O Sistema Plantio Direto no Uzbequistão e a Visita de Uzbequistaneses ao Brasil


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Publicado em: 01/06/2006

O Sistema Plantio Direto no Uzbekistão e a visita de uzbekistaneses ao Brasil

Ruy Casão JuniorPesquisador em mecanização e plantio direto – Colaborador do IaparNo período de 2 a 14 de abril visitaram o Brasil para um tour que iniciou em Santa Maria, RS, os professores uzbekistaneses Alim Pulatov e Abdullah Karimov, o Vice-Reitor do Instituto de Irrigação e Melhoramento de Tashkent (TIIM), Uktam Umurzakov e Ewa Wietsma, gerente de projetos internacionais da Universidade de Wageningen, na Holanda.

Tashkent é a capital do Uzbekistão, país localizado no Centro Sul da Ásia Central. Lá os professores Alim e Abdullah coordenam o projeto de introdução do sistema plantio direto (SPD) nas regiões de Tashkent e Syrdarya, intitulado ”Aumento do sistema algodão-trigo através da adoção de práticas da agricultura conservacionista”, que é patrocinado pela FAO (Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas) pelo período de 2005-2006. O grupo veio conhecer algumas das indústrias de máquinas agrícolas brasileiras que produzem equipamentos para o SPD, a Universidade Federal de Santa Maria e o Instituto Agronômico do Paraná, onde trabalham os consultores da FAO José Miguel Reichert (UFSM) e Ruy Casão Junior (Iapar), que recepcionaram os uzbekistaneses no Brasil. O grupo também visitou produtores de algodão em plantio direto no Brasil Central, considerando que o Uzbekistão é grande produtor e o segundo maior exportador dessa cultura do mundo, sendo o algodão a principal fonte de receita do país.

A Ásia Central, antes da União Soviética, era unificada pelo Turquistão, cuja capital era Tashkent, hoje com 2,5 milhões de habitantes. Região antiga, onde Alexandre o Grande admirou-se da beleza e pujança da cidade de Samarkan, importante centro cultural, na rota comercial da seda entre a Ásia e Europa antiga. Foi nestas paragens que se originou a álgebra, floresceu a medicina e a astrologia. Seu apogeu deu-se no reinado de Amir Timur, importante conquistador no final do império Mongol sediado em Samarkan no século XIV.

Região semi-desértica, que registra precipitações médias anuais inferiores a 400mm, que ocorrem principalmente no inverno. A água utilizada é proveniente do degelo das montanhas e de dois rios que nascem no Kirguistão e Tadjikistão, passam pelo Uzbekistão, Turcomenistão e Casakistão, desaguando no Mar de Aral. Cada país retira parte da água para consumo humano e irrigação (Figura 1), estando hoje o Mar de Aral com somente 30% de seu volume original, salinizado e assoriado, resultando sérios problemas ambientais à região.

O Uzbekistão tem 40 milhões de hectares, mas possui água para irrigar somente 4 milhões. Por isso a introdução da agricultura conservacionista por meio da prática do plantio direto com palha, visa reduzir os problemas de erosão e economizar água, entre outras vantagens do sistema. Os resultados do projeto em 2005 mostraram que foi possível economizar até 30% da água de irrigação na cultura de algodão em plantio direto, pode-se, dessa forma, imaginar o que significa o plantio direto para expansão agrícola do daquele país.

A introdução do SPD no Uzbekistão foi reforçada com o apoio da FAO, que ajudou a organizar um encontro internacional em 2002, em Tashkent, coordenado por José Benites e Theodor Friedrich. O evento contou com a participação de consultores como Ademir Calegari e Rolf Derpsch. A partir disso foram adquiridas semeadoras-adubadoras de plantio direto e pulverizadores brasileiros, também foi construído um rolo-faca e selecionados produtores para implantação de 300 ha em dois anos. O sistema de rotação pretendido foi o de algodão com trigo, juntamente com outras culturas comerciais e de cobertura para promover a sustentabilidade do sistema.

Durante o período da existência da União Soviética, o Uzbekistão era especializado na monocultura de algodão e a agricultura irrigada por sulcos, se caracterizava pelo preparo do solo, nivelamento da área, construção dos sulcos de irrigação e drenagem e a semeadura do algodão em camalhões (Figura 2), espaçados de 90 ou 60 cm entre eles. Desta forma, as primeiras máquinas selecionadas para a introdução do plantio direto deveriam ser leves, montadas no sistema de levante hidráulico do trator. A semeadora mais apropriada para a situação presisava ser múltipla, considerando que deveria semear algodão em precisão e trigo em fluxo contínuo. Assim, o projeto importou a SA 9400 da empresa Vence Tudo, que trabalhou semeando algodão em duas linhas espaçadas em 90 cm (Figura 3) e 8 linhas de trigo sobre dois camalhões. O pulverizador foi da empresa Jacto, modelo Condor M12, adequado a realidade da maioria dos produtores do país (Figura 4), que trabalham com tratores usados, muitas vezes com mais de 20 anos, ainda da antiga União Soviética.

A partir de 1992, os países independentes da União Soviética agravaram a já profunda crise econômica, exigindo reforma econômica e social. O Uzbekistão que produzia quase exclusivamente algodão incentivou um plano de segurança alimentar, aumentando a produção principalmente de trigo. Hoje, dos 4 milhões de ha, somente 2 são semeados com algodão, 1 milhão de ha com trigo e o restante ocupado com outras culturas. São poucas as áreas onde a agricultura não é irrigada. Neste contexto, é inserido o plantio direto, incentivado pelo Ministério da Agricultura na expectativa de solucionar problemas de segurança alimentar e ambientais provocados pelo sistema tradicional de agricultura.

A viagem do grupo iniciou em Santa Maria (RS), na Universidade Federal, onde puderam conhecer e interagir com professores em Ciências do Solo como José Miguel Reichert, Flávio Eltz e Telmo Amado. Em Ibirubá, o grupo visitou as indústrias Vence Tudo e Sfil. A primeira já conhecida dos Uzbekistaneses devido aos trabalhos com a SA 9400. Os visitantes puderam ver nestas duas empresas outras máquinas semeadoras apropriadas para o plantio direto, principalmente as de arrasto, com diferentes tamanhos e nas versões em precisão (plantadeiras), fluxo contínuo (semeadeiras) e as multissemeadoras. O mesmo aconteceu na Semeato, em Passo Fundo, empresa pioneira em fabricação de semeadoras de plantio direto no Brasil.

Na ocasião, os visitantes apresentaram várias solicitações para a adequação das máquinas brasileiras a realidade da agricultura irrigada por sulcos, pois seria interessante para eles que as semeadoras pudessem semear algodão e abrir os sulcos de irrigação ao mesmo tempo. Foi construída e testada uma adaptação com a SA 9400, em 2005. Outra reivindicação para a industria teve como base a necessidade de semear trigo enquanto o algodão ainda não estivesse colhido, devendo assim a estrutura da máquina ser elevada para não danificar a cultura. Hoje as máquinas de arrasto teriam o inconveniente na realização de manobras no final dos talhões que na maioria são curtos e com a existência dos camalhões, que torna a manobra mais difícil.

Uma adaptação, já providenciada pela Vence Tudo, foi à introdução de um sistema de aterramento atrás da haste sulcadora e antes do disco duplo para abertura de sulco e deposição de sementes (Figura 5). O componente ainda não havia chegado ao Uzbekistão quando os consultores da FAO estiveram no país, por isso foi introduzido um peso atrás da haste para fechar o sulco aberto (Figura 6). Os solos predominantemente siltosos, e com umidade variável na ocasião da semeadura, faz com que, muitas vezes, após a abertura do sulco as hastes não retornem e as sementes de algodão fiquem profundas e bem próximas ao fertilizante. O Algodão é uma cultura exigente em calor para sua germinação, por isso não deve estar a profundidade superior a 4 centímetros. Outra solicitação dos uzbekistaneses foi introduzir um sistema de distribuição de sementes de algodão com linter, que já está praticamente abandonado no Brasil. Após a semeadura, o raleio é manual, como era realizado no Brasil quando se utilizava sementes com linter. O cultivo mecânico e manual é realizado quase que semanalmente, até a cultura cobrir o terreno.

De Passo Fundo (RS) o grupo seguiu para Londrina (PR) cruzando o interior dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A visita ao Iapar foi coordenada por Ademir Calegari, que reuniu pesquisadores da área de solos, especialistas em plantio direto, trigo e algodão como Garibaldi Medeiros, Tiago Pellini, Diva de Souza Andrade, Antonio Costa e Luiz Campos (Figura 7). Foi possível debater não somente sobre a realidade da agricultura irrigada do Uzbekistão, mas também apresentar um conjunto de sugestões para a implantação do sistema plantio direto de forma sustentável.

A visita à empresa Jacto, em Pompéia (SP), mostrou também a força das indústrias brasileiras na produção de pulverizadores adequados a diferentes tipos e tamanhos de propriedades. É importante destacar que os herbicidas eram proibidos no Uzbekistão, sendo o controle de plantas daninhas realizado com cultivadores e capina manual.

O país possuía no período da União Soviética somente 15 mil propriedades e a partir de 1992 houve uma subdivisão, ampliando para 90 mil e hoje há em torno de 250 mil propriedades. Esta reforma agrária colocou muitas pessoas sem experiência na produção agrícola, engenheiros, médicos e outros profissionais desempregados nos centros urbanos, dificultando o gerenciamento das atividades no meio rural, mas podendo ser um forte aliado para a adoção de novas idéias e práticas agrícolas.

Em Tashkent eram desenvolvidas e fabricadas praticamente todas as máquinas para a cultura de algodão da União Soviética. A mais sofisticada foi à colhedora de algodão, que é fabricada ainda hoje. Os uzbekistaneses afirmaram que a máquina chega a ser 10 vezes mais barata que os outros modelos existentes no mercado mundial.

Em mais de uma ocasião, durante as missões no Uzbekistão, agricultores tentaram impedir a semeadura de algodão com a SA 9400 diretamente sobre o solo sem preparo. Eles argumentavam que seria impossível a cultura se estabelecer e desenvolver o sistema radicular. O professor Alim, que já estuda o SPD há 10 anos, em parcelas experimentais em Tashkent, objetivava na viagem ao Brasil, comprovar aos seus conterrâneos que é possível o algodão crescer e produzir adequadamente sem a necessidade do preparo do solo. A figura 8, proveniente do relatório do Alim, mostra o algodão em plantio direto com palha.

De Pompéia o grupo seguiu para Matão e Batatais, cruzando o estado de São Paulo de sul a norte, onde foi possível visitar as empresas Tatu e Jumil, tradicionais e importantes indústrias de máquinas agrícolas brasileiras, também líderes na fabricação de semeadoras de plantio direto. Evidentemente, não foi possível visitar todas as indústrias, mas foi possível visualizar muitas opções de máquinas disponíveis no país.

Ao final das visitas às empresas, o grupo iniciou um tour para conhecer lavouras de algodão em plantio direto, todas previamente agendadas pelo pesquisador Walter Jorge dos Santos, do Iapar. O grupo foi recebido na Fundação Goiás, pelo Agrônomo Márcio Antônio de O. e Silva, nos municípios de Santa Helena, Rio Verde e Montevidiu. Em Santa Helena foi possível ver no campo trabalhos de pesquisa com diferentes variedades de algodão, rotação de culturas com uso de plantas de cobertura, destacando-se o uso do milheto, a braquiaria entre outras. Em Montevidiu o algodão é semeado em plantio direto em rotação com soja, sorgo e milho, utilizando o milheto e braquiaria como plantas de cobertura.

Os visitantes comprovaram que o algodão não somente se desenvolve em plantio direto por muitos anos, como também, apresenta ótima produtividade. O inverno do Brasil Central é considerado seco, mas os produtores podem semear o milheto após a destruição de soqueira de algodão, realizada com roçadeira do tipo Triton trabalhando a 20 cm de altura para que o caule lenhoso não perfure os pneus dos tratores e após a rebrota do mesmo aplicam herbicidas evitando a sobrevivência do algodão, com o objetivo de reduzir a ocorrência de pragas como bicudo e doenças da cultura. Após semeiam a lanço e incorporam as sementes com uma grade niveladora, mas poderia ser utilizado uma semeadora de fluxo contínuo nesta operação. O milheto que nascerá nas primeiras chuvas de setembro e outubro desenvolve-se até dezembro formando uma boa cobertura vegetal onde, após o manejo, é semeada a soja. Outras alternativas já estão sendo experimentadas pelos produtores como o Sistema Santa Fé com braquiaria semeada a lanço sobre a soja em fase de amadurecimento, desenvolvendo-se no outono e retomando o crescimento na primavera.

Evidentemente, a realidade do Uzbekistão é diferente, mas foi importante para o grupo visualizar as possibilidades. No Brasil, devido à ocorrência de chuvas, alta umidade relativa do ar e temperaturas, a proliferação de pragas e doenças é um grave problema para o algodoeiro. No Uzbekistão, o inverno é gelado com temperaturas abaixo de –100 C e o verão é seco e muito quente (>350 C). Desta forma, as pragas e doenças são raras, comparadas a nossa realidade. Em novembro de 2005, foi semeado trigo em plantio direto naquele país, sendo que algumas áreas estavam infestadas com grama seda. Houve expectativa de que o trigo não se desenvolvesse, mas planta daninha não afetou o desenvolvimento da cultura.

No dia 11 de abril o grupo seguiu em direção ao Parque Nacional das Emas, visitando a fazenda França, do Grupo Schlatter. Recebidos pelo agrônomo André Luiz Silva, os uzbekistaneses percorreram várias áreas da propriedade vendo algodão em plantio direto em rotação com soja, milho, sorgo e plantas de cobertura. Foi observado o uso do milheto, a introdução da braquiária e do nabo forrageiro. Constatou-se que, em rotação com outras culturas, não há muita dificuldade do algodão permanecer no SPD.

Com o pesquisador da Fundação MT, Paulo Hugo Aguiar, o grupo visitou a Fazenda Bom Futuro, em Campo Verde, onde a imensidão de algodão na propriedade de 140 mil ha impressionou a todos. Após, juntamente com a equipe da Consultoria Guerra (Figura 9), acompanhados pelo agrônomo Marcio de Souza, os uzbekistaneses visitaram a Fazenda Girassol, em Pedra Preta, com o agrônomo Juliano Della Mea. Na ocasião foi possível conhecer a forma de atuação das consultorias de algodão no Brasil e a estratégia do cultivo dessa cultura em monocultivo no Cerrado brasileiro. Nesta condição o plantio direto é quase impossível, principalmente pela necessidade da destruição completa da soqueira de algodão. Após a colheita produtores usam a grade aradora, semeiam o milheto a lanço e incorporam as sementes com grade niveladora. Usam herbicidas para evitar possíveis rebrotes de soqueira e vão semear algodão depois do manejo desta planta de cobertura em dezembro. O esquema de treinamento dos técnicos das propriedades assistidas, os quais monitoram constantemente todas as fases da cultura, visando o adequado desenvolvimento, impressionou o grupo de visitantes.

A despedida dos uzbekistaneses foi em Cuiabá, de onde retornaram ao seu país. Os pesquisadores Ruy Casão Jr., do Iapar, José Miguel Reichert, da UFSM e Theodor Friedrich, da FAO-Roma, permaneceram na região até o final de abril, caracterizando os solos das unidades estudadas e semeando algodão em plantio direto.

Revista Plantio Direto, edição maio/junho de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.