intermediária em relação a atual, sendo esta próxima a 2,7.

SOJA

A soja tem aumentado quase continuamente seu estoque mundial nos últimos 10 anos e poderá atingir a segunda posição no ranking histórico. Apesar da expectativa da relação estoque final/consumo mundial estar projetada em 26,3% no relatório de maio/2006 do USDA (fig 2), as cotações internacionais estão mantendo-se sustentadas entre 5,6 e 6 dólares por bushel nos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago (CBOT) (figura 3). Apesar da afirmação na edição anterior sobre um cenário desfavorável aos preços do grão e tendência de queda, houve um movimento de alta no decorrer de maio. Vale ressaltar que o período de plantio é terreno fértil para investidas especulativas e ocorre essa pressão de alta na maioria dos anos, mesmo num cenário de baixa no médio prazo (figura 3). Sendo assim, o cenário de baixa se mantém.

Um dos fatores geradores deste balanço de oferta do grão pode ser atribuído à rápida adoção da soja tolerante ao glifosato (soja RR) que, devido ao manejo facilitado e menor custo de produção, estimularam seu aumento de área nos últimos anos e, combinado com elevação do rendimento, resultaram em excesso de oferta. Na ótica da produção, a soja RR apresenta, menor risco e torna-se compreensível sua expansão quando comparado aos demais grãos. No entanto, a sobre oferta mundial aumenta o risco de instabilidade nos preços e será precursor de um forte movimento de baixa se houver uma safra cheia nos EUA.

A produção mundial da safra 2005/06 está estimada em 221,8 milhões de toneladas, contra consumo de 212,6 milhões de toneladas, sendo a segunda safra consecutiva com forte excedente de produção. Já nos EUA, assumindo uma redução de 20 kg/ha no rendimento projetado na edição anterior, esta seria de 2.735 kg/ha e, assim, poderá resultar na produção de 83,85 milhões de toneladas. Na relação estoque final/demanda do país, esta atingiria 21,9%, menor do que a publicada anteriormente (23,3%), mas ainda assim seria a segunda mais elevada dos últimos 30 anos. Considerando-se que estamos na era do rápido movimento de informações e mercadorias alcançando qualquer local do planeta, seria razoável a busca de redução nos estoques relativos, no entanto, estamos frente a um paradoxo que somente está sendo registrado na soja (figura 4). São os movimentos de arbitragem e especulativos dos fundos de investimentos que sustentam as cotações da soja, pois as commodities metálicas (ouro, prata, cobre, alumínio etc) estão com suas cotações extremamente elevadas e o próprio petróleo (crú tipo Brent) atingiu o recorde de 75,17 dólares por barril na Bolsa de New York em 21/abril/2006. O ouro atingiu US$ 23,31 /g no dia 12 de maio e pouco acima de 20 dólares no final do mesmo mês (BACEN).

Na comparação com o trigo e o milho (figura 4), as cotações da soja ainda estão na média histórica (16 anos), mas elevadas se for considerado o estoque atual e projeção da próxima safra.

Na composição do complexo-soja, o farelo está gerando pressão de baixa e o óleo, por outro lado, está sendo de alta. A gripe aviária reduziu a demanda de farelo, mas a demanda de óleo vegetal comestível foi mantida, provocando a distorção na relação oferta/demanda de ambos que está pressionando positivamente as cotações das demais oleaginosas, como o girassol.

No mercado interno, os preços pagos ao produtor do PR registraram pequena recuperação no mês de maio, fato gerado pela desvalorização cambial do R$ frente o US$ e alta no mercado internacional. No entanto, com o retorno da taxa cambial ao patamar estável que se encontrava e provável pressão de baixa no decorrer do desenvolvimento da safra dos EUA, caso as condições climáticas forem favoráveis, espera-se retração nos preços do Brasil. Por outro lado, tanto a desvalorização cambial do real, como clima desfavorável nos EUA e China, combinada com aumento da demanda, poderá alterar este prognóstico. No lado da taxa cambial ocorreu um exemplo da instabilidade que ainda nos cerca, onde o aumento de 0,25 pontos percentuais na taxa básica de juros dos EUA (10/maio/2006), que atingiu 5,0% ao ano, provocou movimento de fuga de capitais aplicados no Brasil e rápida valorização do dólar no decorrer de maio (figura 1). O indicador de Risco Brasil subiu de 215 para 283 pontos passados 13 dias da divulgação da nova taxa de juros pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA). Sem dúvida, taxa cambial mais elevada é desejada pelo setor exportador, mas pela agricultura, este talvez não seja o melhor momento, pois pode aumentar os preços dos insumos para a próxima safra de verão.

MILHO

A primeira projeção da safra 2006/07 mundial foi publicada pelo USDA em maio e aponta um cenário altista para o grão, cujo fator gerador é a safra dos EUA. Conforme havia sido publicado na edição anterior, o desestímulo à cultura pelo elevado preço do petróleo que apresenta forte impacto no custo de produção, provocou redução na expectativa de produção do país de 282,3 (2005/06) para 268 milhões de toneladas. A sua demanda, ao contrário, passa de 279,7 para 295,8 milhões de toneladas, resultando na redução do estoque final da 56,54 (safra 2005/06) para 28,98 milhões de toneladas (2006/07). A participação do estoque final na demanda do país passaria de 20,2% para 9,8% e tornando-se um significativo fundamento de alta para os preços internacionais da próxima safra (figura 5). Em âmbito global, haveria uma queda de 18,8% do estoque final/consumo mundial (2005/06) para 12,9% e poderia ser considerado um nível de risco para o abastecimento mundial, caso o rendimento dos EUA for abaixo do normal. Sem dúvida, o cenário internacional está favorável para este cereal. Na figura 3, as cotações dos contratos de primeira posição estão sensivelmente acima da média de 16 anos, posição melhor do que a da soja e inferior ao do trigo. Se for considerada tanto a participação do estoque na demanda dos EUA como no consumo mundial (figuras 5 e 2), os níveis projetados para 2006/07 aproximam-se do registrado na safra 2003/04, onde nos EUA atingiu 9,4% e no mundial foi de 16,2%. Esta redução nas reservas provocou uma forte pressão de alta no primeiro semestre/2004 tanto no Brasil, como na Argentina e EUA (figura 5). É razoável afirmar que este seria um cenário provável para a safra 2006/07.

No mercado interno, o baixo preço do grão da safra colhida recentemente desestimula o produtor para safra seguinte e há um grande risco do produtor perder a oportunidade altista do mercado internacional. Por outro lado, a taxa cambial também é responsável pela paridade internacional ao grão importado, ou pressão de baixa ao exportar. Novamente, a agricultura necessita somente de uma taxa cambial justa, como exercitado no primeiro parágrafo. Conforme a figura 6, os preços do grão pagos ao produtor do PR e RS já registram o início da recuperação e que normalmente atinge seu ápice no final do ano.

TRIGO

Acompanhando o milho, a participação do estoque final do trigo no consumo mundial para a safra 2006/07 é uma das mais baixas da história (figura 2) e já pressiona as cotações do mercado internacional. Na figura 3, as cotações dos contratos de primeira posição na Bolsa de Chicago registram forte movimento de alta desde o início do ano e está mantida significativamente acima da média de 16 anos. Na figura 7 estão salientados os momentos de picos de preços registrados no grão exportado pelos portos do Golfo dos EUA e coincidem com períodos de estoques baixos como os registrados na safra 1995/96, 2003/04 e na projeção da safra 2006/07. Mesmo considerando somente uma projeção, o mercado já responde ao estímulo e atinge quase o equivalente a 12 dólares/60 kg nos portos do Golfo dos EUA e será um fator altista para o mercado interno do Brasil. Novamente, a taxa cambial possui grande importância devido a paridade importação da Argentina, mas os fundamentos internacionais são positivos e seria razoável termos uma cenário semelhante ao ocorrido na safra 1995/96 (figura 8).

Revista Plantio Direto, edição 93, maio/junho de 2006.