Mofo Branco em Soja (Doenças)


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Publicado em: 01/06/2006

Mofo branco em soja, Sclerotinia sclerotiorum: o controle inicia no inverno

O mofo branco ou murcha de sclerotinia, causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, tem preocupado produtores de várias culturas, como o feijoeiro, a soja, o algodoeiro, o girassol, entre outras.O fitopatologista Olavo Corrêa da Silva, do Departamento de Defesa Vegetal da Fundação ABC, de Castro, PR, comenta dúvidas de técnicos e produtores quanto à influência da rotação de culturas em plantio direto no desenvolvimento do mofo branco em soja, formas de manejo e controle da doença, considerando que as estruturas de resistência (escleródios) permanecem ativos na lavoura de 6 a 10 anos e ainda não existem informações precisas quanto a suscetibilidade das cultivares disponíveis no mercado.

Revista Plantio Direto - Qual seria a explicação para o aumento de ocorrência de mofo branco nas lavouras de soja?

Olavo Corrêa da Silva - O aumento da S. sclerotiorum (mofo branco) em lavouras de soja está ligado, provavelmente, a presença de um ou mais hospedeiros altamente suscetíveis na rotação de culturas, tais como, nabo forrageiro, girassol, canola, feijoeiro etc. Além do que, o uso de sementes contaminadas, muitas vezes sem procedência conhecida ou qualquer controle sanitário, podem introduzir o fungo em áreas livres da doença. Colhedoras também podem contribuir para a introdução do Mofo branco, principalmente para produtores que utilizam serviços terceirizados.

RPD - A ocorrência de mofo branco na soja em áreas de rotação de culturas com milho poderia estar vinculada ao uso do nabo forrageiro (brássicas em geral) como cultura de cobertura antes do milho?

Olavo - Realmente o nabo forrageiro manejado inadequadamente, dessecações após floração, e semeaduras em regiões de inverno com temperatura baixa e precipitação elevada, tem sido responsável pela ocorrência de epidemias de Mofo Branco em lavouras de soja.

RPD - A rotação de culturas com gramíneas seria eficiente para o controle da doença? Quantos anos com gramínea antes de retornar à soja no caso de uma lavoura infestada com o fungo e presença de escleródios?

Olavo - A utilização de gramíneas para manejo do Mofo Branco é uma das ferramentas viáveis, contudo as estruturas de resistência (escleródios) podem permanecer no solo por um longo período, seis a dez anos, o que restringe muito o sistema de rotação de culturas. É importante ressaltar que uma única ferramenta não é suficiente para o controle desta doença, sendo que, a utilização conjunta de vários métodos de controle é a forma mais adequada para o manejo.

Áreas com histórico de S. sclerotiorum devem ter um manejo diferenciado de glebas livres da doença. Evitar espécies de plantas, principalmente para cobertura de solo, com elevada suscetibilidade ao Mofo branco, é fundamental. Gramíneas como cobertura de solo são as mais indicadas: Aveias, Centeio, Azevém etc.

RPD - Qual e o risco de aumentar a incidência de Sclerotinia se for adotada a cultura do girassol antecedendo a soja ou a colza/canola no inverno?

Olavo - Culturas como Canola e Girassol são opções econômicas importantes para o produtor rural, e podem fazer parte da rotação de culturas com soja e/ou feijoeiro. Contudo, em regiões e/ou épocas de semeadura em que haja risco de ocorrência de temperaturas amenas com umidade do solo próxima a capacidade de campo durante a floração destas espécies, o risco de contaminação por S. sclerotiorum é muito alto, e a semeadura deve ser evitada.

RPD - Existem métodos de controle químico eficientes para o controle de Sclerotinia sclerotiorum?

Olavo - O uso de fungicidas mais específicos para controle de Mofo Branco é possível, porém existem pré-requisitos importantes para que eles tenham eficiência: (1) as duas aplicações de devem ser preventivas, início (R1) e plena floração (R2); (2) o volume de aplicação tem que ser elevado para que haja penetração da calda até os entrenós mais baixos, entre 500 - 600 l/ha; (3) o controle somente é eficiente em lavouras com nível de contaminação do solo entre baixo a médio. Esses pré-requisitos para o controle químico da S. sclerotiorum são dificilmente obtidos na cultura da soja, principalmente, pelo custo elevado dos fungicidas, o que o torna anti-econômico para a cultura, e pela dificuldade de penetração da calda de aplicação, outro fator de difícil obtenção. Sendo assim, outros métodos de controle devem ser visualizados no manejo dessa doença.

RPD - O desconhecimento e ausência do acompanhamento da assistência técnica seria um dos responsáveis pela ocorrência de mofo branco na soja?

Olavo - Esta é uma doença na qual sua ocorrência surpreende muitos produtores e técnicos, pelo longo período em que as estruturas de resistências permanecem no solo. Produtores despreparados e a alternância da assistência técnica fazem com que não haja um histórico preciso do nível de contaminação da área. Esta é uma enfermidade que exige um monitoramento constante da sua ocorrência, principalmente para espécies suscetíveis do sistema. Também é possível quantificar os escleródios em nível de solo, através de uma grade de amostragem e peneiramento do solo, podendo ser mais uma opção para determinar o nível de contaminação. O planejamento de um manejo sustentável do mofo branco é sugerido a partir do nível de contaminação da área

RPD - Existem cultivares de soja resistentes à doença?

Olavo - No Brasil, não é conhecido o nível de suscetibilidade dos cultivares de soja a mofo branco. Sendo que todas as cultivares são consideradas suscetíveis. Em alguns países já se tem uma informação mais precisa quanto à suscetibilidade dos genótipos. Por conseguinte, existem diferenças entre os genótipos de soja quanto à suscetibilidade a S. sclerotiorum, e é uma informação importante e decisiva para o manejo.

RPD - Uma das recomendações para reduzir o potencial de reinfestação do fungo é realizar aração profunda para enterrar os escleródios. No entanto, para manter o PD seria suficiente a combinação adequada de rotação de culturas com plantas não hospedeiras?

Olavo - Nos primeiros anos do Sistema de Plantio Direto nos Campos Gerais do Paraná, a S. sclerotiorum ocorreu esporadicamente e foi uma das primeiras dúvidas da viabilidade do SPD na região. Contudo, o SPD foi mantido e o mofo branco ainda ocorre localizado e dependente do clima vigente em cada safra. É importante entender que os escleródios (estruturas de resistência) após uma incorporação ainda permanecem viáveis e um novo preparo do solo pode, novamente, expor a área ao risco de epidemias. Escleródios mantidos na superfície do solo em Sistema de Plantio Direto são inviabilizados por ações do clima e fungos/bactérias antagônicos. Além do que, temos duas ações importantes da palhada sobre a superfície do solo, impedimento físico na ação dos apotécios e a liberação de substâncias alelopáticas, inibindo a germinação de escleródios. Sendo assim, o SPD é uma das ferramentas no manejo do mofo branco, aliado a uma rotação de culturas adequada e boa cobertura de solo.

RPD - Cultivares de soja com estrutura ereta, menor número de ramificações e aumento no espaçamento entre-linhas combinada com redução na população de plantas deveria ser adotada nas áreas histórico positivo de Mofo branco?

Olavo - Os genótipos de soja de estrutura ereta contribuem no manejo do mofo, contudo a duração do período de floração e seu nível de suscetibilidade podem anular o efeito benéfico da estrutura. O uso de populações menores como estratégia de controle, é importante principalmente no momento da infecção secundária, isto é, a contaminação planta a planta. O uso de espaçamentos maiores tem efeito principalmente da redução do período em que o solo permanece saturado, pelo maior nível de insolação, porém tem a desvantagem do maior número de plantas na linha, o que favorecem as infecções secundárias.

RPD - Cultivares de soja de ciclo curto e semeadura no início do período preferencial apresentam menor probabilidade de desenvolver a doença quando comparados aos de ciclo longo e semeadura tardia?

Olavo - O ciclo dos cultivares de soja não é um fator importante na ocorrência do mofo branco, contudo, a época de semeadura, na qual a floração ocorra sob temperatura mais elevada e menor nível de precipitação, podem ser uma ferramenta no manejo da doença.

Existem outros métodos de controle poucos tradicionais que podem ser visualizados no manejo desta doença, a indução de resistência é um desses métodos que podem suprimir e reduzir os níveis de dano com boa relação custo/benefício. O uso de Agentes biológicos, fungos e bactérias, é outra grande esperança no controle, contudo ainda necessita de mais estudos para sua utilização, pois é comum o efeito contrário de alguns agentes.

Métodos de controle devem ser utilizados conjuntamente para se obter um manejo sustentável do mofo branco:

(1) Sistema de Plantio Direto com uma boa cobertura de solo e rotação de culturas adequada;

(2) taxa de infiltração de solo adequada para se evitar solos saturados por longo períodos;

(3) cultivares de soja com maior resistência/tolerância;

(4) populações menores de soja;

(5) evitar o uso de espécies suscetíveis na rotação de culturas, sob condições favoráveis à doença;

(6) uso da indução de resistência;

(7) evitar o acamamento próximo da floração;

(8) manter os escleródios na superfície do solo, evitando assim o preparo de solo e uso de grades leves durante o inverno;

(9) evitar épocas de semeaduras muito antecipadas ou tardias;

(10) controle sanitário das sementes;

(11) controle sobre colhedoras vindas de áreas contaminadas.

Revista Plantio Direto, edição 93, maio/junho de 2006.