Tratamento de sementes: importante estratégia de proteção nas fases de germinação e de plântula
Dirceu GassenGerente Técnico da Cooperativa dos Agricultures de Plantio Direto - CooplantioE-mail: dirceu@agri.com.br
O conhecimento sobre a forma de aplicação e o modo de ação de cada ingrediente ativo na planta e sobre cada espécie de praga é a base para a adoção correta de inseticidas, de acordo com as normas de boas práticas agrícolas.
A evolução na agricultura com a necessidade de estabelecer metas de aumento de produção, usando novas cultivares, nutrição equilibrada e outras práticas culturais, exige qualidade total em todos os segmentos, especialmente nas fases de germinação e de estabelecimento de plântulas nas lavouras de grãos. O plantio direto, a rotação de culturas e a manutenção de palha na superfície do solo resultaram no aumento de diversidade na fauna das lavouras, restabelecendo cadeias tróficas, incluindo consumidores de material orgânico, inimigos naturais e pragas, com populações residentes no solo ou associadas à vegetação predominante.
As culturas com baixa população de plantas como o milho, o girassol, e em menor escala o feijão, o algodão e a soja, podem sofrer danos severos de pragas nas fases de germinação e de plântula e resultar na redução do potencial de produção das lavouras.
O tratamento de sementes com inseticidas é uma importante estratégia de proteção nas fases de germinação e de plântula, que garantem o estabelecimento uniforme das populações de plantas na lavoura.
A eficácia de inseticidas no tratamento de sementes depende do ingrediente ativo, da espécie de inseto, da localização da praga, de clima e de outros fatores ambientais.
Grupos de pragas e inseticidas
A localização dos grupos de pragas por posicionamento no ambiente como na parte subterrânea, na superfície do solo ou na parte aérea das plantas e a identificação correta das espécies são os fundamentos mais importantes para tomar decisões eficientes de controle.
As pragas-de-solo subterrâneas como os corós (Diloboderus abderus, Phyllophaga spp.), larva-arame (Conoderus spp.), larva-angorá (Astylus spp.), gorgulho-do-solo (Pantomorus spp.), conhonilha-da-raiz (Pseudococcus spp.), pulgão-da-raiz (Rhopalosiphum rufiabdominale), bicheira-da-raiz (Oryzophagus spp.) e outras podem ser controladas pela aplicação de inseticidas na semente ou no sulco de semeadura. A aplicação aérea resulta em pouco ou nenhum controle de pragas-de-solo subterrâneas.
As pragas posicionadas na superfície do solo como a lagarta-rosca (Agrotis spp., Feltia spp.), lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignoselus), broca-do-azevém (Listronotus bonariensis), percevejo barriga-verde (Dichelops spp.), grilos (Anurogrillus muticus) e outras, que a atacam o colo ou a base da planta, são de difícil controle. A localização da praga na superfície do solo e sob a palha, dificulta o controle com a aplicação aérea. Quando o inseticida é aplicado na semente, a concentração do produto no colo da planta, a partir da absorção pelas raizes, sob condições de déficit hídrico, pode ser é insuficiente. Sob condições de clima favoráveis ao desenvolvimento das plantas e a ação dos inseticidas, o tratamento de sementes é eficiente no controle de pragas de superfície do solo.
As pragas da parte aérea de plântulas como as vaquinhas (Diabrotica speciosa), tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus), lagartas (Pseudaletia spp., Spodoptera spp.) pulgões, trips e cigarrinhas, podem ser controladas por produtos aplicados na parte aérea ou através de inseticidas sistêmicos aplicados nas sementes e absorvidos pelas raízes. Nesse caso é importante conhecer o modo de ação e a eficácia da dose de cada produto para a praga específica. Não se pode generalizar a eficácia de inseticidas no tratamento de sementes para amplo grupo de espécies de pragas na parte aérea de plântulas.
Modo de ação de inseticidas
Cada ingrediente ativo de inseticida apresenta características diferenciadas de modo de ação na planta e de eficácia no controle de grupos diferentes de pragas.
Para o controle de pragas-de-solo subterrâneas, os carbamatos e demais inseticidas registrados, na dose certa serão eficientes na proteção das sementes e das raízes, independente da ação sistêmica na planta.
Se o inseticida apresentar ação sistêmica deve-se considerar que a absorção do produto ocorre através das raízes e não pela semente. Portanto, é necessário que ocorra chuva depois da semeadura para a efetiva absorção do inseticida. A eficácia no controle de pragas presentes na superfície do solo ou na parte aérea de plântulas depende da quantidade de inseticida absorvida pelas raízes.
Persistência doses e eficácia
A eficácia de inseticidas está diretamente relacionada à dose para cada espécie de praga. Por exemplo, a dose de imidaclopride ou de tiametoxan eficiente para controle de pulgões em trigo necessita ser dobrada para o controle de corós na mesma cultura. O inseticida tiodicarbe na dose de 140 g i.a./ha é eficiente no controle da lagarta-da-aveia (Pseudaletia sp.) no tratamento de sementes de milho, enquanto, para o controle da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) a dose deve ser 50 % maior. O inseticida fipronil apresenta eficácia diferenciada para gorgulhos (bicheira-da-raiz, tamanduá-da-soja e vaquinhas), grilos, cupins e formigas, mas não é recomendado para pulgões e lagartas. É importante identificar a praga e usar a dose do ingrediente mais eficiente para cada situação.
O tempo de persistência de inseticidas no controle de pragas em plântulas ou nas sementes é de aproximadamente três semanas a partir da semeadura. Períodos maiores de persistência podem ser alcançados com doses maiores, porém, raramente alcança quatro semanas de controle efetivo de pragas.
Quando há necessidade de proteção por períodos maiores do que quatro semanas, deve-se optar por aplicações de inseticidas líquidos ou granulados no sulco de semeadura.Dose por hectare ou por 100 kg
O registro de inseticidas para o tratamento de sementes, em geral, indica a dose por peso de sementes. Porém, é importante destacar quando o volume de semente é usado como veículo para levar uma quantidade de inseticida, para agir via sistêmica na plântula, a dose independe do tamanho ou do volume de sementes, mas da dose necessária para cada planta.
No caso do trigo, com a recomendação de 300 plantas/m2, com peso de 45 g/mil grãos, o volume será de 135 kg de sementes/ha. Com o peso de 25 g/mil grãos, o volume de sementes será de 75 kg /ha. Nesses casos, usando 50 ml de um inseticida por 100 kg de sementes, as doses do produto seriam, respectivamente, 67,5 ml/ha e 37,5 ml/ha com a mesma população de plantas.
Em milho, aplicando a dose de 2000 ml de inseticida para 100 kg de sementes, usando volume de 20 kg ou 10 kg/ha, ambas com 60 mil sementes, resultará em doses de 400 ml ou 200 ml/ha.
Essas variações de doses, por causa do tamanho das sementes, afetarão a eficácia e a persistência de inseticidas no controle de pragas nas plântulas. Portanto, é importante considerar que a dose de inseticida aplicado na semente, para o controle de pragas em plântulas, deve ser para proteger o número de plantas por hectare, independente do volume de semente.
Inseticidas sem registro para tratamento de sementes
Na busca de redução de custos, muitos agricultores usam formulações de inseticidas registrados para a aplicação aérea, no tratamento de sementes.
Algumas formulações de inseticidas não registradas para tratamento de sementes podem controlar pragas subterrâneas. Em alguns casos causam fitotoxicidade em plântulas, resultando em estresses na germinação ou no desenvolvimento das plantas.
Alguns inseticidas piretróides usados na semente para controle de corós não agem via sistêmica no controle de pragas que atacam a parte aérea de plântulas.
Muitas vezes, a redução de custos representa valor pequeno em relação ao potencial de prejuízo da fitotoxicidade ou na ineficácia de controle de pragas acima da superfície do solo.
O uso de inseticidas sem registro para tratamento de sementes, também não tem respaldo legal em eventuais reclamações relacionadas com fitotoxicidade ou com a ineficácia no controle de pragas.
As perdas no rendimento de grãos por fitotoxicidade de inseticidas não registrados para tratamento de sementes, em geral, são maiores do que a diferença do valor poupado em relação à compra de produtos com formulação adequada.
Efeitos fisiológicos adicionais
Algumas formulações comerciais de inseticidas registradas para o tratamento de sementes podem apresentar efeitos complementares ao do controle de pragas, sugerindo maior vigor, desenvolvimento inicial mais rápido, melhor aparência visual das plantas ou capacidade de tolerar estresses causados por fatores climáticos. Esses efeitos são constatados com clara evidência em algumas lavouras, enquanto, em outras não se percebem diferenças visuais.
Ao tomar a decisão para tratamento de sementes é importante definir o ingrediente ativo mais eficiente para a praga alvo em cada lavoura e considerar os efeitos na fisiologia da planta como benefícios paralelos complementares.
Qualidade do tratamento
A qualidade na cobertura e na distribuição uniforme dos produtos em todas as sementes é fundamental para a obtenção dos benefícios desejados com inseticidas é essencial para garantir a eficácia no controle de pragas e para evitar eventuais casos de fitotoxicidade.
No controle de pragas de solo subterrâneas a uniformidade de cobertura tem importância menor do que para o controle de pragas na parte aérea de plântulas, quando a absorção de inseticidas exige doses iguais e eficazes em todas as sementes. As que recebem doses maiores podem apresentar sintomas de fitotoxicidade e as com doses menores, podem mostrar ineficiência no controle de pragas.
Incompatibilidades
A compatibilidade de inseticidas com fungicidas, micronutrientes e organismos fixadores de nitrogênio, no tratamento de sementes é assunto de debate com resultados variados. Em geral, a mistura de inseticidas e fungicidas, nas formulações registradas, é compatível e não causa fitotoxicidade.
A adição de zinco para gramíneas e de cobalto e molibdênio para leguminosas apresenta resultados positivos para as plantas. A fitotoxicidade pode aparecer em plântulas cujas sementes receberam doses exageradas.
Sobre a incompatibilidade de fungicidas ou inseticidas com microrganismos fixadores de nitrogênio, alguns resultados mostram a morte de bactérias, enquanto em outros, o desenvolvimento de nódulos é normal.
Os problemas iniciam com a necessidade de ambiente favorável para a sobrevivência da bactéria na superfície da semente até a semeadura. As formulações de inseticidas e fungicidas, em geral, não têm ação direta sobre bactérias. Mas a qualidade de rápido secamento das formulações de inseticidas ou fungicidas logo depois do tratamento torna o ambiente na semente desfavorável para a sobrevivência da bactéria, que necessita de umidade. Por isso, os tratamentos para controle de pragas e doenças podem ser feitos com longos períodos (meses) de antecedência. A aplicação de rizóbio deve ser feita mais próximo possível do momento da semeadura para garantir a sobrevivência das bactérias fixadoras de nitrogênio.
Comentários finais
O uso de inseticidas no tratamento de sementes é a forma mais eficiente de proteção nas fases de germinação e de plântula, pois é aplicado apenas no alvo a ser protegido e com menor impacto sobre o ambiente.
O tratamento de sementes apresenta seletividade sobre inimigos naturais. Os agentes de controle biológico natural não se alimentam das sementes ou das plântulas, que estão protegidos por inseticidas, e continuam ativos predando ou parasitando as espécies praga.
É necessário identificar a espécie de praga e escolher a dose de ingrediente ativo mais eficiente para cada espécie. Doses corretas para cada tipo de planta e espécie de praga são a chave para o sucesso no estabelecimento de lavouras destinadas a produção elevada de grãos.
Revista Plantio Direto, edição 93, maio/junho de 2006.